{"id":695,"date":"2015-04-03T11:50:07","date_gmt":"2015-04-03T11:50:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=695"},"modified":"2015-04-03T11:50:07","modified_gmt":"2015-04-03T11:50:07","slug":"capitulo-28-floro-comunica-a-cestio-governador-da-siria-que-os-judeus-se-tinham-revoltado-e-eles-por-seu-lado-acusam-floro-perante-ele-cestio-manda-observadores-para-se-informarem-da-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-28-floro-comunica-a-cestio-governador-da-siria-que-os-judeus-se-tinham-revoltado-e-eles-por-seu-lado-acusam-floro-perante-ele-cestio-manda-observadores-para-se-informarem-da-verdade\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 28 &#8211; Floro comunica a C\u00e9stio, governador da S\u00edria, que os judeus se tinham revoltado; e eles, por seu lado, acusam Floro perante ele. C\u00e9stio manda observadores para se informarem da verdade. O rei Agripa vem a Jerusal\u00e9m e encontra o povo disposto a tomar as armas se n\u00e3o lhe fizerem justi\u00e7a contra Floro. Grande discurso ele faz para dissuadi-lo, falando-lhe do poderio romano."},"content":{"rendered":"<p>Floro apenas chegou a Cesar\u00e9ia, procurou novamente pretextos para manter a guerra. Mandou dizer a C\u00e9stio, governador da S\u00edria, que os judeus se tinham revoltado e por uma vergonhosa mentira acusou-os de terem feito o mal que ele mesmo fizera. Os principais de Jerusal\u00e9m n\u00e3o deixaram, por sua vez, bem como a rainha Berenice, de avisar a C\u00e9stio do que se havia passado e da crueldade que Floro tinha feito aos judeus. Depois que C\u00e9stio leu as cartas de uns e de outros, reuniu os oficiais de suas tropas para deliberar sobre o que se haveria de fazer e alguns foram de opini\u00e3o que ele fosse \u00e0 Jud\u00e9ia com o ex\u00e9rcito para castigar os judeus, se fosse verdade que eles se haviam revoltado, ou confirm\u00e1-los em sua fidelidade, se eles tivessem sido acusados falsamente. Mas ele julgou que era me\u00adlhor mandar antes alguns observadores, que se informassem exatamente da ver\u00addade, para lhe dar depois um relat\u00f3rio fiel dos fatos; deu essa incumb\u00eancia a Napolitano, mestre de campo. Esse oficial encontrou, perto de Jamnia, o rei Agripa que voltava de Alexandria e disse-lhe do motivo de sua viagem.<\/p>\n<p>Os sacerdotes dos judeus, os Senadores e as outras pessoas mais ilustres vieram \u00e0quele lugar para prestar suas homenagens \u00e0quele pr\u00edncipe e apresentar-lhe suas queixas a respeito da crueldade sem nome de Floro. Ele ficou im\u00adpressionado e sentiu grande compaix\u00e3o, mas n\u00e3o deixou de censur\u00e1-los dura\u00admente, como se eles n\u00e3o tivessem raz\u00e3o, porque ele queria acalmar-lhes o esp\u00ed\u00adrito, e n\u00e3o irrit\u00e1-los ainda mais, mostrando participar dos seus sentimentos. Os principais dentre eles, que tinham muito a perder, desejavam a paz, para poder conservar seus bens e receberam aquelas censuras como um sinal de afeto. O povo de Jerusal\u00e9m veio tamb\u00e9m procurar o rei Agripa e Napolitano, a uma dist\u00e2ncia de sessenta est\u00e1dios da cidade; as mulheres dos que tinham sido cruelmente massacrados enchiam o ar com seus gemidos e gritos e o povo acompanhava-as com suspiros e l\u00e1grimas. Todos pediram ao pr\u00edncipe que os ajudasse dizendo a Napolitano da crueldade de Floro e pediram-lhe que viesse \u00e0 cidade para ver de que modo eles eram tratados. Ele foi. Mostraram-lhe o grande mercado inteiramente abandonado e as casas saqueadas. Rogaram de\u00adpois ao rei Agripa que fizesse de modo que Napolitano, acompanhado somen\u00adte