{"id":61,"date":"2015-04-02T19:10:07","date_gmt":"2015-04-02T19:10:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=61"},"modified":"2015-04-02T19:10:07","modified_gmt":"2015-04-02T19:10:07","slug":"capitulo-5-os-egipcios-tratam-cruelmente-os-israelitas-predicao-realizada-pelo-nascimento-e-milagrosa-conversao-de-moises-afilha-do-rei-do-egito-fa-lo-educar-e-o-adota-por-filho-ele-comanda-o-exe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-5-os-egipcios-tratam-cruelmente-os-israelitas-predicao-realizada-pelo-nascimento-e-milagrosa-conversao-de-moises-afilha-do-rei-do-egito-fa-lo-educar-e-o-adota-por-filho-ele-comanda-o-exe\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 5 &#8211; Os eg\u00edpcios tratam cruelmente os israelitas. Predi\u00e7\u00e3o realizada pelo nascimento e milagrosa convers\u00e3o de Mois\u00e9s. Afilha do rei do Egito f\u00e3-lo educar e o adota por filho. Ele comanda o ex\u00e9rcito do Egito contra os et\u00edopes, obt\u00e9m a vit\u00f3ria e desposa a princesa da Eti\u00f3pia. Os eg\u00edpcios desejam mat\u00e1-lo. Ele foge e desposa afilha de Reuel, tamb\u00e9m chamado Jetro. Deus aparece-lhe num arbusto ardente, no monte Sinai, e ordena-lhe que v\u00e1 libertar o seu povo da escravid\u00e3o. Ele realiza v\u00e1rios milagres perante Fara\u00f3, e Deus fere o Egito com v\u00e1rias pragas. Mois\u00e9s liberta os israelitas e guia-os."},"content":{"rendered":"<p><em>\u00caxodo <\/em>1. Como os eg\u00edpcios s\u00e3o naturalmente pregui\u00e7osos e voluptuosos e s\u00f3 pensam no que lhes pode proporcionar prazer e proveito, eles olhavam com inveja a prosperidade dos hebreus e as riquezas que estes conquistavam com o trabalho. Conceberam mesmo certo temor pelo aumento do n\u00famero deles. Tendo o tempo apagado a mem\u00f3ria das obriga\u00e7\u00f5es que todo o Egito devia a Jos\u00e9 e tendo o reino passado a outra fam\u00edlia, eles come\u00e7aram a maltratar os israelitas e a oprimi-los com trabalhos. Empregaram-nos em cavar v\u00e1rios diques para deter as \u00e1guas do Nilo e diversos canais para conduzi-las. Faziam-nos trabalhar na constru\u00e7\u00e3o de muralhas para cercar as cidades e levantar pir\u00e2mides de altura prodigiosa, obrigando-os at\u00e9 mesmo a aprender, com dificuldade, artes e diversos of\u00edcios. Quatrocentos anos* assim se passaram, com os eg\u00edpcios procurando sempre destruir a nossa na\u00e7\u00e3o, e os hebreus, ao contr\u00e1rio, esfor\u00e7ando-se por vencer todos esses obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>_____________________<\/p>\n<p>* O artigo 96 fala de apenas 215 anos, que \u00e9 a opini\u00e3o dos rabinos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse mal foi seguido por um outro, que aumentou ainda mais o desejo que os eg\u00edpcios tinham de nos perder. Um dos doutores da sua lei, ao qual eles d\u00e3o o nome de escribas das coisas santas e que passam entre eles por grandes profetas, disse ao rei que naquele mesmo tempo deveria nascer um menino en\u00adtre os hebreus, cuja virtude seria admirada por todo o mundo, pois aumentaria a gl\u00f3ria de sua na\u00e7\u00e3o e humilharia o Egito, e cuja reputa\u00e7\u00e3o seria imortal. O rei, assustado com a predi\u00e7\u00e3o e seguindo o conselho daquele que lhe fazia essa ad\u00advert\u00eancia, publicou um edito pelo qual ordenava que se deveriam afogar todas as crian\u00e7as hebr\u00e9ias do sexo masculino e ordenou \u00e0s parteiras do Egito que ob\u00adservassem exatamente quando as mulheres fossem dar \u00e0 luz, porque n\u00e3o confia\u00adva nas parteiras de sua na\u00e7\u00e3o. Esse edito ordenava tamb\u00e9m que aqueles que se atrevessem a salvar ou criar alguma dessas crian\u00e7as seriam castigados com a pena de morte, juntamente com toda a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>T\u00e3o cruel determina\u00e7\u00e3o cumulou de dor os israelitas porque, ficando obriga\u00addos a ser os assassinos dos pr\u00f3prios filhos e n\u00e3o podendo sobreviver a eles sen\u00e3o apenas alguns anos, a extin\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a parecia inevit\u00e1vel. Mas \u00e9 em v\u00e3o que os homens empregam os seus esfor\u00e7os para resistir \u00e0 vontade de Deus. O menino que havia sido vaticinado veio ao mundo, foi criado ocultamente, n\u00e3o obstante as ordens do rei, e todas as predi\u00e7\u00f5es a seu respeito se realizaram.<\/p>\n<p>Um hebreu de nome Anr\u00e3o, muito estimado entre os seus, vendo que a sua mulher estava gr\u00e1vida, ficou muito preocupado, por causa do edito que iria exterminar a sua na\u00e7\u00e3o. Recorreu ent\u00e3o a Deus, rogando-lhe que tivesse compai\u00adx\u00e3o de um povo que sempre o havia adorado e fizesse cessar a persegui\u00e7\u00e3o que os amea\u00e7ava de ru\u00edna total.