Capítulo 27 – Descrição de Jerico, de uma admirável fonte que lhe está perto, da extrema fertilidade do país, dos arredores, do lago Asfaltite e das espantosas sobras do incêndio de Sodoma e de Gomorra.

Vespasiano achou a cidade de Jerico, outrora tão célebre, completamente despovoada. Ela está situada numa planície dominada por um alto monte árido e pedregoso, muito estéril e tão longo que se estende do lado do norte até o territó­rio de Citópolis e do lado do sul, até Sodoma, sem que por essa grande esterilida­de, aí encontremos habitantes. Outra montanha que lhe está fronteira e situada do outro lado do Jordão começa em Julíada, ao norte, e estende-se muito longe, do lado do sul, até Gomorra, onde se limita com Petra, cidade da Arábia. Há também um outro nome denominado Monte Ferrato, que vai até às terras dos moabitas. Entre estes dois montes está a planície chamada o Campo Grande, que começa na aldeia de Genabata e vai até o lago Asfaltite. Seu comprimento é de mil e duzentos estádios, sua largura de cento e vinte e o Jordão o atravessa pelo meio.

Aí vemos dois lagos, o Asfaltite e o de Tiberíades, cuja natureza é com­pletamente diversa. A água do Asfaltite é salgada e nele não há peixes; a do Tiberíades é muito doce e ali vive grande quantidade de peixes. Como esse país é árido porque é irrigado somente pelas águas do Jordão, o calor é ardentíssimo, durante o verão, e o ar que respiramos é tão quente que causa doenças. Essa mesma razão faz que tanto as palmeiras que crescem ao longo das margens desse rio, sejam férteis, quanto as que estão afastadas, são-no, ao contrário, muito pouco.

Há perto de Jerico uma nascente muito rica, cujas águas irrigam os campos vizinhos e está bem perto da antiga cidade, que foi a primeira de que Jesus, filho de Nave, valoroso chefe dos hebreus, se apoderou, pelo direito da vitória. Dizem que as águas dessa fonte outrora eram tão perigosas que não somente corrompiam os frutos da terra, mas também faziam as mulheres dar a luz antes do tempo e conta­minavam com seu veneno todas as coisas por onde passavam. Depois, o profeta Eliseu, digno sucessor de Elias, as tornou tão boas para se beber e tão saudáveis, quanto antes eram malsãs e prejudiciais, e tão capazes de fertilizar, quanto antes eram inúteis para esse fim. O que aconteceu, do modo que vamos dizer: Esse homem admirável havia sido muito caridosamente recebido pelos habitantes de Jerico e quis demonstrar-lhes sua gratidão com um favor, cujos efeitos nem eles, nem seu país jamais veriam cessar. Colocou então no fundo do poço uma vasilha cheia de fel, levantou os olhos ao céu, ordenou que fizessem oblações à borda da fonte, rogou a Deus que adoçasse as águas dos regatos com que se irrigava a terra, como outras tantas veias, que temperasse o ar para torná-lo ainda mais saudável e desse em abundância os frutos da terra, e que os homens a cultivassem, sem que as águas jamais cessassem de lhes ser favoráveis, enquanto eles permanecessem na justiça. Tão ardente oração teve o condão de mudar a natureza da fonte, que, depois, tornou as mulheres e as terras tão fecundas quanto antes as fazia estéreis. A virtude das águas é tão grande que basta molharem um pouco a terra para que ela se fertilize; e os lugares onde elas ficam por mais tempo produzem o mesmo que aqueles por onde passam rapidamente, como se quisessem castigar os que as detêm em suas propriedades, por desconfiança dos seus efeitos maravilhosos. Não há em toda essa região regato algum cujo percurso seja tão longo.

O país que ela atravessa tem setenta estádios de comprimento e vinte de largura. Aí vemos grande quantidade de belíssimos jardins onde crescem palmei­ras de diversas espécies e cujos nomes bem como o sabor de seus frutos são diferentes. Há alguns, que quando os apertamos, segregam mel, que em nada difere do mel natural, de que aquele país é muito rico. Há também em grande número, além de ciprestes, árvores, das quais se tira o bálsamo, líquido que nenhum fruto pode igualar. Assim, podemos dizer, parece-me, que um país onde tantas plantas, tão excelentes, crescem em tal abundância, tem alguma coisa de divino e eu duvido de que em todo o restante do mundo haja um outro que se lhe possa comparar, pois tudo o que aí se semeia e se planta, multiplica-se de maneira incrível. Devemos, segundo a minha opinião, atribuir-lhe a causa ao calor do ar e ao poder singular que essa água tem de contribuir para a fecundidade da terra; um, faz abrirem-se as flores e as folhas e o outro fortifica as raízes, pelo aumento de sua seiva, durante os ardores do verão, que lá são extraordinários, e sem tal resfriamento, nada ali poderia crescer, exceto com muita dificuldade, por maior que seja esse calor, sopra pela manhã um vento leve que refresca a água que é haurida antes do nascer do sol; durante o inverno ela é tépida e o ar é tão temperado que um simples hálito leve basta, quando neva, nos outros lugares da Judéia. Esse país está distante de Jerusalém cento e cinqüenta estádios e sessenta, do Jordão. O espaço que vai até Jerusalém é pedregoso e deserto, embora o que se estende até o Jordão e o lago Asfaltite não seja tão elevado, não é menos estéril nem mais cultivado.

Eu penso ter mostrado suficientemente com quantos favores a natureza embelezou e enriqueceu as cercanias de Jerico; eu creio dever falar agora do lago Asfaltite. Sua água é salgada, imprópria para os peixes, e tão leve que as coisas, mesmo as mais pesadas, não afundam. Vespasiano teve vontade de lá ir e atirou à água alguns homens que não sabiam nadar com as mãos atadas às costas. Todos voltaram à tona, como se alguma força estranha os impelisse de baixo para cima. Não se poderia admirar que esse lago mude de cor três vezes ao dia, segundo os diversos aspectos do sol. Ele impele para vários lugares massas de betume, negras, que parecem touros sem cabeça e que nadam nas águas. Os do país, que navegam no lago, vão com barcas recolher esse betume e como ele é tão extremamente pegajoso, gruda de tal modo que só pode ser desligado com urina de mulher e com aquele mau sangue de que elas se desfazem de tempos em tempos. Esse betume não somente serve para calafetar os navios, mas entra também em vários remédios, próprios para muitas doenças. O comprimento desse lago é de quinhentos e oitenta estádios e ele se estende até Zoara, que está na Arábia. Sua largura é de cinqüenta estádios.

As terras de Sodoma, vizinhas deste lago e que outrora eram abundantes não somente em toda espécie de frutos, mas também muito célebres por suas riquezas e pela beleza de suas cidades, agora só conservam a imagem espantosa daquele incêndio que a detestável impiedade de seus habitantes atraiu sobre ela, quando Deus, para castigar seus crimes, lançou do céu seus raios vingadores, que a reduziram a cinzas. Ali vemos ainda alguns restantes das cinco cidades abomináveis e suas cinzas malditas produzem frutos que parecem bons para se comer, mas apenas nós os apanhamos, reduzem-se logo a pó. Assim, não é somente pela fé que nos persuadimos desse horrível acontecimento; mas pode-se ainda constatá-lo com os próprios olhos.

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