por um dos seus, desse uma volta pela cidade at\u00e9 \u00e0 piscina de Silo\u00e9, para ver com seus pr\u00f3prios olhos, que nada se podia acrescentar \u00e0 obedi\u00eancia que eles tinham prestado aos outros governadores romanos e Floro era o \u00fanico que eles n\u00e3o podiam tolerar por causa de sua horr\u00edvel crueldade. Depois que Napolitano, a rogo do rei Agripa, deu uma volta pela cidade e ficou muito satisfeito com a submiss\u00e3o de todo o povo, subiu ao Templo e ali fez reunir uma grande multi\u00add\u00e3o; louvou-o, com um discurso, por sua fidelidade aos romanos, exortou-o a permanecer sempre em esp\u00edrito de paz e depois de ter adorado a Deus e \u00e0s suas santas leis, sem penetrar no mesmo, porque nossa religi\u00e3o n\u00e3o lho permi\u00adtia, voltou para falar com C\u00e9stio.<\/p>\n<p>Depois que ele partiu, os sacerdotes e o povo insistiram com Agripa que lhes permitisse mandar embaixadores a Nero, para lhe levar suas queixas contra Floro, porque depois de t\u00e3o grande carnificina, eles n\u00e3o podiam permanecer em sil\u00eancio, para n\u00e3o dar motivo de se crer que eles se tinham revoltado e de que eles tinham por primeiro tomado as armas; quando, na verdade, fora ele que a isso os havia obrigado; pediam-no com tanta insist\u00eancia que pareciam n\u00e3o po\u00adder ficar tranq\u00fcilos, se ele n\u00e3o o concedesse. O pr\u00edncipe, considerando que de um lado era vergonhoso mandar embaixadores para acusar Floro, e, por outro, n\u00e3o lhe era conveniente descontentar o povo t\u00e3o irritado e t\u00e3o inclinado \u00e0 guer\u00adra, reuniu-o numa grande galeria e depois de ter posto a rainha Berenice, sua irm\u00e3, num lugar bem elevado, que era como uma esp\u00e9cie de trono, no pal\u00e1cio dos pr\u00edncipes hasmoneus, que dava para a galeria, do lado mais alto da cidade, onde uma ponte une a galeria ao Templo, falou-lhe deste modo:<\/p>\n<p>&#8220;Eu vos vejo decididos a fazer guerra aos romanos, mas eu sei tamb\u00e9m que a maior parte deseja conservar a paz, do contr\u00e1rio n\u00e3o teria vindo at\u00e9 aqui, nem me daria ao trabalho de vos aconselhar, pois quando todos em geral est\u00e3o dispostos a abra\u00e7ar o pior partido \u00e9 in\u00fatil proporem-se coisas vantajosas. Mas, como eu vejo que o ardor de alguns lhes impede conhecer os males da guerra e que outros se deixam iludir por uma v\u00e3 esperan\u00e7a de liberdade e que a avareza tamb\u00e9m procura aproveitar-se dessa agita\u00e7\u00e3o, julguei dever reunir-vos, para vos dizer o que eu julgo necess\u00e1rio e impedir que os maus conselhos de um pequeno n\u00famero venham a causar a perda de tantos homens de bem.<\/p>\n<p>&#8220;Que ningu\u00e9m me interrompa nem murmure quando eu disser coisas que n\u00e3o lhes s\u00e3o agrad\u00e1veis. Ser\u00e1 permitido, aos que s\u00e3o inclinados \u00e0 revolta, aos quais nada lhes pode curar o esp\u00edrito, permanecer em suas opini\u00f5es depois que eu tiver terminado o meu discurso, pois eu falaria inutilmente aos que desejam me escutar se todos n\u00e3o se conservarem em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sei que muitos representam de maneira pat\u00e9tica os ultrajes que recebe\u00adram dos governadores dessas prov\u00edncias bem como o grande bem da liberdade. Mas, antes de examinar a diferen\u00e7a entre vossas for\u00e7as e as daqueles aos quais quereis fazer guerra, devemos considerar duas coisas que confundis. Se desejais somente que se vos d\u00ea raz\u00e3o, porque tanto sofrestes, por que louvais tanto a liberdade? E se a servid\u00e3o vos parece coisa insuport\u00e1vel, de que vos servir\u00e1 vos queixardes de vossos governadores, mesmo quando eles fossem os mais mode\u00adrados do mundo, n\u00e3o considerar\u00edeis uma vergonha obedecer-lhes?