Capitulo 1 – O profeta Jeú repreende Josafá, rei de judá, por ter unido armas com o rei Acabe, de Israel. Ele reconhece a sua falta, e Deus o perdoa. Seu admirável proceder. Vitória miraculosa que ele obtém sobre os moabitas, os amonitas e os árabes. Impiedade e morte de Acazias, rei de Israel, como o profeta Elias havia predito, forão, seu irmão, sucede-o. Elias desaparece. Jorão, auxiliado por Josafá e pelo rei da Iduméia, obtém uma grande vitória sobre Mesa, rei dos moabitas. Morte de Josafá, rei de judá.

2 Crônicas 19. Quando Josafá, rei de Judá, após ter unido as suas tropas com as de Acabe, rei de Israel, contra Hadade, rei da Síria, como vimos, voltou de Samaria a Jerusalém, o profeta )eú veio à sua presença e repreendeu-o por ter ajudado um rei tão ímpio. Disse-lhe que Deus estava muito irritado e que lhe conservara a vida, tirando-o das mãos dos inimigos, por causa de sua virtude. O religioso príncipe, comovido com grande arrependimento pela sua falta, recor­reu a Deus e aplacou-lhe a cólera com orações e sacrifícios.

Percorreu então todo o reino, para instruir o povo nos mandamentos de Deus e para exortá-lo a adorar e a servir a Deus de todo o coração. Colocou magistra­dos em todas as cidades e recomendou-lhes muito expressamente que fizessem justiça a todos, sem se deixar corromper, quer pela nobreza, quer pelas riquezas, quer pelo talento de qualquer pessoa, pois deviam lembrar que Deus, que co­nhece todas as coisas, mesmo as mais ocultas, vê todas as ações dos homens.

Depois de regressar a Jerusalém, constituiu também juizes, escolhidos por ele dentre os principais sacerdotes e levitas, e recomendou-lhes, como aos demais, que administrassem com perfeita justiça. Ordenou que, quando houvesse em outras cidades assuntos importantes e difíceis, que merecessem ser examinados com mais cuidado e precisão que os comuns, eles os deveriam levar a Jerusalém perante os magistrados, porque se deveria crer que a justiça não seria em nenhum outro lugar tão bem distribuída quanto na capital do reino, onde estavam o Templo de Deus e o palácio onde os reis habitavam. Nos cargos principais, colocou Amarias, sacerdote, e Zebadias, que era da tribo de Judá.

2 Crônicas 20. Nesse entretempo, os moabitas e os amonitas, unidos aos árabes, a quem haviam chamado em seu socorro, entraram com um grande exército nas terras de Josafá e acamparam a trezentos estádios de Jerusalém, perto do lago Asfaltite, no território de En-Gedi, muito fértil em bálsamos e em palmeiras. Josafá, surpreendido que tivessem adentrado tanto o seu rei­no, mandou reunir no Templo todo o povo de Jerusalém para rogar a Deus que o ajudasse contra tão poderosos inimigos e os castigasse pelo seu atrevi­mento. Disse-lhe com humildade que tinha o direito de esperar auxílio, por­que Ele mesmo dera ao seu povo a posse do país do qual aquelas nações os queriam expulsar, e, quando os seus antepassados construíram e consagra­ram o Templo em honra a Ele, eles puseram toda a sua confiança no auxílio dEle, sem duvidar que Ele lhes seria sempre favorável. O príncipe fez acompa­nhar essa oração com lágrimas, e o povo em geral, tanto os homens quanto as mulheres, fez o mesmo.

Então, o profeta Jaaziel adiantou-se e disse em alta voz, dirigindo-se ao rei e àquela grande multidão, que os seus votos haviam sido ouvidos. Deus comba­teria por eles e lhes daria a vitória. Deveriam partir no dia seguinte para enfren­tar o inimigo, até uma colina denominada Ziz (isto é, “eminência”, em hebreu), que está entre Jerusalém e En-Gedi, pois ali os encontrariam. Não teriam neces­sidade de se servir das armas, porque seriam apenas espectadores do combate que Deus travaria, Ele mesmo, em favor deles. Ante as palavras do profeta, o rei e todo o povo prostraram-se com o rosto em terra, deram graças a Deus e o adoraram. Os levitas, com acompanhamento de música, cantaram hinos em seu louvor.

