Capítulo 23 – Diversas guerras dos reis da Síria. Alexandre, rei dos judeus, toma várias praças. Sua morte e conselho que dá à rainha Alexandra, sua mulher, para conquistar os fariseus e ser amada pelo povo.
Antioco, cognominado Dionísio, irmão de Filipe, apoderou-se de Damasco, fez-se declarar rei e para isso serviu-se da ausência do irmão, que tinha ido fazer guerra aos árabes. Logo que Filipe o soube, voltou apressadamente e entrou em Damasco por meio de Mileze, comandante da fortaleza. Mas, para fazer crer que era o terror do seu nome, e não apenas a habilidade, que o fizera reconquistar aquela praça, mostrou-se muito ingrato. Mileze, para vingar-se, aproveitou a sua ida ao hipódromo, para assistir a uma corrida de cavalos, e fechou-lhe a porta da cidade, conservando-a para Antioco. Logo que este soube disso, voltou imediatamente da Arábia e entrou na Judéia com oito mil soldados de infantaria e oitocentos cavaleiros.
O rei Alexandre, surpreendido com essa repentina incursão, mandou fazer uma grande trincheira, desde Caparsabé, que se chama agora Antípatra, até o mar de Jope, que era o único lugar por onde se podia entrar. A isso ele acrescentou um muro com defesas de madeira distantes uma da outra cerca de cento e cinqüenta estádios. Antioco queimou-as todas e passou com o seu exército à Arábia. Os árabes permitiram-no a princípio, mas depois apareceram com dez mil cavaleiros. Antioco atacou-os com muita valentia. Mas foi morto quando, já quase certo da vitória, correu para defender uma das alas de seu exército, que estava para ser desbaratada. Essa desgraça abateu a coragem de seus soldados, que fugiram todos para a aldeia de Cana, onde a maior parte morreu de fome.
Aretas reinou depois na Baixa Síria, para onde fora chamado pelos habitantes de Damasco, por causa do ódio que eles votavam a Ptolomeu, filho de Meneu. Ele entrou com soldados na Judéia, venceu o rei Alexandre perto de Adida e retornou, depois de conversar com ele.
Alexandre tomou a cidade de Diam e sitiou Essa, onde Zenão havia posto o que possuía de mais precioso, começando por fazê-la rodear de uma tríplice muralha. Depois tomou-a de assalto. Apoderou-se também de Gaulam, de Selêucia, do vale que tinha o nome de Antíoco e da fortaleza de Gamala. E, por ser Demétrio, que antes governava aqueles lugares, acusado de muitos crimes, despojou-o do principado. Depois de empregar cerca de três anos em todas essas expedições militares, voltou com o seu exército a Jerusalém, onde tantos felizes resultados o fizeram ser recebido com demonstrações de grande alegria.
Os judeus possuíam então várias cidades na Síria, na Iduméia e na Fenícia, isto é: ao longo do mar, a torre de Estratão, Apolônia, Jope, Jamnia, Hazor, Gaza, Atedom, Rafia e Rinosura; no meio da Iduméia, Adora, Maressa, Samaria, os montes do Carmelo e do Itaburim, Citópolis, Gadara, Gaulanítide, Selêucia e Gabara; no país dos moabitas, Essebom, Medeba, Lemba, Orom, Telitom e Zara; na Cilícia, Aulom e Pela, a qual eles destruíram, porque os habitantes não se decidiram por observar as nossas leis. Nossa nação possuía ainda na Síria outras cidades assaz importantes, que haviam sido destruídas.
Alexandre deixou-se dominar por sua intemperança, bebeu vinho em excesso e por esse motivo foi acometido de uma febre que durou três anos. Como isso, porém, não o impedia de se dedicar aos interesses da guerra, suas forças ficaram esgotadas de tal modo que ele veio a morrer na fronteira dos gerasianos, quando sitiava a fortaleza de Ragaba, situada além do Jordão. Estando ele nos seus últimos momentos, quando não havia mais esperança de cura, a rainha Alexandra, sua mulher, aflita pela dor e pela tristeza em que se encontrava, por ficar sozinha com os filhos, disse-lhe, banhada em lágrimas: “Nas mãos de quem me deixais, a mim e aos nossos filhos, nesta tão grande necessidade de auxílio em que nos achamos, como sabeis, pela aversão que o povo sente por vós?”
Ele respondeu: “Se quiserdes seguir o meu conselho, podereis conservar o reino e também os nossos filhos. Ocultai a minha morte aos meus soldados até que esta praça tenha sido tomada. Depois que voltardes vitoriosa a Jerusalém, procurai conquistar o afeto dos fariseus, dando-lhes alguma autoridade, a fim de que essa honra os induza a louvar publicamente, perante o povo, a vossa magnanimidade. Eles desfrutam tanto poder sobre o Espírito do povo que o fazem amar ou odiar quem eles querem, sem que se considere se eles agem por interesse ou — quando falam mal de alguém — por inveja ou por ódio, como eu mesmo pude experimentar, pois a aversão do povo contra mim foi motivada pela minha inimizade com eles. Mandai, pois, chamar os chefes dessa seita logo que tiverdes chegado, mostrai-lhes o meu corpo morto e dizei, como se o desejásseis do fundo do coração, que me entregais nas mãos deles para que façam o que quiserem: ou recusar-me a honra da sepultura, para vingarem-se dos males que lhes causei, ou acrescentar maiores ultrajes, para se satisfazerem plenamente. Dai-lhes em seguida a vossa palavra de que nada fareis no governo do reino senão por seu conselho. Digo-vos que, se assim fizerdes, eles ficarão tão satisfeitos com essa deferencia, que, em vez de desonrar a minha memória, me farão magníficos funerais, como eu não ousaria esperar nem mesmo de vós, e reinareis com inteira autoridade”. Dizendo essas palavras, morreu, na idade de quarenta e nove anos, dos quais reinou vinte e sete.
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