Capítulo 20 – Males horríveis que a carestia sempre crescente causa a Jerusalém.
Enquanto tudo isso se passava em redor do Templo, a fome e a carestia faziam tal devastação na cidade que o número dos que ela destruía era impossível de se conhecer. Quem poderia descrever a horrível miséria que ela causava? Ante a menor suspeita de que ainda havia alguma coisa para se comer numa casa, declarava-se guerra. Os melhores amigos tornavam-se inimigos quando se procurava conservar a vida e se atracavam uns com os outros para obter o mínimo bocado. Não se acreditava nem mesmo nos moribundos, quando diziam que nada mais lhe restava, mas por uma desumanidade mais que bárbara, eles eram revistados, para verificar se não tinham escondido nas vestes algum pedaço de pão. Quando aqueles homens, aos quais restava apenas a aparência de um ser humano, viam-se enganados, sem esperança de encontrar algo com o que matar a fome, então mais se assemelhavam a cães enraivecidos; a menor coisa que lhes vinha às mãos os fazia bailar como homens embriagados. Não se contentavam de procurar uma só vez em todos os recantos da casa, mas faziam-no diversas vezes e a fome enraivecida os fazia apanhar para saciá-la aquilo que os animais imundos calcariam aos pés. Comiam até mesmo a sola dos sapatos, o couro dos escudos; um punhado de feno podre, era vendido por quatro moedas áticas. Para falar só de coisas inanimadas, a fim de mostrar até que ponto chegou aquela espantosa carestia, pois tenho uma prova única e sem precedentes; nem mesmo entre os gregos, nem entre as outras nações mais bárbaras, viu-se coisa tão horrível; dir-se-ia mesmo incrível, e eu não teria podido resolver-me a referi-la se não tivesse várias testemunhas e se nos males que minha pátria sofreu fosse isso apenas uma leve consolação, suprimir-lhe a memória.
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