<\/p>\n<p>&#8220;Considerai, eu vos rogo, atentamente, como \u00e9 fr\u00e1gil o motivo que vos levaria a empreender t\u00e3o grande guerra e de que maneira devemos proceder com rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles aos quais estamos sujeitos. \u00c9 preciso mant\u00ea-los calmos com a submiss\u00e3o e n\u00e3o irrit\u00e1-los com queixas. As pequenas faltas que neles censuramos irritam-nos e os levam a cometer outras maiores. Se antes faziam o mal secretamente, e com certa vergonha, depois n\u00e3o temem fazer viol\u00eancia, abertamente. Nada, ao contr\u00e1\u00adrio, \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil como a paci\u00eancia para det\u00ea-los, e um sofrimento humilde s\u00f3 pode\u00adria causar confus\u00e3o aos mais ousados e aos mais injustos.<\/p>\n<p>&#8220;Por\u00e9m, mesmo quando esses governadores abusassem de tal modo do seu poder e vos dessem muitos motivos de queixas, deveria vosso ressentimento se estender a todos os romanos, e mesmo ao imperador, para vos fazer tomar as armas contra eles? \u00c9 por sua ordem que eles vos oprimem? Podem eles ver do ocidente o que se passa no oriente? N\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil que eles sejam exatamen\u00adte informados do que a n\u00f3s se refere?<\/p>\n<p>&#8220;Que h\u00e1, ent\u00e3o, de mais irrazo\u00e1vel do que querer, com raz\u00f5es t\u00e3o fr\u00e1geis, empenhar-se numa guerra contra t\u00e3o poderosos inimigos, sem que eles saibam somente qual \u00e9 a raz\u00e3o que a isso vos obriga? N\u00e3o tendes motivos de esperar que aquilo que sofreis terminar\u00e1 depressa, pois esses injustos governadores n\u00e3o s\u00e3o perp\u00e9tuos e poder\u00e3o vir sucessores mais equilibrados e razo\u00e1veis? E quando a guerra se tivesse come\u00e7ado, como faz\u00ea-la e ainda mais termin\u00e1-la, sem experi\u00admentar todos os males que a ela se seguem?<\/p>\n<p>&#8220;Que imprud\u00eancia maior do que tentar libertar-se da servid\u00e3o, quando n\u00e3o se tem os meios necess\u00e1rios para se recuperar a liberdade? N\u00e3o \u00e9, ao contr\u00e1rio, um motivo de se cair numa nova escravid\u00e3o, ainda mais dura que a primeira?<\/p>\n<p>&#8220;Nada mais justo do que combater, para se evitar o jugo de uma domina\u00e7\u00e3o estrangeira. No entanto, depois que se recebeu esse jugo, tomar as armas para dele se libertar n\u00e3o \u00e9 mais amor \u00e0 liberdade, mas apenas uma revolta.<\/p>\n<p>&#8220;Quando Pompeu entrou nesse pa\u00eds, tudo dev\u00edamos fazer para repelir os ro\u00admanos. Mas se nossos antepassados e nossos reis ainda que incomparavelmente mais ricos e poderosos do que n\u00f3s n\u00e3o puderam resistir a uma pequena parte de suas for\u00e7as, em que vos fundais para esperar que vossos antepassados e v\u00f3s, estando sujeitos a eles, h\u00e1 tanto tempo, podereis agora resistir ao \u00edmpeto de todo esse enorme e tem\u00edvel imp\u00e9rio?<\/p>\n<p>&#8220;Aqueles generosos atenienses, que para defender a liberdade da Gr\u00e9cia, n\u00e3o temeram ver reduzir-se a cinzas suas cidades, que com uma pequena frota puse\u00adram em fuga o soberbo Xerxes \u2014 cujos navios cobriam todo o mar, e cujos ex\u00e9rcitos de terra pareciam avassalar toda a Europa, que naquela c\u00e9lebre batalha travada junto da ilha de Salamina, triunfaram sobre todas as for\u00e7as da \u00c1sia unidas \u2014 obedecem agora aos romanos e v\u00eaem sua rep\u00fablica, que era como a rainha da Gr\u00e9cia, sujeita \u00e0s ordens que recebem da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>&#8220;Os lacedem\u00f4nios, que ganharam aquelas famosas batalhas das Term\u00f3pilas e de Plat\u00e9ia e viram Agesilau levar t\u00e3o bem longe da \u00c1sia suas armas vitoriosas, reconhecem tamb\u00e9m agora os romanos como seus senhores.