No dia seguinte, ao raiar do dia, o rei Josafá se pôs em campo e, quan­do chegou ao deserto que está abaixo da cidade de Tecoa, disse às tropas que não havia necessidade de combater, como num dia de luta, pois toda a sua forca consistia em sua perfeita confiança no auxílio que Deus prometera por meio de seu profeta. Seria suficiente fazer marchar os sacerdotes com as suas trombetas e os levitas com os seus cantores, para dar graças a Deus pela vitória alcançada e pelo triunfo já obtido sobre os inimigos. Essa ordem tão santa, de tão piedoso rei, foi recebida com respeito por todo o exército e rigorosamente executada.

Deus infundiu então tal cegueira no Espírito dos amonitas e dos povos que a eles se haviam juntado que eles próprios se tomaram por inimigos e, transporta­dos de furor, mataram-se uns aos outros, com tanta animosidade e raiva que não restou um só com vida de todo aquele imenso número, e o vale onde isso ocor­reu ficou juncado de cadáveres, josafá, transbordando de alegria, deu graças a Deus por aquela vitória tão milagrosa, pois quem obteve a glória de conquistá-la não havia tomado parte nela nem corrido perigo algum. Ele permitiu depois que os soldados saqueassem o campo dos inimigos e despojassem os mortos. Leva­ram três dias inteiros para isso, tão grande era o número de mortos e tantas as riquezas. No quarto dia, o povo reuniu-se num vale para cantar louvores a Deus e as maravilhas de seu poder, por isso deu-se àquele lugar o nome de Vale dos Louvores, que conserva ainda hoje.

Esse piedoso e glorioso príncipe, após regressar com o seu exército para Jerusalém, passou vários dias fazendo sacrifícios e festas públicas, em regozijo e ação de graças pelo favor que ele e todo o seu povo haviam recebido de Deus, tendo Ele mesmo combatido no lugar deles e destruído os inimigos com o efeito prodigioso de seu soberano poder. A fama dessa vitória sobrenatural espalhou-se entre as demais nações, e não puderam elas duvidar de que esse grande soberano fosse particularmente querido de Deus. Conceberam um tão alto conceito de sua justiça e honestidade que a conservaram durante todo o resto de seu reinado.

Como ele era amigo de Acazias, rei de Israel, filho de Acabe, equiparam juntos uma grande frota para navegar ao Ponto e à Trácia, mas esses navios naufragaram, porque não eram grandes o suficiente para ser dirigidos, e assim eles abandonaram o projeto.

2 Reis 1. Vamos agora falar de Acazias. Ele sempre morou em Samaria e foi tão mau quanto o seu pai e o seu avô. Foi grande imitador da impiedade de jeroboão, que por primeiro levou o povo a se afastar da adoração ao verdadeiro Deus. No segundo ano do reinado desse rei jovem e mau, os moabitas recusa­ram-se a pagar-lhe o tributo que deviam a Acabe, seu pai.

Um dia, ao descer uma galeria do palácio, ele caiu e, tendo-se ferido muito, mandou consultar o oráculo de Myiode, deus de Ecrom, para saber se ele ficaria curado daquele ferimento. Deus ordenou ao profeta Elias que fosse à presença dos enviados do rei perguntar-lhes se o povo de Israel não tinha Deus, pois o rei os estava mandando consultar um deus estrangeiro. Depois que Elias desempenhou a sua incumbência, ordenou-lhes que fossem dizer ao seu senhor que ele morreria daquele ferimento, e eles voltaram ao seu país. Acazias, assustado por vê-los voltar tão depressa, perguntou-lhes o motivo, e eles responderam que haviam encontra­do um homem, o qual os impedira de ir além e ordenara que lhe dissessem, da parte de Deus, que aquela doença iria agravar-se gradualmente.

