Capítulo 19 – Herodes expulsa Feroras, seu irmão, da corte, porque não queria repudiar sua mulher e este morre na tetrarquia. Herodes vem a saber que ele tinha querido envenená-lo ante a insistência de Antípatro e elimina de seu testamento Herodes, um de seus filhos, porque Mariana, sua mãe, filha de Simão, sumo sacerdote, tivera parte naquela conspiração de Antípatro.*

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* Este registro também se encontra no Livro Décimo Sétimo, capítulos 3, 5, 6 e 7, Antigüidades Judaicas, Parte I.

 

Herodes, não sabendo como castigar a mulher de Feroras, que ele tinha tantos motivos de odiar, insistia, mais que nunca, que a repudiasse; não poden­do conter sua cólera, porque Feroras se obstinava em conservá-la, expulsou-os, a ambos, de sua corte. Feroras ficou muito aborrecido; retirou-se para sua tetrarquia e jurou jamais voltar, enquanto Herodes vivesse. Observou o seu juramento, pois Herodes numa grande enfermidade pela qual ele passou, pediu diversas vezes que viesse visitá-lo, porque tinha ordens importantes a lhe dar antes de morrer, mas ele jamais o atendeu. Herodes, contra toda esperança, sarou e manifestou logo muito do seu bom caráter, porque Feroras também, por sua vez, adoeceu e ele foi logo visitá-lo, assistindo-o com grande cuidado. O mal, porém, foi mais poderoso que os remédios e ele morreu alguns dias depois; embora Herodes sempre lhe demonstrasse grande afeto, não deixou de correr o boato de que o tinha envenenado. Ele mandou trazer seu corpo a Jerusalém, ordenou luto públi­co e mandou fazer-lhe magníficos funerais.

Este foi o fim de um daqueles que mais haviam contribuído para a ruína de Alexandre e de Aristobulo; esta morte foi o começo da ruína de Antipatro, o principal autor de tão horrível maldade. Na aflição em que alguns libertos de Feroras estavam pela morte do amo, foram dizer ao rei que ele tinha sido enve­nenado pela própria mulher, que ela lhe tinha dado uma bebida que o fizera cair logo doente e, dois dias antes, ela e sua mãe tinham mandado vir uma mulher da Arábia que era tida como grande envenenadora, a fim de lhe dar aquela bebida, própria, dizia ela, para causar amor; mas era na verdade um veneno mortal, que ela tinha trazido por ordem de Sileu, de quem era muito conhecida.

Herodes, impressionado com estas palavras e com tantos outros motivos de suspeita que já tinha, mandou torturar a alguns daqueles libertos e libertas, uma das quais, não podendo resistir à violência das dores, exclamou: “Deus, que tudo podeis, no céu e na terra, vingai na mãe de Antipatro os males de que ela é causa de que sofremos agora.” Essas palavras começaram por fazer Herodes abrir os olhos e tudo ele fez para conhecer a verdade. Assim ele soube de uma dessas libertas, dos entendimentos que a mãe de Antipatro tinha com Feroras e com as outras mulheres, de suas reuniões secretas e de que, quando Feroras e Antipatro voltavam do palácio, passavam com elas a noite inteira em banquetes, sem per­mitir a presença de seus domésticos. Mandou depois torturar separadamente a cada uma das mulheres e todas as suas declarações estavam de acordo: Herodes soube também que Antipatro havia cuidado de sua viagem a Roma e que Feroras se havia retirado para além do Jordão. Soube também de que os haviam ouvido dizer muitas vezes, que nada havia que a morte de Mariana, de Alexandre e de Aristobulo não desse motivo às suas mulheres de temer por ele, pois que não tendo poupado sua própria esposa e seus filhos, seria iludir-se crer que os poupa­ria e que assim o partido mais seguro para eles era afastar-se o mais possível daquele animal feroz.

Aquelas mulheres declararam ainda que Antípatro se queixava muitas vezes à sua mãe de que sendo já velho, seu pai rejuvenescia todos os dias; que ele mor­reria talvez antes dele e que mesmo quando ele o sobrevivesse, o que era uma coisa ainda remota, o prazer de reinar teria já passado, quando o tivesse apenas começado a gozar; que via, de outro lado, renascerem as cabeças da hidra na pessoa dos filhos de Alexandre e de Aristóbulo, e que ele não podia esperar deixar o reino aos seus filhos, pois Herodes havia declarado que queria que de­pois dele, passasse a Herodes, que ele tivera de Mariana, filha de Simão, o sumo sacerdote; mas que era preciso que ele tivesse perdido a razão, para imaginar que ele manteria seu testamento e que não daria um só da sua família; que embora pai algum jamais tivesse odiado tanto seus filhos como Herodes odiava os seus, ele odiava ainda mais seus irmãos, e disso não havia prova melhor, do que lhe ter dado cem talentos, para obrigá-lo a não falar mais com Feroras.