<\/p>\n<p>&#8220;Os pr\u00f3prios maced\u00f4nios, que tinham continuamente diante dos olhos o va\u00adlor de Filipe e os trof\u00e9us do grande Alexandre, e se compraziam com a posse do imp\u00e9rio de todo o mundo, experimentaram, como os outros, as alternativas da sorte e agora dobram os joelhos diante desses invenc\u00edveis conquistadores, para cujo partido passaram.<\/p>\n<p>&#8220;Tantas outras na\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o julgavam poss\u00edvel perder a liberdade, tam\u00adb\u00e9m sofrem o jugo desses dominadores de toda a terra; e v\u00f3s pretendeis ser os \u00fanicos a n\u00e3o obedecer a quem todos os outros obedecem?<\/p>\n<p>&#8220;Onde est\u00e3o os ex\u00e9rcitos, onde est\u00e3o as for\u00e7as em que confiais? Onde est\u00e3o os navios para vos abrir passagem em todos os mares sujeitos aos romanos? Onde est\u00e3o os meios para sustentar as despesas de t\u00e3o ousado empreendimento?<\/p>\n<p>&#8220;Julgais combater eg\u00edpcios ou \u00e1rabes e ousais opor vossa fraqueza ao poderio romano? J\u00e1 vos esquecestes de que fostes tantas vezes vencidos por vossos vizi\u00adnhos, e de que, ao contr\u00e1rio, por toda a parte onde os romanos levaram a guerra sempre foram vitoriosos? A conquista de todas as terras conhecidas ainda n\u00e3o os satisfez; sua ambi\u00e7\u00e3o e coragem os levam a avan\u00e7ar sempre. N\u00e3o se contenta\u00adram de ter tamb\u00e9m submetido todo o Eufrates, do lado do oriente, todo o Dan\u00fabio, do lado do norte, toda a \u00c1frica at\u00e9 os desertos da L\u00edbia, do lado do sul e de penetrar do lado do ocidente at\u00e9 C\u00e1diz: eles buscaram outro mundo, al\u00e9m do Oceano, e mostraram \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha, que se julgava inacess\u00edvel, que nada \u00e9 capaz de limitar o v\u00f4o das \u00e1guias romanas.<\/p>\n<p>&#8220;Pensais ser mais poderosos que os gauleses, mais valentes que os alem\u00e3es e mais h\u00e1beis que os gregos? Ou melhor, pensais ser os \u00fanicos mais fortes que todos os outros juntamente? Em que vos fundais, para vos ousardes revoltar contra t\u00e3o tem\u00edvel imp\u00e9rio?<\/p>\n<p>&#8220;Podereis dizer que a servid\u00e3o \u00e9 coisa dura. N\u00e3o considerais por\u00e9m que ela deve ser muito mais dura para os gregos que julgam sobrepujar em nobreza a todos os outros povos e estenderam seu dom\u00ednio t\u00e3o longe e obedecem agora sem resist\u00eancia aos magistrados que Roma lhes manda?<\/p>\n<p>&#8220;Os maced\u00f4nios fazem do mesmo modo, embora eles possam com mais jus\u00adto t\u00edtulo do que v\u00f3s defender sua liberdade. Quinhentas cidades da Asia n\u00e3o obedecem tamb\u00e9m a um c\u00f4nsul, sem que nenhuma for\u00e7a a isso as obrigue? Que direi dos enioqueanos, dos colqueanos, dos toreanos e dos bosforianos, dos que moram nas margens do Ponto e nos Paludes Me\u00f3tidos, que jamais tiveram che\u00adfes, nem mesmo da pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o, jamais ousaram pensar em se revoltar, embo\u00adra tenham como guami\u00e7\u00e3o apenas tr\u00eas mil soldados romanos? E esses mesmos romanos n\u00e3o dominam com quarenta navios, somente, todo o mar, do qual antes ningu\u00e9m havia tentado a passagem?