{"id":56,"date":"2015-04-02T18:53:58","date_gmt":"2015-04-02T18:53:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=56"},"modified":"2015-04-02T18:53:58","modified_gmt":"2015-04-02T18:53:58","slug":"capitulo-3-jose-e-vendido-por-seus-irmaos-a-uns-ismaelitas-que-o-vendem-no-egito-a-sua-castidade-e-causa-de-que-o-lancem-na-prisao-la-interpreta-dois-sonhos-e-em-seguida-dois-outros-a-farao-q","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-3-jose-e-vendido-por-seus-irmaos-a-uns-ismaelitas-que-o-vendem-no-egito-a-sua-castidade-e-causa-de-que-o-lancem-na-prisao-la-interpreta-dois-sonhos-e-em-seguida-dois-outros-a-farao-q\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 3 &#8211; Jos\u00e9 \u00e9 vendido por seus irm\u00e3os a uns ismaelitas, que o vendem no Egito. A sua castidade \u00e9 causa de que o lancem na pris\u00e3o. L\u00e1, interpreta dois sonhos e, em seguida, dois outros a Fara\u00f3, que o nomeia governador de todo o Egito. Uma carestia obriga os seus irm\u00e3os afazerem duas viagens ao Egito, na primeira das quais Jos\u00e9 ret\u00e9m Sime\u00e3o, e na segunda, Benjamim. D\u00e1-se em seguida a conhecer a eles e manda buscar o seu pai."},"content":{"rendered":"<p><em>G\u00eanesis 37. <\/em>Os irm\u00e3os de Jos\u00e9 viram-no chegar com prazer, n\u00e3o porque vinha da parte de seu pai, mas porque, considerando-o inimigo, se regozijavam por v\u00ea-lo cair-lhes nas m\u00e3os. E temiam tanto perder a ocasi\u00e3o de se desfazer dele que o queriam matar naquele mesmo instante. Por\u00e9m R\u00faben, o mais velho, n\u00e3o p\u00f4de aprovar tamanha crueldade. Fez-lhes ver a enormidade do crime que que\u00adriam cometer, o \u00f3dio que atrairiam contra eles e qu\u00e3o abomin\u00e1vel seria o assas-s\u00ednio de um irm\u00e3o, se um simples homic\u00eddio j\u00e1 causava horror a Deus e aos homens. Al\u00e9m disso, eles matariam de dor um pai e uma m\u00e3e que, al\u00e9m do amor que tinham por Jos\u00e9, por causa de sua bondade, nutriam-lhe uma ternura parti\u00adcular, por ser ele o mais obediente de todos os filhos.<\/p>\n<p>Assim, ele os conjurava a temer a vingan\u00e7a de Deus, que via j\u00e1 o cruel des\u00edg\u00adnio concebido em seus cora\u00e7\u00f5es, que os perdoaria, contudo, se eles se arrepen\u00addessem e compensassem o seu crime, mas que os castigaria muito mais severa\u00admente se o cometessem. Que considerassem, pois, que todas as coisas a Ele eram gentes: as a\u00e7\u00f5etipraticadas no$ desertos n\u00e3o passariam mais.&gt; despercebidas que as cometidas nas cidades, e a pr\u00f3pria consci\u00eancia servir-lhes-ia de algoz. E acrescentou que, se jamais fora permitido matar um irm\u00e3o, mesmo havendo ofensa da parte dele, e se, por outro lado, \u00e9 sempre louv\u00e1vel perdoar aos amigos quando eles erram, por muito maior raz\u00e3o eram eles obrigados a n\u00e3o fazer mal a um irm\u00e3o do qual jamais haviam recebido inj\u00faria alguma. A simples considera\u00ad\u00e7\u00e3o pela juventude dele deveria lev\u00e1-los n\u00e3o somente a sentir compaix\u00e3o como tamb\u00e9m a ajud\u00e1-lo e proteg\u00ea-lo. A causa que os instigava contra ele tornava-os ainda mais culpados, pois em vez de invejar a felicidade que lhe tocaria e as vantagens com que Deus se comprazia em enriquec\u00ea-lo, eles deveriam regozijar-se e consider\u00e1-las como suas tamb\u00e9m, pois, sendo-lhe t\u00e3o pr\u00f3ximos, de tudo poderiam participar. Deviam, por fim, imaginar qual seria o furor e a indigna\u00e7\u00e3o de Deus contra eles se levassem \u00e0 morte aquele a quem Ele havia julgado digno de receber de sua m\u00e3o tantos benef\u00edcios, se ousassem tirar-lhe os meios de o favorecer com suas gra\u00e7as.<\/p>\n<p>Vendo R\u00faben que os irm\u00e3os, em vez de se comoverem com essas palavras, cada vez mais se obstinavam em sua funesta resolu\u00e7\u00e3o, prop\u00f4s escolherem um meio mais suave de a executar, a fim de tornar a sua falta, de algum modo, menos criminosa: se quisessem seguir o seu conselho, deveriam contentar-se em colocar Jos\u00e9 numa cisterna pr\u00f3xima, deixando-o l\u00e1 para morrer, sem manchar as m\u00e3os com sangue. Eles aprovaram a proposta, e R\u00faben desceu-o com uma cor\u00adda \u00e0 cisterna, que estava quase seca, e em seguida foi procurar pastagens para o seu rebanho. Mal ele havia partido, jud\u00e1, um dos filhos de )ac\u00f3, viu passando uns mercadores \u00e1rabes, descendentes de Ismael que vinham de Galaade, os quais levavam para o Egito perfumes e outras mercadorias. Ent\u00e3o ele aconselhou os irm\u00e3os a vender Jos\u00e9, pois desse modo ele iria morrer num pa\u00eds distante e eles n\u00e3o poderiam ser acusados de lhe terem tirado a vida. Eles negociaram com os mercadores, retiraram da cisterna o irm\u00e3o, que contava ent\u00e3o dezessete anos, e o venderam por vinte pe\u00e7as de prata aos ismaelitas.<\/p>\n<p>Quando retornou, \u00e0 noite, R\u00faben, que pretendia salvar Jos\u00e9, foi secretamente \u00e0 cisterna e chamou-o diversas vezes. Vendo que ele n\u00e3o respondia, imaginou que os irm\u00e3os o houvessem matado e censurou-os severamente. Eles ent\u00e3o fo\u00adram obrigados a contar-lhe o que haviam feito, e o seu pesar foi desse modo um tanto mitigado. Os irm\u00e3os discutiram em seguida o que fazer para evitar ao pai a suspeita de um crime. Acharam que a melhor maneira era tomar as vestes que haviam tirado de Jos\u00e9 antes de p\u00f4-lo na cisterna, rasg\u00e1-las e molh\u00e1-las no sangue de um cabrito, levando-as assim manchadas ao pai, a fim de faz\u00ea-lo acreditar que um animal feroz o havia devorado. Foram ent\u00e3o apressadamente para casa.<\/p>\n<p>O pai j\u00e1 estava desconfiado de que alguma desgra\u00e7a acontecera a Jos\u00e9. Os filhos disseram-lhe que n\u00e3o o tinham visto, mas haviam encontrado as suas ves\u00adtes manchadas de sangue e rasgadas, as que de fato ele usava quando sa\u00edra de casa, e assim tinham todos os motivos para crer que ele fora devorado por um animal feroz. Jac\u00f3, que n\u00e3o havia pensado em t\u00e3o dura perda, mas julgara ape\u00adnas que o filho fora aprisionado e levado como escravo, quando viu as vestes n\u00e3o duvidou mais de sua morte, pois as reconheceu como sendo as que ele usava ao sair de casa para ir ter com os irm\u00e3os. Foi ent\u00e3o tomado de grande dor, t\u00e3o intensa que mesmo por um filho \u00fanico n\u00e3o se teria chorado tanto. Cobriu-se de saco e n\u00e3o ouviu as palavras de consola\u00e7\u00e3o que os outros filhos lhe dirigiam.