O rei perguntou como era o homem, e eles relataram que era todo coberto de pêlos e trazia as vestes presas por um cinto de couro. Acazias percebeu então que se tratava de Elias, e enviou um oficial com cinqüenta soldados para prendê-lo. O oficial achou-o sentado no alto de um monte e ordenou-lhe que o seguisse, para ir falar com o rei. E, se ele não o fizesse espontaneamente, levá-lo-ia à força. Elias respondeu que lhe mostraria com fatos que era um verdadeiro profeta. Dizendo essas palavras, rogou a Deus que fizesse descer fogo do céu para casti­gar aquele oficial e todos os seus soldados. Imediatamente apareceu no céu um turbilhão de chamas, que os reduziu a cinzas.

A notícia foi levada ao rei, e ele enviou outro oficial, com igual número de soldados, que ameaçou do mesmo modo levar à força o profeta, se ele não quises­se ir de boa vontade. Elias renovou a sua oração, e fogo do céu devorou também aquele oficial e todos os seus soldados, tal como sucedera aos anteriores.

O rei enviou então um terceiro oficial e mais cinqüenta soldados. Como esse era mais sensato, ele aproximou-se do profeta, saudou-o cortesmente e disse-lhe: “Não ignorais sem dúvida que é contra o meu desejo e somente para obede­cer à ordem do rei que vos venho falar, como os precedentes. Por isso rogo-vos que tenhais compaixão de nós e venhais voluntariamente falar com o rei”. Elias, comovido pelas maneiras respeitosas do oficial, seguiu-o. Quando chegou junto do rei, Deus inspirou-lhe o que devia dizer, e ele assim falou ao soberano: “O Senhor diz: Como não me quisestes reconhecer por vosso Deus e não me julgastes capaz de predizer o que vos aconteceria de mal, mas mandastes consultar o deus de Ecrom, declaro-vos que morrereis”.

Pouco tempo depois, essa profecia realizou-se. Como Acazias não tinha filho, Jorão, seu irmão, sucedeu-o no trono. Imitou igualmente o seu pai em impiedade e abandonou, como ele, o Deus de seus antepassados, para adorar os deuses estrangeiros. Fora isso, ele era muito hábil. Foi sob o seu reinado que Elias desapareceu, sem que jamais se tenha podido saber o que aconteceu a ele. Ele deixou, como já disse, Eliseu, seu discípulo. E bem podemos ver nas Sagradas Escrituras que Elias e Enoque, o qual viveu antes do dilúvio, desapareceram do meio dos homens, mas nunca se soube que tenham morrido.

2 Reis 3. Jorão, depois de ocupar o trono de Israel, resolveu fazer guerra a Mesa, rei dos moabitas, porque este se recusava a pagar-lhe o tributo de du­zentos mil carneiros com sua lã, que pagava ao rei Acabe, seu pai. Mandou então pedir ao rei josafá que o ajudasse, tal como fizera a Acabe, seu pai. josafá respon­deu que não somente o ajudaria, mas levaria com ele o rei da Iduméia, que era seu dependente. Jorão ficou muito grato por essa resposta e foi a Jerusalém agra­decer-lhe. Josafá recebeu com grande magnificência esse príncipe e o rei da Iduméia, e eles resolveram entrar no país inimigo pelos desertos da Iduméia, que era o lado pelo qual os moabitas menos esperavam ser atacados.