<\/p>\n<p>&#8220;Que raz\u00f5es a Bit\u00ednia, a Capad\u00f3cia, a Panf\u00edlia, a L\u00eddia e a Cil\u00edcia poderiam apresentar em favor de sua liberdade? E, entretanto, pagam tributo aos romanos sem que haja necessidade de ex\u00e9rcitos para os obrigarem a isso?<\/p>\n<p>&#8220;Dois mil soldados n\u00e3o lhes bastam tamb\u00e9m, na Tr\u00e1cia, para mant\u00ea-la sub\u00admissa, embora tenha uma extens\u00e3o de sete dias de caminho e de cinco de largu\u00adra; e embora esse pa\u00eds seja muito mais rude e mais forte do que o vosso e as geleiras possam sozinhas defender-lhe a entrada?<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o t\u00eam eles, do mesmo modo, sob sua obedi\u00eancia toda a ll\u00edria, que se estende para al\u00e9m do Dan\u00fabio, at\u00e9 a Dalm\u00e1cia, com duas legi\u00f5es somente, que lhes servem tamb\u00e9m para dominar os d\u00e1cios? E os dalmatas, que tomaram as armas para reconquistar a liberdade e que o fizeram sempre com maiores esfor\u00ad\u00e7os, n\u00e3o obedecem pacificamente hoje a uma legi\u00e3o romana?<\/p>\n<p>&#8220;Se h\u00e1 raz\u00f5es bastante fortes para levar uma na\u00e7\u00e3o a se revoltar contra os romanos, quem n\u00e3o as teria sen\u00e3o os gauleses? Pois, parece-me que a natureza mesma sentiu prazer em fortific\u00e1-los de todos os lados; ao oriente eles t\u00eam os Alpes, ao norte o Reno, ao sul os Pirineus e ao ocidente o Oceano. Embora defen\u00addidos pela natureza, embora reunindo trezentos e cinco povos diversos, embora tenham em si mesmos uma fonte inesgot\u00e1vel de toda esp\u00e9cie de bens, que di\u00adfundem em todo o restante da terra, eles s\u00e3o tribut\u00e1rios dos romanos e julgam que sua felicidade depende da do grande imp\u00e9rio. A esse respeito n\u00e3o se pode dizer que haja falta de coragem ou que seus antepassados tenham sido fracos e covardes, pois eles combateram durante oitenta anos, defendendo sua liberda\u00adde. Mas viram com espanto e admira\u00e7\u00e3o que o grande valor dos romanos era acompanhado tamb\u00e9m de grande prosperidade e sua boa sorte somente f\u00ea-los muitas vezes vitoriosos em tantas guerras. Eles se submetem a mil e duzentos soldados somente, daquela na\u00e7\u00e3o, hoje senhora do mundo, n\u00famero que iguala quase o de suas cidades.<\/p>\n<p>&#8220;De que serviu, outrossim, aos espanh\u00f3is, que quiseram defender sua liberda\u00adde, ter em seu territ\u00f3rio minas de ouro? De que serviu aos portugueses e aos bisca\u00ednos estar t\u00e3o longe de Roma, \u00e0 margem do Oceano, cujas tempestades causam espanto, amea\u00e7ar a mesma terra? Esses incompar\u00e1veis conquistadores galgaram os cumes dos Pirineus como se estivessem caminhando atrav\u00e9s das nuvens e levaram seus ex\u00e9rcitos al\u00e9m do mar, mais longe ainda do que as colu\u00adnas de H\u00e9rcules, e uma somente de suas legi\u00f5es n\u00e3o mant\u00e9m sob seu dom\u00ednio tantas prov\u00edncias, t\u00e3o belicosas?<\/p>\n<p>&#8220;Quem dentre v\u00f3s n\u00e3o ouviu falar do numeroso povo alem\u00e3o? N\u00e3o notastes tantas vezes sua estatura e sua for\u00e7a extraordin\u00e1ria, pois n\u00e3o h\u00e1 lugar no mundo onde os romanos n\u00e3o tenham escravos daquela gente? Embora seu pa\u00eds seja muito extenso, embora sua coragem seja ainda maior que sua estatura, embora tenham uma firmeza de alma que os faz desprezar a morte e embora, quando est\u00e3o irritados, sejam mais ferozes que os mesmos animais, hoje t\u00eam o Reno por fronteira e oito legi\u00f5es romanas os dominam: os que s\u00e3o aprisionados tornam-se escravos e os outros s\u00f3 podem viver submetendo-se a eles.