Capítulo 19 – Aristóbulo, filho mais velho de Hircano, príncipe dos judeus, faz-se coroar rei. Associa o seu irmão Anttgono à coroa, põe os outros na prisão e também a sua mãe, a qual faz morrer de fome. Desconfia de Anttgono, manda matá-lo e morre de tristeza.

Aristóbulo, que era o mais velho dos filhos de Hircano, cognominado Filelés, isto é, “amigo dos gregos”, mudou em reino, após a morte de seu pai, o principado dos judeus e foi assim o primeiro que se fez coroar rei. Isso aconteceu quatrocentos e oitenta e um anos depois da volta dos judeus libertados do cativeiro da Babilônia ao seu país. Como estimava muito Antígono, o segundo dos irmãos, chamou-o à coroa, associando-o no governo, e mandou colocar na prisão os outros três. Man­dou também lá encerrar a própria mãe, porque ela também queria reinar e porque Hircano, ao morrer, colocara o governo nas mãos dela. Sua horrível crueldade che­gou a tal excesso que ele a deixou morrer de fome na prisão. A esse crime acrescen­tou o de mandar matar o seu irmão Antígono, que ele demonstrara amar tanto. Calúnias foram a causa disso, embora de início ele as tenha rejeitado, em parte pelo afeto que lhe nutria e parte por estar persuadido de que haviam sido maliciosamente inventadas. Esse crime tão deplorável aconteceu assim:

Estava ele enfermo, e Antígono voltou da guerra com grande aparato, quan­do se celebrava a festa dos Tabernáculos. Nessa ocasião, Antígono subiu ao Tem­plo acompanhado de alguns homens armados, sem outra intenção além de fazer orações a Deus pela saúde do rei seu irmão. Maus Espíritos, porém, serviram-se dessa oportunidade, dos felizes resultados de Antígono na guerra e de ter ele se apresentado no Templo com tanto aparato, para colocar divisão entre os irmãos. Disseram maliciosamente a Aristóbulo que Antígono, tendo se apresentado na­quela circunstância com tal aparato, durante uma festa tão solene, bem mostra­va aspirar ao trono e que voltaria bem depressa com um grande número de soldados para matá-lo, porque estava persuadido de que, podendo tornar-se senhor de todo o reino, seria tolice contentar-se apenas com uma parte.

Aristóbulo, que naquele instante estava numa torre (que depois foi chamada Antônia), não quis acreditar nessas palavras. No entanto, para garantir a própria vida sem condenar o irmão, mandou esconder alguns guardas num lugar escuro e subterrâneo, com ordem de não fazerem mal a Antígono se ele viesse desarma­do e de matá-lo se viesse armado. Mandou em seguida dizer-lhe para que viesse falar-lhe sem armas. Porém, a rainha e os outros inimigos de Antígono apanha­ram esse emissário e obrigaram-no a dizer que o rei, tendo sabido que ele tinha armas muito belas, pedia-lhe que fosse como estava, para lhe dar o prazer de mostrá-las. O príncipe, que de nada desconfiava e se fiava no afeto do rei seu irmão, veio armado como estava. E, quando chegou à torre de Estratão, onde a passagem era escura, os guardas do rei o mataram.

Essa morte tão trágica mostra de que é capaz a inveja e o que pode a calúnia: elas são tão fortes que abafam os sentimentos mais ternos de amizade natural. Não é, pois, de admirar que um certo Judas, essênio de nascimento, cujas predi-ções jamais deixavam de ser verdadeiras, tendo visto Antígono subir ao Templo, disse aos discípulos e amigos que costumavam segui-lo para verificarem os efei­tos daquela ciência que o fazia penetrar o futuro e que ele quisera estar morto, porque a vida de Antígono faria conhecer a superfluidade de suas predições, pois afirmara que ele morreria naquele mesmo dia, na torre de Estratão, o que era impossível, porque ela distava de Jerusalém uns seiscentos estádios, e a maior parte do dia já se havia passado. Quando ele assim falava, vieram dizer-lhe que Antígono fora morto num lugar subterrâneo com esse mesmo nome, Estratão, que tem uma torre à beira mar (chamada depois Cesareia). Essa semelhança de nomes havia sido a causa de sua confusão e inquietação.

Aristóbulo não tardou a se arrepender de haver tirado a vida a seu irmão, o que aumentava ainda mais a sua enfermidade. Recriminava-se continuamente por ter cometido tão horrível crime, e seu sofrimento foi tanto que ele vomitou grande quantidade de sangue. Quando um de seus servidores levava esse san­gue, aconteceu que ele o deixou cair, creio eu por permissão divina, e parte dele derramou-se no mesmo lugar onde ainda se viam vestígios do sangue de Antígono, irmão do rei. Os que o viram, julgando que ele o fazia de propósito, soltaram um grande grito, que foi ouvido pelo rei.

Ele perguntou o motivo, mas ninguém ousava dizer-lhe. O rei, porém, insistia cada vez mais, porque os homens naturalmente ficam suspeitosos quando se lhes procuram ocultar alguma coisa e passam a imaginá-la muito pior do que é na realidade. Assim, Aristóbulo, por meio de ameaças, obrigou-os a dizer a ver­dade, a qual fez sobre o seu Espírito tão forte impressão que ele disse, após derramar muitas lágrimas, soltando um profundo suspiro: “Bem parece que não se pode ocultar aos olhos de Deus uma ação tão detestável, pois Ele descarregou depressa sobre mim a sua justa vingança. Até quando este meu miserável corpo reterá a minha alma criminosa? Não é preferível morrer de uma vez que derra­mar o meu sangue gota a gota, como um sacrifício de expiação à memória da­queles aos quais fiz tão cruelmente perder a vida?”

Dizendo essas palavras, ele morreu, após reinar somente um ano. Seu país foi-lhe devedor de muitos benefícios, porque ele declarou guerra aos idumeus, con­quistou grande parte do território deles, que anexou à Judéia, e obrigou os seus habitantes a receber a circuncisão e a viver segundo as nossas leis. Era de nature­za doce e muito modesto, como refere Estrabão, com estas palavras, ante a rela­ção de Timagenes: “Esse príncipe era muito afável, e os judeus não lhe são deve­dores de pouco, porque ele levou bem longe os limites de seu país, que aumen­tou com uma parte da Ituréia e uniu esse povo a eles pelo laço da circuncisão”.

 

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