<\/p>\n<p><em>G\u00eanesis 39. <\/em>Quando os mercadores ismaelitas que haviam comprado Jos\u00e9 chegaram ao Egito, venderam-no a Potifar, mordomo do pal\u00e1cio do rei Fara\u00f3, que n\u00e3o o tratou como escravo, mas o fez educar com cuidado, como uma pessoa livre, e deu-lhe a dire\u00e7\u00e3o de sua casa. Jos\u00e9 cumpria o seu dever com a inteira satisfa\u00e7\u00e3o de seu senhor: a mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o afetou absolutamente a sua virtude, e ele mostrou que um homem, quando \u00e9 verdadeiramente sensato, ajui\u00adzado, procede com igual prud\u00eancia na prosperidade e na adversidade.<\/p>\n<p>A mulher de Potifar ficou t\u00e3o impressionada com o esp\u00edrito e a beleza de Jos\u00e9 que se enamorou dele perdidamente. E, como o julgava pela condi\u00e7\u00e3o a que a sorte o havia reduzido, imaginando que na situa\u00e7\u00e3o de escravo ele se julgaria feliz por ser amado pela sua senhora, n\u00e3o teve dificuldade em decidir manifestar-lhe a sua paix\u00e3o. Jos\u00e9, por\u00e9m, considerando um grande crime fazer tal afronta a um senhor ao qual era devedor de tantos favores, rogou-lhe que n\u00e3o exigisse dele uma coisa que n\u00e3o podia conceder sem passar como o homem mais ingrato do mun\u00addo, embora em todas as outras ocasi\u00f5es soubesse o quanto era devedor a ela.<\/p>\n<p>A recusa s\u00f3 fez aumentar a paix\u00e3o da mulher. Ela imaginava ainda que Jos\u00e9 n\u00e3o seria para sempre inflex\u00edvel, e resolveu tentar outro meio. Escolheu para isso o dia de uma grande festa, \u00e0 qual as mulheres costumavam comparecer, e fingiu estar doente, a fim de ter um pretexto para n\u00e3o sair e tomar assim ocasi\u00e3o para solicitar Jos\u00e9. Dessa maneira, encontrando-se em plena liberdade de falar-lhe e de insistir, disse-lhe: &#8220;V\u00f3s ter\u00edeis feito muito melhor atendendo logo \u00e0s minhas s\u00faplicas, concedendo-me o que vos pe\u00e7o, \u00e0 minha qualidade e \u00e0 viol\u00eancia do meu amor, que me obriga, embora eu seja vossa senhora, a rebaixar-me at\u00e9 o ponto de vos rogar. Se fordes sensato, reparai a falta que cometestes. N\u00e3o vos resta mais desculpa alguma, pois se esper\u00e1veis que eu vos procurasse uma se\u00adgunda vez, fa\u00e7o-o agora, e com maior afeto ainda. Fingi estar doente e preferi o desejo de ver-vos ao prazer de assistir a uma grande festa. Se tiv\u00e9sseis alguma suspeita de que o que eu vos digo \u00e9 uma cilada, para vos experimentar, a minha perseveran\u00e7a n\u00e3o permitir\u00e1 mais d\u00favidas de que a minha paix\u00e3o \u00e9 verdadeira. Escolhei, pois, agora ou o favor que vos ofere\u00e7o, correspondendo ao meu amor e esperando de mim, para o futuro, favores ainda maiores, ou os efeitos de mi\u00adnha ira e de minha vingan\u00e7a, se preferires \u00e0 honra que vos concedo uma v\u00e3 opini\u00e3o de castidade. Se isso acontecer, n\u00e3o imagineis que alguma coisa haver\u00e1 capaz de salvar-vos, pois vos acusarei perante o meu marido de terdes querido atentar contra a minha honra. E, por mais que possais dizer e provar o contr\u00e1rio, ele prestar\u00e1 sempre mais f\u00e9 \u00e0s minhas palavras que \u00e0s vossas justificativas&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s haver falado dessa maneira, juntou as l\u00e1grimas aos rogos. Mas nem as soli\u00adcita\u00e7\u00f5es nem as amea\u00e7as conseguiram demover Jos\u00e9 de faltar ao seu dever. Ele pre\u00adferiu expor-se a tudo do que se deixar levar por um prazer criminoso. Julgou que n\u00e3o haveria castigo que ele n\u00e3o merecesse se cometesse tal falta, e apenas para agradar uma mulher. Ent\u00e3o fez-lhe ver que ele tamb\u00e9m era devedor ao marido dela, acres\u00adcentando que os prazeres leg\u00edtimos no casamento eram prefer\u00edveis aos produzidos por uma paix\u00e3o desregrada; que estes \u00faltimos apenas se passavam, causando um arrependimento in\u00fatil; e que viveriam no cont\u00ednuo temor de serem descobertos, mas nada havia a temer da fidelidade conjugai e do andar com confian\u00e7a na presen\u00ad\u00e7a de Deus e dos homens. Se ela se mantivesse casta, conservaria a autoridade que tinha para dar-lhe ordens, ao passo que perderia essa mesma autoridade cometendo com ele um crime que ele poderia sempre atirar-lhe em rosto. Enfim, a tranq\u00fcilidade de uma consci\u00eancia que de nada se sente culpada era infinitamente prefer\u00edvel \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o daqueles que precisam esconder pecados vergonhosos.<\/p>\n<p>Essas palavras e outras semelhantes que Jos\u00e9 proferiu, procurando convenc\u00ea-la a moderar a sua paix\u00e3o e a compreender o pr\u00f3prio dever, s\u00f3 a fizeram inflamar-se ainda mais, e ela tentou obrig\u00e1-lo a conceder-lhe o que n\u00e3o podia, sem um crime, pretender dele. N\u00e3o podendo ent\u00e3o tolerar por mais tempo t\u00e3o grande vexame, ele escapou, deixando, por\u00e9m, o manto nas m\u00e3os dela. Ofendida com a repulsa de Jos\u00e9 e temendo que ele a denunciasse ao marido, resolveu preced\u00ea-lo e vingar-se.<\/p>\n<p>Assim, irritada por n\u00e3o ter podido satisfazer a sua paix\u00e3o brutal, quando o marido regressou e, surpreso, perguntou-lhe a causa de v\u00ea-la naquele estado, ela respondeu: &#8220;N\u00e3o mereceis viver se n\u00e3o castigardes como merece esse p\u00e9rfido e detest\u00e1vel servidor, que, esquecendo-se da mis\u00e9ria a que estava reduzido quan\u00addo o comprastes e da excessiva bondade com que o tratais, em vez de mostrar gratid\u00e3o, teve a ousadia de atentar contra a minha honra e de assim querer fazer-vos a maior afronta que jamais poder\u00edeis receber. Escolheu para executar o seu intento este dia de festa e a vossa aus\u00eancia. E dizei, depois disto, que a \u00fanica causa desse pudor e dessa modera\u00e7\u00e3o que ele afeta n\u00e3o \u00e9 o temor que tem de v\u00f3s! A honra que lhe concedestes, sem que ele a merecesse e que n\u00e3o teria ousado esperar, levou-o a essa horr\u00edvel insol\u00eancia. Ele julgou que, por lhe teres confiado todos os vossos bens e dado toda autoridade sobre os demais servido\u00adres, ainda que mais velhos que ele, lhe era permitido levar os seus desejos pesso\u00adais at\u00e9 vossa esposa&#8221;.