Capítulo 5 – Testemunho dos historiadores egípcios e fenícios com relação à antigüidade da nação dos judeus.

Mas, para confundir completamente os que me acusam de não ter referido a verdade, eu mostrarei, depois de a ter estabelecido, que mesmo os historiadores gregos falaram de nós e servir-me-ei antes do testemunho de alguns egípcios, dos quais não se poderia duvidar de que nos são favoráveis. Manetom, um deles, que todos sabem ter sido um sábio na língua grega, pois escreveu nessa língua a história do seu país, que ele diz ter tirado dos livros santos, acusa em vários lugares a Heródoto de falsidade pela ignorância, em que ele vivia a respeito dos assuntos do Egito: eis suas próprias palavras, no seu segundo livro: “Sob o reina­do de Timau, um de nossos reis, Deus, irritado contra nós, permitiu que quando não havia motivo de se temer um grande exército, de um povo que não tinha reputação alguma, viesse do lado do Oriente, e se tornasse sem dificuldade se­nhor de nosso país, matasse uma parte de nossos príncipes, acorrentasse os outros, queimasse nossas cidades, destruísse nossos Templos e tratasse tão cruel­mente os habitantes, que muitos morreram, e reduzisse as mulheres e as crianças à escravidão, estabelecesse por rei um de sua nação, chamado Salatis. Esse novo príncipe veio a Mênfis, impôs um tributo às províncias tanto superiores como inferiores, estabeleceu ali fortes guarnições, principalmente do lado do Oriente, porque previa que quando os assírios se tornassem mais poderosos do que en­tão, vir-lhes-ia a vontade de conquistar aquele reino. Tendo encontrado na re­gião de Saite, ao oriente do rio Bubaste, uma cidade outrora chamada Avaris, cuja situação lhe pareceu muito vantajosa, ele a fortificou bastante e dispôs em seus arredores soldados em número de uns duzentos e quarenta mil. Para lá ele ia no tempo da ceifa, para assistir à colheita e à revista de suas tropas, mantê-las em tal exercício e tão grande disciplina que os estrangeiros não ousassem perturbá-lo na posse de seu território. Reinou dezenove anos. Boeon sucedeu-lhe e reinou quarenta e quatro. Apachnas sucedeu a Boeon e reinou trinta e sete anos e seis meses. Apofis, que lhe sucedeu, reinou sessenta e um anos. Janias, que cingiu a coroa depois dele, reinou cinqüenta anos e um mês e Assis, que lhe sucedeu, reinou quarenta e nove anos e dois meses. Tudo esses seis reis fizeram para exter­minar a raça dos egípcios, que eram chamados de hicsos, isto é, reis pastores, porque hic na língua santa significa rei e sos, em língua vulgar, significa pastor. Alguns dizem que eles eram árabes.

Encontrei em outros livros que essa palavra “hicsos” não significa reis pasto­res, mas pastores escravos; porque hic em língua egípcia e hac quando é pro­nunciado com aspiração, significa sem dúvida, escravo, e isso me parece mais verossímil e mais conforme à história antiga”.

Esse mesmo autor diz que quando esses seis reis e os que vieram depois deles reinaram no Egito, durante quinhentos e onze anos, os reis da Tebaida e do que restava no Egito, que não tinha sido dominado, declararam guerra a esses pasto­res; que essa guerra durou muito tempo, mas que por fim o rei Alisfragmoutofis venceu-os; e depois de ter expulsado a maior parte deles do Egito, os que fica­ram retiraram-se a um lugar de nome Avaris, que continha dez mil medidas de terra, e o cercaram com um muro muito forte, para lá estarem em segurança e conservar, além de seus bens, o que pudessem apanhar em outros lugares. Temosis, filho de Alisfragmoutofis, foi atacá-los com quatrocentos e oitenta mil homens, mas, perdendo a esperança de poder vencê-los, fez com eles um acor­do, isto é, que eles sairiam do Egito para se retirarem onde quisessem, sem que se lhes fizesse algum mal; e seu número era de duzentos e quarenta mil. Eles partiram com todos os seus bens, para fora do Egito, através do deserto da Síria, e temendo os assírios que então dominavam em toda a Ásia eles se dirigiram para um país que hoje é chamado de Judéia, onde construíram uma cidade ca­paz de conter aquela grande multidão de povo e a chamaram Jerusalém.

