Capítulo 6 – Alexandre, filho de Aristóbulo, arma um exército na Judéia, mas é derrotado por Gabínio, general de um exército romano, que reduz a Judéia a república. Aristóbulo escapa de Roma, vem a Judéia e reúne tropas. Os romanos vencem-no numa batalha e Gabínio o devolve prisioneiro a Roma. Gabínio vai fazer guerra no Egito. Alexandre reúne grandes forças. Gabínio, estando de volta, dá-lhe batalha e a ganha. Crasso sucede a Gabínio no governo da Síria, saqueia o Templo e é derrotado pelos partos. Cássio vem à Judéia. Mulher e filhos de Antípatro. *

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* Este registro também se encontra no Livro Décimo Quarto, capítulos 9, 10, 11 e 12, Antigüidades Judaicas, Parte I.

 

Escauro avançou com seu exército para Petra, capital da Arábia; a difi­culdade dos caminhos retardou sua marcha e seus soldados devastavam tudo o que estava nos arredores de Pella; mas Antípatro ajudou-o com víveres, por ordem de Hircano e, como ele estava muito bem no espírito de Aretas, rei dos árabes, Escauro mandou-o a ele para tentar livrá-lo daquela guerra, por meio de uma soma de dinheiro e ele agiu com tanta habilidade, que o persuadiu a dar trezentos talentos. Assim, Escauro retirou-se.

Alexandre, filho de Aristóbulo, depois de ter sido liberto da prisão, oprimia Hircano e esperava logo poder atacá-lo em Jerusalém, porque os muros derrubados por Pompeu não tinham ainda sido reconstruídos. Mas Gabínio, que tinha substituído Escauro, e que era um grande general, mar­chou contra ele. Alexandre, temendo tão poderoso inimigo, pensou unica­mente em se pôr na defensiva. Reuniu mais de dez mil soldados de infanta­ria, e mil e quinhentos cavaleiros; cuidou em fortificar Alexandriom, Hircânia e Maquerom, que estão próximas das montanhas da Arábia. Gabínio man­dou na frente, contra ele, Antônio, com uma parte do exército, fortalecido com tropas escolhidas, que Antípatro comandava e um grande número de judeus, dos quais Malico e Pitolau eram os chefes; ele seguiu-os e logo os alcançou, com o restante. Alexandre, achando-se muito fraco para susten­tar tão grande choque, retirou-se; mas não pôde evitar um combate perto de Jerusalém. Lá perdeu seis mil homens dos quais a metade morreu, os outros foram feitos prisioneiros; ele salvou-se com o restante em Alexandriom. Gabínio perseguiu-o para reconduzir ao seu partido vários judeus que o tinham abandonado, prometeu perdoar-lhes; estes, porém, responderam-lhe ousadamente e ele os atacou; vários foram mortos e os outros, obriga­dos a se retirar ao castelo; Antônio fez maravilhas nessa ocasião, pois, por mais valor que tivesse mostrado em todas as outras, naquele dia superou-se a si mesmo. Gabínio, tendo deixado tropas para continuarem o cerco, foi visitar todas as praças da província, restabeleceu a ordem nas que não ti­nham sido destruídas e reconstruiu as que o tinham sido. Assim, Citópolis, Samaria, Antedom, Apolônia, Jamnia, Rafia, Marissa, Dora, Gamala, Azoto e várias outras repovoaram-se, pois seus antigos habitantes voltaram de todas as partes, com grande alegria. Depois de ter dado todas estas ordens, ele voltou ao cerco de Alexandriom e o apertou ainda mais. Então Alexandre, não se vendo em condições de poder resistir por mais tempo, mandou pedir que o perdoasse, com a condição de lhe entregar não somente Alexandriom, mas também as fortalezas de Maquerom e Hircânia. Dessa forma, Gabínio tornou-se senhor de todas elas, mandou destruí-las inteira­mente, a conselho da mãe de Alexandre, para que não pudessem para o futuro servir de motivo a uma nova guerra, pois o temor que essa princesa tinha, por seu marido e por seus outros filhos prisioneiros em Roma, a leva­va a tudo fazer para ganhar o afeto de Gabínio.

Este sábio e experimentado general levou, em seguida, Hircano a Jerusa­lém, deu-lhe o cuidado do Templo, entregou aos outros principais dos judeus a direção dos negócios da república e dividiu a província em cinco jurisdições, das quais a primeira colocou em Jerusalém, a segunda em Gadara, a terceira em Amate, a quarta em Jerico, e a quinta em Séforis, que é cidade da Galiléia. Dessa forma, os judeus, não se encontrando mais sujeitos ao governo de um só, demonstraram receber com alegria o governo aristocrático.

