Capítulo 14 – Antíoco Eupátor sucede ao rei Antíoco Epifânio, seu pai. Judas Macabeu cerca a fortaleza de Jerusalém. Antíoco vem contra ele com um grande exército e cerca Bete-Zur. Ambos levantam o cerco e travam uma batalha. Maravilhoso feito de coragem e morte de Eleazar, um dos irmãos de Judas. Antíoco toma Bete-Zur e cerca o Templo em Jerusalém. Quando os judeus estavam quase reduzidos aos extremos, ele levanta o cerco ante a notícia de que Filipe se declarara rei da Pérsia.

O rei Antíoco Epifânio, pouco antes de sua morte, que se deu no ano cento e quarenta e nove, havia constituído Filipe, que era um de seus mais íntimos confidentes, governador do reino. Confiou a ele a coroa, o manto real e o seu anel, para que os entregasse ao filho, recomendando-lhe grande cuidado na sua educação e formação, até que ele estivesse na idade de go­vernar por si mesmo. Logo que Lísias, preceptor do jovem Antíoco, soube da morte do rei, comunicou-a ao povo e apresentou-lhe o novo rei, ao qual deu o nome de Eupátor.

Nesse mesmo tempo, os macedônios que estavam como guarnição na fortaleza de Jerusalém, ajudados pelos judeus que se haviam juntado a eles, faziam muito mal aos outros judeus. E, como essa fortaleza dominava o Templo, faziam arremetidas e matavam os que vinham oferecer sacrifícios. Judas Macabeu, não podendo mais tolerar semelhante abuso, resolveu sitiar a forta­leza. Reuniu o maior número de soldados possível e a atacou fortemente, no ano cento e cinqüenta desde que aquelas províncias haviam sido submetidas a Seleuco. Empregou duas máquinas, elevou as plataformas e tudo fez para rea­lizar o seu intento.

Alguns daqueles judeus trânsfugas saíram à noite e, na companhia de outros homens tão ímpios quanto eles, foram procurar o jovem rei Antíoco. Disseram-lhe que era próprio do cargo dele salvá-los, juntamente com outros de sua na­ção, no extremo perigo em que se encontravam, pois eram perseguidos unica­mente por haverem renunciado aos costumes judaicos, em obediência ao rei seu pai. Além disso, a fortaleza de Jerusalém e a guarnição real que lá ele havia colo­cado em breve cairiam sob o poder de judas, caso ele não mandasse imediata­mente algum socorro.

O jovem soberano, cheio de cólera ante essas palavras, mandou chamar ime­diatamente o comandante das tropas e ordenou-lhe não somente recrutar ho­mens em seu território, mas tomar soldados estrangeiros sob pagamento. Assim ele reuniu um exército de cem mil soldados de infantaria, vinte mil de cavalaria e trinta e dois elefantes, e deu o comando a Lísias. O rei partiu de Antioquia com essas tropas, veio à Iduméia e sitiou Bete-Zur. Nisso levou muito tempo, porque os habitantes se defendiam corajosamente e queimavam em grandes arremeti­das as máquinas com que ele batia nas muralhas.

Judas, sabendo da marcha do rei, levantou o cerco e veio com todas as suas tropas contra ele, acampando a setenta estádios do exército inimigo, num lugar muito estreito, chamado Bete-Zacarias. Logo que Antíoco soube disso, levantou também o cerco de Bete-Zur, para marchar contra ele. Quan­do estava próximo, mandou colocar os seus homens em ordem de batalha, ao despontar do dia. Mas como o lugar era demasiado estreito para fazer marchar à frente os elefantes, ele foi obrigado a fazê-los caminhar um atrás do outro.

Quinhentos cavaleiros e mil soldados de infantaria acompanhavam cada animal, e todos levavam uma torre cheia de arqueiros. Quanto ao resto das tropas, ele ordenou aos comandantes que se encaminhassem pelos dois flancos do monte. O exército do soberano, desse modo, lançou-se ao ataque, soltando grandes gritos, que ressoavam pelas quebradas, enquanto os seus escudos de ouro e de cobre rebrilhavam com tanto resplendor que ofuscavam a vista. Nada, porém, foi capaz de abater o ânimo de Judas Macabeu. Ele os enfrentou com tanta coragem que seiscentos dos primeiros que o atacaram caíram mortos na mesma hora.

Eleazar, seu irmão, cognominado Auran, vendo que dentre todos os elefantes havia um mais soberbamente ajaezado que os outros, julgou que o rei estaria sobre ele. Assim, sem medir a extensão do perigo a que se expunha, abriu cami­nho através dos que rodeavam esse elefante, matando vários deles e afugentan­do os demais, chegou até junto do prodigioso animal, colocou-se por baixo de seu ventre e matou-o a golpes de espada. Porém ficou esmagado sob o peso do elefante e morreu. Terminou assim gloriosamente a vida, depois de vendê-la bem caro aos inimigos.

Judas, vendo que eles eram muito superiores em número, retirou-se para Jerusalém, a fim de continuar o cerco da fortaleza. Antioco, depois de enviar parte de suas tropas contra Bete-Zur, marchou para Jerusalém com o resto do exército. Quando os habitantes de Bete-Zur, que tinham falta de víveres, se viram tão fortemente atacados, entregaram-se, depois de os inimigos prome­terem com juramento não lhes fazer mal algum. Mas Antioco faltou-lhes à pa­lavra, pois lhes conservou somente a vida, expulsando-os nus da cidade, onde estabeleceu uma guarnição. Sitiou em seguida o Templo, em Jerusalém, e o cerco durou muito tempo, porque os judeus se defendiam valentemente, der­rubando as máquinas com outras máquinas. Os víveres, porém, começavam a faltar, porque era o sétimo ano, no qual a nossa lei proíbe semear e cultivar a terra. Assim, muitos foram obrigados a se retirar, e só uns poucos ficaram para continuar a resistir ao cerco.

Estavam as coisas nesse pé, quando o rei e Lísias souberam que Filipe se declarara rei e vinha da Pérsia avançando contra eles. Essa notícia os obrigou a levantar o cerco, sem que se falasse de Filipe aos comandantes ou aos solda­dos. Lísias teve do rei somente ordem para dizer-lhes que o Templo era tão forte que seria necessário muito tempo para conquistá-lo, que o exército co­meçava a sentir falta de víveres e que interesses do Estado chamavam o rei a outros lugares. E, como os judeus, ciosos da observância de suas leis, preferiam a morte e estavam sempre prontos a recomeçar a guerra, era preferível fazer amizade e aliança com eles e voltar à Pérsia. Lísias falou-lhes desse modo, e as suas palavras foram aprovadas e aceitas.

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