<\/p>\n<p>Deus, tocado por aquela ora\u00e7\u00e3o, apareceu-lhe em sonho e disse-lhe que esperasse: que Ele se lembrava da piedade do povo e da de seus antepassados; que os recompensaria agora, tal como havia recompensado aqueles; que era por essa considera\u00e7\u00e3o que os fizera multiplicar-se, desde Abra\u00e3o, quando este partiu sozinho da Mesopot\u00e2mia para a terra de Cana\u00e3, a quem Ele cumulou de bens e tornou a mulher fecunda, e os sucessores dele, aos quais outorgou pro\u00adv\u00edncias inteiras: a Ar\u00e1bia a Ismael, Troglodita aos filhos de Quetura e o pa\u00eds de Cana\u00e3 a Isaque; que eles n\u00e3o poderiam sem ingratid\u00e3o e mesmo sem impieda-de esquecer os felizes \u00eaxitos obtidos na guerra pela alian\u00e7a com Ele; que o nome de Jac\u00f3 se tornara c\u00e9lebre, tanto pela felicidade na qual viveu quanto pela que legou aos seus descendentes como um direito heredit\u00e1rio, e porque, havendo chegado ao Egito com setenta pessoas somente, a sua posteridade multiplicou-se, atingindo o n\u00famero de seiscentos mil homens; que se tranq\u00fcilizassem, pois teria cuidado de todos em geral e dele em particular; que o filho de que a sua mulher estava gr\u00e1vida era o menino de quem os eg\u00edpcios temiam tanto o nascimento e por causa de quem faziam morrer todos os meni\u00adnos dos israelitas; que ele viria, contudo, felizmente ao mundo, sem ser desco\u00adberto pelos encarregados daquela cruel devassa; que ele, contra todas as espe\u00adran\u00e7as, seria criado e educado e libertaria o seu povo da escravid\u00e3o; que t\u00e3o grande feito eternizaria a sua mem\u00f3ria, n\u00e3o somente entre os hebreus, mas entre todas as na\u00e7\u00f5es da terra; que, por m\u00e9rito dele, o seu irm\u00e3o seria educado at\u00e9 tornar-se um grande sacerdote, sendo que todos os descendentes deste seriam honrados com a mesma dignidade.<\/p>\n<p>Anr\u00e3o narrou \u00e0 sua esposa, de nome Joquebede, a vis\u00e3o que tivera, a qual, embora lhe fosse muito favor\u00e1vel, n\u00e3o lhes diminuiu o temor, porque n\u00e3o podi\u00adam deixar de se preocupar com a vida do filho. Al\u00e9m disso, parecia inacredit\u00e1vel a grande felicidade a eles prometida.<\/p>\n<p><em>\u00caxodo 2. <\/em>Joquebede deu \u00e0 luz, e viu-se que era verdadeira a predi\u00e7\u00e3o do or\u00e1cu\u00adlo. Foi um parto feliz e f\u00e1cil, que as parteiras eg\u00edpcias nem chegaram a conhecer. Criaram secretamente a crian\u00e7a durante tr\u00eas meses. Ent\u00e3o Anr\u00e3o, por causa da ordem do rei, temendo ser descoberto e sofrer juntamente com o filho a pena de morte e com receio de que assim o que lhe fora predito n\u00e3o se cumprisse, julgou conveniente abandonar \u00e0 provid\u00eancia de Deus a conserva\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a que lhe era t\u00e3o cara. Pensou que poderia conservar o filho em oculto, mas viveriam, ele e o menino, em perigo constante, ao passo que, entregando-o nas m\u00e3os de Deus, acreditava firmemente que Ele teria meios de confirmar a veracidade da promessa.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s tomar essa resolu\u00e7\u00e3o, ele e a mulher fizeram um ber\u00e7o de juncos do tamanho da crian\u00e7a e, para impedir que a \u00e1gua nele penetrasse, revestiram-no de betume. Puseram dentro o menino e colocaram o ber\u00e7o sobre as \u00e1guas do rio, abandonando-o \u00e0 Provid\u00eancia. Miri\u00e3, irm\u00e3 do menino, por ordem de sua m\u00e3e, foi para o outro lado do Nilo ver o que aconteceria. Deus ent\u00e3o mostrou claramente que todas as coisas se realizariam, n\u00e3o segundo os planos da sabedo\u00adria humana, mas conforme os sublimes des\u00edgnios de sua vontade. Mostrou tam\u00adb\u00e9m que aqueles que pretendem fazer perecer os outros, para proveito pr\u00f3prio ou para seguran\u00e7a particular, s\u00e3o muitas vezes desiludidos em suas esperan\u00e7as, por mais cuidados de que se cerquem. Os que confiam somente nEle, entretan\u00adto, estar\u00e3o a salvo de muitos perigos, mesmo contra qualquer probabilidade de salva\u00e7\u00e3o, como aconteceu a esse menino.<\/p>\n<p>Como o ber\u00e7o flutuasse ao sabor das \u00e1guas, Termutis, filha do rei, que passe\u00adava pela margem do rio, avistou-o e ordenou a alguns dos que a acompanhavam que a nado fossem busc\u00e1-lo. Trouxeram-no, e ela ficou t\u00e3o encantada com a beleza da crian\u00e7a que n\u00e3o se cansava de contempl\u00e1-la. Resolveu ent\u00e3o tomar o menino aos seus cuidados e mandar educ\u00e1-lo. De sorte que, por um favor de Deus assaz extraordin\u00e1rio, ele foi criado no mesmo lugar onde queriam a sua morte e a ru\u00edna de sua na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A princesa logo ordenou que fossem procurar uma ama. Veio uma, por\u00e9m a crian\u00e7a n\u00e3o quis mamar e recusou todas as outras que lhe trouxeram. Miri\u00e3, ent\u00e3o, fingindo l\u00e1 encontrar-se por acaso, disse \u00e0 princesa: &#8220;\u00c9 in\u00fatil, senhora, que mandeis chamar outras amas, pois elas n\u00e3o s\u00e3o da mesma na\u00e7\u00e3o que esta crian\u00e7a. Se tomardes uma ama hebr\u00e9ia, talvez ele n\u00e3o sinta avers\u00e3o&#8221;. Termutis aprovou a id\u00e9ia e disse-lhe que fosse procurar uma. Ela foi imediatamente para casa e trouxe Joquebede, que ningu\u00e9m conhecia, para ser a ama da crian\u00e7a, a qual deu-lhe de mamar.