Os três reis partiram juntos em seguida e, depois de haver marchado durante sete dias e de ter perdido o rumo, por falta de bons guias, encontraram-se em tão grande penúria e com tanta sede que os cavalos morriam por falta de água. Como Jorão era de natureza impaciente, ele perguntava a Deus, murmurando contra Ele, que mal haviam feito para entregar assim três reis nas mãos dos inimi­gos, sem combate. Josafá, que, ao contrário, era um príncipe muito religioso, consolava-o, e indagou se não havia no exército algum profeta de Deus a quem pudessem consultar a respeito do que fazer em tal contingência. Um dos servi­dores de Jorão declarou ter visto Eliseu, filho de Safate, que era discípulo de Elias. Logo os três reis, por conselho de Josafá, foram procurá-lo em sua cabana, que ficava fora do acampamento, e pediram-lhe, particularmente jorão, que lhes re­velasse o resultado daquela guerra.

Ele respondeu ao príncipe que o deixasse descansar e fosse consultar os pro­fetas de seu pai e de sua mãe, que também eram verdadeiros. Jorão insistiu e rogou-lhe que falasse, pois estava em jogo a vida de todos. Eliseu tomou então a Deus por testemunha e afirmou com juramento que só lhe responderia em con­sideração a Josafá, que era um príncipe justo e temente a Deus. Disse em seguida que fizessem vir um músico com instrumentos. Quando ele começou a tocar, o profeta, cheio do Espírito de Deus, disse aos três reis que mandassem fazer uns regos na torrente, e eles veriam que, embora o ar permanecesse imóvel, sem vento algum, e sem que caísse do céu uma gota de água, os regos ficariam cheios e forneceriam a eles e a todo o exército água para matar a sede. Disse mais o profeta: “E esse não será o único favor que recebereis de Deus, pois com o auxílio dEle vencereis os vossos inimigos, tomareis as mais belas e as mais fortes de suas cidades e devastareis o seu país: cortareis as suas árvores, fareis secar as suas fontes e desviareis o curso de seus regatos”.

Assim falou-lhes o profeta, e no dia seguinte, antes do nascer do sol, viu-se a torrente completamente cheia de água, proveniente da Iduméia, distante três dias de caminho, onde Deus fizera cair chuva, e todo aquele grande exér­cito teve água em abundância para beber. O rei dos moabitas, ao saber que os três reis marchavam contra ele pelo deserto, reuniu todas as suas forças para enfrentá-los nas fronteiras de seu território, a fim de barrar-lhes a entrada. Mas quando ele chegou perto da torrente, o revérbero dos raios de sol na água fizeram-nas parecer vermelhas, e todos as tomaram por sangue, imaginando que o desespero causado pela sede fizera os inimigos matarem-se reciproca­mente. Com essa falsa convicção, os moabitas pediram permissão ao seu rei para saquear o acampamento e, tendo-a obtido, partiram precipitada e desordenadamente, como quem tem certeza de encontrar presa fácil. Mas logo se viram rodeados de todos os lados pelos inimigos, que mataram parte deles e puseram o resto em fuga.

Os três reis entraram no país, tomaram o que quiseram, destruíram várias cidades, espalharam o cascalho da torrente sobre as terras mais férteis, corta­ram as melhores árvores e entupiram as fontes. Destruíram tudo e sitiaram o próprio rei, que procurava pôr-se a salvo. (Vendo-se em perigo, o soberano tudo fizera para escapar. Saiu da cidade com setecentos homens escolhidos e tentou atravessar o campo inimigo do lado que ele julgava menos defendido. Mas isso não lhe foi possível, e ele teve de voltar.) O desespero então levou-o a fazer o que não se pode descrever sem horror. Ele tomou o príncipe, seu filho mais velho e sucessor, e sacrificou-o sobre as muralhas da cidade, à vista dos sitiantes. Tão terrível espetáculo comoveu os três reis, enchendo-os de tanta compaixão que, levados por um sentimento de humanidade, levantaram o cer­co, e cada qual voltou para o seu país.

josafá viveu muito pouco depois disso. Morreu em Jerusalém, na idade de sessen­ta anos, dos quais reinara apenas vinte e cinco. Enterraram-no com a magnificência que merecia tão notável soberano e tão grande imitador das virtudes de Davi.

Comentários

Tão vazio aqui... deixe um comentário!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Barra lateral