Capítulo 8 – Tito manda destruir os alicerces da fortaleza Antônia e josefo fala ainda, por sua ordem, afoão e aos seus procurando incitá-los a pedir a paz, mas inutilmente. Outros deixam-se persuadir por suas palavras.

Tito mandou destruir os alicerces da fortaleza Antônia, para dar uma entrada fácil a todo seu exército e tendo sabido, a dezessete de julho, que o povo estava muito aflito por não ter podido celebrar a festa que tem o nome de Endelechisma, isto é, quebramento das mesas, ordenou a Josefo que dissesse uma segunda vez a João que se a louca paixão de resistir ainda subsistia, ele podia sair com o número de soldados que quisesse, para um combate, sem se obstinar mais em querer a ruína da cidade e do Templo; que ele devia estar cansado de profanar um lugar tão santo, de ofender a Deus com tantos sacrilégios e que lhe permitia escolher os de sua nação que ele quisesse, para recomeçar a oferecer-lhe os sacrifícios, que tinham sido interrompidos.

Josefo, depois dessa ordem, julgou não dever falar somente a João, e para ser ouvido por muitos, subiu a um lugar elevado de onde lhes comunicou o que Tito lhe havia ordenado, e tudo fez para levá-los a ter compaixão de sua pátria, de afastar tão grande desgraça, como ver incendiar-se o Templo, cujo fogo já estava perto, e de pensar em dar a Deus a adoração que lhe era devida.

O povo, embora bastante impressionado com essas palavras, não ousou abrir a boca para manifestar seu pesar, mas João respondeu com injúrias e maldições. Depois acrescentou que jamais lhe aconteceria de temer a ruína de uma cidade, que era de Deus. Josefo então retomou a palavra e disse com voz ainda mais forte: “O extremo cuidado que tendes de conservar a Deus essa cidade, na sua pureza e de impedir a profanação das coisas santas, vos dá sem dúvida um gran­de motivo de confiar em seu auxílio, a vós que não tendes medo de cometer os mais horríveis atos de impiedade e de empregar para usos profanos as vítimas reservadas para lhe serem oferecidas em sacrifícios. Se alguém vos quisesse pri­var do alimento de que tendes necessidade, cada dia, vós o consideraríeis um malvado e vosso inimigo mortal; depois que impedistes que se prestasse a Deus o culto e a homenagem perpétua que lhe é devida, ousais ainda persuadir-vos de que Ele vos há de ajudar, nesta guerra e atribuir o horror que deve ter os vossos crimes, sobre os romanos que mantêm ainda hoje a observância de nossas leis e que vos querem obrigar a restabelecer os sacrifícios que interrompestes. Quem poderia sem ter o coração partido de dor ver tão estranho e incrível transtorno? Estrangeiros, e estrangeiros que nos fazem guerra, vos querem impedir de con­tinuar a cometer atos de impiedade e vós, ainda que judeus de nascimento, instruí­dos desde a infância em nossas santas leis, não tendes vergonha de vos declarardes seu inimigo capital? Esse último extremo, a que vossa pátria se encontra reduzi­da, não é capaz de vos levar ao arrependimento, embora o exemplo de um de nossos reis possa ser suficiente para a ele vos levar. Bem sabeis que, quando os babilônios entraram na Judéia com tão grandes forças, Jeconias, que então reina­va, saiu voluntariamente de Jerusalém e lhe deu como reféns sua mãe e vários dos seus parentes, a fim de impedir a ruína da cidade, a profanação das coisas santas e o incêndio do Templo. Toda nossa nação reconheceu dever a ele, que tal não acontecesse e por isso renova-se todos os anos a recordação desse fato, para que ele passe de século a século, a fim de perpetuar o reconhecimento por tão grande benefício! Embora estejais à beira do precipício, ainda vos podeis salvar, pois asseguro que os romanos vos perdoarão, contanto que não vos obstineis mais em vos tornardes indignos de todo perdão. E para que não possais duvidar de minha palavra, considerai que é um judeu que a dá, por que motivo ele a dá e da parte de quem a dá? Deus me livre de ser tão infeliz e tão covarde de esquecer a minha origem e o amor que sou obrigado a ter pelas leis de meu país. Mas, em vez de ficardes impressionados com tantas considerações, começais um novo furor e continuais a me injuriar. Mas confesso que o mereço, pois estou agindo contra a ordem de Deus, exortando-vos a pensar na salvação àqueles que sua justiça condenou. Todos sabem o que os profetas predisseram, que essa mi­serável cidade será destruída, quando virmos os que têm a graça de terem nasci­do judeus, manchar as mãos com assassínios de seus próprios irmãos? Esse tem­po, talvez, ainda não chegou? Toda a cidade e também o Templo ainda conser­vam os corpos daqueles que tão cruelmente massacrastes. Podemos então duvi­dar de que Deus mesmo não se una aos romanos para fazer expiar pelo fogo tanta abominação e tantos crimes?” Josefo não pôde continuar a falar, porque as lágrimas e os soluços embargaram-lhe a voz. Os romanos tiveram compaixão de seu sofrimento e admiraram seu amor pela pátria. Mas suas palavras somente conseguiram irritar ainda mais a João e aos seus e aumentar o desejo que eles tinham de poder apanhá-lo.

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