Capítulo 2 – Corá e duzentos e cinqüenta dos principais israelitas de tal modo revolucionam o povo que eles tentam apedrejar Moisés e Arão. Moisés fala-lhes com tanta veemência que acalma a sedição.
Números 16. Corá, que era muito considerado entre os hebreus, tanto por sua descendência quanto por suas riquezas, e cujas palavras eram persuasivas a ponto de causar grandíssima impressão no espírito do povo, concebeu tanta inveja ao ver Moisés elevado a tal autoridade e preferido a ele, da mesma tribo e muito mais rico, que se queixou em voz alta a todos os levitas e particularmente aos parentes. Dizia ser coisa insuportável que Moisés, pela sua ambição, por seus artifícios e com o pretexto de comunicações com Deus, buscasse apenas a própria glória, em detrimento de todos os outros, e assim, contra toda razão e sem ter em conta os votos do povo, tivesse escolhido Arão, seu irmão, para sumo sacerdote e, por usurpação tirânica, distribuído as outras honras a quem lhe aprouve conceder.
Disse também que a injúria que lhes fazia era tanto maior e mais perigosa quanto secreta e sem aspecto de violência, e assim a liberdade deles se acharia oprimida antes que o pudessem perceber — porque, enquanto os que se sabiam indignos de comandar eram elevados a tal honra, com o consentimento de todos, aqueles que, ao contrário, haviam perdido a esperança de lá chegar pelos caminhos da honestidade e da liceidade e não ousavam empregar a força, por medo de perder a reputação de probidade, usavam de todas as espécies de meios ilícitos para isso. Assim, a prudência os obrigava a castigar semelhantes atentados, antes que os culpados se julgassem descobertos e sem esperar que, tendo-se fortalecido, passassem por inimigos públicos e declarados.
“Pois qual razão”, acrescentou ele, “pode Moisés alegar, para conferir a dignidade de sumo sacerdote a Arão e aos filhos deste, preferindo-os a todos os outros?” Se Deus havia desejado que a tribo de Levi fosse elevada a essa honra, ele, Cora, devia ter sido preferido a Arão, pois era da mesma tribo que este, porém mais rico e mais velho. E se, ao contrário, a antigüidade das tribos fosse considerada, a honra devia ter sido concedida à de Rúben e dada a Data, Abirão e Fala, que eram os mais velhos e mais ricos dessa tribo!
Cora assim falava com pretexto de aflição e interesse pelo bem público, mas na verdade queria incitar o povo à rebelião e obter, por intermédio deste, o sumo sacerdócio. As queixas espalharam-se não somente em toda a tribo de Levi, mas logo passaram também às outras, com mais exagero ainda, pois cada qual lhes acrescentava um ponto, e o acampamento inteiro ficou cheio desses sentimentos. As coisas progrediram tanto que duzentos e cinqüenta dentre os principais entraram no partido de Cora, intentando destituir Arão do sumo sacerdócio e desonrar Moisés.
O povo rebelou-se de tal modo que tomaram pedras para matar Arão e Moisés, e todos correram em massa, com horrível tumulto, para o Tabernáculo. Gritavam que para se libertarem da escravidão era necessário matar aquele tirano que lhes ordenava coisas insuportáveis sob o pretexto de obedecer a Deus, mas que Ele não teria tolerado ver Arão eleito sumo sacerdote como se fora escolha dEle, havendo tantos outros mais dignos de ocupar o cargo, e que quando desejasse concedê-lo não seria pelo ministério de Moisés, e sim pelo sufrágio de todo o povo.
Embora Moisés fosse informado das calúnias de Cora e visse a que fúria o povo se deixava transportar, não se admirou, porque confiava na pureza de sua consciência e sabia que não fora somente ele, mas também o próprio Deus quem havia honrado Arão com o sumo sacerdócio. Assim, ele apresentou-se corajosamente à irritada multidão. E, em vez de dirigir a palavra a todo o povo, dirigiu-a a Cora, apontando com o dedo aquelas duzentas e cinqüenta pessoas de classe que o acompanhavam.
Elevando a voz, assim lhes falou: “Estou de acordo em que vós e os que vejo unidos a vós sois muito respeitáveis e não desprezo mesmo a ninguém dentre o povo, embora vos sejam inferiores em riquezas, bem como em tudo o mais. Todavia se Arão foi constituído sumo sacerdote, não o foi por suas riquezas, pois sois mais ricos que ele e eu juntamente. Não foi também por causa da nobreza de sua descendência, pois Deus nos fez nascer todos os três de uma mesma família, e temos um mesmo avô. Não foi também o afeto fraterno que me fez elevá-lo a esse cargo, pois se eu tivesse considerado outra coisa senão a Deus e a obediência que lhe devo, teria preferido antes tomar essa honra para mim, pois ninguém me é mais próximo que eu mesmo. Que interesse teria eu de ficar me expondo ao perigo, ao qual estou sujeito por causa das injustiças, e deixar a outro o cargo mais vantajoso? Sou inocente desse crime, mesmo porque Deus não toleraria que eu o desprezasse dessa maneira ou que vos tivesse feito ignorar o que devíeis fazer para agradá-lo. Ora, ainda que tenha sido Ele mesmo, e não eu quem honrou Arão com esse cargo, ele está pronto a cedê-lo àquele que for escolhido pelo vosso sufrágio, sem pretender prevalecer-se daquilo que obteve assaz dignamente. Porque, ainda que o tenha ocupado com a vossa aprovação, é tão pouco ambicioso que prefere renunciar a dar motivo para tão grande alvoroço. Faltamos por acaso ao respeito para com Deus, aceitando o que Ele se comprouve em nos oferecer, ou teríamos, ao contrário, podido recusá-lo sem cometer impiedade? Mas, como compete a Deus confirmar a dádiva que nos fez, cabe-lhe também declarar novamente de quem lhe apraz servir-se para apresentar-lhe os sacrifícios em vosso favor e ser o ministro das ações referentes à vossa piedade. Ou Cora seria ousado o bastante para pretender, pelo desejo que tem, elevar-se a essa honra e tirar a Deus o poder de dispor dela?
Deixai, pois, de promover tão grande tumulto: o dia de amanhã decidirá essa questão. E cada qual dos pretendentes venha de manhã, com um turíbulo na mão, fogo e perfumes. E vós, Cora, não tenhais a ousadia de querer passar por cima de Deus e esperai o seu julgamento sem vos querer elevar acima dEle. Contentai-vos de vos pôr no número dos que aspiram a essa dignidade, da qual não vejo por que Arão deva ser destituído — não mais que vós, pois ele é da mesma descendência e não se poderia acusá-lo de ter faltado em coisa alguma nas funções do cargo. Quando vos tiverdes reunido, oferecereis incenso a Deus na presença de todo o povo, e aquele ao qual Ele testemunhar a oblação mais agradável será constituído sumo sacerdote, sem que haja qualquer pretexto para me acusar de ter conferido por minha própria iniciativa essa honra ao meu irmão se Deus se declarar em favor dele”.
As palavras de Moisés tiveram tal força que fizeram cessar imediatamente toda a rebelião e as suspeitas que se haviam suscitado dele. O povo não somente aprovou a proposta, mas a louvou, como só podendo ser vantajosa para a República, e assim a assembléia se dissolveu.
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