Capítulo 2 – Alguns judeus pediam-lhe vingança pela morte de Judas e de Matias e de outros que Herodes fizera morrer por causa daquela águia arrancada da porta do Templo; suscitam uma revolta que obriga Arquelau a mandar matar uns três mil deles. Depois ele parte para sua viagem a Roma. *

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* Este registro também se encontra no Livro Décimo Sétimo, capítulo 11, Antigüidades Judaicas, Parte I.

 

Um pouco depois do meio-dia, uma multidão, que só desejava pertur­bação e agitação, reuniu-se e, depois do luto geral pela morte do rei Herodes, iniciaram outro, que lhes era particular, deplorando a das pessoas que Herodes tinha mandado matar, por causa daquela águia arrancada da porta do Templo. Não dissimularam seu sofrimento e dor, mais encheram toda a cidade com suas queixas e lamentações. Diziam em voz alta que somente o amor pela glória do Templo e observância de sua lei santa tinham custado a vida aos que ele tinha tratado de maneira tão cruel que a justiça pedia vingança de seu sangue; era necessário castigar os que Herodes havia recompensado por terem contribuído a derramá-lo; começando por depor aquele que fora constituído sumo sacerdote e dando o cargo a outro homem de bem, mais digno de ocupá-lo.

Embora Arquelau se sentisse muito ofendido com estas palavras que excita­vam à rebelião e desejasse mesmo dar-lhes um merecido castigo, não quis tornar o povo seu inimigo, pois estava de partida para Roma, e julgou dever acalmá-lo pela afabilidade, em vez de empregar a força. Assim, mandou o principal oficial de suas tropas, para obrigá-los a se retirar e não insistirem mais. Quando, porém, ele se aproximou do Templo, atacaram-no a pedradas, sem nem mesmo escutá-lo. Trataram do mesmo modo vários outros que o príncipe enviara; via-se clara­mente que, no furor em que se achavam, teriam ido além, se fossem em maior número.

A festa dos ázimos ou pães sem fermento, que os judeus chamam de Páscoa, havia chegado. Um número enorme de gente veio de todas as partes para ofere­cer sacrifícios; aqueles que então deploravam a morte de Judas e de Matias não se afastaram do Templo, a fim de aumentar o seu partido. Arquelau, para impe­dir que o mal crescesse e envolvesse toda aquela multidão, numa revolta bastante perigosa, mandou um oficial com soldados para prender os mais exaltados e trazê-los à sua presença. Mas aqueles amotinadores, a pedradas, mataram vários soldados, feriram o oficial que os comandava, o qual com dificuldade conseguiu salvar-se; como se o ato que acabavam de fazer fosse muito inocente, continua­ram como antes a oferecer os sacrifícios. Arquelau, vendo então que aquela re­volta só se podia reprimir pela força, mandou vir o exército. A cavalaria ficou de fora, a infantaria entrou na cidade; como aqueles rebeldes estavam ocupados nas cerimônias sacras, uns três mil deles foram mortos; o restante fugiu para as montanhas vizinhas e Arquelau mandou avisar, a som de trombeta, que cada um voltasse para sua casa. Dessa forma, os sacrifícios foram abandonados e não se continuou a celebrar aquela grande festa.

O soberano, acompanhado por sua mãe, Poplas, Ptolomeue Nicolau, três dos seus principais amigos, tomou então o caminho de Roma e deixou Felipe, governador do reino, incumbido de dirigi-lo na sua ausência, cuidando de todos os negócios. Salomé, com seus filhos, irmãos do rei, e os genros acompanharam-no na viagem com o pretexto de ajudá-lo a ser confirmado na sucessão do trono, mas, na realidade, para acusá-lo diante de Augusto do morticínio cometido no Templo contra o respeito devido às nossas leis.

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