Aquelas mulheres acrescentavam que quando Feroras lhes perguntava “Que lhe fizemos?” ele respondia “Prouvesse a Deus que ele se contentasse de nos tirar tudo, até nossa camisa, e nos deixasse pelo menos a vida: mas é o que não poderemos esperar de um animal tão cruel, o qual não pôde tolerar que aqueles que se amam, tenham a liberdade de o manifestar reciprocamente. Assim, nos encontramos reduzidos a nos podermos ver somente em segredo. Mas, se tiver­mos coragem e nossas mãos secundarem nossa energia, poderíamos fazê-lo aber­tamente.” Estas foram as confissões das mulheres mediante tortura, quando dis­seram também que Feroras tinha deliberado fugir com os outros para Petra.

Esta particularidade de cem talentos fez que Herodes acreditasse em tudo o mais, porque ele só tinha falado com Antípatro. Sua cólera começou então a explodir. Dóris, mãe de Antípatro, foi quem por primeiro lhe sofreu os efeitos. Ele a privou de todas as jóias e pedras preciosas que lhe havia dado no valor de vários talentos e a expulsou do palácio. Satisfeito assim, de algum modo, ele ordenou que deixassem de torturar as mulheres. Mas seu espírito cheio de medo tornava-o tão suspeitoso, que para não deixar de castigar todos os que poderiam ser culpados, ele mandava torturar também inocentes.

Um certo Antípatro, samaritano, intendente de Antípatro, seu filho, con­fessou mediante tortura, que seu amo tinha mandado ao Egito um de seus amigos, chamado Antifilo para trazer-lhe veneno, a fim de envenená-lo, e que Antifilo tinha dado a Tudiom, tio de Antípatro, e Tudiom a Feroras; que Antípatro tinha pedido que o ministrasse a Herodes, quando ele estivesse em Roma, a fim de que não pudessem desconfiar dele, e Feroras tinha entregue esse veneno à sua mulher. Herodes mandou buscar imediatamente a viúva de Feroras e ordenou-lhe que lhe trouxesse o veneno. Ela saiu dizendo que ia buscá-lo, mas atirou-se do alto de uma janela para se livrar dos tormentos que temia Herodes a fizesse sofrer. Deus, que queria castigar Antípatro, permitiu que ela não caísse sobre a cabeça e ficasse somente sem sentidos; levaram-na novamente ao rei. Quando voltou a si, ele per­guntou-lhe o que a havia levado a tentar contra a própria vida, prometendo-lhe, com juramento, que não lhe faria mal algum, contanto que lhe dissesse a verdade; mas se ela mentisse, fá-la-ia morrer entre tormentos e a privaria da honra da sepul­tura. Ela ficou algum tempo sem falar e depois disse: “Agora, que meu marido morreu, guardarei ainda segredo, para conservar a vida a Antípatro, que é a única causa de nossa desgraça? Escutai, majestade, o que eu vos vou declarar na presen­ça de Deus, que não pode ser enganado e que eu tomo como testemunha da veracidade de minhas palavras. Quando eu estava debulhada em lágrimas, junto de Feroras, que estava no fim da vida, ele me disse: “Eu me enganei muito, minha mulher, no juízo que fazia dos sentimentos do rei meu irmão por mim, pois, na certeza de que ele me odiava, eu também o odiava, de tal modo que tinha mesmo resolvido matá-lo e agora vejo-o, ao contrário, oprimido pela dor, pelo receio que tem de minha morte. Mas Deus me castigou como eu mereço. Vai buscar o vene­no que Antípatro te deu para guardar, a fim de queimá-lo em minha presença e que eu não leve para o outro mundo uma alma ralada de remorsos de tão grande crime”. Eu obedeci e queimei o veneno diante de seus mesmos olhos, mas guardei uma pequena quantidade do mesmo, pelo medo que tinha de vossa majestade, para deles me servir contra mim mesma, se viesse a ter necessidade disso.” Ela mostrou depois a caixinha na qual havia um pouco do pó venenoso. Herodes mandou torturar a mãe e a irmã de Antifilo e elas confessaram que aquele veneno tinha sido trazido do Egito, naquela caixinha e que seu irmão, que era médico em Alexandria, lho havia entregue.

Parecia que os espíritos de Alexandre e de Aristóbulo andavam vagando por toda a parte, para descobrir as coisas mais ocultas e obter testemunhas e provas, da boca daqueles que estavam mais afastados das suspeitas, pois os ir­mãos de Mariana, filha de Simão, sumo sacerdote, foram torturados e veio-se a saber pelas suas confissões que ela era culpada daquela conspiração. Herodes castigou nos filhos o crime da mãe: riscou do testamento o nome de Herodes, que dela tivera e que ele tinha declarado seu sucessor.

 

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