<\/p>\n<p>Depois de lhe ter falado dessa maneira, e acrescentando l\u00e1grimas \u00e0s pala\u00advras, mostrou-lhe o manto de Jos\u00e9, afirmando que lhe havia ficado nas m\u00e3os enquanto resistia. Potifar, convencido por aquelas palavras e pelas l\u00e1grimas, e dando mais valor do que devia ao amor que tinha por ela, n\u00e3o p\u00f4de deixar de acreditar no que acabava de ouvir e ver. Assim, louvou-lhe muito a sabedoria e, sem indagar da verdade, n\u00e3o duvidou de que Jos\u00e9 fosse realmente culpado e mandou-o colocar na pris\u00e3o. Experimentava uma alegria secreta pela virtude da esposa, da qual julgava n\u00e3o poder duvidar depois da prova t\u00e3o convincente que ela lhe havia mostrado.<\/p>\n<p>Enquanto o eg\u00edpcio se deixava enganar dessa maneira, Jos\u00e9, em t\u00e3o amar\u00adga e injusta vicissitude, colocou nas m\u00e3os de Deus a justifica\u00e7\u00e3o de sua inoc\u00ean\u00adcia. Ele n\u00e3o quis se defender nem dizer de que modo as coisas se haviam passa\u00addo. Mas, suportando com paci\u00eancia a pris\u00e3o e a humilha\u00e7\u00e3o, confiava em Deus, ao qual tudo \u00e9 manifesto, que conhecia a causa de sua infelicidade e que era t\u00e3o poderoso quanto os que o faziam sofrer eram injustos. Ele experimentou logo os efeitos da divina provid\u00eancia. Pois o carcereiro, considerando a dilig\u00eancia e fide\u00adlidade com que ele fazia tudo o que lhe era mandado e tocado pela majestade estampada em seu rosto, tirou-lhe as cadeias, tratou-o melhor que aos outros e tornou-lhe a pris\u00e3o mais toler\u00e1vel.<\/p>\n<p><em>G\u00eanesis 40. <\/em>Como nas horas em que se permite aos prisioneiros tomar um pou\u00adco de descanso eles costumam conversar sobre a sua infelicidade, Jos\u00e9 fez amizade com um mordomo do rei, ao qual o pr\u00edncipe muito havia estimado, mas o coloca\u00adra na pris\u00e3o por causa de um descontentamento que tivera com ele. Esse homem, percebendo a virtude de Jos\u00e9, contou-lhe um sonho que tivera e rogou-lhe que o explicasse, pois se sentia muito infeliz, n\u00e3o somente por ter perdido as boas gra\u00e7as de seu senhor, mas tamb\u00e9m por estar sendo perturbado com sonhos que ele julga\u00adva s\u00f3 poderiam vir do c\u00e9u. &#8220;Parecia-me&#8221;, disse ele, &#8220;que eu via tr\u00eas cepos de videira, carregados com grande quantidade de uvas. E, estando maduros os ca\u00adchos, eu os espremia, para tirar-lhes o caldo, numa ta\u00e7a que o rei tinha na m\u00e3o e que eu apresentava a sua majestade, que o achava delicioso&#8221;.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 ouviu-o e disse-lhe que tivesse boas esperan\u00e7as, pois o sonho significava que dentro de tr\u00eas dias ele sairia da pris\u00e3o, por ordem do rei, e voltaria \u00e0s suas boas gra\u00e7as. &#8220;Pois&#8221;, acrescentou, &#8220;Deus concedeu aos frutos da videira diversos e exce\u00adlentes usos e uma grande virtude. Serve para se lhe fazerem sacrif\u00edcios, para confir\u00admar a amizade entre os homens, para faz\u00ea-los esquecer a inimizade e para mudar a sua tristeza em alegria. E, assim como esse licor que vossas m\u00e3os espremeram foi favoravelmente recebido pelo rei, n\u00e3o duvideis de que esse sonho prenuncia a vossa sa\u00edda da mis\u00e9ria em que estais h\u00e1 tantos anos, quantos vos pareceu ver em cepos de videira. Mas, quando tiverdes sabido que as minhas predi\u00e7\u00f5es s\u00e3o verda\u00addeiras, n\u00e3o vos esque\u00e7ais, na liberdade de que gozareis, daquele que deixastes preso ainda \u00e0s cadeias. Lembrai-vos tanto mais na vossa felicidade da minha des\u00adgra\u00e7a, pois n\u00e3o foi por ter cometido crime que sou castigado, mas por ter preferi\u00addo, por um sentimento de dever e de virtude, a honra de meu senhor \u00e0 vol\u00fapia criminosa&#8221;. Seria in\u00fatil dizer qual foi a alegria do copeiro-mor ante uma interpreta\u00ad\u00e7\u00e3o t\u00e3o favor\u00e1vel de seu sonho e com que impaci\u00eancia esperava a sua realiza\u00e7\u00e3o. Aconteceu, por\u00e9m, em seguida, outra coisa de todo contr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Um padeiro-mor do rei, que estava preso com eles e escutara essas pala\u00advras, teve esperan\u00e7as de que um sonho que tamb\u00e9m tivera lhe poderia ser favor\u00e1\u00advel. Contou-o a Jos\u00e9 e rogou-lhe que o explicasse. &#8220;Parecia-me&#8221;, disse ele, &#8220;que eu levava na cabe\u00e7a tr\u00eas cestos, dois dos quais estavam cheios de p\u00e3o e o terceiro de iguarias diversas, das que se servem na mesa do rei, e alguns passarinhos as leva\u00advam sem que eu pudesse evit\u00e1-lo&#8221;. Jos\u00e9, depois de escut\u00e1-lo atentamente, decla\u00adrou que teria muito desejado dar-lhe uma explica\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel, mas era obrigado a dizer que os dois primeiros cestos significavam que s\u00f3 lhe restavam dois dias de vida, e o terceiro, que ele seria enforcado e comido pelos p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>Tudo o que Jos\u00e9 havia predito aconteceu. Tr\u00eas dias depois, o rei mandou, durante um grande banquete, no dia de seu nascimento, que enforcassem o pa\u00addeiro-mor e se tirasse da pris\u00e3o o copeiro-mor\u00bb para recoloc\u00e1-lo no cargo. Mas a ingratid\u00e3o deste o fez esquecer a promessa, e Jos\u00e9 continuou a sofrer por mais dois anos as amarguras inerentes a um c\u00e1rcere. Deus, todavia, que jamais abandona os seus, serviu-se, para dar-lhe a liberdade, de um expediente, o qual vou relatar.<\/p>\n<p>O rei teve numa mesma noite dois sonhos, que julgou serem p\u00e9ssimos press\u00e1-gios, embora n\u00e3o se lembrasse da explica\u00e7\u00e3o que simultaneamente lhe fora dada. No dia seguinte, ao despontar do dia, mandou buscar os homens mais s\u00e1bios de todo o Egito e ordenou-lhes que os decifrassem. Eles responderam que n\u00e3o o podiam fazer, aumentando-lhe ainda mais o temor. Esse fato despertou na me\u00adm\u00f3ria do copeiro-mor a lembran\u00e7a de Jos\u00e9 e do dom que ele possu\u00eda para inter\u00adpretar sonhos. Falou dele ao rei, contando-lhe como Jos\u00e9 havia explicado o seu sonho e o do padeiro-mor e como os fatos confirmaram a veracidade de suas palavras. Disse-lhe tamb\u00e9m que Jos\u00e9 era escravo de Potifar \u2014 o qual o havia posto na pris\u00e3o \u2014 e hebreu de nascimento, oriundo de uma fam\u00edlia ilustre, se\u00adgundo ele mesmo afirmava. E, caso sua majestade desejasse mandar busc\u00e1-lo, n\u00e3o julgasse dele pelo estado infeliz em que se encontrava, mas poderia saber por seu interm\u00e9dio o que significavam aqueles sonhos.