Capítulo 37 – Sacrilégios cometidos por João no Templo.

Depois que João reduziu o Templo a esse estado, que nele nada mais lhe restava para saquear, tendo-o despojado completamente, passou das pilhagens ordinárias aos sacrilégios. Atreveu-se, por uma impiedade inominável, que sobrepuja mesmo a toda credulidade, a tomar diversos dons oferecidos a Deus no Templo, e o que era destinado para o divino serviço, como taças, cálices, pratos, mesas, até mes­mo vasos de ouro que Augusto e a imperatriz sua esposa tinham oferecido. Os impe­radores romanos sempre tiveram veneração por esse Templo e demonstraram, por meio de presentes, o prazer que sentiam em enriquecê-lo. Assim, viu-se um judeu arrancar daquele lugar sagrado, por uma execrável impiedade, aqueles objetos veneráveis que estrangeiros lhe haviam dado e tinha ele ainda a desfaçatez de dizer aos que tinham entrado na sociedade de seus crimes, que podiam sem temor usar das coisas consagradas a Deus, pois era por Deus que eles combatiam. Ousou mesmo tomar, sem receio, e dividir com eles, o vinho e o óleo que os sacerdotes conserva­vam na parte interior do Templo, para empregá-los nos sacrifícios.

Deve-se pois perdoar à minha dor, o que ouso dizer: que se os romanos tives­sem diferido em castiaar Delas armas tão grandes criminosos, creio que a terra se teria aberto para tragar aquela miserável cidade; ou ela teria perecido por um outro dilúvio, ou teria sido destruída pelo fogo do céu como Gomorra, pois as abominações que ali se cometiam e que por fim causaram a ruína de todo o povo sobrepujavam as que obrigaram Deus a lançar seus raios vingadores sobre aquela outra detestável cidade.

Jamais poderia fazê-lo, se tivesse querido relatar em particular todos os males que sobrevieram durante esse cerco, mas poder-se-á julgar, a esse respeito, pelo pouco que vou dizer: Maneu, filho de Lázaro, depois de ter fugido para junto de Tito, disse-lhe que desde o dia catorze de abril até primeiro de julho, haviam passado cento e quinze mil oitocentos e oitenta corpos de mortos, pela porta onde ele estava de guarda e, entretanto, apenas havia contado aqueles, dos quais era obrigado a saber o número, por causa de uma distribuição pública de que estava encarregado. Quanto aos outros, os parentes tinham o cuidado de enterrá-los, isto é, de levá-los para fora da cidade, pois era apenas isso a sepultu­ra que se lhes dava. Outros fugitivos, que eram pessoas da nobreza, afirmaram que o número dos pobres que tinham sido levados desse modo para fora da cidade, não era inferior a seiscentos mil. O dos outros, era incrível. E como por fim não se podiam transportar tantos corpos, era-se obrigado a lançá-los em grandes casas, das quais se fechavam as portas. Um pacote de trigo valia um talento, e depois da construção do muro que rodeava toda a cidade, os pobres, não podendo mais sair para procurar ervas, tinham sido reduzidos a tal extremo, que iam mesmo nos esgotos, procurar velho estéreo de boi para comer e outras imundícies cuja vista somente causa horror. Os romanos não puderam ouvir falar de tantas misérias sem se sentir movidos à compaixão. Mas os revoltosos tudo viam sem se arrepender, de lhes terem eles sido a causa, porque Deus os cegava de tal modo, que eles não viam o precipício em que iam cair com toda aquela desgraçada cidade.

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