Reflexão sobre o Salmo 90, o único escrito por Moisés, abordando a soberania de Deus, a brevidade da vida e as seis petições que nos ensinam a viver com sabedoria.


É uma alegria iniciar mais um ano sabendo que aquele que esteve conosco continuará estando conosco. Para quem serve ao Senhor, isso traz uma paz e uma tranquilidade únicas, pois sabemos em quem confiamos e na rocha sobre a qual estamos firmes.

Ao orar sobre o que compartilhar, o Senhor conduziu ao Salmo 90, uma passagem que traz algo muito importante para meditarmos e ouvirmos do Senhor.

O Salmo 90 e seu contexto histórico

O Salmo 90 é considerado o poema mais antigo do saltério, o livro de Salmos. É o único salmo de toda aquela coletânea escrito por Moisés, o que já o torna especial. Diferente dos salmos de Asafe ou de Davi, esse texto carrega a marca de um homem forjado no deserto.

O Salmo 90 abre o livro quatro do saltério, que abarca do Salmo 90 ao Salmo 106. Esse livro foca na soberania de Deus diante da fragilidade e da mortalidade humana, trazendo o contraste entre a falibilidade do mundo e a esperança em Deus. É uma coletânea que nos convida a refletir sobre a finitude e a necessidade de confiar naquele que corrige, sustenta e dá segurança.

O título do Salmo 90, nas diversas versões da Bíblia, é “Oração de Moisés, homem de Deus”. Poucos homens foram intitulados com essa alcunha, que destaca alguém que, embora imperfeito, foi forjado no deserto para compreender a soberania divina.

A vida de Moisés: três períodos de 40 anos

Moisés provavelmente escreveu esse salmo ao final de sua vida. Sua trajetória é dividida em três períodos de 40 anos, cada um marcado por experiências profundas.

No primeiro período, Moisés nasceu em meio ao decreto do faraó que ordenava a morte de todos os bebês hebreus do sexo masculino. Ele foi colocado num cesto no rio, resgatado pela filha do faraó e criado na corte real como um príncipe, recebendo educação e conhecimento militar. Porém, ele carregava um conflito de identidade, pois sabia de onde vinha e via seu povo sendo escravizado e espancado. Em um ato impulsivo, ao ver um feitor egípcio espancando um hebreu, interveio, acabou matando aquele homem e precisou fugir. Assim terminou o seu primeiro período de 40 anos.

No segundo período, Moisés chegou a Midiã, casou com Zípora, teve filhos e tornou-se pastor de ovelhas. Já por volta dos 80 anos, quando talvez achasse que sua vida caminhava para o último ato, Deus o chamou diante da sarça em chamas para resgatar o povo de Israel do Egito, dizendo que o “Eu Sou que Sou” o enviava.

No terceiro período, Moisés conduziu o povo pelo deserto por 40 anos, depois que a geração que saiu do Egito se recusou a entrar na terra prometida em Cades Barneia, temendo os gigantes de Canaã. Durante esse tempo, viu grandes milagres: a abertura do Mar Vermelho, a provisão de codornizes e do maná, a coluna de fogo e de nuvem, a entrega dos dez mandamentos e a construção do tabernáculo. Ao final desse período, perdeu a irmã, perdeu o irmão Arão e soube que ele próprio não entraria na terra prometida. Ainda assim, foi esse homem que escreveu o Salmo 90, com um coração que ainda confiava no Deus que o havia chamado.

