Capítulo 15 – Antônio é vencido por Augusto na batalha de Áccio. Herodes vai procurar Augusto e fala-lhe com tanta generosidade que lhe conquista a amizade; Herodes o recebe em Ptolemaida com tanta magnificência que Augusto aumenta de muito seu reino. *

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*Este registro também se encontra no Livro Décimo Quinto, capítulos 9, 10, 11 e 1 3, Antigüidades judaicas, Parte I.

 

A alegria que Herodes sentiu por este resultado tão glorioso foi ofuscada pela notícia da vitória obtida por Augusto em Áccio e, então, tudo ele veio a temer por causa da sua amizade com Antônio. Mas o perigo não era tão grande como ele imaginava, pois Augusto não podia considerar Antônio completamente perdido, enquanto esse príncipe continuasse ligado ao seu partido. Em tal reviravolta da sor­te, Herodes julgou-se obrigado a ir procurar Augusto em Rodes, comparecendo à sua presença, sem coroa, mas com majestade real; sem nada dissimular da verdade, falou-lhe assim: “Confesso, grande príncipe, que devo a minha coroa a Antônio e vós tendes notado que não lhe fui um rei inútil, se a guerra em que eu estava empe­nhado contra os árabes não me tivesse impedido de juntar minhas armas às deles. Não podendo fazê-lo, ajudei-o com trigo e tudo o que estava em meu poder. Não o abandonei nem mesmo depois da batalha de Áccio, porque o reconheço como meu benfeitor. Se eu não o pude servir na guerra, combatendo por ele como eu desejara fazê-lo, dei-lhe, contudo, bons conselhos, fazendo-lhe ver que o único meio de restaurar seus interesse era fazer morrer Cleópatra; nesse caso eu lhe oferecia dinheiro, praças, tropas e minha pessoa, para que ele continuasse a vos fazer guerra. Mas sua cega paixão por aquela princesa e a vontade de Deus que vos quer entregar o império do mundo, não lhe permitiram escutar uma proposta que lhe teria sido vantajosa. Assim eu me vejo vencido com ele; e vendo-o precipitado de tão alta posição, tirei de minha cabeça a coroa para vir à vossa presença, baseando a espe­rança da minha salvação apenas sobre minha virtude e na constatação que podereis fazer de minha fidelidade para com meus amigos.”

Herodes assim falou, e Augusto respondeu-lhe: “Vós não somente nada deveis temer, mas, ao contrário, vos deveis sentir mais firme e seguro do que nunca, em vosso reino, pois vossa fidelidade para com vossos amigos vos torna digno de reinar. Eu aprecio tanto a vossa generosidade que só me resta desejar que não tenhais menor afeto por aqueles que são favorecidos pela fortuna do que o ten­des conservado para com os infelizes; eu não poderia censurar a Antônio de ter desejado mais a Cleopatra do que aos vossos conselhos, pois que devo à sua imprudência o vosso afeto por mim. Já começastes a mo demonstrar, enviando a Ventídio auxílio contra os gladiadores, que abraçaram o partido de Antônio. Por isso, não duvideis de que eu não vos faça confirmar em vosso reino, por um decreto do Senado e de que eu não sinta prazer em vos dar provas de minha amizade, tanto que não sentireis mais a infelicidade de Antônio.”

Após esta resposta, tão auspiciosa, Augusto recolocou a coroa sobre a cabeça de Herodes e o confirmou no reino por um ato, no qual falava dele de maneira muito lisonjeira. Esse rei dos judeus, depois de lhe ter dado grandes presentes, rogou-lhe que concedesse a graça a um dos amigos de Antônio, de nome Ale­xandre; mas o encontrou tão irritado contra ele por causa de ofensas que, dizi­am, havia dele recebido, que não lhe foi possível obtê-la.

Quando Augusto passou da Síria ao Egito, Herodes o recebeu em Ptolemaida, com incrível magnificência; quando esse grande príncipe passa­va em revistas as tropas, ele o fazia marchar a cavalo, junto de si. Não foi somente com suntuosos banquetes que Herodes lhe manifestou e aos seus amigos que ele tinha realmente uma alma de rei; mandou dar ao seu exérci­to, quando este foi a Pelusa, víveres em abundância e o proveu, ao seu re­gresso, nos lugares secos e áridos, não somente de água, mas de tudo o de que ele poderia necessitar. Tão nobre maneira de agir granjeou-lhe tal repu­tação de generosidade no espírito de Augusto e de todos os seus soldados, que eles diziam que o reino da judéia não era bastante grande para tão gran­de príncipe. Dessa forma, depois da morte de Cleopatra e de Antônio, Augusto foi ao Egito e deu-lhe quatrocentos gauleses, que serviam de guardas à prin­cesa, acrescentou novas honras às que já lhe havia concedido, cedeu-lhe aquela parte da Judéia que Antônio tinha dado a Cleopatra, como também as cida­des de Gadara, Hipom, Samaria, e, à beira-mar, Gaza, Antedom, Jope e a torre de Estratão. A liberalidade de Augusto não se limitou a isso. Para mos­trar-lhe até que ponto ia a sua estima pelo mérito desse príncipe, deu-lhe também a Traconítida e a Batanéia, acrescentando ainda a Auranita, pelo fato que passo a narrar: Zenodoro, que tinha tomado as terras de Lisânias, mandava continuamente homens da Traconítida, para saquear os bens dos de Damasco. Eles foram queixar-se a Varo, governador da Síria, e rogaram-lhe que informasse ao imperador. Ele o fez e Augusto deu-lhe ordens de extermi­nar aqueles salteadores. Varo executou a ordem e confiscou os bens de Zenodoro; Augusto deu-os a Herodes, para que aquele país não pudesse, no futuro, servir ainda de refúgio aos ladrões, e o fez, ao mesmo tempo, gover­nador da Síria. Dez anos mais tarde, esse poderoso imperador voltou àquela província, proibiu a todos os governadores fazer algo sem o conselho de Herodes e depois que Zenodoro morreu, deu-lhe todas as terras que estão entre a Traconítida e a Galileia. Mas o que Herodes estimava mais que tudo era que Augusto a ninguém mais estimava do que ele, depois de Agripa, e Agripa, a nenhum outro estimava mais, depois de Augusto, do que ele. Quando se viu elevado ao auge da prosperidade, mostrou a grandeza de sua alma, pelo empreendimento maior e mais santo que se possa imaginar.

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