Capítulo 24 – Josefo salva-se, escondendo-se numa caverna, onde encontra quarenta dos seus. É denunciado por uma mulher. Vespasiano manda um seu amigo tribuno dar-lhe as garantias que ele pudesse desejar; Josefo resolve entregar-se.
Como os romanos estavam muito irados contra Josefo e Vespasiano estava persuadido de que uma grande parte da continuação daquela guerra dependia de tê-lo em suas mãos, procuraram-no com grande interesse, por toda a parte, onde se julgava estar ele escondido, mas também entre os mortos. Ele fora tão feliz, que depois da queda da cidade, fugindo pelo meio dos inimigos, desceu a um poço muito profundo, ao lado do qual havia uma caverna espaçosa, que não podia ser vista do alto. Lá encontrou quarenta dos mais valentes dos seus, que também ali se tinham refugiado e que tinham todo o necessário para vários dias. Lá ficou o dia todo e só saiu à noite para observar os guardas inimigos e ver se havia algum meio de salvação. Não o encontrando, porém, tanto os guardas eram fiéis, voltava para a caverna. Dois dias assim se passaram; no terceiro, uma mulher o denunciou. Vespasiano mandou Paulino e Calicano, dois tribunos, garantir-lhe que o trataria bem, exortando-o a sair; ele não quis fazê-lo, porque, não estando persuadido da clemência dos romanos, e sabendo do seu ressentimento, pelo mal que lhes havia feito, temia que quando o tivessem em seu poder, procurassem vingar-se. Vespasiano mandou-lhe outro tribuno, de nome Nicanor, muito conhecido de Josefo, que lhe falou da generosidade dos romanos para com os vencidos; que sua virtude, em vez de ter granjeado o ódio de seus generais, lhes havia causado admiração; que eles estavam tão longe de querer torturá-lo como o poderiam fazer, se quisessem, sem que para isso fosse preciso que ele se entregasse, que só pensavam, ao invés, em conservá-lo pelos seus méritos; e se Vespasiano tivesse tido algum mau desígnio, não teria escolhido um de seus amigos para mandar-lho, como ministro de uma perfídia, com o pretexto de amizade; mas, quando mesmo lho tivesse ordenado, ele desobedeceria, antes que executar uma ordem tão indigna de um homem honrado. Estas palavras, embora tão claras, não conseguiram, porém, persuadir de todo a Josefo, e os soldados romanos, irritados com tal resistência, quiseram incendiar a caverna; mas Vespasiano os conteve, porque o queria vivo em suas mãos. No entanto, Nicanor insistia cada vez mais e as ameaças dos soldados aumentavam sempre, porque seu número também aumentava. Josefo então lembrou-se dos sonhos que tivera, nos quais Deus lhe fizera ver as desgraças que sucederiam aos judeus e os felizes resultados obtidos pelos romanos, pois ele sabia explicar os sonhos e ver a verdade mesmo no meio das trevas, a qual Deus muitas vezes se compraz em esconder e como ele era sacerdote, também conhecia as profecias que estão nos livros santos. Como se, naquele momento, estivesse cheio do Espírito de Deus, tudo o que Ele lhe havia feito ver nos sonhos, pareceu renovar-se, e ele dirigiu-lhe esta oração: “Grande Deus, Criador do universo, pois que resolvestes terminar a prosperidade dos judeus, para aumentar a dos romanos e me escolhestes para lhes predizer o que está para acontecer, eu me submeto à vossa vontade, entrego-me aos romanos e consinto em continuar a viver. Mas protesto diante de vossa eterna majestade que, como um vosso ministro e não como um traidor, eu me entrego a eles.”
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