Capítulo 12 – Refuta-se ainda outro historiador chamado Lisímaco.
A estes acrescentarei Lisímaco, que não somente tem o mesmo ofício que eles, de bem mentir, mas os supera de tal modo na extravagância de suas fic-ções, que não há necessidade de outra prova do excesso de sua ira contra nossa nação. Ele diz que quando Bochor reinava no Egito os judeus atacados de lepra e de outras doenças vergonhosas, indo ao Templo pedir esmola, passaram essas doenças aos egípcios; a esse respeito Bochor consultou o oráculo de Júpiter Amom, e este respondeu-lhe que era preciso purificar os Templos e mandar para o deserto esses homens impuros, que o sol não podia mais, a não ser com tristeza sua, iluminar com seus raios e assim a terra recuperaria sua primitiva fecundidade. Que depois desse oráculo, o soberano, a conselho dos seus sacerdotes, mandou reunir todas essas pessoas impuras para entregá-las aos soldados; mandou atirar ao mar todos os leprosos e os tinhosos, depois de os ter feito envolver em lâminas de chumbo e mandou levar o resto para o deserto para que lá morressem de fome; que então esses infelizes reuniram-se, acenderam suas fogueiras, montaram guarda toda a noite, jejuaram para que os deuses lhes fossem favoráveis e no dia seguinte, um deles, de nome Moisés, aconselhou-os a marchar sempre, até encontrar lugares cultivados, e a não confiar em ninguém e de só dar mais conselhos aos que lhos pedissem e a destruir todos os Templos e os alteres que encontrassem; todos aprovaram-no e eles atravessaram o deserto: depois de inúmeras e grandes dificuldades, chegaram a um país cultivado. Ali trataram cruelmente seus habitantes, despojaram os Templos de seus bens, e se dirigiram, por fim, a uma província a que chamam de Judéia, onde construíram uma cidade a que deram o nome de Jerosulo, que quer dizer “despojo de coisas santas”, e que crescendo depois em força e poder, eles trocaram esse nome que lhes causava vergonha pelo de Jerosolima e começaram a se chamar de jerosolimitanos.
Parece, pelo que acabo de narrar, que Lisímaco não supôs como Manetom e Cheremom que houve um rei do Egito, chamado Amenófis, mas citou um outro, e que sem falar nem desse sonho no qual a deusa ísis apareceu, nem desse profeta egípcio, ele traz um oráculo feito por Júpiter Amom e diz que um número muito grande de judeus se reunia perto dos Templos, mas não se sabe se são os leprosos, a que ele chama de judeus, porque somente eles eram atacados por essa doença, ou se ele quer falar dos naturais do país, ou dos estrangeiros. Se eram os egípcios, por que os chama de judeus? E se eram estrangeiros, por que não diz de onde vinham? Além disso se o rei os tinha feito afogar e mandar os outros ao deserto, como é que havia ainda um grande número deles; como teriam eles podido atravessar o deserto, conquistar o país que nós possuímos e construir esse Templo tão célebre em toda a terra? Devia ele também contentar-se de citar nosso legislador, sem falar de seu nascimento, de seus parentes e do motivo que o tinha levado a dar leis tão injuriosas para os deuses e tão injustas para os homens? Se esses exilados eram egípcios, teriam eles tão facilmente renunciado às leis do seu país e se eles eram de uma outra nação, fosse ela qual fosse, podiam eles não ver que estavam, desde sua infância, acostumados a observá-las? Se eles tivessem somente jurado jamais ter afeto para com os que os tinham expulsado, não poderíamos censurá-los: mas sendo tão miseráveis como esse autor os representa, declarar-se inimigo de todos os homens, como ele diz que eles a isso obrigam-se por juramento, teria sido tão grande tolice que é evidente tê-la ele inventado. Não podemos dizer a mesma coisa desse primeiro nome que ele afirma ter sido dado a Jerusalém, como sinal do saque dos Templos e ter depois sido mudado? Quando isso fosse mesmo verdade não teríamos tido razão de o fazer, pois que embora os sucessores dos que tinham construído essa grande cidade achassem esse nome odioso, ele parecia honroso aos que a tinham fundado, mas o ódio que esse autor nos tinha de tal modo o cegou, que ele não considerou que a palavra “Jerusalém” não significa em hebreu o que significa em grego. Seria inútil estender-me mais sobre essas imposturas tão evidentes e vergonhosas. Estando este livro já assaz volumoso, devemos terminar, para começarmos outro, no qual procurarei realizar o meu objetivo.
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