<\/p>\n<p>Ante essa sugest\u00e3o, o rei mandou imediatamente buscar a Jos\u00e9, tomou-o pela m\u00e3o e disse: &#8220;Um de meus oficiais falou-me de v\u00f3s, de maneira t\u00e3o elogiosa que a opini\u00e3o que tenho de vossa sabedoria faz-me desejar que me expliqueis os meus sonhos, tal como explicastes o dele, sem que o temor de me zangar ou o desejo de me agradar vos fa\u00e7am mudar algo da verdade, ainda que me reveleis coisas desagrad\u00e1veis. Parecia-me que, passeando ao longo do rio, eu via sete vacas bem grandes e muito gordas, que sa\u00edam para ir aos p\u00e2ntanos. Em seguida, vi outras sete, muito feias e muito magras, que foram ao encontro das primeiras e as devoraram, sem que com isso saciassem a fome. Acordei muito perturbado a respeito do que esse sonho poderia significar e, tendo dormido de novo, tive um outro, que me p\u00f4s em inquieta\u00e7\u00e3o ainda maior. Parecia-me que eu via sete espigas sa\u00eddas de um mesmo p\u00e9, todas maduras e t\u00e3o gordas que o peso dos gr\u00e3os as fazia inclinar-se para a terra. Perto dali, sete outras espigas, muito secas e magras, devoraram ent\u00e3o aquelas sete t\u00e3o belas, deixando-me estupefato e no desassossego em que me encontro ainda agora&#8221;.<\/p>\n<p>Depois de o rei assim haver falado, Jos\u00e9 respondeu-lhe: &#8220;Os dois sonhos de vossa majestade significam a mesma coisa. As sete vacas magras e as sete espigas \u00e1ridas que devoraram as vacas bem nutridas e as espigas gordas representam a esterilidade e a carestia que assolar\u00e3o o Egito dura\/^e sete anos e que consumir\u00e3o toda a fertilidade e a abund\u00e2ncia dos sete anos precedentes. Parece que ser\u00e1 dif\u00edcil remediar t\u00e3o grande mal, porque as vacas magras que devoraram as outras n\u00e3o foram ainda saciadas. Mas Deus n\u00e3o prediz tais coisas aos povos para amedront\u00e1-los, de modo que eles se deixem abater pelo des\u00e2nimo, mas, ao con\u00adtr\u00e1rio, para obrig\u00e1-los por uma s\u00e1bia previd\u00eancia a evitar o perigo que os amea\u00ad\u00e7a. E assim, se agradar a vossa majestade mandar que se reserve o trigo colhido nestes anos t\u00e3o f\u00e9rteis, para distribu\u00ed-lo na \u00e9poca da necessidade, o Egito n\u00e3o sentir\u00e1 absolutamente a esterilidade dos outros anos&#8221;.<\/p>\n<p>O rei, admirado da intelig\u00eancia e sabedoria de Jos\u00e9, perguntou-lhe o que fazer naqueles anos de abund\u00e2ncia para tornar suport\u00e1vel a esterilidade dos ou\u00adtros. Jos\u00e9 respondeu-lhe que era necess\u00e1rio recolher o trigo, de sorte que se gastasse apenas o necess\u00e1rio e se conservasse o resto para prover \u00e0 necessidade futura. E acrescentou que era ainda preciso deixar aos lavradores apenas o que lhes fosse necess\u00e1rio para semear a terra e para viver.<\/p>\n<p>Fara\u00f3, ent\u00e3o, n\u00e3o menos satisfeito com a prud\u00eancia de Jos\u00e9 do que com a explica\u00e7\u00e3o dos sonhos, julgou n\u00e3o poder fazer escolha melhor do que o pr\u00f3prio ]os\u00e9 para a execu\u00e7\u00e3o de um conselho t\u00e3o sensato. Assim, deu-lhe plenos poderes para determinar o que julgasse mais conveniente para o seu trabalho e para o bem-estar de seus s\u00faditos. Como sinal da autoridade com que o honrava, permitiu que se vestisse de p\u00farpura, usasse um anel com o selo real e fosse conduzido sobre um carro por todo o Egito. Jos\u00e9, em seguida, fez executar as ordens e mandou recolher todo o trigo aos celeiros do rei, deixando ao povo somente o necess\u00e1rio para semear e viver, sem dizer por que raz\u00e3o assim procedia. Ele tinha ent\u00e3o trinta anos, e o rei o fez nomear Psontomfance, por causa de sua intelig\u00eancia (esse nome significa, em l\u00edngua eg\u00edpcia, &#8220;aquele que penetra as coisas ocultas&#8221;).<\/p>\n<p>Fara\u00f3 fez Jos\u00e9 desposar uma jovem de nobre fam\u00edlia, chamada Asenate, cujo pai se chamava Pot\u00edfera e era sacerdote de Om. Dela teve dois filhos, antes que chegasse a carestia, e por isso chamou ao primeiro Manasses, isto \u00e9, &#8220;esque\u00adcido&#8221;, porque a prosperidade em que ent\u00e3o se encontrava fazia-o esquecer as afli\u00e7\u00f5es passadas, e ao segundo chamou Efraim, isto \u00e9, &#8220;restabelecimento&#8221;, por\u00adque havia sido reintegrado \u00e0 liberdade de seus antepassados.<\/p>\n<p>Depois que os sete anos de abund\u00e2ncia preditos por Jos\u00e9 se passaram, a carestia come\u00e7ou a ser t\u00e3o grande que, nesse mal imprevisto, todo o Egito recor\u00adreu ao rei. Jos\u00e9, por ordem do soberano, distribu\u00eda o trigo, e o seu s\u00e1bio proceder conquistou-lh\u00e9 um afeto geral, tanto que todos o chamavam de &#8220;salvador do povo&#8221;. Ele n\u00e3o vendeu trigo somente aos eg\u00edpcios, mas tamb\u00e9m aos estrangei\u00adros, porque estava convencido de que todos os homens est\u00e3o unidos por um estreito liame, de modo que os que se encontram na abund\u00e2ncia est\u00e3o obriga\u00addos a socorrer os outros nas suas necessidades.<\/p>\n<p><em>C\u00eanesis 42. <\/em>Como o Egito n\u00e3o era o \u00fanico pa\u00eds assolado pela carestia, pois o flagelo se estendia a v\u00e1rias outras prov\u00edncias, entre outras, a pr\u00f3pria Cana\u00e3, Jac\u00f3, sabendo que se vendia trigo no Egito, mandou para l\u00e1 todos os seus filhos, para comprar o alimento \u2014 todos exceto Benjamim, filho de Raquel e irm\u00e3o de pai e m\u00e3e de Jos\u00e9, que reteve junto de si.