Capítulo 8 – Os judeus enviam embaixadores a Augusto para rogar-lhe que os dispensasse de obedecer a reis e os reunisse à Síria. Falam-lhe contra Arquelau e contra a memória de Herodes. *

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* Este registro também se encontra no Livro Décimo Sétimo, capítulo 12, Antigüidades Judaicas, Parte I.

 

Enquanto estas coisas se passavam na Judéia, Arquelau encontrou em Roma um novo obstáculo às suas pretensões, pelo motivo que passo a expor.

Cinqüenta embaixadores dos judeus vieram, com a permissão de Varo, procurar Augusto para lhe rogar que lhes permitisse viver segundo suas leis e mais de oito mil judeus que moravam em Roma uniram-se a eles naquela comissão. O impe­rador reuniu, para esse fim, uma grande assembléia de seus amigos e dos princi­pais dos romanos, num soberbo Templo de Apoio, que tinha mandado construir. Os embaixadores, seguidos por todos aqueles outros judeus, apresentaram-se lá, e Arquelau também, com seus amigos. Quanto aos parentes, não sabiam que partido tomar, porque, de um lado, eles o odiavam; de outro, tinham vergonha de parecer favorecer, na presença do imperador, aos inimigos de um príncipe de seu sangue. Filipe, irmão de Arquelau, que Varo estimava muito, veio também, a seu conselho, para um destes dois fins: ou ajudar seu irmão, ou, se Augusto dividisse o reino entre os filhos de Herodes, obter também uma parte.

Os embaixadores falaram primeiro e começaram por declararem-se contra a memória de Herodes. Disseram que ele jamais fora rei, mas o maior de todos os tiranos; que não se contentara de derramar o sangue de várias pessoas ilustres, mas sua crueldade para com os que ficavam com vida fazia-os invejar a felicidade dos outros; que ele não oprimia somente os particulares, mas desolava até mes­mo as cidades, as despojava do que elas tinham de mais belo e de mais raro para fazê-lo servir de ornamento às cidades estrangeiras e enriquecer assim seus vizi­nhos com o que tirava de seus súditos; que em vez da antiga felicidade de que a judéia gozava por uma religiosa observância de suas leis, ele a tinha reduzido à extrema miséria e a havia feito sofrer por muito tempo em virtude das suas hor­ríveis injustiças, mais males do que seus antepassados haviam sofrido desde que foram libertados sob o reinado de Xerxes, do cativeiro da Babilônia; que tão rude dominação os fizera sofrer, e apesar disso eles se haviam conformado de boa mente com receber Arquelau, seu filho, por rei, depois da morte do tirano; que haviam até honrado com luto público a memória de seu pai e feito votos pela sua prosperidade. Mas ele, ao contrário, temendo que duvidassem ser ele um verda­deiro filho de Herodes, tinha começado por mandar estrangular três mil cida­dãos. Eram aquelas as vítimas que oferecera a Deus, para torná-lo favorável em seu novo reino, sem temer encher o Templo com um número tão grande de cadáveres, no dia mesmo de uma festa solene; que não se deveria, portanto, achar estranho que aqueles que haviam sobrevivido a tantos males e escapado de tal naufrágio, pensassem em se salvar de tão horrível opressão e se declaras­sem abertamente contra Arquelau, do mesmo modo que, na guerra, não se poderia, sem covardia, não se apresentar de frente para o inimigo. E assim rogavam ao imperador que tivesse compaixão das relíquias da Judéia e não permitisse que ela ficasse por mais tempo exposta à tirania daqueles que a tinham feito sofrer cruelmente; que para lhes conceder aquela graça, devia somente uni-la à Síria e então ver-se-ia se eles eram sediciosos como os acusavam e se não saberiam obedecer a governadores moderados e eqüitativos.

Depois que os embaixadores assim falaram, Nicolau encetou a defesa de Arquelau e de Herodes; depois de ter respondido às acusações feitas contra eles, disse que os judeus eram um povo tão difícil de governar que não se podiam resolver a obedecer a reis e, assim falando, censurava indiretamente os parentes de Arquelau, de se terem unido contra ele no pedido daqueles embaixadores.

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