Capítulo 24 – Tito conquista o segundo muro e a cidade nova. Os judeus de lá o expulsam; quatro dias depois ele a reconquista.

Tito, vendo, pela queda da torre, uma abertura feita no segundo muro, cinco dias depois de se ter apoderado do primeiro, de lá expulsou os judeus e entrou com dois mil homens escolhidos na cidade nova, cujas ruas eram muito estreitas. Era habitada somente por comerciantes de lã, de quinquilharias, caldeireiros e vendedores de roupas. Se logo no princípio tivesse querido derrubar uma boa parte desse muro e usar do poder que lhe dava o direito da guerra, destruindo também as casas, eu não duvido de que teria então podido mui facilmente tornar-se senhor de todo o restante. Mas na persuasão de que a condição dos judeus tê-los-ia com facilidade feito recorrer a sua clemência, não quis empregar tanta força. Assim, proibiu absolutamente que se matassem os prisioneiros e se incendiassem as casas; permitiu aos sediciosos, se não queriam paz, que saíssem com faculdade de poder continuar a guerra, contanto que não fizessem mal algum ao povo; a este prometeu deixá-lo no gozo pacífico de seus bens, porque ele queria conservar a cidade para o império e o Templo para a cidade.

O povo já estava disposto a aceitar estas condições, mas aqueles que só queriam a guerra atribuíam a bondade de Tito à covardia e diziam que ele não tinha mais esperança de conquistar a cidade alta. Ameaçaram matar os que falassem em se entregar e até mesmo os que somente ousassem proferir a palavra paz. Quando os romanos entraram, uma parte desses facciosos enfren­tou-os nas ruas estreitas; outros, tendo saído fora das muralhas, pelas portas do alto, atacaram-nos. Os corpos de guarda dos romanos ficaram tão surpreendi­dos e perturbados que desceram dos muros, abandonaram as torres e retira­ram-se ao seu acampamento. Ergueram-se então grandes clamores de todos os la­dos; entre os romanos, porque os que tinham ficado na cidade estavam rodea­dos pelos inimigos e os que se haviam retirado para o acampamento temiam para eles o perigo em que os viam. Entretanto, o número dos judeus crescia sempre e como o conhecimento dos lugares dava-lhes grande vantagem, ma­taram vários romanos, embora a abertura do muro não fosse bastante grande para poderem passar vários de cada vez; e com dificuldade teria escapado um deles somente, se Tito não os tivesse socorrido. Colocou soldados armados, com dardos, no fim das ruas, para afastar os inimigos e foi em pessoa aos lugares onde eles eram mais numerosos. Domício Sabino, que era um dos mais valentes de todo o exército, seguiu-o valorosamente e distinguiu-se nessa oca­sião; jamais o abandonou. Tito fazia atirar continuamente daquela maneira e assim conteve os judeus até ter retirado todos seus soldados. Foi assim que os romanos, depois de terem conquistado o segundo muro, foram obrigados a abandoná-lo.

Esse feliz êxito aumentou de tal modo a ousadia dos mais valentes dentre os judeus, que eles imaginaram loucamente que os romanos não ousariam repetir a tentativa e que não eram tão corajosos para tentar novos ataques, se eles, ju­deus, conseguissem o mesmo êxito que neste último. Deus, para castigar seus pecados, cegava-os em suas considerações. Eles não imaginavam que os que haviam repelido eram apenas uma pequeníssima parte do exército romano e que a fome, que crescia sempre, era para eles outro inimigo não menos temível. Havia já algum tempo que se podia dizer que eles viviam dos bens do povo e bebiam seu sangue, pois tantos homens de bem sofriam muito, e vários já ti­nham morrido à míngua. Mas esse malvados consideravam a desgraça dos ou­tros como vantagem para si mesmos. Julgavam dignos de viver somente os ini­migos da paz, que só viviam para fazer guerra aos romanos; todo o restante era para eles uma multidão inútil, que lhes era de peso; e mais cruéis para com seus próprios cidadãos, do que os bárbaros para com os seus, alegravam-se em ver morrer aquele pobre povo.

Os romanos atacaram de novo, contra sua expectativa, aquele mesmo muro que tinham conquistado e perdido, e o fizeram durante três dias seguidos, dando diversos assaltos, que os judeus sustiveram com tanto ardor que eles fo­ram sempre repelidos. Mas no quarto dia, Tito preparou um ataque tão violento que os judeus não puderam sustentá-lo, e assim pela segunda vez ele se apode­rou desse muro. Mandou então destruir tudo o que estava do lado do norte e colocou guardas nas torres que estão voltadas para o sul.

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