Capítulo 7 – De que maneira a cidade de Gamala foi por fim tomada pelos romanos. Tito foi o primeiro a entrar na cidade. Grande carnificina.
No entanto, uma grande parte dos sitiados em Gamala, que pareciam ser os mais corajosos, escondia-se para se salvar. Os que não podiam pegar em armas, morriam de fome; havia apenas um pequeno número de verdadeiros valentes que ainda sustentavam o cerco; no dia vinte e dois de outubro, três soldados da décima quinta legião, que estavam de guarda, aproximaram-se mansamente, antes da noite, do pé da mais alta das torres da cidade que estava do seu lado. Lá, com o auxílio das trevas e sem que os guardas daquela torre o percebessem, arrancaram-lhe dos alicerces, cinco grandes pedras, e retiraram-se imediatamente. A torre caiu em seguida, com grande ruído e esmagou sob seus escombros todos os que nela estavam. Esse imprevisto acontecimento lançou tal espanto no espírito dos que defendiam os outros postos, que fugiram para todos os lados e os que saíam da cidade para se salvar, eram mortos pelos romanos. Charés estava então muito doente e o temor que sentiu apressou sua morte.
Os romanos, lembrando-se do que lhes havia acontecido antes, não ousavam entrar na cidade; queriam esperar até o dia seguinte. Mas Tito, que já estava de volta, animado pelo ressentimento da desgraça que haviam sofrido durante sua ausência, entrou mansamente, com duzentos cavaleiros e alguns soldados escolhidos. Imediatamente espalhou-se a notícia, por toda a cidade, de sua chegada. Uma parte dos sitiados fugiu desesperada para o castelo, levando as mulheres e as crianças; outros, foram apresentar-se a Tito, mas foram mortos por seus soldados; outros, não podendo entrar no castelo e não sabendo o que fazer, atacaram os corpos de guarda dos romanos. A imagem da morte campeava por toda a parte de diferentes maneiras; o ar ecoava lugubremente com tantos uivos e gemidos e toda a cidade estava imersa em rios de sangue, que corriam dos lugares elevados.
Vespasiano levou todas as suas tropas contra o castelo. Estava ele situado sobre o vértice da montanha num lugar pedregoso e de dificílimo acesso, todo rodeado de rochedos e tão elevado que as flechas atiradas pelos romanos não chegavam até lá. Os judeus tinham, ao contrário, a vantagem de repeli-los facilmente a golpes de dardos e de pedras. Mas como o céu se tinha declarado em favor dos romanos, contra aquele infeliz povo, começou a soprar um vento forte que impelia seus dardos para os judeus e trazia os que eles mesmos lançavam, sem que pudesse chegar até eles. Esse vento impetuoso fazia também que eles não pudessem ficar de pé nos lugares que deveriam defender e a espessura da nuvem tirava-lhes a visão dos romanos. Dessa maneira, estes, tendo chegado ao alto da montanha, rodearam-nos de todos os lados e a recordação daquele dia que lhes havia sido tão funesto animava-os de tal modo que mataram indiferentemente os que resistiam e os que se entregavam. Os outros, não tendo mais esperança de salvação, atiravam as mulheres e as crianças do alto do rochedo e se precipitavam também, para não sobreviver, e nisto, sua crueldade para consigo mesmos sobrepujou em número a que a cólera dos romanos fê-los experimentar: cinco mil pereceram desse modo e, ao invés, houve somente quatro mil mortos. De restante, nunca vingança foi tão além como essa dos romanos. Não pouparam nem mesmo às crianças e desse infeliz povo só restaram duas filhas de Filipe, filho de Joaquim, homem de alta posição, que tinha sido general do exército do rei Agripa, ainda que elas não devessem a sua salvação à clemência dos romanos, mas por terem se escondido, foram encontradas somente depois da matança. Assim nesse dia, vinte e três de outubro, deu-se a inteira destruição de Gamala, que se tinha começado a revoltar, a vinte e um de setembro.
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