O texto do Salmo 90

“Senhor, tu tens sido o nosso refúgio de geração em geração, antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus. Tu reduzes o homem ao pó e dizes: Tornai, filhos dos homens. Pois mil anos aos teus olhos são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite. Tu os arrastas na torrente. São como um sono, como uma relva que floresce de madrugada, de madrugada vinga e floresce, à tarde murcha e seca. Pois somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniquidades e sob a luz do teu rosto os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira. Acabam-se os nossos anos como um breve pensamento. Os dias da nossa vida sobem a 70 anos, ou, em havendo vigor, a 80. Neste caso, o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente e nós voamos. Quem conhece o poder da tua ira e a tua cólera, segundo o temor que te é devido? Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio. Volta-te, Senhor, até quando? Tem compaixão dos teus servos. Sacia-nos de manhã com a tua benignidade, para que cantemos de júbilo e nos alegremos todos os nossos dias. Alegra-nos por tantos dias quanto nos tens afligido, por tantos anos quanto suportamos a adversidade. Aos teus servos apareçam as tuas obras e a seus filhos a tua glória. Seja sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirma sobre nós as obras das nossas mãos. Sim, confirma a obra das nossas mãos.”

Deus como refúgio eterno: versículos 1 e 2

Moisés declara que Deus tem sido o nosso refúgio de geração em geração. Ele foi um homem que viveu como nômade, sem casa própria. Uma hora estava no palácio, depois no deserto de Midiã apascentando ovelhas, depois de volta ao palácio enfrentando o faraó, depois peregrinando no deserto por 40 anos. Mas esse mesmo homem descobriu onde estava a sua verdadeira habitação: o refúgio era o Senhor.

O mesmo Deus que chamou Abraão, que chamou Isaque, que levantou Davi e que enviou seu filho para nos resgatar é o refúgio de todos os que nele confiam.

Moisés também traz a percepção da eternidade de Deus: antes que os montes nascessem ou a terra fosse formada, Deus já era Deus. Enquanto tudo o que foi criado é temporal, o nosso Pai é de eternidade em eternidade. É um conceito que nossa mente humana muitas vezes não consegue compreender plenamente, pois vivemos o cotidiano sem essa percepção da eternidade.

Que possamos aprender com Moisés que, em um mundo de tantas incertezas, o nosso endereço permanente, o nosso lar, o lugar onde o coração encontra guarida, é o nosso Deus, e não as estabilidades terrenas. Como disse um coach certa vez: “não há estabilidade”. Essa frase levou a caminhar em sobressalto, achando que a qualquer momento o trabalho, a família ou qualquer estabilidade poderia ser perdida, chegando a um estilo de vida niilista, onde cada dia se tornava apenas mais um com obrigações a cumprir, sem objetivo, propósito ou valor real. Mas o Senhor fala sobre a importância do coração, sobre não deixar a vida entrar num piloto automático. Aquele coach estava errado, porque há sim estabilidade, e ela tem nome: Jesus Cristo.

Provérbios 3.5 diz: “Confia no Senhor de todo teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.” Provérbios 4.23 diz: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida.” E o próprio Jesus disse em Mateus 22.37: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.”

Em Salmo 62 lemos: “Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa. Dele vem a minha salvação. Só ele é a minha rocha e a minha salvação, o meu alto refúgio, não serei muito abalado.” Esse é o nosso refúgio, a nossa rocha, o que traz estabilidade. Não são bens materiais, não é um cenário de melhora em diversas áreas, não é um bom trabalho, um bom salário, a formação de uma boa família. A nossa estabilidade está em Cristo.

A fragilidade humana e a soberania de Deus: versículos 3 a 11

A partir do versículo 3, o Salmo 90 traz questões fundamentais que Moisés nos ensina.

O versículo 3 diz: “Tu reduzes o homem ao pó.” Nunca nos esqueçamos de que somos pó, efêmeros, que necessitamos de alguém para nos sustentar. Somos dependentes de Deus. Que possamos renunciar a todo espírito de independência e de altivez que nos faz acreditar que em algum momento podemos algo por nós mesmos.

Salmo 39, a partir do versículo 4, reforça: “Dá-me a conhecer, Senhor, o meu fim e qual a soma dos meus dias, para que eu reconheça a minha fragilidade. Deste aos meus dias o cumprimento de alguns palmos. A tua presença, o prazo da minha vida é nada. Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade. Com efeito, passa o homem como uma sombra, em vão se inquieta, amontoa tesouros e não sabe quem os levará. E tu, Senhor, eu espero, tu és a minha esperança.”