<\/p>\n<p>&#8220;Se na for\u00e7a de vossas muralhas pondes vossa confian\u00e7a, considerai a Gr\u00e3-Bretanha, toda rodeada pelo mar e t\u00e3o extensa que pode passar por um peque\u00adno mundo. Os romanos, entretanto, dominaram-na, n\u00e3o obstante os ventos e as ondas que se opunham \u00e0 sua passagem e quatro legi\u00f5es s\u00e3o suficientes para manter na obedi\u00eancia aquela grande ilha.<\/p>\n<p>&#8220;Que direi dos partos, na\u00e7\u00e3o t\u00e3o poderosa e t\u00e3o valente, que antes dominava tantas outras? N\u00e3o d\u00e1 agora ref\u00e9ns aos romanos e n\u00e3o manda a Roma, com o pretexto de paz, mas, de verdade, como uma prova de sua servid\u00e3o, a flor da nobreza do Oriente?<\/p>\n<p>&#8220;Assim, dentre tantos povos que o sol ilumina com seus raios, fazendo o giro do mundo, n\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o se dobre ao poder dos romanos. Quereis ser os \u00fanicos a lhes declarar guerra? N\u00e3o vedes o que sucedeu aos cartagineses, que embora tendo sua origem dos ilustres fen\u00edcios e gloriando-se de ter por chefe o tem\u00edvel e ilustre An\u00edbal, n\u00e3o puderam evitar cair sob as armas vitoriosas de Cipi\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o vos lembrais de que os sirenianos, descendentes dos lacedem\u00f4nios, dos marm\u00e1ridas, que se estendem at\u00e9 os desertos t\u00e3o \u00e1ridos, onde nada lhes \u00e9 mais raro do que a \u00e1gua, dos cirtas, de quem n\u00e3o se pode ouvir falar sem espanto, dos nassamoneanos, dos mouros, e da multid\u00e3o inumer\u00e1vel dos n\u00famidas que n\u00e3o puderam resistir ao poderio romano?<\/p>\n<p>&#8220;Esses soberbos vencedores n\u00e3o submeteram tamb\u00e9m aquela ter\u00e7a parte da terra, de que seria dif\u00edcil enumerar as na\u00e7\u00f5es e que se estendem desde o Oceano Atl\u00e2ntico e as colunas de H\u00e9rcules at\u00e9 o mar Vermelho, inclusive toda a Eti\u00f3pia? Al\u00e9m do trigo que esses pa\u00edses fornecem todos os anos, para nutrir durante oito meses o povo romano, eles ainda pagam tributos e satisfazem sem murmurar a v\u00e1rias outras despesas e s\u00f3 t\u00eam uma legi\u00e3o como guarni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Mas por que procurar exemplos t\u00e3o afastados para vos persuadir do m\u00e1ximo poder dos romanos, pois o Egito, de que estais t\u00e3o pr\u00f3ximos, vo-lo pode dar? Embora esse grande reino se estenda at\u00e9 a Eti\u00f3pia e a Ar\u00e1bia Feliz, e se limite com as \u00edndias, seja povoado por um n\u00famero infinito de homens, al\u00e9m dos de Alexandria, n\u00e3o se julga desonrado de pagar um tributo aos romanos, e que \u00e9 realmente muito grande, pois ele o paga por cabe\u00e7a, para uma inumer\u00e1vel multid\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>&#8220;Que motivo n\u00e3o seria para Alexandria se revoltar, a sua maravilhosa exten\u00ads\u00e3o de trinta est\u00e1dios de comprimento e dez de largura, suas grandes riquezas e o n\u00famero de seus habitantes? \u00c9 fortificada de todos os lados, por desertos impe\u00adnetr\u00e1veis, por um oceano sem portos, por rios profundos, por paludes tremen\u00addos. Mas, como n\u00e3o h\u00e1 obst\u00e1culo que o valor e a sorte dos romanos n\u00e3o ven\u00e7a, ela tem de lhe pagar cada m\u00eas mais do que v\u00f3s em um ano e de fornecer ainda o trigo para alimentar durante quatro meses o povo romano e uma guarni\u00e7\u00e3o de duas legi\u00f5es \u00e9 suficiente para os manter na obedi\u00eancia, com toda sua nobreza, a Maced\u00f4nia e todo o