<\/p>\n<p>A princesa ordenou-lhe que criasse o menino com todo cuidado e chamou-o Mois\u00e9s, isto \u00e9, &#8220;salvo das \u00e1guas&#8221;, como sinal de um estranho acontecimento, pois <em>mo, <\/em>em l\u00edngua eg\u00edpcia, significa &#8220;\u00e1gua&#8221;, e <em>is\u00e9s, <\/em>&#8220;preservado&#8221;. A predi\u00e7\u00e3o divina realizou-se inteiramente nele, pois Mois\u00e9s tornou-se a maior personagem que jamais existiu entre os hebreus. Era o s\u00e9timo desde Abra\u00e3o, porque Anr\u00e3o, seu pai, era filho de Coate, Coate era filho de Levi, Levi era filho de Jac\u00f3, Jac\u00f3 era filho de Isaque e Isaque era filho de Abra\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que Mois\u00e9s crescia, demonstrava muito mais esp\u00edrito e intelig\u00eancia que o permitido pela sua idade. Mesmo brincando, dava sinais de que um dia seria algu\u00e9m extraordin\u00e1rio. Quando completou tr\u00eas anos, Deus fez brilhar em seu rosto uma t\u00e3o grande beleza que as pessoas, mesmo as mais austeras, fica\u00advam arrebatadas. Ele atra\u00eda sobre si os olhares de todos os que o encontravam e, por mais pressa que tivessem, eram obrigados a parar para contempl\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Termutis, vendo-o cheio de tanta gra\u00e7a e n\u00e3o tendo filhos, resolveu adot\u00e1-lo. Levou-o ao rei, seu pai, e, depois de falar-lhe da beleza do menino e da intelig\u00ean\u00adcia que j\u00e1 se manifestava nele, disse: &#8220;Foi um presente que o Nilo me fez, de maneira admir\u00e1vel. Recebi-o em meus bra\u00e7os, resolvi adot\u00e1-lo e vo-lo ofere\u00e7o como sucessor, pois n\u00e3o tendes filhos&#8221;. Com essas palavras, ela o colocou entre os bra\u00e7os do rei, que o recebeu com prazer e, para obsequiar a filha, estreitou-o nos bra\u00e7os, colocando-lhe o diadema sobre a cabe\u00e7a. Mois\u00e9s, como uma crian\u00ad\u00e7a, que se diverte, tirou-o e o jogou ao ch\u00e3o, pisando-lhe em cima.<\/p>\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o foi considerada de p\u00e9ssimo aug\u00fario, e o doutor da lei que predisse\u00adra o quanto seria funesto o nascimento daquele menino para o Egito ficou t\u00e3o nervoso que desejou mat\u00e1-lo imediatamente. &#8220;Eis a\u00ed, majestade&#8221;, disse ele, diri\u00adgindo-se ao rei, &#8220;este menino, do qual Deus nos faz saber que a morte deve garantir a vossa paz. Vede que o fato confirma a minha predi\u00e7\u00e3o, pois apenas nasceu e j\u00e1 despreza a vossa grandeza, calcando aos p\u00e9s a vossa coroa. Matando-o, todavia, fareis perder aos hebreus a esperan\u00e7a que nele depositam e salvareis o vosso povo de um grande temor&#8221;. Termutis, ouvindo-o falar desse modo, le\u00advou o menino sem que o rei se opusesse, porque Deus afastava do esp\u00edrito de Fara\u00f3 o pensamento de faz\u00ea-lo morrer. A princesa f\u00ea-lo educar com grande des\u00advelo, e quanto mais os hebreus se alegravam tanto mais os eg\u00edpcios se atemori\u00adzavam. Entretanto, como a ningu\u00e9m viam que pudesse suceder o rei no trono ou de quem pudessem esperar um governo mais feliz quando Mois\u00e9s n\u00e3o existisse mais, abandonaram a id\u00e9ia; de faz\u00ea-lo morrer.<\/p>\n<p>Logo que o menino, criado e educado dessa maneira, chegou \u00e0 idade de poder dar provas de sua coragem, praticou atos de bravura que n\u00e3o permitiram mais d\u00favidas quanto \u00e0 veracidade do que se havia sido predito, isto \u00e9, que ele elevaria a gl\u00f3ria de sua na\u00e7\u00e3o e humilharia os eg\u00edpcios. Eis o motivo:<\/p>\n<p>A fronteira do Egito foi devastada pelos et\u00edopes, que lhe est\u00e3o pr\u00f3ximos. Os eg\u00edpcios marcharam com um ex\u00e9rcito contra eles, mas foram vencidos no combate e retiraram-se com desonra. Os et\u00edopes, orgulhosos de tamanha vi\u00adt\u00f3ria, julgaram que era covardia n\u00e3o aproveitar a boa sorte e come\u00e7aram a se vangloriar de poderem conquistar todo o Egito. E l\u00e1 entraram, por diversos lugares. A quantidade de despojos que arrebataram e o fato de n\u00e3o terem encontrado resist\u00eancia alguma aumentaram-lhes a esperan\u00e7a de conseguir um feliz resultado na empresa. Assim, avan\u00e7aram at\u00e9 M\u00eanfis, chegando at\u00e9 o mar. Os eg\u00edpcios, reconhecendo-se muito fracos para resistir a t\u00e3o grande for\u00e7a, mandaram consultar um or\u00e1culo, e, por ordem secreta de Deus, a res\u00adposta que receberam foi que somente um homem havia \u2014 um hebreu! \u2014 do qual podiam esperar aux\u00edlio.<\/p>\n<p>O rei n\u00e3o teve dificuldade em julgar, por essas palavras, que Mois\u00e9s era o hebreu em quest\u00e3o, ao qual o c\u00e9u destinava salvar o Egito, e pediu \u00e0 filha para faz\u00ea-lo general de todo o ex\u00e9rcito. Ela consentiu e disse-lhe que julgava assim prestar ao rei um grande servi\u00e7o. Contudo obrigou-o ao mesmo tempo a prome\u00adter, com juramento, que n\u00e3o lhe fariam mal algum. A princesa, n\u00e3o se conten\u00adtando em testemunhar assim a sua extrema afei\u00e7\u00e3o por Mois\u00e9s, n\u00e3o p\u00f4de tam\u00adb\u00e9m deixar de \u2014 com azedume \u2014 perguntar aos sacerdotes eg\u00edpcios se eles n\u00e3o se envergonhavam de o haverem tratado como inimigo e de desejarem tirar a vida a um homem a quem eram agora obrigados a pedir aux\u00edlio.