Capítulo 36 – Vespasiano é declarado imperador por seu exército.

Vespasiano, depois de ter devastado todas as terras dos arredores de Jeru­salém, soube, ao seu regresso a Cesaréia, do que se passava em Roma e que Vitélio tinha sido declarado imperador. Essa notícia causou-lhe extrema indignação, pois embora ninguém soubesse melhor do que ele obedecer, tão bem como coman­dar, ele não podia tolerar como senhor um homem que se havia apoderado do império, como se o mesmo tivesse sido exposto, como presa, ao primeiro que o quisesse ocupar. Tão sensível desprazer impressionou-o de tal modo, que já não lhe era possível pensar em empreendimentos estrangeiros, quando sua pátria se achava reduzida a tal estado. Mas embora ele ardesse no desejo de vingar o ultraje que a escolha de Vitélio fazia aos que mereciam muito mais do que ele ser elevados ao supremo poder, era obrigado a reter sua cólera, porque estava tão longe de Roma e o inverno retardava ainda mais sua marcha; além de que poderia aconte­cer outra novidade qualquer antes que tivesse chegado à Itália.

Quando tudo isso se passava no espírito de Vespasiano, os oficiais e os solda­dos de seu exército começaram a se preocupar livremente com os negócios públicos e a testemunhar abertamente sua cólera, porque as tropas que estavam em Roma, mergulhadas nas delícias, sem querer ouvir falar de guerra, dispunham como bem lhes aprazia do império e o davam àquele de quem esperavam obter mais dinheiro, ao passo que eles, depois de ter suportado tantas fadigas e envelhecido nas armas, eram tão covardes, que os deixavam tomar toda a autoridade, embora tivessem como comandante um homem digno do cargo. Acrescentavam que se eles deixas­sem escapar a ocasião de lhe testemunhar sua gratidão, pelo extremo afeto que tinha por eles, não podiam esperar encontrar outra semelhante. Que era tanto mais justo declarar-se por Vespasiano contra Vitélio, quanto os sufrágios em seu favor eram mais numerosos do que os sufrágios daqueles que tinham nomeado Vitélio, imperador, pois que eles não eram menos valentes e não tinham combatido em menor número de guerras do que as legiões que tinha trazido da Alemanha aquele usurpador para a capital do império e aquela escolha de Vespasiano não tinha contraditares, porque o Senado e o povo romano jamais se resolveriam a preferir as desordens de Vitélio à temperança de Vespasiano, e a crueldade de um tirano à clemência de um bom imperador; que eles não podiam também não ter em consideração o mérito tão extraordinário de Tito, porque nada pode manter a paz dos impérios como as eminentes virtudes dos soberanos. E assim, quer se considerasse a experiência que a velhice tem, quer o vigor da juventude, não se podia deixar de escolher Vespasiano, ou Tito, e não havia vantagem que não se pudesse tirar dessa diferença de idade. Aquele admirável pai, daquele excelente filho, sendo chamado ao império não o fortificaria somente com três legiões e com as tropas auxiliares dos reis, mas também com todas as forças do Oriente, daquela parte da Europa que não temia Vitélio e dos que abraçavam o partido de Vespasiano na Itália, onde ele tinha seu irmão e o outro filho, o primeiro dos quais era prefeito de Roma, cargo assaz considerável, sobretudo no começo de um reinado, e o outro tinha tanto prestígio entre a juventude de mais ilustre nobreza, que muitos a ele se uniriam; e, por fim, se eles tardassem em declarar Vespasiano imperador, poderia acontecer que o Senado lhe concedesse aquela honra e eles teriam então a vergonha de não lha ter dado, embora nenhum outro fosse mais obrigado a isso do que eles, pois o haviam tido como chefe em tantas, tão grandes e gloriosas empresas.

Tais as palavras dos soldados: a princípio, apenas entre eles, em pequenos gru­pos, mas seu número crescia sempre e fortalecia-se o sentimento até que declara­ram Vespasiano imperador e pediram-lhe que aceitasse aquela dignidade para sal­var o império do perigo que o ameaçava. Havia já muito tempo que aquele grande homem dirigia seus cuidados a tudo o que se referia ao bem público, mas embora ele não pudesse não se julgar digno de reinar, não tinha aquela ambição, porque preferia a segurança de uma condição particular, aos perigos inerentes àquele su­premo cargo, que expõe os homens aos acidentes da fortuna. Assim, ele recusou a honra oferecida. Mas em vez de essa recusa amortecer o entusiasmo de seus che­fes e soldados, eles insistiram ainda mais para que aceitasse e chegaram mesmo a puxar de suas espadas, ameaçando matá-lo, se ele se recusasse a ser o senhor do mundo. No entanto, ele continuou a resistir; vendo que não os podia persuadir, foi por fim obrigado a ceder às suas instâncias tão fortes e que lhe eram tão gloriosas.

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