Capítulo 2 – O imperador Caio, não tendo ainda reinado sete meses, cai gravemente enfermo. Maravilhoso afeto que todas as províncias demonstram e incrível alegria pelo seu restabelecimento.

No mês seguinte esse felicíssimo imperador caiu gravemente enfermo, por­que tendo deixado sua maneira sóbria de viver, que lhe mantinha a saúde, o que ele fazia desde os tempos de Tibério, entregara-se à intemperança e ao luxo. Bebia demasiado vinho, comia em excesso, tomava banho em tempo inoportu­no, recomeçava a comer e a beber depois de ter vomitado, abandonava-se a todos os desejos impudicos pelas mulheres, a voluptuosidades criminosas e por fim a todas as outras desordens que muito contribuem para alterar essa união do corpo com o espírito, que a temperança mantém na força e na saúde, ao passo que a intemperança as enfraquece e leva à enfermidades que causam a morte.

Estava-se no começo do outono, que é quase a última estação do ano, própria para a navegação e o tempo em que aqueles que fazem comércio com os estrangei­ros voltam para seu país. Assim, essa notícia foi levada como um raio por todo o mundo e mudou em tristeza a alegria na qual todos passavam docemente a vida. As cidades e as casas encheram-se de aflição e de tristeza; a enfermidade do imperador tornou-se a de todas as províncias e era ainda maior, porque ele sofria apenas do corpo e todos aqueles povos sofriam no espírito pelo temor de perder, com a paz, o gozo dos bens que ela traz, quando imaginavam que a morte dos imperadores era ordinariamente seguida pela carestia e por outros males que a guerra causa, e nada lhes parecia mais próprio para se evitar tudo isso do que a saúde de seu soberano.

A doença, porém, começou a diminuir e a notícia espalhou-se imediatamen­te, levando a alegria até os extremos da terra, porque nada corre tão rápido como a fama e todos esperavam com impaciência incrível tão feliz notícia. Quan­do souberam que o imperador tinha recobrado completamente a saúde, pare­cia-lhes ter com ele recobrado a própria e a sua primeira felicidade. Não se tem recordação de alegria mais geral; parecia que se tivesse passado num momento, de uma vida selvagem e rústica a uma vida doce e sociavel, dos desertos para as cidades e da desordem para a ordem, pela felicidade de se estar sob o governo de um chefe tão benévolo e legítimo.

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