<\/p>\n<p>Pode-se imaginar com que prazer Mois\u00e9s obedeceu \u00e0s ordens do rei e da princesa, que lhe eram t\u00e3o gloriosas. E os sacerdotes das duas na\u00e7\u00f5es tiveram com isso, por motivos diferentes, id\u00eantica alegria. Os eg\u00edpcios esperavam que, depois de vencerem os inimigos sob o comando de Mois\u00e9s, encontrariam facil\u00admente ocasi\u00e3o para mat\u00e1-lo, \u00e0 trai\u00e7\u00e3o. E os hebreus ansiavam, por esse mesmo motivo, sair do Egito e livrar-se da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse excelente general, posto \u00e0 frente do ex\u00e9rcito, logo se fez admirar pela sua prud\u00eancia. Em vez de marchar ao longo do Nilo, atravessou pelo meio das terras, a fim de surpreender os inimigos, que jamais pensariam que ele os fosse alcan\u00e7ar por um caminho t\u00e3o perigoso, devido \u00e0 quantidade de serpentes de v\u00e1rias esp\u00e9cies que ali vivem: muitas delas n\u00e3o existem em nenhum outro lugar e n\u00e3o somente s\u00e3o tem\u00edveis pelo seu veneno, mas s\u00e3o horr\u00edveis de se ver, porque, tendo asas, atacam os homens elevando-se no ar, para se atirar sobre eles. Mois\u00e9s, para precaver-se contra elas, mandou colocar em gaiolas algumas aves chama\u00addas \u00edbis, que s\u00e3o domesticadas, amigas do homem, e inimigas mortais das ser\u00adpentes, sendo que estas as temem n\u00e3o menos que aos cervos. Nada mais direi sobre essas aves, porque n\u00e3o s\u00e3o desconhecidas aos gregos.<\/p>\n<p>Quando Mois\u00e9s chegou com o seu ex\u00e9rcito a essa t\u00e3o perigosa regi\u00e3o, soltou os p\u00e1ssaros e passou assim sem perigo. Ent\u00e3o surpreendeu os et\u00edopes, deu-lhes combate e os dispersou, fazendo-os perder a esperan\u00e7a de se tornarem senhores do Egito. Mas t\u00e3o grande vit\u00f3ria n\u00e3o reteve os seus intentos: entrou no pa\u00eds deles, tomou v\u00e1rias cidades, saqueou-as e fez grande mortandade. T\u00e3o gloriosos resultados reanimaram de tal modo a coragem dos eg\u00edpcios que eles seriam capazes de tudo empreender sob o comando de t\u00e3o excelente general. Os et\u00edopes, ao contr\u00e1rio, s\u00f3 tinham diante dos olhos a imagem da escravid\u00e3o e da morte.<\/p>\n<p>O ilustre general impeliu-os at\u00e9 Sab\u00e1, capital da Eti\u00f3pia, que Cambises, rei dos persas, chamou depois de Meroe, nome de sua irm\u00e3. A\u00ed Mois\u00e9s os sitiou, embora a cidade fosse tida como inexpugn\u00e1vel, porque, al\u00e9m de suas grandes fortifica\u00e7\u00f5es, era rodeada por tr\u00eas rios: o Nilo, o Astape e o Astobora, cujo percurso \u00e9 muito dif\u00edcil. Ficava, assim, situada numa ilha e n\u00e3o era menos defendida pela \u00e1gua que a rodeava de todos os lados que pela for\u00e7a de suas muralhas e de suas defesas. Os diques que a preservavam das inunda\u00e7\u00f5es dos rios serviam ainda de terceira defesa quando os inimigos passassem as outras. Mois\u00e9s ficou aborrecido ao constatar que tantas difi\u00adculdades juntas tornavam a conquista da cidade quase imposs\u00edvel, e o seu ex\u00e9rcito come\u00e7ava a enfadar-se, porque os et\u00edopes n\u00e3o se atreviam mais a dar-lhes combate.<\/p>\n<p>Tarlis, filha do rei da Eti\u00f3pia, tendo-o visto do alto das muralhas praticar, num assalto, atos de valor e de coragem extraordin\u00e1rios, ficou t\u00e3o cheia de admira\u00e7\u00e3o pela sua bravura, a qual reerguera o \u00e2nimo dos eg\u00edpcios e fizera tremer a Eti\u00f3pia, antes vitoriosa, que sentiu o cora\u00e7\u00e3o ferido de amor por ele. Com a paix\u00e3o sem\u00adpre aumentando, mandou oferecer-lhe a m\u00e3o em casamento. Ele aceitou a hon\u00adra, com a condi\u00e7\u00e3o de que ela lhe entregasse a cidade. A promessa foi confirma\u00adda com um juramento e, depois que o tratado foi feito, em boa f\u00e9 de parte a parte, ele deu gra\u00e7as a Deus por tantos favores e reconduziu os eg\u00edpcios vitorio\u00adsos de volta \u00e0 sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Mas esses ingratos, em vez de manifestar reconhecimento pela salva\u00e7\u00e3o e pela honra que deviam a Mois\u00e9s, aumentaram ainda mais o seu \u00f3dio contra ele e procuraram, mais do que nunca, elimin\u00e1-lo. Temiam que a gl\u00f3ria que conquista\u00adra o enchesse de tal modo de orgulho que ele pensasse em se tornar senhor de todo o Egito. Aconselharam o rei a mand\u00e1-lo matar, o qual deu ouvidos a tais palavras, porque a grande fama de Mois\u00e9s j\u00e1 lhe causava inveja, e o monarca come\u00e7ava a temer que fosse tamb\u00e9m sobrepujado por ele. Nisso era ajudado pelos sacerdotes, que, para incit\u00e1-lo ainda mais, recordavam o rei continuamen\u00adte do perigo em que se encontrava.<\/p>\n<p>E assim, Fara\u00f3 consentiu na morte de Mois\u00e9s, e ela seria inevit\u00e1vel, se este n\u00e3o houvesse descoberto a inten\u00e7\u00e3o dos eg\u00edpcios e se ausentado no momento opor\u00adtuno. Mois\u00e9s fugiu para o deserto e desse modo salvou-se, porque os inimigos n\u00e3o podiam imaginar que ele tomaria tal caminho. Como nada encontrasse para comer, viu-se atormentado por uma fome extrema, mas a suportou com paci\u00ean\u00adcia e, depois de haver andado muito, chegou, pelo meio-dia, pr\u00f3ximo da cidade de Midi\u00e3 \u2014 nome que lhe deu um dos filhos de Abra\u00e3o e Quetura \u2014, \u00e0 beira do mar Vermelho. Estando muito cansado, sentou-se \u00e0 beira de um po\u00e7o, para re\u00adpousar, e esse fato deu-lhe ocasi\u00e3o de mostrar a sua coragem, abrindo o cami\u00adnho para uma sorte melhor. Eis como tudo se passou:<\/p>\n<p>Um sacerdote chamado Reuel, ou Jetro, muito estimado entre os seus, tinha sete filhas, que, segundo o costume das