<\/p>\n<p>Quando os dez irm\u00e3os chegaram ao Egito, dirigiram-se a Jos\u00e9 para pedir-lhe que lhes mandasse vender trigo. Tinha ele tanto prest\u00edgio que teria sido in\u00fatil recorrer diretamente ao rei. Ele reconheceu imediatamente todos os seus irm\u00e3os, mas eles n\u00e3o o reconheceram, porque Jos\u00e9 era ainda muito jovem quando o venderam, e sua fisionomia estava mudada. Al\u00e9m disso, jamais teriam imaginado v\u00ea-lo em tal condi\u00e7\u00e3o e poder. Jos\u00e9 resolveu experiment\u00e1-los, depois de recusar vender-lhes o trigo, acusando-os de serem espi\u00f5es e de juntos conspirarem con\u00adtra o rei. Declarou tamb\u00e9m que eles fingiam ser irm\u00e3os, embora se parecessem, mas que se haviam reunido de v\u00e1rios lugares, n\u00e3o sendo poss\u00edvel que um s\u00f3 homem tivesse tantos filhos, todos t\u00e3o bem feitos, uma rara felicidade, que n\u00e3o acontece nem mesmo aos reis. Ele assim falou somente para ter not\u00edcias de seu pai, do estado de seus neg\u00f3cios durante a sua aus\u00eancia e de seu irm\u00e3o Benjamim, que temia tivessem tamb\u00e9m feito morrer pela mesma inveja da qual ele pr\u00f3prio j\u00e1 havia sentido o efeito.<\/p>\n<p>As palavras de Jos\u00e9 os deixaram at\u00f4nitos e, para se justificarem de t\u00e3o grave acusa\u00e7\u00e3o, responderam-lhe por boca de R\u00faben, o mais velho: &#8220;Nada est\u00e1 mais longe do nosso pensamento que vir at\u00e9 aqui como espi\u00f5es. A carestia, que assola tamb\u00e9m a nossa p\u00e1tria, obrigou-nos a recorrer a v\u00f3s, porque soubemos que a vossa bondade, n\u00e3o se contentando em remediar as necessidades de vossos s\u00faditos e do rei, vai al\u00e9m das fronteiras, em socorro das necessidades dos estrangeiros, permitindo-lhes tamb\u00e9m comprar o trigo. Quanto a dizermos que somos irm\u00e3os, basta olhar os nossos rostos para se notar, pela semelhan\u00e7a, que falamos a verda\u00adde. Nosso pai, que \u00e9 hebreu, chama-se Jac\u00f3. Ele teve, de quatro mulheres, doze filhos, e fomos felizes durante o tempo em que viv\u00edamos todos. Por\u00e9m, depois da morte de um deles, chamado Jos\u00e9, todas as coisas nos foram adversas. Nosso pai n\u00e3o se pode consolar de sua perda, e a sua extrema afli\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos causa menor dor que a que sentimos com a morte de nosso irm\u00e3o, t\u00e3o querido e t\u00e3o am\u00e1vel. O motivo que nos traz aqui \u00e9 somente comprar o trigo. Deixamos com o nosso pai o mais mo\u00e7o de nossos irm\u00e3os, de nome Benjamim, e se vos aprouver man\u00addar busc\u00e1-lo, sabereis que vos dizemos a verdade e falamos sinceramente&#8221;.<\/p>\n<p>Essas palavras deram a conhecer a Jos\u00e9 que nada mais devia temer por seu pai ou por seu irm\u00e3o. No entanto ordenou que os pusessem na pris\u00e3o, para serem interrogados comodamente. F\u00ea-los voltar tr\u00eas dias depois e disse-lhes: &#8220;Para me certificar de que n\u00e3o viestes aqui com mau des\u00edgnio contra a seguran\u00e7a do rei e de que sois todos irm\u00e3os e filhos do mesmo pai, quero que me deixeis um dentre v\u00f3s, que ficar\u00e1 em completa seguran\u00e7a comigo. E, depois de terdes regressado com o trigo que pedirdes, voltareis aqui trazendo o vosso irm\u00e3o menor, que deixastes com ele&#8221;. A ordem deixou-os at\u00f4nitos, e, lastimando a pr\u00f3pria infelici\u00addade, reconheceram que Deus os castigava, com justi\u00e7a, pela grande crueldade deles para com Jos\u00e9. Por isso R\u00faben, censurando-os severamente, disse-lhes que as lam\u00farias eram in\u00fateis e que era necess\u00e1rio suportar com firmeza o castigo, o qual bem mereciam. Vividamente sentidos, puseram-se de acordo.<\/p>\n<p>Como falavam em l\u00edngua hebraica, julgavam que ningu\u00e9m os entendia. Jos\u00e9, no entanto, ficou t\u00e3o comovido ao v\u00ea-los quase levados ao desespero que, n\u00e3o podendo reter as l\u00e1grimas e n\u00e3o querendo ainda dar-se a conhecer, retirou-se da presen\u00e7a deles. Tendo voltado em seguida, reteve Sime\u00e3o como ref\u00e9m, at\u00e9 que trouxessem o irm\u00e3o menor. Ent\u00e3o deu4hes permiss\u00e3o para comprar o trigo e partir. Entretanto ordenou que secretamente recolocassem nos sacos o dinheiro que haviam entregado em pagamento, o que foi feito.<\/p>\n<p>De volta a Cana\u00e3, eles narraram ao pai tudo o que se havia passado: como os haviam tomado por espi\u00f5es, como o governador n\u00e3o quisera acreditar neles, apesar de terem dito que eram todos irm\u00e3os e que tinham ainda um irm\u00e3o menor, o qual havia ficado com o pai, e como conservariam Sime\u00e3o como ref\u00e9m at\u00e9 que levassem Benjamim. Pediram-lhe ent\u00e3o que enviasse Benjamim com eles, sem nada temer pela sua sorte. Jac\u00f3, sentindo-se j\u00e1 bastante pesaroso pelo fato de Sime\u00e3o ter ficado no Egito, achou que a morte lhe seria mais suave que o risco de perder tamb\u00e9m a Benjamim. E recusou-se deix\u00e1-lo partir, embora R\u00faben acrescentasse aos seus rogos a proposta de entregar-lhe os pr\u00f3prios filhos, para Jac\u00f3 deles dispor como bem entendesse se alguma desgra\u00e7a sobreviesse a Benjamim, mas nem as\u00adsim p\u00f4de faz\u00ea-lo consentir. A resist\u00eancia do pai p\u00f4s os irm\u00e3os em indiz\u00edvel agonia, que aumentou muito quando encontraram o dinheiro nos sacos de trigo.<\/p>\n<p><em>G\u00eanesis 43. <\/em>A carestia continuava, e, quando o trigo que haviam comprado estava terminando, Jac\u00f3 come\u00e7ou a pensar em mandar Benjamim ao Egito, pois os seus irm\u00e3os n\u00e3o ousavam retornar sem ele. Embora a necessidade au\u00admentasse e eles redobrassem as inst\u00e2ncias, Jac\u00f3 n\u00e3o conseguia decidir-se. Em tal conjuntura, Jud\u00e1, que era de natureza ousada e violenta, tomou a liberdade de dizer-lhe que havia exagero em sua inquieta\u00e7\u00e3o a respeito de Benjamim, pois, quer ficasse junto dele, quer se afastasse, nada lhe poderia acontecer con\u00adtra a vontade de Deus; que aquele cuidado in\u00fatil punha em risco a sua pr\u00f3pria vida e a de todos os seus, pois s\u00f3 poderiam subsistir pelo aux\u00edlio que trouxes\u00adsem do Egito; que deveriam considerar que o atraso no regresso talvez levasse os eg\u00edpcios a executar Sime\u00e3o; que, segundo a sua piedade, deveria confiar a Deus a conserva\u00e7\u00e3o de Benjamim; e que, por fim, prometiam traz\u00ea-lo s\u00e3o e salvo ou ent\u00e3o morrer com ele.