Capítulo 9 – Tito é recebido em Giscala, de onde João, depois de o ter enganado, foge de noite, refugiando-se em Jerusalém.

Depois que Tito viu a cidade de Giscala, achou que era fácil tomá-la, mas como o sangue derramado em Gamala tinha satisfeito plenamente à sua vingan­ça, ante as perdas sofridas pelos romanos naquele cerco e sua clemência tinha horror ao tratamento que os soldados dispensariam sem dúvida aos de Giscala, confundindo os inocentes com os culpados, se a tomasse de assalto, resolveu procurar antes conquistá-la pelas boas maneiras. Assim, disse àquele grande nú­mero de homens que lá estavam, dos quais a maior parte eram revoltosos, que ele não compreendia por que razão, se todas as outras cidades tomadas se ti­nham submetido, eles se julgavam os únicos que podiam resistir ao poder dos romanos, depois de ter visto que as cidades muito mais fortes que a deles tinham sido tomadas ao primeiro assalto e que as que lhes tinham aberto as portas vivi­am tranqüilamente sob sua proteção. Se queriam fazer como eles, não insistindo mais num intento que não poderiam absolutamente conseguir, ele dava-lhes sua palavra de tratá-los do mesmo modo e esquecer as insolência que haviam tido, em se revoltar, porque julgava dever perdoá-la, com a esperança de que se iludi­am de reconquistar a liberdade. Mas, se recusassem ofertas tão vantajosas, ele os trataria com todo o rigor, e conheceriam então, muito tarde, que aquelas mura­lhas, em cuja força confiavam, ser-lhes-iam fraca defesa contra as máquinas dos romanos e que eles, embora os mais corajosos de todos os galileus, por sua culpa, tornar-se-iam escravos.

Tito falou assim e nenhum dos habitantes lhe deu resposta, nem podia res­ponder-lhe, porque os sediciosos se haviam apoderado das muralhas e tinham posto guardas em todas as portas, com a proibição de deixar entrar quem quer que fosse. João tomou a palavra por todos e disse que aceitava o oferecimento e persuadiria os outros a aceitá-la também ou a isso os obrigaria pela força; mas rogava que lhe concedesse ainda aquele dia para a observância de suas leis, que os obrigavam a santificar o sábado e não lhes permitia outrossim fazer naquele dia tratados de paz, bem como tomar as armas para fazer a guerra, ao que eles não se podiam opor, nem obrigá-los, sem impiedade; que aquela demora em nada importaria, pois se alguém quisesse fugir, de noite, era fácil a Tito impedi-lo, fazendo boa guarda e ele teria mesmo vantagem, pois sendo sua intenção salvá-los não era uma ação menos digna ter consideração à observância de suas leis, bem como a eles, o dever indispensável de não as violar.

Tito não se contentou de lhes conceder o que lhe pediam, mas foi acampar bem longe da cidade perto de uma aldeia chamada Cidessa, que pertencia aos tírios e que sempre fora inimiga dos galileus. Mas não era por respeito ao dia de sábado que João havia falado daquele modo. O temor de ser abandonado, se fossem atacados, fazia-o pôr sua única esperança na fuga. Seu fim era enganar Tito e fugir de noite; há motivo de se crer que Deus o quis preservar para a ruína de Jerusalém.

Chegou a noite e os romanos não montaram guarda; ele, então, fugiu para Jerusalém e não somente levou consigo o que tinha de soldados, mas também alguns dos principais habitantes com suas famílias. Como o temor da morte ou da escravidão lhes dava coragem e força, eles fizeram vinte estádios de caminho; os velhos, as mulheres e as crianças não podendo mais, começaram a clamar e a se queixar; mas os que ficavam viam os outros avançar e abandoná-los, e eles imagi­navam que os inimigos estavam perto e prestes a fazê-los prisioneiros; o barulho que os mesmos faziam, caminhando, dava-lhes a impressão de que os perseguiam e eles olhavam continuamente para trás, como se os outros já estivessem perto. Apertavam-se de tal modo, na fuga, que caíam uns sobre os outros e nada causava tanta piedade como ver as mulheres e as crianças pisados na confusão. Algumas, às quais restava ainda um pouco de força, clamavam com a voz entrecortada de gemidos a seus maridos e parentes que as esperassem. Mas eles não as escutavam tanto a sua voz como a de João que lhes dizia pensassem só em se salvar, para alcançarem um lugar de onde se pudessem vingar dos romanos se os levassem prisioneiros. Aquela multidão, reduzida aos extremos e em deplorável estado, an­dava de um lado para outro, confirme se sentiam ou não, com força.

Quando raiou o dia, Tito aproximou-se da cidade para executar o tratado. Os habitantes não somente abriram-lhe as portas, mas vieram-lhe à presença com suas esposas, chamando-o de benfeitor e de libertador. Disseram-lhe que os per­doasse e que se contentasse em castigar os revoltosos, que ainda estavam entre eles. Tito mandou, então, uma parte da cavalaria perseguir João, mas ele chegou a Jerusalém, antes que o pudessem apanhar. Mataram perto de seis mil dos que tinham fugido com ele, e levaram cerca de três mil mulheres ou crianças, que estavam espalhados por diversos lugares.

Tito ficou muito desgostoso por não ter podido prender João, para castigá-lo como ele merecia; mas o grande número de mortos e de prisioneiros acal­mou a sua cólera. Assim, entrou na cidade com espírito de paz, mandou derru­bar apenas uma pequena parte dos muros, para mostrar seu domínio e usou mais de ameaças do que de castigos com os que tinham sido causa da agita­ção, não, porém, que ele não desejasse castigar os culpados, mas porque não duvidava de que muitos para satisfazer à cólera e ao ódio particulares, acusari­am mesmo os inocentes e nessa dúvida ele preferia deixar viver os culpados, do que fazer morrer os inocentes, porque os culpados poderiam talvez tornar-se mais sensatos pela vergonha de recair num crime que lhes havia sido generosa­mente perdoado, ao passo que a injustiça, que teria custado a vida aos inocen­tes, seria irremediável.

Deixou uma guarnição na cidade, quer para conter na obediência os que esti­vessem dispostos a promover novas agitações, quer para garantir a tranqüilidade daqueles que só desejavam a paz; e assim terminou a conquista da Galileia, que custou tanto trabalho aos romanos.

 

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