Capítulo 31 – Sinais e predições da desgraça que sobreveio aos judeus, aos quais eles não deram crédito.
Relatarei aqui alguns desses sinais e dessas predições.
Um cometa, que tinha a forma de uma espada, apareceu sobre Jerusalém, durante um ano inteiro.
Antes de começar a guerra, o povo reunira-se, a oito de abril, para a festa da Páscoa, e pelas nove horas da noite viu-se durante uma hora e meia em redor do altar e do Templo, uma luz tão forte que se teria pensado que era dia. Os ignorantes tiveram-na como um bom augúrio, mas os instruídos e sensatos, conhecedores das coisas santas, consideraram-na como um presságio do que depois sucedeu.
Durante essa mesma festa uma vaca que era levada para ser sacrificada deu à luz um cordeiro no meio do Templo.
Pelas seis horas da tarde a porta do Templo que está do lado do oriente, que é de bronze e tão pesada que vinte homens mal a podem empurrar, abriu-se sozinha, embora estivesse fechada com enormes fechaduras, barras de ferro e ferrolhos, que penetravam bem fundo no chão, feito de uma só pedra. Os guardas do Templo avisaram imediatamente o magistrado do que acontecera e lhe foi bem difícil tornar a fechá-la. Os ignorantes interpretaram-no ainda como um bom sinal, dizendo que Deus abria em seu favor suas mãos liberais, para cobri-los de toda sorte de bens. Porém, os mais sensatos julgaram o contrário, isto é, que o Templo destruir-se-ia por si mesmo e que a abertura de sua porta era presságio, o mais favorável, que os romanos pudessem desejar.
Um pouco depois da festa, a vinte e sete de maio aconteceu uma coisa que eu temeria relatar, de medo que a tomassem por uma fábula, se pessoas que também a viram, ainda não estivessem vivas e se as desgraças que se lhe seguiram não tivessem confirmado a sua veracidade. Antes do nascer do sol viram-sé no ar, em toda aquela região, carros cheios de homens armados, atravessar as nuvens e espalharem-se pelas cidades, como para cercá-las.
No dia da festa de Pentecostes, os sacerdotes estando à noite, no Templo interior, para o divino serviço, ouviram um ruído e logo em seguida uma voz que repetiu várias vezes: Saiamos daqui!
Quatro anos antes do começo da guerra, quando Jerusalém gozava ainda de profunda paz e de fartura, Jesus, filho de Anano, que era então um simples camponês, tendo vindo à festa dos Tabemáculos, que se celebra todos os anos no Templo, em honra de Deus, exclamou: “Voz do lado do oriente, voz do lado do ocidente, voz do lado dos quatro ventos, voz contra Jerusalém e contra o Templo, voz contra os recém-casados e as recém-casadas, voz contra todo o povo”. Dia e noite ele corria por toda a cidade, repetindo a mesma coisa. Algumas pessoas de condição, não podendo compreender essas palavras de tão mau pressá-gio, mandaram prendê-lo e vergastá-lo; mas ele não disse uma só palavra para se defender, nem para se queixar de tão severo castigo e repetia sempre as mesmas coisas. Os magistrados, então, pensando, como era verdade, que naquilo havia algo de divino, levaram-no a Albino, governador da Judéia. Ele mandou açoitá-lo até verter sangue e nem assim conseguiram arrancar-lhe um único rogo, nem uma só lágrima, mas a cada golpe que se lhe dava, ele repetia com voz queixosa e dolorida: “desgraça sobre Jerusalém”. Quando Albino lhe perguntou quem ele era, de onde era, o que o fazia falar daquela maneira, ele nada respondeu. Assim despediu-o como um louco e não o viram falar com ninguém, até que a guerra começou. Ele repetia somente e sem cessar, as mesmas palavras: “Desgraça, desgraça sobre Jerusalém”, sem injuriar nem ofender aos que o maltratavam, nem agradecer aos que lhe davam de comer. Todas as suas palavras reduziam-se a tão triste presságio e as proferia com uma voz mais forte nos dias de festa. Dessa forma continuou durante sete anos e cinco meses, sem interrupção alguma, sem que sua voz se enfraquecesse ou se tornasse rouca. Quando Jerusalém foi cercada viu-se o efeito de suas predições. Fazendo então a volta às muralhas da cidade, ele se pôs ainda a clamar: “Desgraça, desgraça sobre a cidade, desgraça sobre o povo, desgraça sobre o Templo”. Tendo acrescentado “desgraça sobre mim”, uma pedra atirada por uma máquina, derrubou-o por terra e ele expirou proferindo ainda as mesmas palavras.
Se quisermos considerar tudo o que acabo de dizer, veremos que os homens perecem somente por própria culpa, pois não há meios de que Deus não se sirva para procurar-lhes a salvação e manifestar-lhes por diversos sinais o que eles devem fazer. Assim, os judeus, depois da tomada da fortaleza Antônia, reduziram o Templo a um quadrado embora não pudessem ignorar o que está escrito nos livros sagrados, que a cidade e o Templo seriam destruídos quando aquilo viesse a acontecer. Mas o que os levou principalmente a encetar aquela infeliz guerra, foi a ambigüidade de outra passagem da mesma Escritura, que dizia que se veria naquele tempo, um homem de seu país, governar toda a terra. Eles o interpretavam em seu favor e vários até mesmo dos mais hábeis enganaram-se. Pois aquele oráculo dizia que Vespasiano, então, fora criado imperador, quando estava na Judéia. Mas eles explicavam todas essas predições, segundo sua fantasia e só conheceram seus erros, quando ficaram completamente convencidos da sua inteira ruína e destruição.
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