Capítulo 17 – O imperador Caio Calígula ordena a Petrônio, governador da Síria, que obrigue os judeus pelas armas a receber a sua estátua no Templo. Mas Petrônio, comovido por seus rogos, escreve-lhe em favor deles, o que lhe teria custado a vida, se esse príncipe não tivesse morrido logo depois. *

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* Este registro também se encontra no Livro Décimo Oitavo, capítulo 11, Antigüidades Judaicas, Parte I.

O imperador Caio abusou de tal modo de sua boa sorte e deixou-se levar até o excesso do orgulho, chegando a se persuadir de que era deus e querendo que lhe dessem esse nome. Privou o Império, por sua crueldade, de um grande número de cidadãos, dos mais ilustres romanos e fez a judéia sofrer os efeitos de sua horrível impiedade. Mandou Petrônio a Jerusalém com um exército e uma ordem expressa de pôr suas estátuas no Templo, de matar todos os judeus que tivessem a ousadia de se opor a isso e de reduzir à escravidão o restante do povo. Poderia Deus suportar uma ordem tão abominável?

Petrônio partiu em seguida de Antioquia, com três legiões e um grande nú­mero de soldados e tropas auxiliares da Síria para entrar na Judéia. Essa notícia surpreendeu de tal modo os judeus, que eles mal (he podiam prestar fé; e os que acreditaram nela estavam impossibilitados de resistir e de se defender. Mas o terror foi geral, quando se soube que Petrônio já tinha chegado com seu exército a Ptolemaida. Essa cidade da Caliléia está situada à beira-mar, numa grande pla­nície rodeada, do lado do oriente, por montanhas daquela província, que estão longe cerca de sessenta estádios, e do lado do sul, pelo monte Carmelo, que dista cento e vinte estádios, e do lado do norte, por uma montanha muito alta chamada a montanha dos sírios, distante cem estádios.

A dois estádios dessa cidade passa um pequeno rio de nome Pelleu, perto do qual está a sepultura de Memnon, obra admirável, de cem côvados de altura e de forma côncava. Lá existe uma areia tão clara como o vidro; os navios vão buscá-la e logo que é levada, o vento, em seguida, traz outra do alto da monta­nha, a qual ocupa o espaço vazio. Posta no forno, esta areia se converte logo em vidro e o que me parece mais admirável ainda, é que esse vidro, levado àquele mesmo lugar, retoma a sua primitiva natureza e torna-se pura areia como antes.

Na consternação em que os judeus se encontravam, foram com suas mulheres e seus filhos procurar Petrônio em Ptolemaida para lhe rogar que não violasse as suas santas leis e tivesse compaixão deles. Petrônio, comovido com seu grande número e com seus rogos, deixou em Ptolemaida as estátuas do imperador e dirigiu-se para a Caliléia; mandou vir todo o povo com seus chefes a Tiberíades. Lá, falou-lhes do poder dos romanos, de como as ameaças do imperador lhes deviam ser temíveis, de como ele se julgaria ofendido com o pedido que lhe faziam, porque de todas as nações a ele sujeitas, somente eles se recusavam colocar suas estátuas no número dos deuses, o que era o mesmo que revoltar-se contra ele e também fazer-lhe gran­de injúria, pois sendo seu governador, representava a sua pessoa. Eles responderam que suas leis o proibiam tão expressamente, que não poderiam fazê-lo sem violá-las, colocando-as no Templo, nem mesmo num lugar profano, não somente a imagem de um homem, mas até mesmo a de Deus. “Se observais tão religiosamente vossas leis”, replicou Petrônio, “eu não sou menos obrigado a executar as ordens do impe­rador que para mim são como leis, pois ele é meu senhor e eu não poderia desobe­decer-lhe, para poupar-vos, sem que isso me custasse a própria vida. É portanto a ele, e não a mim, que vos deveis dirigir; eu o faço por sua ordem e a ele não sou menos sujeito do que vós.” A estas palavras toda aquela multidão exclamou que não havia perigo ao qual não estivessem prontos a se expor, com alegria, pela observân­cia de suas leis. Depois de ter acalmado o tumulto, Petrônio disse-lhes: “estais pois resolvidos a tomar as armas contra o imperador?” “Não”, responderam eles, “nós oferecemos, ao contrário, todos os dias sacrifícios a Deus por ele e pelo povo roma­no, mas se vós quiserdes pôr essas estátuas em nosso Templo, será preciso antes degolar-nos todos, com nossas mulheres e filhos.” O amor tão ardente desse povo por sua religião e essa firmeza inquebrantável que o fazia preferir a morte à não observância de suas leis, causou tanta admiração a Petrônio e, ao mesmo tempo, tanta compaixão, que ele dissolveu a assembléia, sem nada resolver.

No dia seguinte e alguns dias depois, ele falou aos chefes em particular e a todos em geral; uniu seus conselhos a exortações e suas ameaças a conselhos, dizendo-lhes ainda do grande poderio romano, de como a cólera do imperador lhes devia ser temível e por fim da necessidade em que eles se encontravam de lhe obedecer. Nada, porém, foi capaz de movê-los; vendo que o tempo de seme­ar a terra estava se passando, porque eles, empenhados de tal modo nessa ques­tão, há quarenta dias haviam renunciado a todos os outros cuidados, reuniu-os de novo e disse-lhes: “estou disposto a expor-me, por amor de vós, aos mesmos perigos que estais ameaçados. Assim, ou Deus me fará a graça de abrandar o espírito do imperador e terei o prazer de me salvar, salvando-os também, ou se atrair sobre mim sua cólera, não sentirei perder a vida, por ter me esforçado para preservar da morte tão grande povo.”

Depois de lhes ter falado deste modo, mandou para casa toda aquela gran­de multidão, que não se cansava de fazer votos por sua prosperidade e reconduziu suas tropas de Ptolemaida para Antioquia, de onde mandou cartas ao imperador, dizendo que para obedecer às suas ordens ele tinha entrado na Judéia, com grandes tropas, e que se ele não se rendesse aos pedidos daquela nação, seria necessário destruí-la completamente e devastar todo o país, por­que aquele povo estava tão firme na observância de suas leis, que nada havia que eles não estivessem dispostos a sofrer, antes que cumprir aquela determi­nação.

Esta carta irritou de tal modo o imperador, cruel e desumano, que o amea­çou, como resposta, fazê-lo morrer por ter ousado diferir na execução de suas ordens; mas os que haviam sido encarregados desse terrível despacho, tiveram uma viagem difícil com ventos contrários e demoraram-se três meses no mar, e só chegaram vinte e sete dias depois que outros haviam trazido a Petrônio a notícia da morte daquele feroz imperador.

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