Capítulo 36 – Combate naval, onde Vespasiano derrota, no lago de Genesaré, a todos os que haviam escapado de Tariquéia.

Os navios que Vespasiano mandara construir ficaram prontos, foram postos no lago e ele embarcou com tantos soldados quantos necessários para a empresa que intentava, contra os que haviam fugido para o lago. Então não lhes restanteu mais esperança de salvação. Eles não ousavam vir por terra, porque lá tudo lhes era contrário; só podiam, com extrema desvantagem, combater sobre as águas, porque suas barcas, que eram próprias para assaltos e pirataria, eram muito fracas para resistir aos navios e tendo poucos homens em cada uma delas, não ousavam atacar os romanos. Por isso, o mais que podiam fazer, era navegar em redor deles, atirando-lhes pedras, de longe e algumas vezes, mesmo, de per­to; mas quer de um modo quer de outro, causavam-lhes pouco mal, recebendo ao contrário, graves perdas e prejuízos. Aquelas pedras só faziam barulho contra as armas dos romanos e quando se aproximavam eram atirados à água, e suas barcas reviradas. Os romanos matavam a golpes de dardos os que lhes estavam ao alcance das armas e a golpes de espada, os que estavam nas barcas. Aprisio­naram ainda outros com barca e tudo, quando rodeados por mais de uma em­barcação; matavam a golpes de flechas, ou faziam afundar com as barcas, os que procuravam salvar-se; cortavam a cabeça ou as mãos, aos que, no auge do de­sespero a eles vinham nadando. Assim aqueles infelizes iam perecendo um por um, de maneiras diferentes, até que, inteiramente derrotados e querendo fugir para a terra, foram mortos no lago, a flechadas, e os outros, que estavam perto da terra, bem como os que já tinham desembarcado não tiveram melhor sorte, de tal modo, que nem um só escapou com vida, naquela horrível matança. O lago estava todo vermelho de tanto sangue, suas margens, cheias de náufragos e ambos cobertos de cadáveres.

Poucos dias depois, aqueles corpos inchados e lívidos corromperam o ar de tal modo, com seu mau cheiro, que toda aquela região ficou contaminada. O espetáculo era tão horrível que não somente causava espanto aos judeus, mas obrigava os romanos a se lastimarem também, embora eles mesmos fossem os culpados de tudo. Tal o desenlace do combate naval, que pereceram nele e na cidade cerca de seis mil e quinhentos homens.

Vespasiano, depois desses dois feitos, subiu a Tariquéia, ao seu tribunal, para deliberar com os principais do seu exército, se haveria de tratar menos favoravel­mente do que aos habitantes, os estrangeiros que tinham sido causa da guerra ou se lhes perdoaria também, conservando-lhes a vida. Todos foram de opinião que os matassem, porque jamais ficariam em paz, se continuassem em liberda­de, mas obrigariam a fazer novas guerras, àqueles com os quais convivessem. Vespasiano não duvidava de que eles eram indignos de perdão e de que se lho concedesse, não se insurgiriam contra os que lhes haviam salvado a vida; mas estava hesitante de como fazê-los morrer, porque se os fizesse executar em Tariquéia, seus habitantes veriam com grande dor, derramar-se o sangue daque­les pelos quais haviam intercedido e não queria dar tal desgosto aos que se havi­am entregue ao seu domínio, ante a promessa de tratá-los bem. Julgou, entre­tanto, não se dever opor aos sentimentos de tantos oficiais, que afirmavam não haver rigor de que se não devesse usar contra os judeus e que era necessário preferir o útil ao honesto numa ocasião em que, como naquela, não se podia satisfazer a ambos. Assim, permitiu aos estrangeiros que se retirassem pelo único caminho que leva a Tiberíades; e como se acredita facilmente naquilo que se deseja, eles partiram sem temer, nem que se tentasse contra sua vida, nem que se lhes tirasse o dinheiro. Os romanos, para impedir que algum escapasse, leva­ram-nos a Tiberíades e os encerraram na cidade. Vespasiano chegou logo depois e mandou colocá-los no lugar dos exercícios públicos. Ali fez matar todos os velhos e os incapazes de pegar em armas, em número de mil e duzentos; man­dou a Nero seis mil homens fortes e robustos para trabalhar no istmo da Moréia. O povo foi feito escravo; foram vendidos trinta mil e quatrocentos deles; o res­tante foi dado a Agripa, para fazer o que quisesse dos que eram do seu reino. Os outros eram da Traconítida, da Galaunita, de Hipom e vários de Gadara, dos quais a maior parte eram revoltosos e fugitivos, que não podendo viver em paz, tinham insuflado a guerra. Haviam sido aprisionados no dia oito de setembro.

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