Capítulo 13 – Moisés manda explorar a terra de Canaã. Murmuração e sedição do povo por causa do relatório que lhes foi feito. Josué e Calebe falam generosamente de Canaã. Moisés, da parte de Deus, anuncia-lhes que, como castigo pelo pecado, eles não entrariam na terra que Ele lhes havia prometido, mas que somente os seus filhos a possuiriam. Louvor de Moisés, a extrema veneração em que sempre viveu e como ainda é venerado.

Números 13 e 14. Moisés levou em seguida o exército para as fronteiras dos cananeus, a um lugar chamado Para, onde é difícil morar, e ali falou a todo o povo, desta maneira: “Deus, pela sua extrema bondade para convosco, prome­teu-vos a liberdade, terra abundante e toda espécie de bens. Agora desfrutareis uma e logo outra, pois acabamos de chegar à fronteira dos cananeus, dos quais nem os reis, nem as cidades, nem todas as forças unidas juntamente nos poderão impedir o usufruto do efeito de suas promessas. Preparai-vos, portanto, para combater generosamente, pois não será sem luta que vos abandonarão esse rico país. Mas nós o possuiremos contra a vontade deles, depois de os termos venci­do. Precisamos começar por mandar alguém verificar a fertilidade da terra e a força dos que nela habitam. E necessitamos, principalmente, nos unirmos todos, mais do que nunca, e prestarmos a Deus a honra que lhe devemos, a fim de que Ele seja o nosso protetor e o nosso auxílio”.

O povo enalteceu bastante essas propostas e escolheu doze dos mais impor­tantes entre eles, um de cada tribo, para ir explorar o país dos cananeus, a Começar do lado que limita com o Egito, continuando até a cidade de Hamate e o monte Líbano. Empregaram quarenta dias nessa viagem e, depois de considera­rem bastante a natureza do país e de estarem muito particularmente informados da maneira de viver dos seus habitantes, fizeram uma relação do que tinham visto e trouxeram frutos daquela terra, cujo tamanho e beleza animaram o povo a conquistá-la. Mas, ao mesmo tempo, todos esses enviados, exceto dois, desa­nimaram o povo pela dificuldade da empresa, dizendo que era necessário atra­vessar grandes rios, muito profundos, escalar montanhas quase inacessíveis, ata­car cidades muito fortes e poderosas, combater os gigantes com se haviam de­parado em Hebrom e que nada haviam encontrado de tão temível depois de haverem saído do Egito.

O medo desses homens passou assim do seu espírito para o do povo, que perdeu a esperança de obter um feliz resultado em tão difícil empreendimento. E então voltaram às suas tendas, com as suas mulheres e filhos, para lastimar a sua desgraça. O sofrimento e o desânimo levou-os mesmo a dizer que Deus lhes fazia muitas promessas, mas que não viam os resultados. Insurgiram-se ainda contra Moisés e passaram toda a noite a clamar contra ele e contra Arão. E, logo que raiou o dia, reuniram-se tumultuosamente, com o intento de apedrejá-los e de voltar para o Egito.

Josué, filho de Num, da tribo de Efraim, e Calebe, da tribo de Judá, que eram dois dos doze que haviam ido fazer o reconhecimento, vendo aquela desordem e temen­do as conseqüências, disseram-lhes que não deviam perder a esperança, nem acusar a Deus de ser infiel às suas promessas e nem prestar fé aos vãos temores de que ouviram falar, representando as coisas muito diferentes do que eram na realidade, mas deviam acreditar na palavra deles e segui-los para a conquista daquela terra tão fértil; que se ofereciam para servir-lhes de guia naquela gloriosa empresa; que não viam nisso tantas dificuldades como lhes haviam dito: as montanhas não eram tão altas nem aqueles rios tão profundos que pudessem arrefecer nos homens a cora­gem; e que nada tinham a temer, pois Deus se manifestava em favor deles e queria combater por eles. “Marchai, pois, sem temor”, acrescentaram, “na certeza de seu auxílio, e segui-nos para onde estamos prontos a vos levar!”

Enquanto esses dois verdadeiros e generosos israelitas assim falavam, para procurar acalmar a multidão tão revoltada, Moisés e Arão, prostrados por terra, rogavam a Deus não que os livrasse do furor do povo, mas que tivesse piedade da loucura daquela gente e lhes acalmasse os espíritos perturbados pelas necessidades presentes e por vãs apreensões para o futuro. A oração foi ouvida, e viu-se uma nuvem cobrir todo o Tabernáculo, sinal de que Deus o enchia com a sua presença.