mulheres de Troglodita, cuidavam dos rebanhos do pai. Ora, como a \u00e1gua doce \u00e9 muito rara naquelas paragens, os pastores e pastoras iam solicitamente busc\u00e1-la, para dar de beber aos animais. Assim, as irm\u00e3s vieram naquele dia por primeiro ao po\u00e7o, tiraram \u00e1gua e encheram as suas vasilhas para dar de beber aos carneiros e ovelhas. Mas alguns pastores que ali chegaram maltrataram-nas e tomaram a \u00e1gua que elas tinham tido o trabalho de tirar. Mois\u00e9s, enraivecido por tal viol\u00eancia, julgou que n\u00e3o devia absolutamente permiti-la. Espancou os insolentes e afugentou-os, auxiliando as mo\u00e7as no que a justi\u00e7a pedia dele. Elas contaram ao pai o que ele havia feito em favor delas e rogaram-lhe que mostrasse o seu reconhecimento para com o estrangeiro, pelo aux\u00edlio que lhes prestara. Reuel louvou a gratid\u00e3o das filhas e mandou chamar Mois\u00e9s. E n\u00e3o se contentou em agradecer uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o generosa, mas lhe deu Z\u00edpora, uma de suas filhas, em casamento e a superintend\u00eancia de todos os seus rebanhos, no que consistia, ent\u00e3o, a riqueza dessa na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00caxodo 3 e 4. <\/em>Mois\u00e9s morava ent\u00e3o com o sogro e cuidava dos rebanhos deste. Um dia, levou-os a pastar no monte Sinai,* que \u00e9 o mais alto de todos os da prov\u00edncia, muito rica em pastagens. Isso porque&gt; aJ\u00e9m da fertilidade natural, os outros pastores l\u00e1 n\u00e3o iam por causa da santidade do lugar, onde, dizia-se, Deus morava. E l\u00e1 ele teve uma vis\u00e3o maravilhosa. Viu uma sar\u00e7a ardente, de tal modo rodeada pelas chamas que parecia dever queimar-se, e no entanto nem as folhas, nem as flores e nem os ramos eram danificados.<\/p>\n<p>Tal prod\u00edgio deixou-o at\u00f4nito: nunca, por\u00e9m, o medo foi maior do que quando ouviu sair do meio da sar\u00e7a uma voz, que o chamou pelo nome e perguntou-lhe como se atrevera ir a um lugar santo, do qual nenhum outro antes se aproximara. Mandou-lhe que se afastasse da chama, n\u00e3o se deixando levar pela curiosidade, e se contentasse com o que merecera ver, sendo um digno sucessor da virtude de seus antepassados. A voz predisse-lhe, em seguida, a gl\u00f3ria que ele deveria conquistar: com o aux\u00edlio que receberia de Deus, tornar-se-ia c\u00e9lebre entre os homens. Ordenou-lhe que voltasse sem temor para o Egito, a fim de libertar os hebreus de sua cruel escravid\u00e3o. &#8220;Pois&#8221;, acrescentou a mesma voz, &#8220;eles tornar-se-\u00e3o senhores do mesmo pa\u00eds rico em todas as esp\u00e9cies de bens que Abra\u00e3o, o chefe de vossa ra\u00e7a, possuiu e ser\u00e3o devedores de t\u00e3o grande felicidade \u00e0 vossa s\u00e1bia dire\u00e7\u00e3o. Mas, depois que os tiverdes tirado do Egito, n\u00e3o deixeis de oferecer um sacrif\u00edcio neste mesmo lugar&#8221;.<\/p>\n<p>___________________________<\/p>\n<p>* Em diversas passagens da B\u00edblia, esse monte \u00e9 chamado Horebe, onde Mois\u00e9s pro\u00admulgou a Lei. Muitos o confundem com o Sinai. Uma tradi\u00e7\u00e3o local coloca o Horebe no pico Safsafe do maci\u00e7o montanhoso e o Sinai em outro, mais elevado, a meio dia de dist\u00e2ncia. Mas alguns estudiosos sustentam, ao contr\u00e1rio, que Horebe \u00e9 o verdadeiro nome de todo o maci\u00e7o, enquanto o Sinai seria apenas uma denomina\u00e7\u00e3o derivada do deus lunar Sim, venerado talvez nesse lugar. (N do E)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mois\u00e9s, ainda mais admirado pelo que acabava de ouvir do que pelo que tinha visto, disse: &#8220;Grande Deus, do qual adoro a onipot\u00eancia, que tantas vezes fizestes brilhar em favor de meus antepassados, eu n\u00e3o poderia, sem extrema loucura, desobedecer \u00e0s vossas ordens. Mas como sou um simples homem, sem autoridade, temo n\u00e3o poder persuadir esse povo a abandonar um pa\u00eds onde se estabeleceu h\u00e1 t\u00e3o longo tempo para seguir-me aonde eu o quiser levar. E, mes\u00admo se os convencer, como poderei obrigar o rei a permitir que se retirem, sendo que o Egito deve ao trabalho deles a felicidade que agora desfruta?&#8221;<\/p>\n<p>Tendo Mois\u00e9s assim falado, mandou-o Deus confiar na alian\u00e7a, garantindo-lhe que n\u00e3o o abandonaria na dire\u00e7\u00e3o daquele empreendimento e prometendo p\u00f4r-Ihe na boca as palavras, quando tivesse necessidade de persuadir e fosse preciso revesti-las com poder, quando fosse o momento de agir. Para dar-lhe uma prova, ordenou que ele lan\u00e7asse na terra a vara que trazia na m\u00e3o. Mois\u00e9s obedeceu, e ela no mesmo instante transformou-se numa serpente, que se p\u00f4s a rastejar, movendo a cauda e levantando a cabe\u00e7a, como para se defender ou como se a quisessem atacar. De repente a cobra desapareceu, e a vara voltou a ser o que era.