{"id":549,"date":"2015-04-03T02:26:05","date_gmt":"2015-04-03T02:26:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=549"},"modified":"2015-04-03T02:26:05","modified_gmt":"2015-04-03T02:26:05","slug":"capitulo-2-os-soldados-deliberam-elevar-claudio-tio-de-caio-ao-trono-do-imperio-discurso-de-saturnino-no-senado-em-favor-da-liberdade-chereas-manda-matar-a-imperatriz-cesonia-mulher-de-caio-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-2-os-soldados-deliberam-elevar-claudio-tio-de-caio-ao-trono-do-imperio-discurso-de-saturnino-no-senado-em-favor-da-liberdade-chereas-manda-matar-a-imperatriz-cesonia-mulher-de-caio-e\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 2 &#8211; Os soldados deliberam elevar Cl\u00e1udio, tio de Caio, ao trono do imp\u00e9rio. Discurso de Saturnino no senado em favor da liberdade. Chereas manda matar a imperatriz Ces\u00f4nia, mulher de Caio, e sua filha. Boas e m\u00e1s qualidades de Caio. Os soldados resolvem constituir Cl\u00e1udio imperador e levam-no ao campo. O senado envia deputados para rogar-lhe que desista dessa inten\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p>Enquanto o senado deliberava, os soldados, por seu lado, tamb\u00e9m tro\u00adcavam id\u00e9ias. Consideradas todas as coisas, pareceu-lhes que, se o governo po\u00adpular fosse restabelecido, seria incapaz de sustentar o peso da dire\u00e7\u00e3o de tantos reinos e prov\u00edncias. E, mesmo que fosse poss\u00edvel, eles n\u00e3o teriam nenhuma vantagem. Al\u00e9m disso, se acontecesse de algum dos principais do senado ser eleito imperador sem que eles tivessem contribu\u00eddo para elev\u00e1-lo a esse supremo grau de honra, seriam considerados inimigos.<\/p>\n<p>Assim, julgando que nenhum outro era t\u00e3o merecedor, escolheram Cl\u00e1udio, tanto pela nobreza da origem, pois era tio de Caio, quanto pela maneira nobre como fora educado. E, convictos de que ele lhes demonstraria a sua gratid\u00e3o com benef\u00edcios proporcionais \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de que lhes seria devedor, resolveram ir busc\u00e1-lo em sua casa. Gneu Sentio Saturnino disso teve ci\u00eancia no senado e, julgando que n\u00e3o havia tempo a perder, para demonstrar virtude e coragem, ergueu-se como se fora impelido por algu\u00e9m \u2014 mas na verdade era por iniciati\u00adva pr\u00f3pria \u2014 e falou com uma ousadia digna dos grandes homens que fizeram brilhar por toda a terra a gl\u00f3ria da generosidade romana.<\/p>\n<p>Ele disse: &#8220;Estamos vendo, por fim, senhores, ap\u00f3s uma servid\u00e3o de tantos anos, despontar hoje, contra toda a esperan\u00e7a, a nossa liberdade. \u00c9 verdade que n\u00e3o sabemos o quanto h\u00e1 de durar, porque depende da von\u00adtade de Deus a sua conserva\u00e7\u00e3o, depois de Ele no-la conceder. Mas, ainda que t\u00e3o grande ventura logo desapare\u00e7a, n\u00e3o devemos deixar de estim\u00e1-la, pois n\u00e3o h\u00e1 homem de coragem que n\u00e3o sinta alegria em viver livre, num pa\u00eds livre, e desfrutar pelo menos durante algumas horas a do\u00e7ura que nossos antepassados gozavam nos s\u00e9culos em que a rep\u00fablica flores\u00adcia em todo o seu esplendor. Como nasci ap\u00f3s essa liberdade haver sido suprimida, n\u00e3o vi esse tempo feliz, quando se estudavam as letras e se era treinado nos exerc\u00edcios que podem formar o esp\u00edrito e erguer o \u00e2nimo. Assim, tudo o que posso fazer \u00e9 manifestar o meu amor por aquela que hoje se nos apresenta. Eis por que julgo que, abaixo dos deuses imortais, n\u00e3o h\u00e1 honra que n\u00e3o devamos tributar \u00e0queles cuja generosidade e virtu\u00adde nos fizeram rever a luz t\u00e3o doce da liberdade. Pois, mesmo que a des\u00adfrut\u00e1ssemos durante um s\u00f3 dia, n\u00e3o seria isso para cada um de n\u00f3s um grande bem? Para os velhos, porque morreriam sem tristeza, ap\u00f3s uma mudan\u00e7a t\u00e3o inesperada. Para os jovens, porque \u00e9 para eles um exemplo que n\u00e3o poderiam deixar de imitar sem degenerar da virtude de seus ante\u00adpassados, pois somente por meio de a\u00e7\u00f5es virtuosas podemos conquistar a liberdade. Das coisas passadas, posso falar apenas por refer\u00eancias de outros, mas as que vi n\u00e3o me permitem ignorar os males causados pela tirania. Sei que ela faz guerra aberta \u00e0 virtude e n\u00e3o tolera os que possuem coragem e m\u00e9rito, infunde o medo nos esp\u00edritos e leva-os \u00e0 covarde bajula\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 quando n\u00e3o se administra mais pelas leis, e sim pelo humor do pr\u00edncipe. Depois que J\u00falio C\u00e9sar, calcando aos p\u00e9s a ordem t\u00e3o religiosamente observada por nossos pais, estabeleceu a sua injusta mo\u00adnarquia sobre as ru\u00ednas da Rep\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 calamidade que n\u00e3o tenha afligido