Egito, cuja extens\u00e3o \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>&#8220;Assim, todo o mundo habitado est\u00e1 sujeito aos romanos; tereis que procurar aux\u00edlio no deserto se, levando vossas esperan\u00e7as al\u00e9m do Eufrates, esperais receb\u00ea-lo dos adiabenianos. Mas eles n\u00e3o ser\u00e3o t\u00e3o imprudentes de se empenharem sem motivo em t\u00e3o grande guerra; e mesmo que o resolvessem fazer, os partos n\u00e3o o permitiriam, porque eles querem conservar a paz com os romanos e a julgariam violada, se consentissem que aqueles que lhe s\u00e3o sujeitos tomassem as armas contra eles.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o vos resta, portanto, que recorrer a Deus. Mas como podeis esperar na vossa f\u00e9, que Ele vos seja favor\u00e1vel, se foi Ele mesmo que elevou o Imp\u00e9rio Roma\u00adno a tal felicidade e poder?<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo que vossos inimigos fossem mais fracos do que v\u00f3s, n\u00e3o poder\u00edeis esperar um \u00eaxito favor\u00e1vel nessa empresa. Se observardes religiosamente o s\u00e1ba\u00addo, n\u00e3o podereis evitar serdes atacados, como vossos antepassados o foram, por Pompeu, que escolheu esse tempo para domin\u00e1-los, pois sabia que eles n\u00e3o se atreveriam a se defender. E se n\u00e3o temeis violar a lei combatendo como nos outros dias, por que dizeis que s\u00f3 tomais as armas para manter as vossas leis, como podeis esperar o aux\u00edlio de Deus, quando o ofendeis, voluntariamente desobedecendo aos seus mandamentos? S\u00f3 se deve empreender uma guerra quando h\u00e1 confian\u00e7a no seu aux\u00edlio ou no dos homens; mas, se um e outro faltarem, como n\u00e3o cair na escravid\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8220;Se n\u00e3o podeis resistir ao ardor que vos excita, parti em peda\u00e7os com vossas pr\u00f3prias m\u00e3os os vossos filhos e as vossas esposas, reduzi a cinzas todo este belo pa\u00eds, a fim de que s\u00f3 se possa atribuir ao vosso furor a ru\u00edna de vossa p\u00e1tria, poupando-vos a vergonha de v\u00ea-la destru\u00edda por vossos inimigos.<\/p>\n<p>&#8220;Crede-me, meus amigos, crede-me; \u00e9 de grande prud\u00eancia prever a tempes\u00adtade, quando o navio ainda est\u00e1 no porto; \u00e9 mui grande imprud\u00eancia levantar a \u00e2ncora e velejar, quando ela j\u00e1 come\u00e7ou a se desencadear. Como lamentamos, com raz\u00e3o, os que s\u00e3o v\u00edtimas das desgra\u00e7as, que n\u00e3o haviam podido prever e como se censuram com justi\u00e7a os que se lan\u00e7am voluntariamente em perigos claros e inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;Julgais talvez que a guerra se pode fazer com condi\u00e7\u00f5es e que os romanos vencedores usar\u00e3o de bondade em sua vit\u00f3ria? N\u00e3o deveis, ao contr\u00e1rio, pensar que, para vos fazer servir de exemplo aos outros povos, eles destruir\u00e3o pelo fogo esta cidade santa, e pelo ferro, toda vossa na\u00e7\u00e3o? Onde e como se salvariam os que ficassem com vida, pois todos est\u00e3o sujeitos aos romanos ou temem cair em seu poder.<\/p>\n<p>&#8220;T\u00e3o estranha desola\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limitaria somente a v\u00f3s, iria al\u00e9m. Os judeus espalhados por toda a terra sentir-se-iam esmagados sob vossa ru\u00edna. A revolta, a que os maus conselhos de alguns vos querem levar, faria correr rios de sangue em todas as cidades, onde moram os de vossa na\u00e7\u00e3o, e onde eles se julgam em seguran\u00e7a, sem que se possam censurar os romanos, pois a isso os ter\u00edeis obriga\u00addo; e se eles os deixarem em paz, julgai que injusti\u00e7a vos teria feito tomar as armas contra aqueles que usariam da vit\u00f3ria com tanta modera\u00e7\u00e3o e bondade.