<\/p>\n<p>Em seguida, Deus ordenou a Mois\u00e9s que pusesse a m\u00e3o no seio. Ele o fez e retirou-a branca como a cal, mas imediatamente ela tamb\u00e9m voltou ao primitivo estado. Ordenou-lhe ainda que tirasse \u00e1gua de um lugar ali perto. Ele o fez, e a \u00e1gua converteu-se em sangue. E Deus, vendo que tais prod\u00edgios o deixavam at\u00f4nito, disse-lhe que tomasse \u00e2nimo com a certeza de seu aux\u00edlio; que lhe con\u00adfirmaria a miss\u00e3o com milagres semelhantes; e que partisse imediatamente, ca\u00adminhando dia e noite, para ir libertar o seu povo, porque Ele n\u00e3o podia mais suportar os gemidos deles, em t\u00e3o dura servid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s, n\u00e3o podendo, depois do que acabava de ver e ouvir, duvidar mais do efeito das promessas divinas, rogou a Deus que, no Egito, lhe desse o mesmo poder de fazer aqueles milagres com que o favorecia naquele momento e acres\u00adcentasse \u00e0 gra\u00e7a de ter-se dignado faz\u00ea-lo ouvir a sua voz a de lhe dizer o seu nome, a fim de que ele pudesse melhor invoc\u00e1-lo quando lhe oferecesse um sacrif\u00edcio. Deus concedeu-lhe esse favor, que jamais fizera a qualquer outro neste mundo, mas n\u00e3o me \u00e9 permitido repetir esse nome. [Esse nome \u00e9 Jeov\u00e1.]<\/p>\n<p>Mois\u00e9s, certo do aux\u00edlio de Deus e do poder que Ele lhe dava para fazer milagres todas as vezes que julgasse necess\u00e1rio, concebeu grande esperan\u00e7a de libertar os hebreus e humilhar os eg\u00edpcios. Soube nesse mesmo tempo da morte de Fara\u00f3, sob cujo reinado ele fugira do Egito. E assim, rogou a Reuel, seu sogro, que lhe permitisse voltar para l\u00e1, para o bem de sua na\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o teve dificuldade em obter o consentimento.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s p\u00f4s-se logo a caminho, com a sua mulher e com G\u00e9rson e Eli\u00e9zer, seus filhos, dos quais o nome do primeiro significa &#8220;peregrino&#8221;, e o do segundo, &#8220;aux\u00edlio de Deus&#8221;, porque por meio daquele aux\u00edlio Deus o preservara das cila\u00addas dos eg\u00edpcios. Ar\u00e3o, seu irm\u00e3o, veio, por ordem de Deus, encontr\u00e1-lo na fron\u00adteira do Egito, e Mois\u00e9s narrou-lhe tudo o que acontecera no monte e as ordens que de Deus recebera. Os principais israelitas vieram tamb\u00e9m ter com ele e, para obrig\u00e1-los a crer em suas palavras, fez na presen\u00e7a deles, pelo poder que havia recebido, v\u00e1rios prod\u00edgios. O espanto que deles se apoderou certificou-os da verdade, e come\u00e7aram a esperar tudo do aux\u00edlio de Deus.<\/p>\n<p><em>\u00caxodo 5. <\/em>Assim, vendo Mois\u00e9s que o ardente desejo de se libertar da escra\u00advid\u00e3o levava os hebreus a render-lhe inteira obedi\u00eancia, foi ter com o novo rei. Falou-lhe dos servi\u00e7os que prestara ao seu antecessor contra os et\u00edopes e de como fora recompensado: somente com ingratid\u00e3o. Contou-lhe o que Deus lhe dissera no monte Sinai e os milagres que Ele havia feito para obrig\u00e1-lo a dar f\u00e9 \u00e0s suas promessas. Suplicou-lhe que n\u00e3o resistisse com incredulidade \u00e0 vontade daquele soberano Senhor dos reis. Fara\u00f3, no entanto, zombou de suas palavras, e ent\u00e3o Mois\u00e9s fez em sua presen\u00e7a os mesmos prod\u00edgios que havia feito no monte Sinai.<\/p>\n<p><em>\u00caxodo 7. <\/em>O pr\u00edncipe, em vez de ficar convencido, enfureceu-se. Disse que Mois\u00e9s era mau e que depois de ter fugido, para evitar a escravid\u00e3o, se havia feito iniciar na magia, a fim de engan\u00e1-lo por meio de artes diab\u00f3licas. Mas ele, Fara\u00f3, tinha tamb\u00e9m sacerdotes de sua f\u00e9, que poderiam fazer os mesmos prod\u00ed\u00adgios. Assim, Mois\u00e9s n\u00e3o devia se vangloriar de ser o \u00fanico ao qual Deus concede\u00adra aquela gra\u00e7a e nem iludir o povo simples, persuadindo-o de que havia nele algo divino. E mandou buscar os seus sacerdotes. Eles lan\u00e7aram as suas varas ao ch\u00e3o, e estas se converteram em serpentes.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s, sem se espantar, respondeu ao rei: &#8220;Eu n\u00e3o desprezo, majestade, a ci\u00eancia dos eg\u00edpcios, mas o que fa\u00e7o est\u00e1 t\u00e3o acima dos conhecimentos deles e de sua magia quanto a dist\u00e2ncia entre as coisas divinas e as humanas, e vou mostrar claramente que os milagres que fa\u00e7o n\u00e3o t\u00eam, como os deles, uma v\u00e3 apar\u00eancia de verdade, para enganar os simples e os cr\u00e9dulos, mas procedem da virtude e do poder de Deus&#8221;. Dizendo essas palavras, atirou a vara ao ch\u00e3o e ordenou-lhe que se mudasse em serpente. Ela obedeceu \u00e0 sua voz e devorou as dos eg\u00edpcios, que pareciam ser outras tantas serpentes. Voltou em seguida \u00e0 sua forma primitiva e Mois\u00e9s a retomou na m\u00e3o.<\/p>\n<p>O rei, em vez de admirar t\u00e3o grande maravilha, irritou-se ainda mais e, depois de ter dito a Mois\u00e9s que a sua ci\u00eancia e os seus artif\u00edcios ser-lhe-iam in\u00fateis, orde\u00adnou ao que tinha a dire\u00e7\u00e3o das obras confiadas aos israelitas que as aumentasse ainda mais. Assim, esse indiv\u00edduo mandou retirar a palha que costumava fornecer para os tijolos, de modo que, depois de ter labutado durante todo o dia, tinham de ir procur\u00e1-la durante a noite, o que lhes dobrava o trabalho [\u00cax 5].<\/p>\n<p>Mois\u00e9s, sem se incomodar com as amea\u00e7as do rei nem se comover com as queixas cont\u00ednuas dos hebreus, que diziam que todos os esfor\u00e7os dele s\u00f3 estavam servindo para faz\u00ea-los sofrer ainda mais, continuou firme no cumprimento de sua miss\u00e3o. E, como a havia empreendido por um ardente desejo de libert\u00e1-los, delibe\u00adrou consegui-la, contra a vontade do rei e contra a opini\u00e3o deles mesmos.