Capítulo 17 – Sobrevem espantosa tempestade durante a qual os zelotes, sitiados no Templo, saem e vão abrir as portas da cidade aos idumeus, que depois de ter derrotado o corpo da guarda dos habitantes, que cercava o Templo, apoderam-se de toda a cidade onde praticam toda sorte de horríveis crueldades.

Simão falou assim e todos os idumeus demonstraram com gritos que aprovavam o que ele tinha dito; Jesus retirou-se muito triste por ver na disposi­ção em que eles se achavam que a cidade era presa de uma dupla guerra. Os idumeus, por seu lado, não estavam em menor agitação de espírito; eles não podiam tolerar a ofensa que se lhes haviam feito, por não se lhes terem aberto as portas; achavam que os zelotes não eram tão fortes como eles haviam imagina­do e o desgosto por não poder socorrê-los, os fazia arrependerem-se de ter vin­do. A vergonha de voltar sem nada ter feito levou-os, entretanto, a outros senti­mentos; assim, resolveram ficar e acamparam perto das mulhares da cidade.

Na noite seguinte, sobreveio uma horrível tempestade: a violência do vento, a impetuosidade da chuva, a quantidade de relâmpagos, o ribombar hor­rível do trovão, e um tremor de terra, acompanhado de rugidos, perturbou de tal modo a ordem da natureza, que todos julgaram presságio de grandes desgraças.

Os habitantes de Jerusalém e os idumeus eram, a esse respeito, da mesma opinião. Estes últimos acreditavam que Deus estava encolerizado, por eles terem tomado as armas; julgavam não poder evitar o castigo, se continuassem a fazer a guerra à sua capital. Anano e os do seu partido estavam persuadidos de que Deus declarando-se daquele modo em seu favor, eles seriam vencedores, sem combater. Mas os fatos demonstraram que uns e outros se enganavam.

Os idumeus, durante a tempestade, uniram-se apertando-se uns contra os outros, cobrindo-se com seus escudos. Os zelotes, que estavam ainda mais aflitos do que eles mesmos, reuniram-se para deliberar sobre os meios de ajudá-los. Os mais ousados propuseram atacar o corpo de guarda dos sitiantes e depois de os terem repelido, abrir as portas da cidade aos idumeus. Disseram, para apoiar sua opinião que a execução daquele projeto não era tão difícil como se poderia imagi­nar, porque a maior parte dos que compunham o corpo de guarda eram homens mal armados e pouco aguerridos; atacando-os de improviso seria fácil vencê-los; a grande tempestade havia encerrado a todos os outros em suas casas e dificilmente eles se poderiam reunir. Porém, mesmo quando a empresa fosse mais arriscada, não havia perigo aos quais eles não se devessem expor, antes que ter vergonha de deixar perecer tantas tropas que tinham vindo socorrê-los.

Os mais prudentes eram de parecer contrário, porque viam que não somen­te haviam dobrado o número de guardas, do lado em que eles estavam, contu­do os muros da cidade eram também mais cuidadosamente vigiados, por cau­sa dos idumeus que estavam perto e não duvidavam de que Anano fazia, segundo o costume, a ronda em todas as horas da noite, pois era certo que ele sempre fazia assim. No entanto, para sua infelicidade e dos seus, mais do que por negligência, naquela noite ele tinha ido descansar um pouco e quando a tempestade começou a amainar, os que montavam guarda à porta do Templo estavam cansados e com sono.

Os zelotes decidiram-se: serraram com ferramentas que acharam no Tem­plo os ferrolhos e os gonzos das portas e nisso o vento e os trovões muito os ajudaram, pois os que vigiavam não ouviram ruído algum. Saíram depois do Templo, deslizaram mansamente até as portas da cidade e abriram-nas, do mes­mo modo como haviam aberto as do Templo. A princípio os idumeus julgaram que era Anano que vinha contra eles e tomaram as armas; mas logo o percebe­ram e entraram na cidade. Se no furor em que estavam eles tivessem naquele momento voltado suas armas contra o povo, tê-lo-iam passado a fio de espada; mas os zelotes disseram-lhes que, como eles tinham vindo para socorrê-los, de­veriam começar por libertar os que estavam encerrados no Templo e que depois de ter dizimado o corpo de guarda dos sitiantes, ser-lhes-ia fácil apoderar-se da cidade; ao passo que, se antes da libertação os habitantes dessem o alarme, eles reunir-se-iam em tão grande número, que poderiam sem dificuldade atingir os lugares mais elevados onde seria impossível atacá-los. Os idumeus aceitaram essa advertência, entraram, pela cidade, no Templo e seguidos por aqueles que lá os esperavam com tanta impaciência, tornaram a sair imediatamente para juntos atacarem o corpo da guarda dos sitiantes. Mataram os que estavam dormindo; os gritos dos demais deram o aviso; os habitantes então tomaram as armas com aquele espanto que bem se pode imaginar. Entretanto, como eles julgavam, a princípio, que só tinham que combater contra os zelotes, não punham em dúvi­da poder vencê-los por seu grande número, mas quando viram que os idumeus haviam entrado na cidade, juntamente com eles, foram tomados de tal terror, que a maior parte abandonou as armas e começou a gritar e a se lastimar. Ou­tros, iam espalhando pela cidade a triste notícia de sua ruína e somente um pequeno número de jovens teve coragem de opor resistência, enfrentando vigorosamente os inimigos. Ninguém, porém, ousava vir em seu auxílio, tanto a entrada dos idumeus lhes havia abatido o ânimo; contentavam-se com vãs lamentações que ressoavam no ar com os gritos das mulheres. A tanto barulho juntavam-se os gritos dos idumeus que os dos zelotes aumentavam e a tempes­tade tornava ainda mais espantoso. Os idumeus eram naturalmente muito cruéis e o que eles tinham sofrido com essa grande tempestade os havia irritado muito contra os que lhes haviam fechado as portas; por isso não pouparam a ninguém. Os que recorriam aos rogos não experimentavam menos sua desumanidade do que os que lhes resistiam e era-lhes inútil alegar serem todos do mesmo sangue e comum a todos, aquele augusto Templo, consagrado a Deus; os idumeus sufo­cavam-lhes, com a morte, as palavras na boca e não restava àqueles infelizes habitantes um meio de escapar nem qualquer esperança de salvação. Seu temor contribuía ainda mais para sua ruína, do que o furor dos idumeus, porque os fazia apertarem-se de tal modo, que não podendo recuar, eles não erravam um golpe sequer. Alguns, para evitar serem mortos pelos idumeus, matavam-se, ati-rando-se do alto das muralhas. O sangue corria de todos os lados em redor do Templo, e quando o dia começou a raiar, havia oito mil e quinhentos corpos estendidos pelo chão.

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