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 n\u00e3o p\u00f4de resistir a t\u00e3o fortes raz\u00f5es e deixou partir Benjamim. Deu-lhes o dobro do dinheiro necess\u00e1rio para comprar o trigo, acrescentando v\u00e1rios presentes para Jos\u00e9, dentre as coisas mais preciosas que havia na terra de Cana\u00e3: b\u00e1lsamo, resinas, terebintina e mel. Esse pai, de natureza t\u00e3o suave e terna, passou todo aque\u00adle dia imerso em grande dor, ao ver partir todos os seus filhos. Tamb\u00e9m estes sa\u00edram no temor de que o pai n\u00e3o pudesse resistir a t\u00e3o grade afli\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 medida que se adiantavam na viagem, consolavam-se com a esperan\u00e7a de uma melhor sorte.<\/p>\n<p>Logo que chegaram ao Egito, dirigiram-se ao pal\u00e1cio de Jos\u00e9 e, temendo que os acusassem de terem roubado o dinheiro do trigo que haviam comprado, desculparam-se com o administrador, assegurando-lhe que fora grande a surpre\u00adsa deles quando, j\u00e1 em sua p\u00e1tria, encontraram nos sacos o dinheiro, que de novo lhe traziam. Ele fingiu ignorar de que se tratava, e eles ficaram ainda mais tranq\u00fcilos quando puseram Sime\u00e3o em liberdade.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, voltando ao pal\u00e1cio do rei, entregaram a Jos\u00e9 os pre\u00adsentes que o pai enviara. Jos\u00e9 perguntou da sa\u00fade de Jac\u00f3, e responderam-lhe que era boa. E ele cessou de temer por Benjamim quando o viu entre os demais, por\u00e9m n\u00e3o deixou de perguntar se era aquele o irm\u00e3o menor deles. Tendo-lhe eles respondido que era, contentou-se em dizer-lhes que a provid\u00eancia de Deus estendia-se a tudo. N\u00e3o podendo mais conter as l\u00e1grimas, afastou-se, para n\u00e3o se dar a conhecer. Naquele mesmo dia, ofereceu-lhes uma ceia, determinando que se sentassem \u00e0 mesa na mesma posi\u00e7\u00e3o e ordem que adotavam em casa. Tratou-os assim muito bem e fez servir uma por\u00e7\u00e3o dobrada a Benjamim.<\/p>\n<p><em> G\u00eanesis 44. <\/em>Ordenou em seguida que lhes dessem o trigo que desejavam levar e acrescentou, por ordem secreta, que quando estivessem dormindo se pusesse de novo nos sacos o dinheiro do pagamento e que escondessem, al\u00e9m disso, no saco pertencente a Benjamim, a ta\u00e7a em que ele, Jos\u00e9, comumente se servia. Queria desse modo experimentar a disposi\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os para com Benjamim, para ver se o auxiliariam quando ele o acusasse daquele furto ou se o abandonariam sem se incomodar com a sua sorte.<\/p>\n<p>Sua ordem foi executada. Eles partiram ao raiar do dia, com grande j\u00fabilo por terem reconquistado o seu irm\u00e3o Sime\u00e3o e cumprido a promessa para com o seu pai, restituindo-lhe tamb\u00e9m Benjamim. Entretanto ficaram espantados quando se viram cercados por uma tropa de cavalaria, junto da qual estavam os servido\u00adres de Jos\u00e9 que haviam escondido a ta\u00e7a. E perguntaram a estes por que motivo, depois de o senhor deles os haver tratado com tanta cordialidade, os perseguiam com tanta insist\u00eancia.<\/p>\n<p>Os eg\u00edpcios responderam-lhes que a bondade de Jos\u00e9, de que se vangloriavam, ressaltava-lhes ainda mais a ingratid\u00e3o e os tornava mais culpados, pois, em vez de reconhecerem os favores que haviam recebido, n\u00e3o tinham tido escr\u00fapulo de roubar a ta\u00e7a de que ele se servira para lhes dar, num banquete, demonstra\u00e7\u00f5es de sua estima e haviam preferido um roubo t\u00e3o vergonhoso \u00e0 honra da boa gra\u00e7a, expondo-se ao perigo que os amea\u00e7ava, se fossem descobertos. Porque eles n\u00e3o podiam deixar de ser castigados como mereciam, pois, se haviam podido enganar o encarregado da guar\u00adda daquela ta\u00e7a, n\u00e3o podiam enganar a Deus, que revelara o roubo, n\u00e3o permitindo que dele se aproveitassem. E em v\u00e3o fingiam ignorar o fim que os levara ao encal\u00e7o deles, pois o castigo que receberiam f\u00e1-los-ia conhecer o motivo.<\/p>\n<p>O eg\u00edpcio que assim falava acrescentou a isso mil censuras, mas como os ir\u00adm\u00e3os se julgavam inocentes, n\u00e3o se incomodaram com as recrimina\u00e7\u00f5es, achando loucura que fossem acusados de tal roubo \u2014 eles, que depois de encontrarem nos sacos o dinheiro do trigo que haviam comprado, tinham-no restitu\u00eddo em boa-f\u00e9 (embora ningu\u00e9m disso soubesse), o que era uma maneira de agir bem contr\u00e1ria ao crime de que os acusavam. Como uma busca poderia melhor justific\u00e1-los que as palavras, a confian\u00e7a que tinham em sua inoc\u00eancia tornou-os t\u00e3o ousados que insistiram com os eg\u00edpcios que examinassem os sacos, acrescentando que estavam dispostos a serem todos castigados se um s\u00f3 deles fosse tido como culpado.<\/p>\n<p>Os eg\u00edpcios aceitaram a sugest\u00e3o e determinaram fazer a pesquisa com uma condi\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel; contentar-se-iam em prender somente aquele em cujo saco a ta\u00e7a estivesse escondida. O oficial remexeu ent\u00e3o em todos os sacos, iniciando propositadamente pelos dos mais velhos, a fim de reservar o de Benjamim para o final. N\u00e3o porque n\u00e3o soubesse em qual saco a ta\u00e7a se encon\u00adtrava, mas para dar a impress\u00e3o de que se desobrigava muito bem de sua incum\u00adb\u00eancia. Assim, os dez primeiros, nada receando por eles mesmos e n\u00e3o julgando que houvesse algo a temer por Benjamim, queixaram-se de seus perseguidores e do atraso que estava causando aquela busca injusta. No entanto, quando abri\u00adram o saco que pertencia a Benjamim e ali acharam a ta\u00e7a, a surpresa de terem ca\u00eddo em tal desdita quando j\u00e1 se julgavam fora de qualquer perigo causou-lhes t\u00e3o viva dor que eles rasgaram as pr\u00f3prias vestes e s\u00f3 conseguiam gritar e gemer. Isso porque imaginaram logo o castigo inevit\u00e1vel para Benjamim e ao mesmo tempo lembraram que haviam solenemente prometido ao pai restituir-lhe o filho menor. E, para c\u00famulo da afli\u00e7\u00e3o, sentiam-se culpados da desgra\u00e7a de um e de outro, pois foram os seus insistentes pedidos que levaram Jac\u00f3 a decidir-se man\u00addar Benjamim com eles.<\/p>\n<p>Os cavaleiros, sem demonstrar como\u00e7\u00e3o com as suas queixas e l\u00e1grimas, leva\u00adram Benjamim a Jos\u00e9, e seus irm\u00e3os o seguiram. Jos\u00e9, vendo Benjamim nas m\u00e3os dos soldados, assim falou aos irm\u00e3os esmagados pela dor: &#8220;Miser\u00e1veis que sois! Respeitais, ent\u00e3o, t\u00e3o pouco a provid\u00eancia de Deus e sois t\u00e3o insens\u00edveis \u00e0 bon\u00addade que vos testemunhei que tenhais tido a coragem de cometer uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o baixa para com o vosso benfeitor, que vos recebeu com tanta cordialidade?