<\/p>\n<p>Voltou ent\u00e3o a falar ao pr\u00edncipe, para pedir que os hebreus fossem ao monte Sinai oferecer um sacrif\u00edcio a Deus, como Ele o havia ordenado. Disse que Fara\u00f3 n\u00e3o se devia opor \u00e0 vontade do c\u00e9u, mas que, enquanto Deus lhe era ainda favor\u00e1vel, o seu pr\u00f3prio interesse o obrigava a conceder \u00e0quele povo a liberdade que lhe pedia. Se ele se recusasse, s\u00f3 poderia depois acusar a si mesmo de ser a causa da pr\u00f3pria desgra\u00e7a, pois atrairia sobre si, por sua desobedi\u00eancia, toda sorte de castigos: ver-se-ia sem filhos; o ar, a terra e todos os outros elementos ser-lhe-iam contr\u00e1rios e tornar-se-iam ministros da vingan\u00e7a divina; e, por fim, os hebreus n\u00e3o deixariam de sair de seu reino, ainda que ele n\u00e3o o quisesse consen\u00adtir, e os eg\u00edpcios n\u00e3o evitariam o castigo de sua obstina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As palavras de Mois\u00e9s n\u00e3o fizeram impress\u00e3o no esp\u00edrito do rei, e os eg\u00edp\u00adcios foram amargurados por toda esp\u00e9cie de males. Narr\u00e1-los-ei em particular, tanto porque s\u00e3o extraordin\u00e1rios quanto para fazer conhecer a verdade do que Mois\u00e9s havia predito e tamb\u00e9m para manifestar aos homens quanto lhes impor\u00adta n\u00e3o irritar a Deus, que pode punir os pecados com t\u00e3o terr\u00edveis castigos.<\/p>\n<p><em>\u00caxodo 7. <\/em>A \u00e1gua do Nilo foi mudada em sangue, e, como o Egito n\u00e3o possui fontes, o povo descobriu que a sede \u00e9 o maior de todos os males. A \u00e1gua do rio n\u00e3o somente adquirira a cor do sangue, mas o povo n\u00e3o conseguia beb\u00ea-la sem sentir dores violentas. Os israelitas, ao contr\u00e1rio, a achavam t\u00e3o pot\u00e1vel e boa quanto a comum. O rei, admirado por esse prod\u00edgio e temendo por seus s\u00faditos, permitiu aos hebreus que se retirassem. N\u00e3o havia, por\u00e9m, o mal cessado de todo, e ele retomou aos antigos sentimentos: revogou a ordem e a licen\u00e7a. Deus, para castig\u00e1-lo por ter reconhecido t\u00e3o mal a gra\u00e7a que fizera a ele, livrando-o daquele flagelo, feriu o Egito com uma nova praga.<\/p>\n<p><em>\u00caxodo 8e9. <\/em>Um n\u00famero incalcul\u00e1vel de r\u00e3s cobriu a terra, e comiam tudo o que ela produzia. O Nilo ficou tamb\u00e9m cheio delas, e uma parte, que morreu nas \u00e1guas do rio, tornou-o infecto, de tal sorte que n\u00e3o mais se podia beber da sua \u00e1gua. Tamb\u00e9m o lodo dos campos produziu uma quantidade enorme desses animais, que com a decomposi\u00e7\u00e3o formaram outro pantanal, ainda mais horr\u00edvel que o primeiro. As r\u00e3s entravam at\u00e9 nas casas, nas vasilhas, nos pratos, estragavam todos os alimentos, pulavam sobre as camas e envenenavam o ar com o mau cheiro. O rei, vendo o seu pa\u00eds em tal mis\u00e9ria, ordenou a Mois\u00e9s que partisse para onde quisesse, com todos os de sua na\u00e7\u00e3o. Imediatamente todas as r\u00e3s desapareceram, e as terras e os rios voltaram ao seu estado primitivo. O rei ent\u00e3o esqueceu o mal que tanto temor lhe havia causado e, como se quisesse experimentar males ainda maiores, revogou a licen\u00e7a que de mau grado concedera.<\/p>\n<p>Deus ent\u00e3o castigou-o por ter faltado \u00e0 palavra, coisa indigna de um pr\u00edncipe, e os eg\u00edpcios ficaram todos cheios de piolhos, em tal quantidade que eram mise\u00adravelmente comidos por eles, sem que pudessem encontrar rem\u00e9dio algum para isso. Esse t\u00e3o grande e t\u00e3o vergonhoso mal espantou o rei e ele permitiu aos hebreus que partissem. Mas, apenas cessou o mal, ele determinou que as mulhe\u00adres e os filhos dos hebreus ficassem como ref\u00e9ns.<\/p>\n<p>Percebendo Deus que o rei estava convencido de que era capaz de afastar qualquer tempestade que desabasse para destruir o seu reino, como se fosse Mois\u00e9s, e n\u00e3o Ele, quem castigava a ele e ao seu povo por causa da cruel persegui\u00e7\u00e3o movida contra os hebreus, enviou sobre o Egito uma imensa multid\u00e3o de diversas esp\u00e9cies de pequenos animais, at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos. A terra ficou totalmente coberta deles, e era imposs\u00edvel cultiv\u00e1-la. Muitas pessoas vieram a morrer. As que sobreviviam eram contaminadas pelo veneno deles, que causava outros tantos males, doen\u00e7as e at\u00e9 mesmo a morte. Mas nem isso foi suficiente para levar o rei a uma inteira obedi\u00eancia \u00e0 vontade de Deus. Ele contentou-se em permitir \u00e0s mulhe\u00adres que fossem com os maridos, ordenando que os filhos ficassem.<\/p>\n<p>A grande obstina\u00e7\u00e3o desse pr\u00edncipe em resistir \u00e0s ordens de Deus atraiu sobre os seus s\u00faditos, por causa dele, outros males ainda maiores que os precedentes. Todos foram cobertos de chagas e \u00falceras, e muitos morreram miseravelmente. T\u00e3o terr\u00edvel flagelo, por\u00e9m, n\u00e3o foi capaz de tocar o cora\u00e7\u00e3o de Fara\u00f3, e Deus feriu o Egito com uma praga de que nunca se havia falado. Fez cair uma chuva de granizo t\u00e3o forte e espessa e de tamanho t\u00e3o grande que nunca se vira seme\u00adlhante, nem mesmo nos pa\u00edses que a isso est\u00e3o sujeitos, e estava-se, no entanto, muito antes da primavera. A chuva estragou todos os frutos. Depois veio uma nuvem de gafanhotos, que destruiu o que restava, de sorte que os eg\u00edpcios per\u00adderam qualquer esperan\u00e7a de obter alguma colheita.