Que Cristo seja a nossa esperança nesse e nos anos que virão. Que possamos compreender o contraste gigantesco entre a perspectiva de Deus, para quem mil anos são como o dia de ontem, e o imediatismo que tanto gera ansiedade em nossas vidas. Quantas vezes, como Saul que não teve paciência para esperar o profeta Samuel, agimos no próprio entendimento em vez de aguardar a confirmação do Senhor?

Eclesiastes 3.11 diz que tudo Deus fez formoso no seu devido tempo. Que possamos nos mover nessa terra vislumbrando a eternidade, construindo não com palha, feno ou madeira, mas com ouro, prata e pedras preciosas que, quando o fogo do Senhor vier purificar, permanecerão para a glória eterna.

Moisés utilizou imagens de fragilidade para descrever o homem: a torrente que arrasta tudo violentamente e dura pouco; o sono, breve e passageiro; e a relva que floresce de madrugada, mostra toda a sua exuberância, mas à tarde, sob o sol escaldante, murcha.

Além da brevidade da vida, Moisés também trata do pecado. O Salmo 90 nos ensina que Deus não compactua com o pecado e que ele coloca nossos pecados ocultos sob a luz do seu rosto. Não há nada nem ninguém que possa escapar ao olhar de Deus. Muitos que já caminham há um bom tempo na fé podem se acostumar a agir como se pudessem se esconder, vivendo uma vida dupla ou tripla. Mas que não nos enganemos: Deus está olhando. Tudo está sob o olhar dele. Não há pecado oculto que Deus não traga à luz.

Como diz Salmo 139, a partir do versículo 1: “Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto, de longe penetras os meus pensamentos, esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra não me chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda. Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim. Para onde me ausentarei do teu espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás. Se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também. Se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão e a tua destra me sustentará.”

A finitude que nos conduz a Deus, não ao desespero

O Salmo 90 nos faz refletir em como enxergamos a vida, como nos enxergamos e como enxergamos o nosso Deus. Compreender que não somos nada não nos leva ao desespero nem a uma vida sem propósito. Pelo contrário, nos dá o privilégio de compreender e vivenciar que Deus é tudo em nós, que somos inteiramente dependentes dele.

Moisés teve tantos momentos para dizer que Deus estava sendo injusto: foi obrigado a sair do palácio, reconstruiu a vida em Midiã, foi chamado de volta ao Egito e, ao fim, soube que não entraria na terra prometida. Mas é esse homem que nos ensinou, no Salmo 90, que a partir do momento em que compreendemos a grandiosidade de Deus, não nos resta outra saída senão nos colocar completamente submissos a ele.

Que possamos não cair no engano de achar que Deus está sendo injusto conosco. Como Moisés cantou em Deuteronômio 32.1-4, nas suas últimas palavras antes de subir ao monte Nebo: “Eis a rocha. Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo. Deus é fidelidade e não há nele injustiça. É justo e reto.” Moisés viu a terra prometida sem poder entrar nela, e mesmo assim o que saiu do seu coração foi um cântico de gratidão ao Senhor.

As seis petições finais do Salmo 90: versículos 12 a 17

Os últimos versículos do Salmo 90 trazem seis petições que Moisés faz ao Senhor, e que nos ensinam o que pedir em oração diante da brevidade e das dificuldades da vida.

A primeira petição é por sabedoria. “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.” A sabedoria não é apenas algo intelectual, não é saber ler em outras línguas ou ter conhecimento acadêmico. É algo que vem daquele que compreende a eternidade e o que realmente importa, que é Deus.

A segunda petição é por socorro. “Volta-te para mim, Senhor, até quando irás demorar? Tem compaixão do teu servo.” A vida é cheia de dores, incertezas e dificuldades, e precisamos clamar pela presença de Deus em meio a elas.

A terceira petição é por satisfação. “Sacia-me, Senhor, com teu amor leal em Jesus Cristo a cada manhã, para que eu cante alegria até o final da minha vida.” Nada nesta vida satisfaz plenamente. Mesmo que erroneamente achemos que sim, precisamos orar pedindo ao Senhor que seja a nossa satisfação.

