Capítulo 10 – João de Giscala foge para Jerusalém e engana o povo, dizendo-lhe falsamente do estado das coisas. Divisão entre os judeus e misérias da Judéia.

Quando João e os revoltosos que o haviam seguido chegaram a Jerusa­lém, todo o povo reuniu-se junto deles para lhes pedir notícias sobre as desgra­ças que havia desabado sobre sua infeliz nação. Estavam eles tão cansados e ofegantes pela fuga que mal podiam falar, o que respondia muito bem por eles; nada, porém, fê-los abater o orgulho e eles disseram que não fugiam dos roma­nos, mas vinham voluntariamente unir-se a eles, para combatê-los de um lugar mais vantajoso, porque seria imprudência perecer inutilmente num lugar tão difícil como Giscala, quando deviam conservar-se para defender sua capital. João e os seus assim falando, apresentaram a retirada com um pretexto tão honesto, que muitos acharam que era verdade e a narração de alguns prisioneiros espan­tou de tal modo o povo, que ele considerou a ruína de Giscala como a de Jerusa­lém. Mas João, sem demonstrar a menor vergonha, por ter abandonado na fuga um número tão grande de pessoas, tudo fez para incitá-los à guerra, animando-os com a persuasão de que eles eram muito mais fortes que os inimigos. Procu­rava persuadir aos simples de que mesmo que os romanos tivessem asas, jamais poderiam entrar em Jerusalém, e disso não havia melhor prova do que o extremo trabalho que tiveram para tomar pequenas praças da Galiléia, onde todas as suas máquinas foram destruídas. Os moços deixavam-se enganar por estas palavras, porém, os mais velhos, os mais sensatos, previam todas as desgraças e já se consideravam perdidos.

Era grande a perturbação e a confusão que reinavam em Jerusalém; antes da rebelião que surgiu em seguida, uma parte do povo do campo já se tinha começado a dividir. Quando Tito, depois da tomada de Giscala, se dirigiu a Cesaréia, Vespasiano já tinha partido e ele se apoderou de Jamnia e Azoto, colocou guarnições nas mesmas e levou com ele, regressando, um grande nú­mero de pessoas que se haviam colocado sob a obediência dos romanos. Todas as cidades eram agitadas por revoltas e rebeliões e as armas romanas não lhes davam nem mesmo um momento de folga; elas mesmas, porém, as tomavam contra si próprias reciprocamente, tal a animosidade entre os que queriam con­servar a paz e os que desejavam a guerra. A divisão começou pelas famílias que há muito já eram inimigas; passou depois ao povo, que antes era tão unido e cada qual se colocava no partido dos que tinham as mesmas idéias e manifes­tavam-se sem temor quando chegavam a um grande número. Assim, tudo era agitação e os que desejavam a revolução e a guerra prevaleciam, por sua moci-dade e coragem, sobre os outros cuja idade, mais madura, levava a abraçar uma opinião mais sensata.

Em tal confusão cada qual roubava, por primeiro; mas depois de se terem reunido praticavam abertamente toda sorte de furto e não causavam menos mal que os romanos. Dessa forma, não havia qualquer diferença entre o mal que as pessoas sofriam de uns e de outros, senão que era muito mais doloroso ser assim tratado por homens de sua própria nação do que por estrangeiros.

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