O mesmo Manetom, em outro livro, onde trata do que se refere ao Egito, disse que encontrou nos livros que são tidos por sagrados, entre os de sua nação, que chamavam a esse povo de pastores cativos e nisso ele diz a verdade, porque nossos antepassados ocupavam-se da criação de gado e eram chamados de pas­tores; não há, pois, motivo de admiração de que os egípcios tenham acrescenta­do a palavra “cativos”, pois que José disse ao rei do Egito que ele era escravo e obteve desse soberano a permissão de mandar buscar seus irmãos. Tratarei, po­rém, mais detalhadamente destas coisas em outro lugar; por ora contentar-me-ei em referir o testemunho desses autores egípcios com relação à antigüidade de nossa descendência.

Assim continua, pois, Manetom a falar: “Depois que o rei Temosis expulsou os pastores do Egito e eles foram construir Jerusalém, reinou ainda vinte e cinco anos e quatro meses. Chebron, seu filho, reinou treze anos. Depois dele, Amenofis rei­nou vinte anos e sete meses. Amessis, sua irmã, reinou vinte anos e nove meses. Mefrés reinou em seguida, doze anos e nove meses. Meframutosis, vinte e cinco anos e dez meses. Temosis, nove anos e oito meses. Amenofis, trinta anos e dois meses. Oro, trinta e seis anos e cinco meses. Acencherés, doze anos e um mês. Ratosis, seu irmão, nove anos. Acencherés, doze anos e cinco meses. Um outro Acencherés, doze anos e três meses. Armais, quatro anos e um mês. Ramasses, um ano e quatro meses. Armecsemiamum, sessenta e seis anos e dois meses, e Amenofis, dezenove anos e seis meses. Cetosis Ramesses, que lhe sucedeu, reuniu grandes tropas, de terra e de mar, deixou Armais, seu irmão, como seu lugar-tenente geral no Egito, com poder absoluto, proibindo-lhe somente tomar a qualidade de rei, nada fazer em detrimento de sua esposa e de seus filhos e abusar de suas concubinas. Marchou em seguida contra a ilha de Chipre, a Fenícia, os assírios e os medos, venceu uns e submeteu outros, somente com o terror de suas armas. Tantos e felizes resultados encheram-lhe o coração e ele quis levar suas conquistas ainda mais além, ao Oriente, mas Armais, a quem ele tinha dado tão grande autoridade, fez precisamente o contrário do que ele lhe tinha ordenado: expulsou a rainha, abusou das concubinas do rei, seu irmão, e, deixando-se persuadir por seus aduladores, pôs a coroa na cabeça. O sumo sacerdote do Egito avisou logo a Cetosis. Ele voltou imediatamente, passando por Pelusa e se manteve no seu reino. Julga-se que foi esse príncipe que deu o nome ao Egito, porque ele tinha o de Egito, bem como Cetosis, e Armais chamava-se também Danaus”.

Assim fala Manetom, e é certo que contando todos esses anos, eles estão de acordo e aqueles a que chamavam de pastores, isto é, nossos antepassados, saí­ram do Egito trezentos e noventa e três anos antes que Danaus fosse a Argos, embora os argienses tanto se gloriem da antigüidade desse príncipe. Assim, ve­mos que Manetom prova com a autoridade da história do Egito duas coisas muito importantes sobre o assunto de que tratamos; uma, que nossos antepas­sados vieram do Egito; outra, que eles de lá saíram cerca de mil anos antes da guerra de Tróia. Quanto ao que ele acrescenta e que ele confessa não ter tirado da história do Egito, mas de alguns autores sem nome, mostrarei claramente em continuação, que são meras fábulas, sem verdade e sem fundamento.

