Capítulo 1 – Em que incrível felicidade passaram-se os sete primeiros meses do reinado do imperador Caio Calígula.

O imperador Caio Calígula é um exemplo ilustre do que eu acabo de dizer. Jamais se viu maior tranqüilidade do que a de que todas as províncias gozavam, tanto no mar como na terra, quando ele subiu ao trono do império, depois da morte de Tibério. O Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, viviam em profunda paz; os gregos não tinham questões com os bárbaros e os soldados viviam em união com os habitantes das cida­des. Tão grande felicidade parecia inacreditável e não se podia assaz admirar de como esse jovem príncipe subindo ao trono, se visse cumulado de tanta prosperidade e de que seus desejos não podiam ir além de sua felicidade. Ele possuía riquezas imensas, grandes extensões de terras e rendimentos prodigiosos, que lhe vinham como de uma fonte inesgotável de todas as partes do mundo naquele tempo habitavel. Seu império era limitado pelo Reno e pelo Eufrates; o primeiro, separando-o da Alemanha e daque­las outras nações ferozes, e o Eufrates dos partos, dos sarmatas e dos citas, que não são inferiores aos alemães em ferocidade. Assim, poder-se-ia dizer que desde o nascer do sol até o seu ocaso, tanto sobre a terra como nas ilhas e mesmo além do mar, todos viviam alegres e felizes e o povo romano, com toda a Itália e as províncias da Europa e da Ásia, passavam seus dias numa festa perpétua, porque jamais se havia visto, sob o reinado de nenhum outro imperador, com o auxílio do céu, gozar-se em tão grande paz, dos próprios bens e ter-se tanta parte na felicidade pública, que nada mais restava a desejar. Em todas as cidades viam-se altares, vítimas, sacrifícios, mulheres vestidas de branco e coroadas de flores, rostos alegres, festas, jogos, concertos musicais, corridas de cavalo, banquetes, danças ao som de flautas e de harpa e todos os outros diverti­mentos imagináveis, sem que eu pudesse notar diferença entre o contentamento dos ricos e o dos pobres, das pessoas da nobreza e das do povo comum, dos senhores e dos escravos, dos devedores e dos credores. Um tempo tão feliz nivelava todas as condições; a verdade fazia quase se prestar fé ao que os poetas dizem em suas fábulas, do século de Saturno; sete meses passaram-se desse modo.

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