Capítulo – 6 Caio quer ser adorado como um semideus.

Ações tão criminosas, na mente de Caio, eram como outras tantas vitórias que ele obtivera sobre o que havia de mais ilustre no império. Seu furor tinha sufocado o brilho da família imperial no sangue do jovem Tibério, seu primo, que ele devia, ao invés, ter associado ao soberano poder. Sua espantosa desuma-nidade tinha ofendido a todo o Senado pela morte de Silano, seu sogro, que lhe era um dos mais belos ornamentos. Sua horrível ingratidão tinha feito perder a vida a Macrom, que ocupava a primeira linha na ordem dos cavaleiros e ao qual ele era devedor da grandeza em que se encontrava e à qual fora elevado.

Julgou, então, que não havendo mais ninguém que se ousasse opor à sua vontade, ele não se devia somente contentar com as grande honras, que se costumam dar aos homens, mas podia aspirar às que se devem somente a Deus, e, diz-se, que para se persuadir a si mesmo de tão grande extravagância, assim ele raciocinava: “Como aqueles que conduzem manadas de bois, rebanhos de carneiros ou de cabras não são nem bois, nem carneiros, nem bodes, mas homens de uma natureza infinitamente mais digna e superior à dos animais, assim, do mesmo modo, os que governam a todos os homens, a todas as criaturas do mundo, merecem ser considerados como sendo mui­to mais que simples homens, e devem ser tidos por deuses”.

Depois de ter metido em sua cabeça tão ridícula idéia e de ter tido a ousadia de assim se declarar, passou aos efeitos práticos, por gradações. Começou por querer passar por semideus, como Baco, Hércules, Castor e Pollux. Tritão, Anfiauro, Anfíloco e outros. Mas ele zombava de seus oráculos e de suas cerimônias, e as tirava deles, para atribuí-las a si mesmo.

Assim, do mesmo modo que os comediantes mudam freqüentemente de perso­nagem, para representar Hércules, ele tomava uma pele de leão e uma maçã, ador­nada de ouro; ora cobria-se com um chapéu semelhante ao de Castor e de Pollux; ora, para imitar Baco, ele se revestia da pele de uma corça. Não se parecia, porém, com as mencionadas divindades, porque elas se contentavam com honras particula­res que lhe eram prestadas, sem invejar as dos outros, e ele queria que lhe prestas­sem todas juntamente para ter vantagem sobre elas. Entretanto, o que lhe atraía a multidão de tantos espectadores não era que ele tivesse três corpos como Geriom; era porque ele se transformava em tantas figuras diferentes, como Proteu em Homero, mudava-se em vários elementos, em diversos animais e em diversas plantas.

Mas, Caio! Não é essa vã semelhança com os semideuses que deveis procurar imitar, mas deveis esforçar-vos para imitar suas ações e suas virtudes. Hércules, com seus grandiosos feitos, purgava as terras e o mar dos monstros que perturbavam o sossego dos homens. Baco, que foi o primeiro que plantou a vinha, dela tirou um líquido tão agradável e tão útil ao corpo e ao espírito, que os faz esquecer suas penas, os alegra e os fortalece e dele se notam os efeitos nas danças e nos banquetes, não somente das nações civilizadas, mas até mesmo entre os bárbaros. Quanto a Castor e a Pollux, dois filhos de Júpiter, não se diz que um deles, tendo nascido imortal e o outro mortal, o que tinha tão grande vantagem sobre o irmão, não podendo suportar a dor de ver morrer uma pessoa que lhe era tão querida, quis igualá-lo e igualar-se a ele, comunicando-lhe uma parte de sua imortalidade e tornando-lhe ele também sujeito à morte? Esta é a maior ação de justiça que se possa imaginar. Esses heróis que foram a admiração de seu século, e são ainda a do nosso, só receberam honra como deuses, por causa dos benefícios que fizeram aos homens. Mas, Caio! Que fizestes de seme­lhante que vos possa dar motivo de tanto vos glorificardes? Começando, pelo que se refere a Castor e Pollux, imitastes essa perfeita amizade fraterna, que os torna tão recomendáveis? Vós, que, sem compaixão da juventude daquele que devia ocupar o lugar de vosso irmão e com quem a justiça vos obrigava a dividir o império, tão cruel­mente manchastes vossas mãos em seu sangue e mandastes suas irmãs a um longín­quo exílio, para reinar com mais segurança ainda? Imitastes a Baco, espalhando como ele a alegria por toda a terra, com uma admirável invenção? Vós, que só podeis ser considerado como uma peste pública, só encontrais novas invenções para mudar a alegria em dor e tornar a vida odiosa, quando, em recompensa de bens infinitos que tendes recebido de todos os lugares do mundo, vossa insaciável avareza e ambição oprimem os povos sob o peso de tantos e novos tributos e os obrigam a detestar vossa horrível desumanidade. Imitais também seus feitos heróicos e as realizações esplêndi­das de Hércules, para restaurar a paz, fazer reinar a justiça, e restabelecer a abundância sobre a terra e sobre o mar? Vós, que, sendo, ao contrário, tão covarde e o mais tímido de todos os homens, banis de todas as cidades a ordem, a tranqüilidade e a felicidade, para introduzir em seu lugar a desordem, a perturbação e todas as outras misérias? É com essas ações que julgais poder passar por um semideus e desejais ser imortal, a fim de continuar a praticá-las indefinidamente? Não há, ao invés, motivo de se crer que, quando mesmo fósseis deus, um proceder tão detestável vos incluiria nas fileiras dos homens, pois que, se a virtude os toma imortais, os vícios os tornam mortais?

Deixai, pois, de vos comparardes a Castor e a Pollux, tão célebres por sua amizade fraterna, depois que não tivestes temor de ser o assassino de vosso pró­prio irmão e não pretendais ser honrado como Hércules ou Baco que se distin­guiram por seus benefícios, quando vossas maldades e crimes tornam inúteis qualquer benemerência.

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