Mas quero referir antes o que os fenícios escreveram e confirmaram sobre a nossa nação pelo testemunho que eles nos prestaram. Os tírios conservam com grande cuidado os registros públicos, muito antigos, que referem o que se pas­sou entre eles e que também dizem da nossa nação, coisas muito importantes. Diz que o rei Salomão mandou construir um Templo em Jerusalém cento e qua­renta e três anos e oito meses antes que seus antepassados tivessem deixado Cartago, e eles descrevem esse Templo assim: “Hirão, um de seus reis, fora muito amigo do rei Davi e continuou a sê-lo do rei Salomão, seu filho; como prova disso, na construção do Templo, deu-lhe de presente vinte e cinco talentos e madeira de uma linda floresta que ele mandou cortar no monte Líbano para servir na sua cobertura e em seus soberbos forros artísticos. Salomão, por sua vez, fez-lhe muitos ricos presentes, mas o amor da sabedoria uniu ainda esses dois príncipes. Eles mandaram reciprocamente enigmas para serem decifrados e Salomão nisso era superior a Hirão”. Os tírios conservam ainda hoje com grande cuidado várias cartas que eles trocaram, e para confirmar a veracidade do que estou dizendo citarei o testemunho de Dio, que, todos estão de acordo, escreveu fielmente a história dos fenícios. Eis suas próprias palavras: “O rei Abibal morrera e Hirão, seu filho, que lhe sucedeu, aumentou as cidades do seu reino que esta­vam do lado do oriente, aumentou ainda mais a de Tiro, e por meio de grandes estradas e pavimentos que construiu, uniu o Templo de Júpiter Olímpico e o enriqueceu com várias obras de ouro. Mandou cortar madeira no monte Líbano para a construção dos Templos; diz-se que Salomão, rei de Jerusalém, mandou-lhe alguns enigmas, dizendo-lhe que se ele não os pudesse explicar pagar-lhe-ia certa soma e Hirão, confessando mesmo que os não entendia, lha pagou. Mas depois, Hirão, mandou também propor-lhe alguns enigmas por meio de um certo Abdemom, que ele também não pôde explicar; Salomão pagou-lhe do mesmo modo uma grande soma”.

Este é o testemunho que nos dá este autor, mas eu citarei também o de Menandro, de Éfeso. Ele escreveu os feitos de vários reis, tanto gregos como bárbaros, e para provar a verdade dessa história, ele se serve de atos públicos de todos os Estados de que ele fala. Depois de ter citado os príncipes que reinaram em Tiro, até o rei Hirão, eis o que ele diz: “Ele sucedeu ao rei Abibal, seu pai, e reinou trinta e quatro anos. Uniu a cidade de Tiro por uma grande estrada à ilha de Ericore, e ali consagrou uma coroa de ouro, em honra de Júpiter. Mandou cortar no monte Líbano uma grande quantidade de madeira de cedro para cobrir os Templos, destruiu os antigos e construiu novos a Hércules e à deusa Astarteia, dos quais, ele dedicou o primeiro nome de Operisteu e o outro quando marchava com o exército contra os tírios, para obrigar, como ele fez, a pagar o tributo que lhe deviam e recusavam-se a pagar. Um desses indi­víduos, de nome Abdemom, embora ainda jovem, explicava os enigmas que o rei Salomão mandava. Ora, para saber quanto tempo se havia passado depois da construção de Cartago, conta-se deste modo: morrendo o rei Hirão, suce­deu-lhe seu filho Beleazar. Morreu na idade de quarenta e três anos, depois de ter reinado sete. Abdastrate, seu filho, sucedeu-lhe e só viveu vinte e nove anos, dos quais reinou nove. Os quatro filhos de sua ama mataram-no à trai­ção, e o mais velho reinou doze anos em seu lugar, Astarte, filho de Beleazar, reinou durante doze anos depois de ter vivido cinqüenta e quatro. Aserino, seu irmão, sucedeu-lhe, viveu cinqüenta e quatro anos e reinou nove. Felete, seu irmão, assassinou-o, usurpou o trono, viveu cinqüenta anos, mas só reinou oito meses. Itobal, sacerdote da deusa Astarteia, matou-o, reinou em seu lugar du­rante trinta e dois anos e morreu com sessenta e oito anos. Baldozor, seu filho, sucedeu-o, viveu quarenta e cinco anos e reinou seis. Madgem, seu filho, suce­de-o, viveu trinta e dois anos e reinou nove. Pigmalião sucedeu-o e viveu cinqüenta e seis anos, dos quais reinou quarenta e sete e foi no sétimo ano de seu reinado que Dido, sua irmã, fugiu para a África, onde construiu Cartago, na Líbia”. Assim, vemos que se passaram cento e cinqüenta e cinco anos e oito meses, depois do reinado de Hirão, até a construção dessa célebre cidade e que o Templo de Jerusalém, tendo sido construído no décimo segundo ano do reinado desse príncipe, sua construção precedeu somente de cento e quarenta e três anos e oito meses a de Cartago.

Que podemos desejar de mais forte, do que esse testemunho dos fenícios? Não mostra ele mais claramente do que a luz do dia que nossos antepassados vieram à ]udéia, antes da construção do Templo, pois eles o edificaram depois somente de tê-la dominado pelas armas, como eu já demonstrei na minha histó­ria dos judeus?

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