Capítulo 11 – De que maneira esses sete irmãos haviam se exortado reciprocamente no martírio.
Que pode melhor provar que a razão, a qual inspira sentimentos tão virtuosos e tão generosos e triunfa sobre as paixões, do que a constância com que esses sete irmãos desprezam até a morte, os mais horríveis de todos os tormentos, tornando-se vencedores quando outros, vencidos pela fraqueza, comiam da carne de animais imundos, oferecidos em sacrifícios detestáveis? Podemos então assaz agradecer a Deus ter-nos dado essa razão que nos faz triunfar sobre as paixões e as dores. Foi pela força da razão que esses sete irmãos resistiram ao poder do fogo e foram como outras tantas torres, solidamente erguidas à beira-mar, que desprezam o esforço e o ímpeto das ondas, dos ventos e das vagas. Para se exortarem uns aos outros à firmeza em sua resolução, um dizia: “O nascimento nos uniu, não nos separemos na morte, mas demos todos juntos nossa vida pela defesa de nossa religião. Imitemos os três moços que caminharam sem temor sobre as chamas ardentes na fornalha de Babilônia e não mostremos menos zelo do que eles pela observância da lei de Deus”. Um outro dizia: “Coragem, meus irmãos!” Outro: “Devemos permanecer firmes até o último suspiro”. Um outro dizia: “Lembremo-nos de que somos descendentes de Abraão, que, para mostrar a Deus sua obediência, ofereceu-lhe Isaque, seu filho, em sacrifício”. Assim, todos animavam-se nesse glorioso combate, com uma generosidade incomparável e fortalecendo-se cada vez mais, diziam: “Oferecemos de todo o nosso coração a Deus a vida que dEle recebemos, para empregá-la em defender suas santas leis. Não tememos aqueles que só podem matar o corpo, porque sabemos que tormentos eternos esperam num outro mundo os que não guardam seus mandamentos e nos devemos armar de uma firme resolução de obedecer à sua vontade, a fim de que, depois de nossa morte, Abraão, Isaque e Jacó, e nossos outros santos predecessores, nos recebam com alegria para participarmos de sua glória”.
Quando um dos irmãos era atormentado, os outros que ainda viviam diziam-lhe: “Não envergonhes, irmão, nem a nós, nem aos que acabaram de expirar. Não sabes que nada é mais agradável a Deus, nem lhe deve ser mais forte, do que esse laço de amor com que sua sabedoria infinita uniu os irmãos? Eles quis que eles devessem uma parte de seu ser aos pais; que as mães os concebessem em seu seio e eles aí fossem formados, aí ficassem durante o mesmo tempo e fossem alimentados com o mesmo e gerados da mesma maneira, recebendo a alma e, depois de terem visto a luz do dia, tirassem o alimento da mesma fonte, sugando o mesmo leite, fossem tomado nos mesmos braços, criados, educados e instruídos da mesma maneira na lei de Deus e nas santas práticas de nossa religião”.
Assim, esses sete irmãos, numa mesma e estreita união, exortavam-se uns aos outros, porque a maneira como tinham sido educados acrescentava ainda a piedade ao seu afeto fraterno e a natureza era fortalecida pela virtude, sem que a magnitude dos tormentos dos que os haviam precedido na morte lhes fosse capaz de causar horror.
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