&#8221; Essas poucas palavras causaram-lhes tal confus\u00e3o que somente puderam se ofe\u00adrecer para libertar o irm\u00e3o e serem castigados em seu lugar. Diziam entre si, uns aos outros, que Jos\u00e9 era feliz, pois se havia morrido, estava livre das mis\u00e9rias da vida, e, se estava vivo, ser-lhe-ia glorioso que Deus julgasse digno o severo casti\u00adgo que sofriam por causa dele. Confessavam ainda que n\u00e3o poderiam ser mais culpados do que j\u00e1 o eram para com o pai, por terem acrescentado nova afli\u00e7\u00e3o \u00e0 que ele j\u00e1 suportava pela perda de Jos\u00e9. E R\u00faben continuava a censurar-lhes o crime que haviam cometido contra o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Disse-lhes Jos\u00e9 que, como n\u00e3o duvidava da inoc\u00eancia deles, permitia que re\u00adgressassem, contentando-se em castigar aquele que cometera o crime, pois, as\u00adsim como n\u00e3o era justo p\u00f4r em liberdade um culpado para ser agrad\u00e1vel aos que n\u00e3o o eram, do mesmo modo n\u00e3o seria razo\u00e1vel fazer sofrer inocentes pelo peca\u00addo de um s\u00f3. E assim, eles podiam partir quando quisessem, que ele lhes garan\u00adtiria toda a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>De tal maneira essas palavras penetraram-lhes o cora\u00e7\u00e3o que todos, exceto Jud\u00e1, ficaram impossibilitados de responder. E, como era muito generoso e havia feito ao pai a promessa de lhe reconduzir Benjamim, resolveu expor-se, para salv\u00e1-lo, e assim falou a Jos\u00e9: &#8220;Reconhecemos, meu senhor, que a inj\u00faria que recebestes \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o pode ser assaz rigorosamente castigada. Assim, ainda que a falta seja exclusiva de um s\u00f3 e do mais mo\u00e7o de todos n\u00f3s, queremos receber todos juntos o castigo. Embo\u00adra pare\u00e7a que nada devamos esperar em favor dele, n\u00e3o deixamos de confiar em vossa clem\u00eancia e ousamos prometer a n\u00f3s mesmos que seguireis, preferivelmente, nesta ocorr\u00eancia, os sentimentos que ela vos inspirar, que n\u00e3o os da vossa justa c\u00f3lera, pois \u00e9 pr\u00f3prio das grandes almas, como a vossa, sobrepor-se \u00e0s paix\u00f5es pelas quais as almas vulgares se deixam vencer. Considerai, por favor, se seria digno de v\u00f3s fazer morrer pessoas que n\u00e3o querem ter a vida sen\u00e3o pela vossa bondade. N\u00e3o ser\u00e1 a primeira vez que v\u00f3s a tereis conservado, pois, sem o trigo que nos permitistes comprar, h\u00e1 muito tempo a fome nos teria matado a todos. N\u00e3o permitais, portanto, que t\u00e3o grande obriga\u00e7\u00e3o, de que vos somos devedores, fique in\u00fatil, mas fazei que tenhamos ainda uma segunda, que n\u00e3o ser\u00e1 menor que a primeira, pois \u00e9 conceder em duas maneiras diferentes uma mesma gra\u00e7a: conservar a vida aos que a fome teria feito morrer e n\u00e3o tir\u00e1-la \u00e0queles que merecem a morte. V\u00f3s nos salvastes, dando-nos com que nos ali\u00admentarmos. Fazei-nos agora gozar desse favor por uma generosidade digna de v\u00f3s. Sede cioso de vossos pr\u00f3prios dons, n\u00e3o vos contentando de nos salvar uma s\u00f3 vez a vida. E, certamente, eu creio, Deus permitiu que tenhamos ca\u00eddo em tal infort\u00fanio para fazer brilhar mais a vossa virtude, pois, perdoando aos que vos ofenderam, fareis ver que a vossa bondade n\u00e3o se estende somente aos inocentes, que t\u00eam necessidade da vossa assist\u00eancia, mas tamb\u00e9m aos culpados, aos quais a vossa gra\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria. Embora seja coisa muito louv\u00e1vel socorrer os aflitos, n\u00e3o \u00e9 menos digno de um ho\u00admem elevado a um alto cargo esquecer as ofensas particulares que lhe s\u00e3o feitas. \u00c9 glorioso perdoar as faltas leves. \u00c9 imitar a Divindade, que d\u00e1 a vida aos que merecem perd\u00ea-la. Se a morte de )os\u00e9 n\u00e3o me tivesse feito conhecer at\u00e9 que ponto vai a extrema ternura de nosso pai para com os seus filhos, n\u00e3o insistiria eu tanto junto de v\u00f3s pela conserva\u00e7\u00e3o de um filho que lhe \u00e9 t\u00e3o caro. Se eu vo-lo fa\u00e7o, \u00e9 somente a fim de contribuir para a gl\u00f3ria que ter\u00edeis em perdoar-lhe, enquanto n\u00f3s suportar\u00edamos mor\u00adrer com paci\u00eancia, se um pai que nos \u00e9 t\u00e3o querido e venerado se pudesse consolar com a nossa morte. Mas n\u00f3s, embora sejamos mo\u00e7os e comecemos a desfrutar os prazeres da vida, sentimos muito mais o mal dele que o nosso e n\u00e3o vos rogamos tanto por n\u00f3s quanto por ele, que n\u00e3o somente est\u00e1 acabado pela idade, mas tamb\u00e9m pela dor. Podemos dizer, com verdade, que \u00e9 um homem de grande virtude, que nada omitiu nem esqueceu para nos levar \u00e0 sua imita\u00e7\u00e3o e que seria bem infeliz se lhe f\u00f4ssemos causa de afli\u00e7\u00e3o. A nossa aus\u00eancia j\u00e1 o faz sofrer de tal modo que ele n\u00e3o poderia suportar a not\u00edcia da nossa morte. A vergonha de que seria acompanhada abreviaria, sem d\u00favida, os seus dias, e, para evitar a confus\u00e3o que isso lhe causaria, ele preferiria deixar este mundo antes que a not\u00edcia se espalhasse. Assim, embora a vossa c\u00f3lera seja muito justa, fazei com que a vossa compaix\u00e3o por nosso pai seja mais poderosa sobre o vosso esp\u00edrito que o ressentimento pela nossa falta. Concedei essa gra\u00e7a \u00e0 velhice, pois ele n\u00e3o se poderia resignar a sobreviver \u00e0 nossa perda. Concedei-a na qualidade de pai, para honrar o vosso, na vossa pessoa, e honrar-vos a v\u00f3s mes\u00admo, pois Deus vos deu essa mesma qualidade. Deus, que \u00e9 o pai de todos os homens, vos tomar\u00e1 feliz na vossa fam\u00edlia se f izerdes ver que respeitais um nome que tendes em comum com ele, deixando-vos levar pela compaix\u00e3o para com um pai que n\u00e3o pode\u00adria suportar a perda de seus filhos. Nossa vida est\u00e1 em vossas m\u00e3os: assim como podeis no-la destruir com justi\u00e7a, podeis tamb\u00e9m, pela gra\u00e7a, no-la conservar. Ser-vos-\u00e1 tanto mais glorioso imitar, no-la conservando, a bondade de Deus, o qual no-la deu, pois n\u00e3o ser\u00e1 a um