Capítulo 17 – Rebeca tem dois filhos: Esaú e Jacó. Uma grande carestia obriga Isaque a sair do país de Canaã, e ele permanece algum tempo nas terras do rei Abimeleque. Casamento de Esaú. Isaque, enganado por Jacó, outorga-lhe a bênção, julgando dá-la a Esaú. Para evitar a cólera de seu irmão, Jacó retira-se para a Mesopotâmia.

Gênesis 25. Rebeca estava grávida à morte de Abraão, e de maneira tão esquisita que Isaque, temendo por ela, consultou a Deus para saber qual seria o fim daquela estranha gravidez. Deus respondeu-lhe que ela teria dois filhos, dos quais sairiam dois povos, que teriam deles os nomes e a origem. O mais novo, porém, seria o mais poderoso. Viu-se pouco tempo depois o efeito dessa predição. Rebeca teve gêmeos, sendo o mais velho todo coberto de pêlos, e o mais novo segurava-lhe o calcanhar quando vieram à luz. O mais velho chamou-se Esaú, por causa dos pêlos que apresentava ao nascer, e Isaque tinha por ele afeto particular. O mais novo foi chamado Jacó, e Rebeca amava-o muito mais que ao primogênito.

Gênesis 26. O país de Canaã foi nesse mesmo tempo flagelado por uma carestia extraordinária. No Egito, entretanto, reinava a abundância. Isaque resol­veu ir para lá, mas Deus lhe ordenou que parasse em Gerar. Como havia grande amizade entre o rei Abimeleque e Abraão, o monarca mostrou-lhe de início mui­to boa vontade. Mas quando viu que Deus o favorecia em todas as coisas, come­çou a sentir inveja e obrigou-o a se retirar. Isaque foi então para um lugar de nome Fará, isto é, um vale muito próximo de Gerar, e aí quis cavar um poço, mas os pastores de Abimeleque vieram armados para impedi-lo. Como ele não era de índole inclinada a brigas, deixou-lhes o lugar e permitiu que se gabassem de tê-lo obrigado, pela força, a se retirar, embora ele o tivesse feito voluntariamente. Começou em seguida a cavar outro poço, e outros pastores também impediram que ele o terminasse. Vendo-se obstaculizado dessa maneira, resolveu, com mui­ta prudência, esperar um tempo mais favorável, e este chegou bem depressa. Com permissão de Abimeleque, cavou um poço ao qual chamou Reobote, isto é, “grande e espaçoso”. Quanto aos dois outros que havia começado, um chamou-se Eseque, isto é, “disputado”, e o outro, Sitna, isto é, “inimizade”.

No entanto, como Deus prodigalizasse todos os dias novas bênçãos a Isaque, a sua prosperidade e riqueza fez Abimeleque temer que os motivos que o filho de Abraão tinha para se queixar dele fizessem mais impressão sobre o seu espírito do que a lembrança da amizade que lhe mostrara no início e o levassem a se vingar. E, não o querendo como inimigo, foi ter com ele, acompanhado somente por um dos nobres de sua corte, para renovar a aliança. Não teve difi­culdade em conseguir o seu intento porque a bondade de Isaque e a lembrança da antiga amizade desse príncipe por ele e para com Abraão fizeram-no esquecer facilmente todos os maus-tratos que havia recebido.

Esaú, na idade de quarenta anos, desposou Ada, filha de Elom, e Oolibama, filha de Zibeão, ambos príncipes dos cananeus.* Não pediu permissão ao seu pai, que jamais a teria concedido, porque não aprovava que ele se aliasse a es­trangeiros. No entanto, como não queria aborrecer o seu filho, ordenando-lhe que devolvesse as duas mulheres, Isaque suportou-o, sem nada dizer.

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* E judite (Gn 26.34). (N do E)

 

Gênesis 27. Homem justo e acabrunhado pela velhice, Isaque havia tam­bém perdido a vfsíío: Um dia, “mandou chamar Esaú é disse-lhe que, não podendo mais ver a claridade do dia nem servir a Deus com todo esmero, como sem­pre o fizera, queria, antes de morrer, dar-lhe a sua bênção. Disse-lhe que fosse à caça, trouxesse o que apanhasse para ele, Isaque, comer e em seguida rogaria a Deus que fosse sempre o seu protetor, pois não via melhor maneira de empregar o pouco de tempo que lhe restava de vida.

Esaú partiu logo para executar a ordem. No entanto Rebeca, que desejava a bênção de Deus sobre o irmão dele, e não sobre ele, embora não fosse essa a intenção de seu pai, disse a Jacó que matasse um cabrito e o preparasse. Ele obedeceu, e, quando a refeição ficou pronta, cobriu os braços e as pernas com a pele do cabrito, a fim de que Isaque, ao tocá-lo, o tomasse por Esaú. Como eram gêmeos, assemelhavam-se em tudo o mais. Apresentou-lhe em seguida o prato que havia preparado, mas não o fez sem o temor de que ele descobrisse o enga­no e lhe aplicasse uma maldição em lugar da bênção.

Isaque falou com ele e notou nas suas respostas certa diferença na voz. Jacó então aproximou o braço, e Isaque, depois de havê-lo tocado, disse-lhe: “Vossa voz, meu filho, parece-me a de Jacó, mas este pêlo que sinto em vosso braço me faz crer que sois Esaú”. E assim, não tendo mais dúvida alguma, comeu e fez depois a sua oração, deste modo: “Deus eterno, do qual todas as criaturas rece­bem o ser, cumulastes o meu pai de benefícios. Devo-vos tudo o que tenho, e prometestes tornar a minha posteridade mais feliz ainda. Confirmai, Senhor, com os fatos, a verdade de vossas palavras e não desprezeis a fraqueza em que me encontro, pois ela me faz ter ainda mais necessidade da vossa assistência. Sede, por favor, o protetor deste filho que vos ofereço. Preservai-o de todos os perigos, fazei-o passar uma vida tranqüila, derramai sobre ele, a mancheias, os bens de que sois possuidor. Tornai-o temível aos seus inimigos e fazei com que os seus amigos o amem e honrem!”

Apenas Isaque havia terminado essa oração, aparece-lhe Esaú, em favor do qual julgava tê-la feito, voltando da caça. Reconheceu então o seu erro e confes­sou-o, sem se perturbar. Esaú rogou-lhe que fizesse por ele ao menos a mesma oração que havia feito por seu irmão. Isaque respondeu-lhe que não o podia, porque fizera em favor de Jacó tudo o que dependia dele. Esaú, abatido pela dor de ver-se enganado, não pôde reter as lágrimas. O pai ficou tão comovido que lhe deu outra bênção, dizendo que ele e seus descendentes seriam peritos na caça, na ciência da guerra e em todas as ações em que se exige força e coragem, mas seriam, entretanto, inferiores a Jacó e sua posteridade.

Rebeca, para salvar )acó do perigo que o ressentimento do irmão a fazia temer, persuadiu Isaque a mandá-lo à Mesopotâmia, para casar-se com uma mulher de sua raça. Esaú, que havia percebido o descontentamento de seu pai por causa da aliança com os cananeus, desposou Basemate, filha de Ismael, e amou-a mais do que a qualquer outra de suas esposas.

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