A quarta petição é por superação. “Dá-me alegria proporcional aos dias de aflição. Compensa-me pelos anos em que sofri.” O pecado nos aflige, mas o Senhor pode restaurar e compensar os anos de sofrimento. Uma vida completamente rendida e aberta para o Senhor agir, sem segredos, inteiramente na luz.

A quinta petição é por salvação. “Que eu e o teu povo vejamos a tua salvação, os teus grandes feitos de restauração. Que nossos filhos vejam a tua glória, Senhor.” Através do batismo e do arrependimento, podemos encontrar um caminho para sermos restaurados.

A sexta petição é por sustento. “Sustenta-nos, Senhor. Seja sobre mim a tua graça, nosso Deus. Confirma sobre mim as obras de minhas mãos.” Sem o Senhor, nada podemos fazer que tenha algum valor duradouro, santo e eterno.

Moisés e os heróis da fé como inspiração

Quando pensamos nesses homens que nos precederam, aqueles que Hebreus chama de heróis da fé, pode surgir em nós um olhar crítico. “Por que Moisés bateu duas vezes na rocha?” É fácil pensar assim hoje, sentados confortavelmente, sabendo o final da história.

Mas esses homens viveram em momentos extremamente difíceis, completamente diferentes dos nossos dias, e serviram ao Senhor com coração íntegro. Erraram? Sim, como todos nós erramos. Mas que possamos olhar para a vida de Abraão, Jacó, Isaque, Moisés e Davi como fontes de inspiração, pois, como o texto diz, a terra não era digna deles.

Moisés viu a terra prometida e não pôde entrar. O que veio ao coração dele foi um cântico de gratidão ao Senhor. Que esses homens venham ser farol para que, no nosso dia a dia, possamos seguir os bons passos que eles tiveram.

Que possamos estudar a vida de Moisés e aprender que, mesmo quando não entendemos, mesmo quando Deus não faz aquilo que gostaríamos, o nosso coração pode estar tranquilo diante do Senhor, dizendo: “Senhor, eu pedi, tu disseste não, louvado seja o teu nome.” Assim viveram esses homens. Assim viveu o nosso Senhor Jesus, que disse: “Se possível, afasta de mim esse cálice, mas não seja feita a minha vontade, e sim a tua.”

Vivendo com sabedoria e dependência de Cristo

Para concluir, que o reconhecimento da soberania eterna de Deus e da nossa própria finitude nos conduza a uma vida de sabedoria, de conhecimento e de inteira dependência de Jesus Cristo. Que não nos deixemos ser levados pelos nossos próprios pensamentos.

Que possamos, assim como Moisés, entender que Deus é tudo nas nossas vidas. Que não temos nenhum outro bem a não ser o nosso Deus, como diz o Salmo 16. Nenhuma riqueza que coloquemos no coração poderá nos fazer sentir plenos, porque Deus é quem nos preenche, é Deus quem traz plenitude às nossas vidas.

Que o Espírito Santo seja, nesse ano, uma pessoa e um relacionamento completamente recorrente em nossa vida. Que estejamos diante de Deus com a vida completamente rendida a ele. Que compreendamos que os nossos pecados precisam ser confessados. O mesmo Deus que nos chama a confessar pecados é o mesmo Deus que nos chama a viver uma vida completa e próxima com ele, ao arrependimento e à fé.

Bens, carreira, status, família, nada disso nos completa. Sem Cristo, estaremos vivendo uma vida completamente vazia. Sem Cristo, assim como Moisés disse, não temos para onde ir. Que possamos ter esse sentimento: diante da nossa finitude, vermos o grande Deus a quem servimos, o Deus que não poupou esforços para nos salvar pelo sacrifício de Cristo na cruz.

Que possamos, assim como Moisés, ser ensinados a contar os nossos dias e dizer amém, Maranata. Até aqui o Senhor tem feito. O maior privilégio que temos na vida é poder ter relacionamento com ele, e não há nada que possa superar Deus em nós.