<\/p>\n<p>&#8220;Se perdestes todos os sentimentos da humanidade por vossas mulheres e por vossos filhos, tende pelo menos compaix\u00e3o da capital da Jud\u00e9ia. N\u00e3o sejais t\u00e3o cru\u00e9is e t\u00e3o \u00edmpios, armando vossas m\u00e3os para derrubar vossas muralhas, para destruir vosso sagrado Templo, para arruinar o santu\u00e1rio e abolir vossas santas leis. Ousais esperar que os romanos, depois de t\u00e3o mal recompensados, por vos terem poupado antes, vos poupem agora, quando de novo vos tiverem vencido?<\/p>\n<p>&#8220;Tomo como testemunha estas coisas santas, os anjos de Deus e nossa p\u00e1tria comum, de como jamais me descuidei em tudo o que pensei contribuir para vossa salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Se seguirdes meu conselho todos gozaremos de paz. Mas se continuais a vos deixardes levar pelo furor que vos agita, n\u00e3o estou disposto a me expor convosco aos perigos que vos s\u00e3o t\u00e3o f\u00e1ceis evitar.&#8221;<\/p>\n<p>O rei Agripa terminou este discurso e a rainha Berenice acompanhou-o com suas l\u00e1grimas; tantas raz\u00f5es e tantas provas de afeto tocaram o cora\u00e7\u00e3o do povo, que moderou o furor e exclamou: &#8220;N\u00e3o \u00e9 contra os romanos que queremos empunhar as armas, mas contra Floro, cuja tirania \u00e9 insuport\u00e1vel&#8221;. &#8220;Mas vossas a\u00e7\u00f5es mostram&#8221;, respondeu-lhes Agripa, &#8220;que \u00e9 contra os romanos que o fazeis, pois n\u00e3o pagais o tributo ao imperador e derribastes a galeria que unia o Templo \u00e0 fortaleza Ant\u00f4nia. Se quereis mostrar que n\u00e3o tendes inten\u00e7\u00e3o de vos revoltar, apressai-vos em cumprir o primeiro dever e em reconstruir a galeria, pois \u00e9 ao imperador e n\u00e3o a Floro que esse dinheiro \u00e9 devido e essa fortaleza pertence.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Floro apenas chegou a Cesar\u00e9ia, procurou novamente pretextos para manter a guerra. Mandou dizer a C\u00e9stio, governador da S\u00edria, que os judeus se tinham revoltado e por uma vergonhosa mentira acusou-os de terem feito o mal que ele mesmo fizera. Os principais de Jerusal\u00e9m n\u00e3o deixaram, por sua vez, bem como a rainha Berenice, de&#8230; <a href=\"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-28-floro-comunica-a-cestio-governador-da-siria-que-os-judeus-se-tinham-revoltado-e-eles-por-seu-lado-acusam-floro-perante-ele-cestio-manda-observadores-para-se-informarem-da-verdade\/\">ler mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[102,146,287,543,640,958,965,972,1052,1264,1288,1356,1360,1468,1476,1610,1693,1727,1744,1752,1849,2072,2199,2266,2303,2546,2654,2678,2838,2990,3022,3139],"class_list":["post-695","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livro-segundo-ii-parte-guerra-dos-judeus-contra-os-romanos","tag-acusam","tag-agripa","tag-armas","tag-cestio","tag-comunica","tag-discurso","tag-disposto","tag-dissuadilo","tag-encontra","tag-falandolhe","tag-faz","tag-fizerem","tag-floro","tag-governador","tag-grande","tag-informarem","tag-jerusalem","tag-judeus","tag-justica","tag-lado","tag-manda","tag-observadores","tag-perante","tag-poderio","tag-povo","tag-rei","tag-revoltado","tag-romano","tag-siria","tag-tinham","tag-tomar","tag-verdade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=695"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/695\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}