<\/p>\n<p>Se o rei tivesse apenas falta de intelig\u00eancia, n\u00e3o teriam tantos males juntos feito com que ca\u00edsse em si mesmo, para dar-lhe rem\u00e9dio? Mas bem que ele lhes compreendeu o motivo, e a sua mal\u00edcia foi t\u00e3o grande que continuou a se opor \u00e0 vontade de Deus, como se lhe pudesse resistir, e nem mesmo a considera\u00e7\u00e3o de salvar o seu pr\u00f3prio povo, que ele via perecer diante de seus olhos, foi capaz de cont\u00ea-lo. Assim, ele contentou-se em permitira Mois\u00e9s levar os israelitas com as suas esposas e filhos, mas com a condi\u00e7\u00e3o de deixarem todos os seus bens aos eg\u00edpcios, para compensar as perdas que haviam sofrido. Mois\u00e9s fez-lhe ver que aquela proposta n\u00e3o era justa, pois seria p\u00f4r os hebreus na impossibilidade de oferecer sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p><em>\u00caxodo 10, 11 e 12. <\/em>Enquanto o tempo se passava nessas alterca\u00e7\u00f5es, os eg\u00edpcios foram envolvidos por trevas espessas, e, n\u00e3o tendo a menor claridade para se gui\u00adar, muitos pereceram de diversas maneiras, enquanto outros temiam semelhante infelicidade. As trevas duraram tr\u00eas dias e tr\u00eas noites, sem que Fara\u00f3 se decidisse deixar sair os israelitas. Depois que elas se dissiparam, Mois\u00e9s foi ter com ele e disse-lhe: &#8220;At\u00e9 quando, majestade, resistireis \u00e0 vontade de Deus? Ele vos ordena que deixeis sair os hebreus, e n\u00e3o tendes outro meio de vos livrardes de tantos flagelos que vos atormentam&#8221;. O rei, fora de si pela c\u00f3lera, amea\u00e7ou mandar cor\u00adtar-lhe a cabe\u00e7a se ousasse continuar a falar ao rei daquele modo. Mois\u00e9s ent\u00e3o respondeu que, de fato, n\u00e3o lhe falaria novamente. Estava certo de que o pr\u00f3prio rei e os principais de seu reino lhe pediriam que se retirasse com os israelitas.<\/p>\n<p>Deus, irritado pela resist\u00eancia de Fara\u00f3, decidiu ferir os eg\u00edpcios com mais uma praga, que certamente os obrigaria a deixar sair o povo. Ele determinou que Mois\u00e9s preparasse os israelitas para oferecer-lhe um sacrif\u00edcio no d\u00e9cimo terceiro dia do m\u00eas que os eg\u00edpcios chamam farmute, os hebreus, nis\u00e3, e os maced\u00f4nios, x\u00e2ntico, e que se conservassem prontos para a partida e levassem consigo todos os bens que possu\u00ad\u00edam. Mois\u00e9s obedeceu e reuniu-os, distribuindo-os por grupos e companhias.<\/p>\n<p>Ao raiar do d\u00e9cimo quarto dia, como Deus havia marcado, come\u00e7aram a oferecer o sacrif\u00edcio: purificaram as suas casas, lan\u00e7ando-lhes sangue com um ramalhete de hissopo, e depois de terem ceado queimaram tudo o que havia restado do alimento, estando prontos para partir. N\u00f3s observamos ainda esse costume e damos \u00e0 festa o nome de P\u00e1scoa, isto \u00e9, &#8220;passagem&#8221;, porque foi nessa noite que Deus, passando pelos israelitas sem lhes causar mal algum, feriu os eg\u00edpcios com esta grande praga: todos os primog\u00eanitos morreram. T\u00e3o grande e geral afli\u00e7\u00e3o fez correr o povo em massa ao pal\u00e1cio do rei, para suplicar-lhe que deixasse sair os hebreus.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o podendo mais resistir, o rei deu a permiss\u00e3o a Mois\u00e9s, na certeza de que apenas os hebreus tivessem partido terminariam os males que atormentavam o Egito. Os pr\u00f3prios eg\u00edpcios deram-lhes presentes, uns pelo de\u00adsejo de os ver bem longe, outros pelo costume da terra, testemunhando at\u00e9 com l\u00e1grimas que estavam arrependidos dos maus-tratos que lhes haviam infligido.<\/p>\n<p>Os israelitas partiram pela cidade de Let\u00e9, que ent\u00e3o estava deserta e onde Cambises, quando depois devastou o Egito, construiu outra cidade, a que cha\u00admou Babil\u00f4nia. Dali caminharam para Baal-Zefom, cidade que est\u00e1 \u00e0 beira do mar Vermelho. Como o lugar era muito deserto e nada tinham para comer, mis\u00adturaram farinha com \u00e1gua, amassaram como puderam e a puseram ao fogo, alimentando-se assim durante trinta dias. No fim desse tempo, todavia, a farinha lhes veio a faltar, embora tivessem economizado bastante. \u00c9 em mem\u00f3ria dessa necessidade pela qual passaram que celebramos ainda hoje, durante oito dias, uma festa que chamamos dos Asmos, isto \u00e9, de p\u00e3o sem fermento. A multid\u00e3o do povo podia-se dizer inumer\u00e1vel, pois al\u00e9m das mulheres e das crian\u00e7as, havia seiscentos mil homens capazes de pegar em armas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00caxodo 1. Como os eg\u00edpcios s\u00e3o naturalmente pregui\u00e7osos e voluptuosos e s\u00f3 pensam no que lhes pode proporcionar prazer e proveito, eles olhavam com inveja a prosperidade dos hebreus e as riquezas que estes conquistavam com o trabalho. Conceberam mesmo certo temor pelo aumento do n\u00famero deles. 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