Capítulo 14 – Sobre um impostor que se dizia ser Alexandre, filho de Herodes. Augusto descobre a fraude e o manda para a prisão.

Nesse mesmo tempo, quando Augusto terminava a distribuição dos bens deixados por Herodes em seu testamento, um judeu, educado em Sidom, em casa de um liberto de um cidadão romano, tentou apoderar-se do trono, pela semelhança que tinha, com Alexandre, que o rei Herodes, seu pai, tinha feito morrer; essa semelhança era tanta, que aqueles que haviam’conhecido o jovem príncipe estavam persuadidos de que era ele mesmo. Para poder enganar, ele serviu-se de um homem de sua tribo, que tinha um conhecimento particular de tudo o que se havia passado na família real e que não sendo menos astuto do que mau, era muito capaz de suscitar aquela perturbação. Assim, ajudado por ele, apresentou-se como Alexandre, que um daqueles aos quais Herodes havia encarregado de matar, bem como a Aristóbulo, seu irmão, os tinha salvo e havia posto outros em seu lugar. Esse homem, ensoberbecido pelas esperanças com que se iludia, tentou enganar aos outros, como enganava a si mesmo. Foi a Creta, persuadiu ali todos os judeus com os quais falou, tirou-lhes dinheiro e depois passou à ilha de Meios, onde acreditando que ele era sangue real, deram-lhe ainda muita atenção. Ele imaginou então mais do que nunca que poderia conseguir o seu desejo; prometeu recompensar aos que o ajudassem, e, acompanhado por eles, determinou ir a Roma. Quando pôs o pé em terra, em Puteolos, todos os judeus que lá viviam e particularmente os que Herodes havia beneficia­do, apressaram-se e ir visitá-lo e já o consideravam como seu rei, de que não há motivo de se admirar, pois os homens facilmente acreditam nas coisas que lhes são agradáveis, e era difícil não se ser enganado por tão perfeita semelhança. Mesmo os que tinham vivido familiarmente com Alexandre, duvidavam muito pouco de que não fosse ele mesmo e não temiam afirmá-lo com juramento. Quando esta notícia se divulgou por Roma, todos os judeus que lá moravam, em grande número, foram dar graças a Deus, pela felicidade inesperada, ante esse impostor, e suas aclamações, misturadas com os votos que faziam pela sua pros­peridade, demonstravam qual o seu respeito pela grandeza de sua origem, da parte da rainha Mariana, de quem julgavam que ele era filho. Encontraram-no numa liteira, com um soberbo séquito, porque os judeus dos lugares por onde ele passava, nada poupavam para suas despesas. Embora tivessem falado a Augusto desse pretenso rei do judeus, ele não quis acreditar, porque conhecia muito bem a habilidade de Herodes, para crer que ele se tivesse deixado enganar num as­sunto tão importante. No entanto, como não queria dizer de todo que não era verdade, ordenou a um de seus libertos de nome Celado que conhecia Alexan­dre muito bem e Aristóbulo, seu irmão, que lhe trouxesse aquele homem. Ele foi procurá-lo e deixou-se enganar, como os demais. Mas Augusto não se iludiu, porque a todos sobrepujava em inteligência e, aquela semelhança, embora per­feita, não impediu que ele notasse alguma diferença, observando atentamente o impostor, quer, porque o trabalho lhe produzira calos nas mãos, pois sempre antes ele vivera em condição humilde, quer porque nele não se via aquela graça, que a nobreza do sangue e a educação dão aos que são criados com esmero e muito cuidado. Assim, não duvidando de que o mestre e o discípulo agiam de acordo para enganar a todos, ele perguntou àquele falso Alexandre, que havia acontecido ao seu irmão Aristóbulo e porque ele não viera, como ele, pedir para ser tratado segundo o que tinham motivo de pretender. Ele respondeu-lhe que tinha ficado na ilha de Chipre, para não se expor ao perigo do mar, a fim de que, se ele morresse, ficasse pelo menos um dos filhos de Mariana. Tendo falado as­sim, tão ousadamente, o companheiro, que era o autor do embuste, confirmou o que ele acabava de dizer. Mas Augusto, chamou à parte este moço e disse-lhe: “Contanto que não continueis a procurar enganar-me, como aos demais, eu vos prometo como recompensa salvar-vos a vida. Dizei-me, portanto, quem sois e quem vos pôs na idéia uma proeza tão arriscada, pois, um objetivo tão grande e tão ousado, está acima de vossa idade.” Estas palavras do imperador espantaram de tal modo aquele miserável, que ele confessou toda a comédia e disse-lhe quem a tinha imaginado e de que modo tinha sido executada. Augusto, para manter o que tinha prometido, contentou-se de mandá-lo à prisão, nas galeras, para o que ele servia muito bem, pois era forte e robusto, e mandou prender o outro que o havia induzido à falcatrua. Quanto aos judeus da Ilha de Meios, ficaram quietos pelo dinheiro que lhes haviam dado e empregado tão mal para honrar a esse falso Alexandre e um fim tão vergonhoso foi digno de tão temerá­ria empresa.

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