Capítulo 25 – A cidade de Gadara entrega-se voluntariamente a Vespasiano, e Plácido, mandado por ele, contra os judeus dispersos pelos campos, mata também um grande número deles.

Vespasiano estava a par de tudo o que acabamos de narrar, por aqueles que vinham de Jerusalém entregar-se a ele; ainda que os zelotes guardassem cuidadosamente todas as passagens, e não perdoassem a um só dos que lhes caíam nas mãos, alguns sempre conseguiam escapar. Esses desertores pediram a Vespasiano que tivesse pena deles e da sua cidade, tão aflita, e que salvasse as relíquias de seu povo do qual, uma parte, já tinha sido degolada por causa do seu afeto pelos romanos, e os que estavam ainda com vida corriam o mesmo risco. O grande general, comovido pela desgraça que os atormentava, resolveu aproximar-se de Jerusalém, aparentemente para sitiá-la, mas na realidade para libertá-la da opressão daqueles malvados, que podemos dizer, conservavam-na sitiada permanentemente. Seu intento era também apoderar-se de todas as pra­ças dos arredores, a fim de que, quando ele quisesse verdadeiramente executar o grande cerco, nada restasse no exterior, que lhe pudesse mover obstáculos.

Como os principais e os mais ricos dos habitantes de Gadara, que é a mais poderosa e a mais forte de todas as cidades de além do Jordão, desejavam a paz e queriam conservar seus bens, mandaram secretamente alguns represen­tantes a Vespasiano, para lhe oferecer a posse da cidade; disso os facciosos só vieram a saber quando os viram aproximar-se da cidade. Não tiveram dificulda­de em julgar que como os habitantes que os favoreciam superavam-nos em nú­mero, eles não podiam conservar a praça contra tantos inimigos que tinham ao mesmo tempo interna e externamente, e que a fuga era o único partido que eles tinham a tomar. Mas julgaram que lhes seria vergonhoso resolver-se a isso, sem que alguém viesse a perder a vida, daqueles que eram a causa da sua desgraça. Assim, para satisfazer à sua vingança, mataram a Doleso, que ocupava a primeira linha, pela nobreza do nascimento, e que tinha sido o autor dessa delegação. Seu furor levou-os até mesmo a lhe dar vários golpes depois de sua morte; ten­do-se satisfeito com esse ato de crueldade, de alguma maneira fugiram.

Os habitantes receberam Vespasiano com grandes aclamações e não se con­tentaram em lhe fazer juramento de fidelidade, mas, para assegurá-lo ainda mais do verdadeiro desejo que tinham de permanecer em paz, derrubaram as mura­lhas, a fim de se porem em condições de não poder fazer a guerra mesmo quan­do eles o quisessem. Vespasiano deu-lhes uma guarnição de cavalaria e de infan­taria para defendê-los dos ataques dos revoltosos, que haviam fugido; mandou Plácido contra eles, com quinhentos cavaleiros e três mil soldados de infantaria e voltou a Cesaréia, com o restante do exército.

Os revoltosos, vendo aquela cavalaria dirigir-se a eles, refugiaram-se numa aldeia de nome Bethnabre, onde encontraram um grande número de homens de defesa. Uns tomaram as armas voluntariamente para se reunirem a eles; aos outros, eles os obrigaram; e confiando então em suas forças não tiveram receio de atacar Plácido. Este, recuou um pouco, de propósito, quer para deixar acal­mar-se seu primeiro ardor, quer para afastá-los de sua fortaleza; mas logo que eles se haviam retirado a um lugar mais vantajoso cercou-os, atacou-os e os pôs em fuga. Os que pensavam escapar eram detidos pela cavalaria, os que resistiam eram mortos pela infantaria. Perderam então aquela ousadia, que os tornava tão afoitos; sua coragem arrefeceu, porque, quando eles queriam atacar os romanos, encontravam-nos tão unidos e de tal modo defendidos por suas armas, que ne­nhum golpe os podia atingir, nem lhes romper as fileiras; ao passo que eles eram, ao contrário, atingidos pelos golpes de seus dardos, nos quais alguns se espetavam como fariam animais selvagens; outros eram mortos a golpes de espadas e outros desbaratados pela cavalaria.

Como o principal cuidado de Plácido era impedir que eles tornassem a en­trar na aldeia, ele e os seus antecipavam-se-lhes pela velocidade de seus cava­los, não permitindo que aqueles que dela estavam próximos lá conseguissem entrar e os obrigavam a fazer meia volta e a tornar ao campo onde eram mor­tos, exceto um pequeno número dos mais fortes e dos mais ágeis que conse­guiu, com dificuldade, entrar na aldeia. Os que guardavam as portas ficaram bem atrapalhados, porque, de um lado, eles não se resolviam a abri-las aos seus habitantes e fechá-las aos de Gadara; e, por outro lado, eles temiam, se os recebessem, que eles fossem causa de sua ruína, como de fato isso quase che­gou a acontecer, pois a cavalaria romana tendo-os impelido até lá pouco faltou que não entrasse confusamente com eles; as portas foram fechadas, e Plácido durante todo o restante do dia atacou tão fortemente toda a aldeia que lhe abriu uma brecha e dela se apoderou. Mataram o baixo povo, incapaz de se defender; os outros fugiram; a aldeia foi saqueada e em seguida incendiada; os que escaparam levaram o terror a todo o país.

Por maior que fosse sua infelicidade eles a imaginavam ainda maior e afirma­vam que todo o exército dos romanos marchava contra eles. Tão extremo terror fê-los abandonar tudo; fugiram para Jerico, onde esperavam ficar em segurança, porque a cidade era forte e muito populosa. Plácido, animado pela sorte favorá­vel, perseguiu-os até o Jordão e aquela grande multidão de judeus, não podendo passá-lo, porque as chuvas o haviam tornado mais fundo, foi obrigada a travar um combate. Sentindo-se então muito fracos para sustentar o ataque dos roma­nos e não sabendo para onde fugir, quinze mil foram mortos, um número infini­to atirou-se ao rio e morreu afogado; dois mil e duzentos foram aprisionados com uma grande quantidade de camelos, bois, carneiros e asnos.

Embora os judeus tivessem já sofrido grandes perdas, esta pareceu sobrepujar a todas as demais, porque não somente todo o caminho que eles tinham feito em sua fuga e o lugar onde se tinha dado o combate estavam juncados de cadá­veres, mas também porque o Jordão estava tão cheio que não podia ser atraves­sado; e uma parte desses corpos foi levada pelo rio e por outros rios, ao lago Asfaltite.

333. Plácido, para levar além a sua fortuna, marchou contra as pequenas praças vizinhas, tomou Abila, Julíada, Bezemote, e todas as outras até o lago Asfaltite; lá deixou como guarnição os judeus que se tinham entregue aos ro­manos, nos quais pensou poder confiar mais; embarcou, em seguida, seus ho­mens no lago, onde derrotou todos os que lá iam buscar sua salvação; e, assim, todo o país que está além do Jordão, até Macherom, foi reduzido ao domínio dos romanos.

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