Capítulo 1 – Murmuração dos israelitas contra Moisés. Eles atacam os cananeus sem sua ordem e sem ter consultado a Deus. São postos em fuga, com grandes perdas. Recomeçam a murmurar.

Números 14. Por maiores que fossem as penas sofridas pelos israelitas no deserto, nada os afligia mais que o fato de Deus não lhes permitir guerrear con­tra os cananeus. Eles não queriam obedecer às ordens de Moisés, que lhes havia mandado ficar em descanso, e, convencidos de não terem necessidade do auxí­lio dele para vencer os inimigos, acusavam-no de querer deixá-los sempre na­quela miséria, a fim de que não pudessem passar sem ele.

Assim, resolveram empreender essa guerra, na certeza de que não era em consideração a Moisés que Deus os favorecia, mas porque Ele se havia declara­do protetor deles, como o fora de seus antepassados; que Ele, depois de os haver libertado da servidão, por causa da virtude deles, lhes daria a vitória se combatessem valentemente; que eram bastante fortes por si mesmos para ven­cer os inimigos, embora Moisés estivesse tentando impedir que Deus lhes fosse favorável; que lhes seria mais vantajoso governar-se por seu próprio conselho que obedecer cegamente a Moisés, como a um tirano, depois de sacudido o jugo dos egípcios; que já havia muito tempo se deixavam enganar por seus artifícios, quando ele se vangloriava de ter colóquios com Deus e de ser por Ele instruído em todas as coisas, como se ele, por uma graça particular, fosse o único a conhecer o futuro ou se eles não pertencessem também à raça de Abraão; que a prudência os obrigava a desprezar o orgulho de um homem e a confiar somente em Deus para conquistar um país do qual Ele lhes havia prometido a posse; e que, enfim, não deviam deixar-se mais iludir por Moisés sob o pretexto das ordens que ele fingia dar-lhes da parte de Deus.

Todas essas considerações, unidas à extrema necessidade em que se en­contravam naqueles lugares desertos e estéreis, fê-los tomar essa delibera­ção, e marcharam contra os cananeus. E aquele povo, sem se admirar de vê-los aproximar-se tão audaciosamente e em tão grande número, recebeu-os com tanta violência que mataram muitos ali mesmo e puseram os outros em fuga, perseguindo-os até o acampamento. Essa perda afligiu tanto os israelitas que, após se terem vangloriado com a esperança de um feliz resultado, cons­tataram que Deus estava irritado, porque, sem esperar ordem dEle, se haviam aventurado à guerra, e agora tinham motivo de temer ainda mais o futuro.

Moisés, vendo-os tão abatidos e temendo que os inimigos, orgulhosos pela vitória, a quisessem levar mais além, conduziu o exército para o deserto, depois que todos lhe prometeram obediência, que nada mais fariam sem o seu conselho e só atacariam os cananeus depois de receber ordens de Deus. Porém, como os grandes exércitos obedecem com dificuldade aos seus chefes, principalmente quando so­frem muito, os israelitas, cujo número era de seiscentos mil combatentes e que mes­mo na prosperidade eram muito indóceis, oprimidos por tantas dificuldades, reco­meçaram a murmurar contra Moisés e voltaram toda a sua cólera contra ele.

Essa sedição progrediu tanto que não conhecemos outra semelhante, seja en­tre os gregos, seja mesmo entre os bárbaros, e teria causado a ruína inteira do povo se Moisés, sem considerar a ingratidão que demonstravam, querendo apedrejá-lo, não os tivesse livrado do perigo por um ato extraordinário de sua bondade. Eles estavam não somente ultrajando o seu legislador, mas ao próprio Deus, despre­zando os mandamentos que Ele lhes havia preparado. Vou dizer-lhes qual foi a causa dessa sedição e do proceder de Moisés, depois de a ter debelado.

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