Capítulo 36 – Espantosa crueldade dos sírios e dos árabes do exército de Tito e mesmo de alguns romanos que abriram o ventre dos que fugiam de Jerusalém para procurar ouro. Horror que Tito sentiu com isso.

Uma parte dos que fugiam de Jerusalém, para se salvar, lançavam-se por cima das muralhas; outros tomavam pedras, com o pretexto de querer se servir delas contra os romanos e em seguida passavam para o seu lado. Mas depois de terem evitado um grande mal, caíam num outro ainda maior, porque o alimento que tomavam dava-lhes uma morte mais rápida do que a que a fome lhes causa­va. Estando inchados e hidropicos, comiam com tanta avidez, para encher o estômago vazio, que faziam a natureza desfalecer, e rebentavam, quase no mes­mo instante. Os mais sensatos, ante esses exemplos, evitavam tal inconveniente, comendo por vez, para acostumar de novo o estômago, às suas forças ordinári­as. Mas então encontravam-se num estado ainda mais deplorável que antes. Vimos como muitos que, querendo se salvar, engoliram ouro, de que havia na cidade uma grande quantidade e o que valia antes vinte e cinco áticos, então valia somente doze. Aconteceu que um desses fugitivos foi surpreendido no quar­teirão dos sírios, quando procurava naquilo de que a natureza o obrigava a se desfazer, o ouro que tinha engolido; a notícia correu imediatamente por todo o acampamento de que os fugitivos tinham o corpo cheio de ouro. Vários então dos sírios e dos árabes começaram a abrir o ventre dos prisioneiros para procurar nas suas entranhas o metal com que queriam satisfazer à sua abominável ambi­ção, o que penso ser a mais horrível de todas as crueldades, que jamais os judeus tiveram de sofrer, por maiores e mais estranhas que tenham sido as outras; numa só noite, dois mil terminaram sua vida desse modo.

Tito sentiu com isso tal horror que mandou sua cavalaria rodear imedia­tamente todos os culpados para matá-los, numa chuva de dardos, e o teria feito se não viesse a saber que seu número sobrepujava de muito o dos mortos. Ele reuniu então todos os chefes dessas tropas auxiliares e mesmo das do império, porque alguns soldados romanos tinham tomado parte naquele crime e disse-lhes, encolerizado: “Será possível que haja entre vossos soldados, homens mais cruéis que os mais ferozes dos animais, que não tiveram receio de cometer tão detestável crime, na esperança de um lucro incerto e não tenha vergonha de se enriquecer de maneira tão execrável? Como os árabes e os sírios tiveram cora­gem de praticar tão horríveis desumanidades, numa guerra que não lhes interes­sava, nem a eles se refere, e de dar motivo a se atribuir aos romanos o que sua ambição, sua crueldade e seu ódio pelos judeus os levaram a fazer?”

Depois de ter assim falado, declarou que aquele que tão ousada e maligna­mente fizesse algo de semelhante, seria imediatamente executado. Ordenou a todos os oficiais das legiões que fizessem uma indagação bem exata dos que eram ainda suspeitos. Mas nenhum temor de castigo é capaz de reprimir a ambi­ção e a avareza. O amor das riquezas é tão natural aos homens que essa paixão cresce sempre, e Deus, que tinha condenado esse povo miserável a perecer, per­mitia que tudo o que poderia contribuir para sua salvação, não tivesse eficácia nem efeito. Como o castigo ordenado por Tito impedia que se cometesse o crime publicamente, eles o faziam às escondidas. Aqueles bárbaros, depois de terem usado de todas as precauções, não sendo vistos pelos romanos, continua­vam a abrir o ventre dos fugitivos que lhes caíam nas mãos, para procurar ouro em suas entranhas e satisfazer com esse lucro abominável seu ardente desejo de enriquecer. O mais das vezes, porém, nada encontravam. Assim a maior parte dessa pobre gente era constituída de infelizes vítimas de uma enganadora espe­rança, e aquela horrível crueldade impediu a muitos judeus, sair da cidade para se entregar aos romanos.

 

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