Mas não se passou muito tempo sem que sobreviessem novas pertur­bações. Aristóbulo escapou de Roma e reuniu um grande número de judeus, uns porque gostavam das agitações e outros pelo antigo afeto que lhe devo­tavam. Começou por querer restaurar Alexandriom e rodeá-la de muralhas. Mas tendo sabido que Gabínio mandava contra ele Cisena, Antônio e Servílio com tropas, retirou-se para Maquerom, despediu tudo o que tinha de ho­mens inúteis, reteve somente oito mil que estavam bem armados e fortale­ceu-se com mil outros que Pitolau, seu lugar-tenente general, lhe levou de Jerusalém. Os romanos seguiram-no, alcançaram-no e travou-se a batalha. Nada se pode acrescentar ao valor que Aristóbulo e os seus demonstraram naquele dia; mas, por fim, os romanos obtiveram a vitória: cinco mil judeus foram mortos, dois mil escaparam e salvaram-se numa colina; Aristóbulo, com o restante, abriu passagem entre os inimigos e retirou-se a Maquerom. Che­gou à tarde e o encontrou destruído, mas esperava repará-lo por meio de uma trégua e reunir novas tropas. Os romanos não lhe deram, porém, a opor­tunidade. Ele sustentou durante dois dias seu ímpeto, com extraordinária co­ragem. No fim desse tempo foi aprisionado e enviado a Gabínio, e de lá, a Roma, com Antígono, seu filho, que com ele se salvara. O Senado conservou o pai prisioneiro e mandou o filho para a judéia, ante o que Gabínio escreveu que ele tinha prometido à sua mãe, em consideração às praças que ela lhe havia entregado.

Quando Gabinio se preparava para marchar contra os partos, foi chama­do a outro lugar, porque Ptolomeu, depois de ter deixado o Eufrates, voltava para o Egito. Não houve auxílio que Hircano e Antípatro não lhe prestassem nessa guerra. Ajudaram-no com homens, trigo, armas e dinheiro: Antípatro per­suadiu aos judeus de Pelusa, que eram como guardas da entrada no Egito, que lhe dessem a passagem que ele pedia.

Gabinio, ao seu regresso do Egito, encontrou toda a Síria perturbada pela nova revolta que Alexandre, filho de Aristóbulo, lá havia suscitado. Este príncipe tinha reunido um grande número de judeus e matava todos os romanos que caíam em suas mãos. Gabinio levou ao seu partido alguns judeus, por intermédio de Antípatro, mas trinta mil continuaram fiéis a Alexandre e ele não teve receio, com aquele número, de travar uma batalha. Esta ocorreu perto do monte Itaburim. Os romanos ganharam-na, Alexandre perdeu dez mil homens e salvou-se com o restante. Gabinio, depois dessa vitória, foi, a conselho de Antípatro, a Jerusalém, para pôr as coisas em ordem. Marchou em seguida contra os nabateenses e os derrotou em um grande combate. Despediu secretamente dois senhores partos de nome Mitrídates e Orsane que se haviam abrigado junto dele e fez correr a notícia de que haviam escapado para voltar ao seu país.

Crasso sucedeu a Gabinio no governo da Síria e, para prover às necessi­dades das despesas da guerra contra os partos, ele tomou, além dos dois mil talentos nos quais Pompeu não quisera tocar, todo o ouro que encontrou no Templo. Passou em seguida o Eufrates e foi derrotado com todo seu exército, mas agora não é o momento de falarmos disso.

Cássio retirou-se para a Síria e deteve assim o progresso dos partos, que se preparavam para lá entrar. De lá passou à Judéia, tomou Tariquéia e levou escravos mais ou menos trinta mil judeus. Pitolau, que tinha seguido o partido de Aristóbulo, era desse número; fê-lo morrer, a conselho de Antípatro. A mulher desse Antípatro, de nome Cipro, era de uma das mais ilustres famí­lias da Arábia. Tinha quatro filhos, Fazael, Herodes, que depois foi rei, José e Feroras, e uma filha de nome Salomé. Seu sábio proceder e liberalidade gran-jearam-lhe a amizade de muitos príncipes e particularmente do rei dos ára­bes, ao qual ele havia entregue seus filhos, para que os guardasse, enquanto fazia guerra a Aristóbulo. Quanto a Cássio, depois de ter tratado com Aristóbulo, regressou para o Eufrates, para impedir que os partos o passas­sem, como diremos em outro lugar.

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