s\u00f3, mas a v\u00e1rios que a conservareis. D\u00e1-la a nosso irm\u00e3o ser\u00e1 d\u00e1-la a todos, pois n\u00e3o nos poder\u00edamos resolver a sobreviver nem a voltar sem ele a nosso pai, e tudo o que lhe acontecer ser\u00e1 comum conosco. Assim, se nos recusardes esta gra\u00e7a, n\u00f3s s\u00f3 vos pediremos que nos fa\u00e7ais sofrer o mesmo castigo ao qual o condenareis, pois ainda que n\u00e3o tenhamos parte no seu crime preferimos passar por c\u00famplices de sua falta e ser com ele condenados \u00e0 morte que sermos obrigados por nossa pena e dor a morrer por nossas mesmas m\u00e3os. N\u00e3o vos direi, senhor, que, sendo ele ainda jovem e sujeito \u00e0s fraquezas de sua idade, a humanidade parece obrigar-vos a perdoar-lhe. Omitirei de prop\u00f3sito muitas outras coisas, a fim de que, se n\u00e3o vos deixardes comover pelas nossas palavras, se possa atribuir disto a causa: a ter eu mal defendido o meu irm\u00e3o. Mas se, ao contr\u00e1rio, v\u00f3s lhe perdoardes, pare\u00e7a que n\u00f3s somos devedo\u00adres disso unicamente \u00e0 vossa clem\u00eancia e \u00e0 penetra\u00e7\u00e3o de vosso esp\u00edrito, que ter\u00e1 conhecido melhor do que n\u00f3s mesmos as raz\u00f5es que podem servir \u00e0 nossa defesa. Mas, se n\u00e3o formos t\u00e3o felizes e quiserdes castig\u00e1-lo, o \u00fanico favor que vos pe\u00e7o \u00e9 fazer-me sofrer a mesma pena em seu lugar e permitir-lhe que volte para o nosso pai. Ou, se a vossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 conserv\u00e1-lo como escravo, vereis que eu estou mais em condi\u00e7\u00f5es do que ele de vos prestar esse servi\u00e7o&#8221;.<\/p>\n<p>Jud\u00e1 assim falou e, demonstrando que estava pronto a se expor alegremen\u00adte para salvar o irm\u00e3o, lan\u00e7ou-se aos p\u00e9s de Jos\u00e9, a fim de nada esquecer que pudesse comov\u00ea-lo e lev\u00e1-lo a conceder-lhe a gra\u00e7a que pedia. Os outros irm\u00e3os fizeram o mesmo, e nem um s\u00f3 deixou de se oferecer para ser castigado em lugar de Benjamim. Tantos testemunhos de uma amizade t\u00e3o verdadeiramente fraterna comoveram o cora\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9. Ent\u00e3o, n\u00e3o podendo mais continuar a fingir-se encolerizado, ordenou aos que estavam presentes que sa\u00edssem do quarto.<\/p>\n<p>Quando ficou sozinho com os seus irm\u00e3os, Jos\u00e9 deu-se a conhecer, falando-Ihes deste modo: &#8220;A maneira como me tratastes outrora dava-me motivo para vos acusar de m\u00e1 \u00edndole. Tudo o que fiz at\u00e9 aqui teve como finalidade apenas submeter-vos a uma prova. Por\u00e9m a amizade que demonstrais para com Benjamim obriga-me a mudar a minha opini\u00e3o e mesmo a crer que Deus permitiu o que aconteceu para disso tirar o bem de que desfrutais agora e que espero de sua gra\u00e7a seja ainda maior para o futuro. Assim, vendo que meu pai est\u00e1 passando bem, melhor do que eu mesmo imaginava, e testemunhando o vosso afeto por Benjamim, n\u00e3o \u00e9 meu desejo lembrar-me do passado, a n\u00e3o ser para atribu\u00ed-lo ao nosso Deus e para vos considerar como tendo sido naquele fato um ministro da provid\u00eancia. E, da mesma forma como o esque\u00e7o, quero que esque\u00e7ais tamb\u00e9m, e que este t\u00e3o feliz acontecimento, fruto de um mau conselho, vos fa\u00e7a apagar o opr\u00f3brio de vossa falta, de modo a n\u00e3o vos restar desprazer algum, porque ela ficou sem efeito. Por que o desprazer de t\u00ea-la cometido vos causaria agora triste\u00adza? Alegrai-vos, ao contr\u00e1rio, pelo que aprouve a Deus realizar em nosso favor e ide imediatamente consolar o nosso pai, para que a apreens\u00e3o em que ele se encontra, por vossa causa, n\u00e3o o fa\u00e7a morrer sem que eu tenha a consola\u00e7\u00e3o de v\u00ea-lo. Porque a maior alegria que a minha fortuna me poder\u00e1 conceder \u00e9 torn\u00e1-lo participante dos bens que possuo, pela liberalidade de Deus. N\u00e3o deixeis tam\u00adb\u00e9m de trazer com ele as vossas esposas, os vossos filhos e os vossos parentes, a fim de que todos participeis da minha felicidade. E desejo-o tanto mais porque a carestia que nos aflige durar\u00e1 ainda cinco anos&#8221;.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 assim falou aos irm\u00e3os e abra\u00e7ou-os a todos. Todos choravam. E os ir\u00adm\u00e3os de Jos\u00e9, n\u00e3o podendo duvidar da sinceridade do afeto que ele lhes mani\u00adfestava e do perd\u00e3o que lhes concedia, muito verdadeiro, tinham o cora\u00e7\u00e3o feri\u00addo de dor e n\u00e3o conseguiam perdoar-se a si mesmos por hav\u00ea-lo tratado com tanta desumanidade. Depois de tantas l\u00e1grimas derramadas, aquele dia termi\u00adnou com um grande banquete.<\/p>\n<p>O rei, que soubera da chegada dos irm\u00e3os de Jos\u00e9, manifestou n\u00e3o menos alegria do que teria sentido por qualquer outra feliz ventura que lhe sobreviesse.<\/p>\n<p>Presenteou-lhes com carros carregados de trigo e grande quantidade de ouro e prata, para levarem ao seu pai. Jos\u00e9 entregou-lhes tamb\u00e9m outros valiosos pre\u00adsentes para em seu nome serem oferecidos a Jac\u00f3. Igualmente, distribuiu presen\u00adtes a todos os irm\u00e3os, al\u00e9m de alguns em particular a Benjamim. Voltaram eles ent\u00e3o ao seu pa\u00eds, e Jac\u00f3 n\u00e3o teve dificuldade em prestar f\u00e9 \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de que o filho por quem havia chorado tanto tempo estava n\u00e3o somente cheio de vida, mas elevado a t\u00e3o grande autoridade, governando todo o Egito, abaixo somente do rei. Esse fiel servidor recebeu tantas provas da infinita bondade de Deus que delas n\u00e3o podia duvidar. Foi como se os fatos, durante algum tempo, estivessem como que suspensos. Assim, ele n\u00e3o viu impedimento em partir imediatamente, para dar a Jos\u00e9 e deste receber, ao mesmo tempo, a maior de todas as consola\u00ad\u00e7\u00f5es que um e outro poderiam desejar em vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>G\u00eanesis 37. Os irm\u00e3os de Jos\u00e9 viram-no chegar com prazer, n\u00e3o porque vinha da parte de seu pai, mas porque, considerando-o inimigo, se regozijavam por v\u00ea-lo cair-lhes nas m\u00e3os. E temiam tanto perder a ocasi\u00e3o de se desfazer dele que o queriam matar naquele mesmo instante. 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