Moisés, então, cheio de confiança, apresentou-se ao povo e disse-lhes que Deus estava resolvido a castigá-los, não tanto quanto eles o mereciam, mas do modo como o bom pai castiga os seus filhos. “Pois”, acrescentou, “tendo en­trado no Tabernáculo para pedir-lhe com lágrimas que não vos exterminasse, Ele me fez ver os benefícios com que já vos presenteou, bem como a vossa extrema ingratidão e a ofensa que lhe fazeis em prestar mais fé a falsas referên­cias que às suas promessas. No entanto garantiu-me que, por vos ter escolhido dentre todas as nações para serdes o seu povo, não vos destruirá inteiramente, mas, para castigo de vosso pecado, não possuireis a terra de Canaã, nem desfrutareis a doçura e a abundância de seus frutos, e andareis errantes durante quarenta anos pelo deserto, sem ter casa nem cidades, o que não impedirá que Ele dê a vossos filhos a posse do país e dos bens que vos prometeu e dos quais vos tornastes indignos por vossa murmuração e desobediência”.

Essas palavras encheram o povo de espanto e de profunda tristeza. Rogaram a Moisés que fosse o seu intercessor junto a Deus, para que Ele se dignasse es­quecer-lhes a falta e cumprisse as suas promessas. Ele respondeu-lhes que não deviam esperar que a sua soberana Majestade se deixasse comover pelos seus rogos, porque não fora por transporte de cólera ou por leviandade, como os homens, mas por ato de justiça e de vontade deliberada que Deus havia pronun­ciado contra eles aquela sentença.

Ainda que pareça incrível que um só homem tenha podido acalmar num momento uma quase incontável multidão de homens, no mais forte de sua agi­tação e revolta, não há motivo para admiração, porque Deus, que sempre assis­tia Moisés, lhes havia preparado o coração para deixar-se persuadir por aquelas palavras, e porque já haviam experimentado muitas vezes, no meio de tanta infelicidade que os afligiu, castigos pela incredulidade e desobediência. Mas que maior sinal se pode desejar da eminente virtude desse admirável legislador e da maravilhosa autoridade que conquistou do que ver que não somente aqueles que viviam no seu tempo, mas toda a sua posteridade o tem em veneração? Tanto é que, ainda hoje, não se vê entre os hebreus quem não se julgue obrigado a observar com exatidão as suas ordens ou que não o considere presente e pres­tes a castiaar quem as infringir.

Dentre várias outras provas dessa autoridade mais que humana por ele adquirida, eis aqui uma, que me parece muito importante. Pessoas que ti­nham vindo das províncias de além do Eufrates para visitar o nosso Templo e nele oferecer os seus sacrifícios, tendo caminhado com grande perigo durante quatro meses, com muitas despesas e dificuldades, não puderam conseguir nem mesmo uma parte pequenina dos animais que ofereceram em holocausto, pois a nossa lei não o permite, por certas razões. Outras não puderam obter a licença para sacrificar. Outras ainda foram obrigadas a deixar os seus sacrifícios incompletos. E outras, por fim, não puderam se­quer entrar no Templo. No entanto não se julgaram ofendidas e nem fize­ram a menor queixa, preferindo obedecer às leis estabelecidas por esse gran­de personagem a satisfazer os próprios desejos. Essas pessoas foram levadas a tal submissão unicamente pela admiração à virtude de Moisés, porque, persuadidos de que ele recebera essas leis do próprio Deus, consideravam-no mais que um homem.

E, não há muito tempo, pouco antes da guerra dos judeus, sob o reinado do imperador Cláudio, quando Ismael era sumo sacerdote, a Judéia foi flagelada por uma grande carestia — uma medida de farinha era vendida por quatro dracmas. Levou-se, para a festa dos Asmos, setenta medidas, que perfazem trinta e um medins sicilianos e quarenta e um medins áticos, sem que nenhum dos sacerdo­tes, embora atormentados pela fome, ousasse tocar naquilo para comer, de tan­to que temiam faltar à Lei e atrair sobre si a cólera de Deus, que castiga tão severamente os pecados, mesmo os ocultos.

Quem se admirará, então, de que Moisés tenha feito coisas tão extraordi­nárias, se depois de tantos séculos e ainda hoje vemos, no que deixou escrito, tal autoridade que mesmo os nossos inimigos são obrigados a reconhecer que foi o próprio Deus quem, por meio dele, outorgou aos homens uma regra de vida tão perfeita e se serviu de seu admirável proceder para fazer com que a recebessem? Todavia deixo a cada qual que julgue como lhe aprouver.

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