Capítulo 17 – Continua o soberbo espetáculo triunfal de Tito e Vespasiano.
É impossível descrever a magnificência desse festejo triunfal. Ela sobrepuja mesmo tudo o que se pode imaginar, quer pela excelência das obras, quer pela quantidade de riquezas e semelhança das coisas que ali estavam tão admiravelmen-te representadas. O que todas as nações mais felizes tinham podido em tantos séculos reunir de mais precioso, de mais maravilhoso e de mais raro, parecia ter-se juntado naquele dia, para manifestar até que ponto ia a grandeza do império. O ouro, a prata e o marfim brilhavam em tal abundância, num número incrível de obras excêntricas e preciosas, que não pareciam se apresentar por partes, isoladamente, como numa pompa solene, mas ali estar dispostos em massa. Viam-se todas as espécies de vestuários de púrpura, admiravelmente recamados à maneira dos babilônios, uma quantidade enorme de pedrarias, umas encastoadas em coroas de ouro, outras, em objetos preciosos; a beleza era surpreendepte, de tal sorte que jamais se teria pensado poder ainda contemplar algo de semelhante. Havia estátuas dos deuses, das diversas nações, de tamanho surpreendente, executadas por mestres excelentes em que a arte não perdia para a matéria, por mais preciosa que fosse.
Havia ainda várias espécies de animais raros e estimados, pela sua qualidade; os que levavam ou traziam essas coisas, que tinham sido destinadas para servir a pompa festiva, estavam revestidos de mantos recamados de ouro e de outros hábitos tão ricos que nada poderia ser mais suntuoso. Os próprios escravos estavam tão bem vestidos e de maneiras tão diferentes, que aquela variedade impedia que se notasse a tristeza da escravidão esculpida em seus rostos. Nada, porém, causava tanta admiração aos espectadores do que as diversas representações, como grandes armações de três ou quatro andares. Todas elas estavam adornadas com enfeites de ouro e de marfim e a todo momento se imaginava ver sucumbir sob tal peso o grande número de homens que as levavam. Eram imagens de cenas de guerra, as mais notáveis representadas ao natural, que pareciam mesmo reais. Viam-se províncias muito férteis, devastadas, tropas inteiras feitas em pedaços, outras, postas em fuga, várias, feitas prisioneiras, muralhas fortíssimas, derrubadas pelas máquinas, castelos tomados e destruídos, grandes cidades, mui povoadas, tomadas de assalto, um exército inteiro entrando pela brecha, passando todos a fio de espada, sem poupar mesmo os que como única defesa usavam de rogos e súplicas, queimando Templos, sepultando em suas ruínas todas as casas e aqueles que antes lhes eram senhores; por fim, a ferro e fogo praticando toda sorte de crueldades, tão horríveis, que em vez de águas favoráveis, que tornam a terra fecunda e matam a sede aos homens e aos animais, eram regatos de sangue que apagavam uma parte do incêndio, tornando desertas as cidades e fazendo delas um montão de cinzas. Os judeus tinham experimentado todos esses males que a guerra mais cruel, que se pode imaginar, é capaz de produzir.
Sobre cada uma dessas cidades estava representado aquele que as havia defendido e de que maneira havia sido aprisionado. Vinham em seguida vários navios; entre a grande quantidade de despojos, os mais notáveis eram os que tinham sido feitos no Templo de Jerusalém; a mesa de ouro, que pesava vários talentos, o candelabro de ouro, feito com tanta arte, para torná-lo próprio ao uso, ao qual era destinado. Do seu pé elevava-se uma espécie de coluna, de onde saía como o tronco de uma árvore, de sete ramos, na ponta de cada um dos quais, estava um braço em forma de lâmpada; o número sete significava o sétimo dia, o sábado, tão santificado pelos judeus, que o observam tão religiosamente. Sua lei, que é a coisa pela qual eles têm a maior veneração, encerrava essa magnífica exposição de tantos e tão ricos despojos, que os romanos lhes haviam conquistado. Várias estátuas da vitória, todas de ouro e de marfim, vinham em seguida. Por fim, vinha Vespasiano, seguido de Tito, e Domiciano os acompanhava tão soberbamente vestido e montado sobre um lindo cavalo, que ninguém se cansava de contemplá-lo.
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