Capítulo 34 – Simão e João, reduzidos aos extremos, pedem para falar com Tito. Como esse príncipe lhes fala.

Simão e João, os dois chefes dos revoltosos, que tinham exercido sobre os de sua própria nação, tão horrível tirania, vendo-se sem esperanças de poder fugir, porque estavam rodeados de todos os lados pelas tropas romanas, pedi­ram para falar com Tito e ele concedeu-lhes o que pediam, quer porque sendo naturalmente afável, queria impedir a destruição da cidade, quer porque seus amigos o haviam aconselhado, na esperança de que aqueles malvados seriam mais sensatos para o futuro. Tito ficou de pé, fora do Templo, do lado do ociden­te, no lugar onde estavam as portas para a galeria e uma ponte que unia a cidade alta com o Templo. A ponte estava entre Tito e os revoltosos, e havia de um lado e de outro um grande número de soldados. Via-se no rosto dos judeus, que estavam perto de Simão e de João, a agitação de espírito em que os punha a dúvida de obter o perdão que pediam; os romanos tinham os olhos abertos para ver de que modo Tito os receberia. O príncipe ordenou aos seus que deixassem a cólera, proibiu-lhes atirar e, como sinal de sua vitória, começou a falar aos sediciosos, por meio de um intérprete. “Não estais cansados”, disse-lhes, “de tantos males suportados por vossa pátria, vós, que sem considerar nossas forças e vossa fraqueza, causais, por um furor cego e uma loucura sem igual, a ruína de vosso povo, de vossa cidade, de vosso Templo, e que estais prestes a perecer com eles? Depois que Pompeu tomou Jerusalém, não deixastes de vos revoltar e chegastes por fim a declarar guerra aos mesmos romanos. Em que vos fundastes para conceber tão ousado empreendimento? Em vosso número? Mas uma pe­quena parte das tropas romanas seria capaz de vos vencer. Num auxílio estran­geiro? Que nação não nos está sujeita e ousaria tomar o vosso partido contra nós? Por que sois tão robustos? Os alemães nos obedecem. Nas vossas mura­lhas? Os ingleses, embora cercados pelo oceano, que é a mais poderosa de todas as defesas, puderam talvez conter o ímpeto de nossas armas? Na vossa coragem, no procedimento e na perícia de vossos chefes? Ignorais que nós vencemos dos cartagineses? Como não pode ter sido nenhuma destas razões, que vos serviu de base, para vos empenhardes numa empresa tão temerária; só se poderia atribuir vossa ousadia à enorme bondade dos romanos. Nós vos demos terras para as cultivardes e nelas habitardes, demo-vos reis de vossa mesma nação, não vos pusemos empecilhos na prática de vossas leis, vos permitimos viver com toda liberdade não somente entre vós mesmos, mas também com os outros povos; e o que é ainda muito mais importante, não vos proibimos de recolher contribui­ções, para empregá-las no serviço de Deus e de lhe oferecer sacrifícios em vosso Templo. Embora cumulados de tantos benefícios vos insurgis contra nós, como se nós vos tivéssemos deixado enriquecer, para vos darmos os meios de nos fazer guerra; e mais malvados que as mais peçonhentas de todas as serpentes, espalhais vosso veneno sobre aqueles, aos quais deveis tantos e tantos favores. Vosso des­prezo pela moleza de Nero vos fez esquecer a tranqüilidade de que gozáveis, para conceberdes esperanças criminosas e formar desígnios extravagantes. No entanto, quando meu pai veio à Judéia, ele não queria castigar-vos por vossa revolta contra Céstio, mas somente trazer-vos ao arrependimento, pelas boas maneiras. Se sua intenção tivesse sido destruir vossa nação, ele teria começado por tomar e destruir esta cidade, ao passo que ele se contentou em fazer sentir o poder de suas armas à Galiléia e às províncias vizinhas, a fim de vos dar a oportu­nidade de vos arrependerdes. Mas sua bondade passou por fraqueza, em vossa imaginação e só fez aumentar vossa ousadia. Depois da morte de Nero vos tomastes ainda mais insolentes e atrevidos, na esperança do vos aproveitardes das perturbações que avassalavam o império. Apenas havíamos partido, eu e meu pai, para irmos ao Egito, tomastes a ocasião de nossa ausência para vos preparardes para a guerra; e, por mais provas que vos tivéssemos dado de nossa benevolência e de nossa humanidade, no governo dessas províncias, não tivestes vergonha de nos querer desobedecer, quando meu pai foi declarado imperador, e eu, César. Fostes ainda mais além: após um consentimento geral, nós ficamos pacificamente de posse do império e nessa calma feliz, todos os outros povos nos mandaram embaixadores para demonstrar a sua alegria. Vós persististes em vos declarardes nossos inimigos, mandastes, até o Eufrates, emissários para pedir auxílio à vossa revolta, construístes novas fortificações e formastes novos parti­dos; vossos tiranos chegaram mesmo a uma guerra civil, para ver quem ficaria chefe, e por fim, nada esquecestes, do que os mais celerados de todos os ho­mens poderiam empreender e executar. Quando para abafar uma revolta unida a tanta ingratidão e a tantos crimes, meu pai mandou-me sitiar esta cidade, com ordens, que ele não podia, sem pesar, ver-se obrigado a me dar, eu vi, com alegria, que o povo desejava a paz; e antes de iniciar a guerra vos exortei a deixar as armas. Não podendo conseguir que o fizésseis, por muito tempo vos poupei. Prometi segurança a todos os que viessem ter comigo e guardei-lhes inviolavelmente minha palavra; perdoei a vários prisioneiros e castiguei somente os que os incitavam à guerra; só em último caso me servi de minhas máquinas. Moderei o ardor de meus soldados, para salvar a vida a muitos dos vossos; em todas as minhas vitórias logo, em seguida, sempre vos exortei à paz, agindo assim, embora vencedor, como se fosse eu o vencido. Quando me aproximei do Templo, em vez de me servir do meu poder para destruí-lo, segundo o direito da guerra, vos exortei a conservá-lo e o permiti que saíssem com todas as garantias, para combatermos em outro lugar, se tínheis tanto amor à guerra. Desprezastes todas estas graças, que vos fiz; vós mesmos incendiastes o Templo e quereis agora parlamentar comigo, como se ainda estivesse em vosso poder conservar o que vossa impiedade não teve receio de destruir, e como se a ruína desse Templo não vos tornasse indignos de todo perdão. Ousais mesmo em tal extremo e fingindo vir como suplicantes, vos apresentardes diante de mim, com vossas armas. Em que, então, miseráveis que sois, vos baseais para serdes tão ousados? A guerra, a fome e vossas horríveis crueldades fizeram perecer todo vosso povo. O Templo não existe mais, a cidade está em meu poder, vossa vida, nas minhas mãos, e imaginareis depois de tudo isso, que depende de vós terminá-la com uma morte honrosa? Não me demoro mais em confundir a vossa loucura. Deixai as armas, entregai-vos à minha discrição; eu vos concedo a vida e reservo-me o restante, para fazer como eu quiser, agindo como um bom senhor, que castiga com pesar e por dever os crimes mais irremissíveis”.

Comentários

Tão vazio aqui... deixe um comentário!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Barra lateral