a cidade de Roma. Os que a ele sucederam no soberano poder demonstraram tamb\u00e9m n\u00e3o ter outro prop\u00f3sito sen\u00e3o subverter a antiga disciplina. E, como s\u00f3 acreditavam que encontrariam seguran\u00e7a entre ho\u00admens dispostos a cometer toda esp\u00e9cie de crimes para lhes obedecer, n\u00e3o h\u00e1 meios b\u00e1rbaros de que n\u00e3o se tenham servido para oprimir as pessoas mais ilustres e mesmo para lhes tirar a vida. Entre esses intoler\u00e1veis senhores que nos fizeram gemer sob t\u00e3o tir\u00e2nica domina\u00e7\u00e3o, Caio podia vangloriar-se de superar a todos, pois n\u00e3o exercitava o seu furor apenas sobre os nossos cidad\u00e3os, mas tamb\u00e9m sobre os parentes e amigos, e n\u00e3o era menos \u00edmpio para com os deuses. Pois \u00e9 pr\u00f3prio dos tiranos n\u00e3o se contentarem em ser avaros, voluptuosos e soberbos. O seu maior prazer \u00e9 exterminar os inimigos, e eles consideram como tais todos os que t\u00eam alma nobre. Nenhuma ponde\u00adra\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de os acalmar, pois, sabendo o quanto s\u00e3o odiosos aos que lhes est\u00e3o sujeitos, acham que n\u00e3o se conservar\u00e3o em seguran\u00e7a sen\u00e3o oprimin-do-os de tal modo que eles n\u00e3o possam livrar-se de tantas mis\u00e9rias. Agora, ent\u00e3o, que disso nos livramos, com a vantagem de s\u00f3 dependermos de n\u00f3s mesmos, a nossa uni\u00e3o presente pode gerar seguran\u00e7a para o futuro. Quem nos impede de reerguer a gl\u00f3ria de Roma e dar \u00e0 Rep\u00fablica o seu antigo brilho e o primeiro esplendor? Podemos falar com liberdade contra as desor\u00addens e propor sem perigo tudo o que julgamos mais vantajoso para o bem p\u00fablico, pois sacudimos o jugo desses senhores prepotentes. Lembremo-nos de que nada favoreceu tanto a tirania em seu in\u00edcio quanto a covardia daque\u00adles que a ela n\u00e3o se ousaram opor e que foram essa fraqueza e a mesquinhez de se preferir, como escravos, uma vida vergonhosa a uma morte honrosa que lan\u00e7aram Roma neste abismo de infinitos males. Mas antes de todas as coisas, senhores, prestemos a honra devida aos que nos libertaram da escra\u00advid\u00e3o, particularmente a Chereas, cujo proceder e cujo bra\u00e7o, com o aux\u00edlio dos deuses, nos deram a liberdade. Que recompensa n\u00e3o merece receber daqueles pelos quais n\u00e3o receou se expor a tal perigo? Ele tem mesmo vantagem sobre Bruto e C\u00e1ssio, cuja virtude imitou, pois, enquanto a a\u00e7\u00e3o daqueles foi seguida de uma guerra que perturbou todo o imp\u00e9rio e o mundo inteiro, este, pela morte de um s\u00f3 homem, libertou-nos de todos os males&#8221;.<\/p>\n<p>O discurso de Saturnino foi ouvido com grande prazer por todos os sena\u00addores e cavaleiros presentes, e o ardor com que falou o fez esquecer de que trazia no dedo um anel, onde havia uma pedra na qual estava gravada a imagem de Caio. Treb\u00e9lio M\u00e1ximo arrancou-o ent\u00e3o, e no mesmo instante a pedra foi feita em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>A noite j\u00e1 ia adiantada, e Chereas pediu a senha aos c\u00f4nsules. E eles a deram: &#8220;Liberdade&#8221;. E n\u00e3o se cansavam de se rejubilar por haverem tornado a entrar no gozo daquele sinal de sua antiga autoridade. Chereas em seguida deu a senha aos oficiais de quatro coortes, os quais, preferindo a domina\u00e7\u00e3o leg\u00edtima \u00e0 tirania, haviam abra\u00e7ado o partido do senado.<\/p>\n<p>Pouco depois, o povo, por efeito da inconst\u00e2ncia que lhe \u00e9 peculiar, externou muita alegria pela esperan\u00e7a de reconquistar, com a liberdade, o poder que outrora havia desfrutado, e Chereas tornou-se deles muito estimado.<\/p>\n<p>Como chefe do empreendimento que acabava de mudar a face do imp\u00e9rio, Chereas, julgando que haveria sempre motivo de temor enquanto existisse algu\u00e9m da fam\u00edlia de Caio, ordenou a J\u00falio Lupo, um dos oficiais da guarda, que fosse matar a imperatriz Ces\u00f4nia e sua filha. Ele foi escolhido porque tinha parentesco com Clemente e tamb\u00e9m porque havia participado da conspira\u00e7\u00e3o. Alguns acharam crueldade assassinar uma mulher como se ela fosse culpada do sangue dos ilustres romanos que Caio \u2014 e ele somente, em seu furor \u2014 mandara derramar. Outros diziam, ao contr\u00e1rio, que ela era a causa principal dos males do imp\u00e9rio, pois fizera Caio tomar uma bebida, a fim de prend\u00ea-lo pelo amor, e a po\u00e7\u00e3o lhe perturbara o ju\u00edzo. Por isso deviam consider\u00e1-la culpada de haver ministrado um veneno mortal a muitas pessoas de eminente virtude.<\/p>\n<p>Esse \u00faltimo sentimento prevaleceu, e Lupo partiu para mat\u00e1-la. Encontrou Ces\u00f4nia estendida por terra, junto ao corpo do marido \u2014 o qual estava privado de tudo, at\u00e9 mesmo do que n\u00e3o se recusa aos mortos \u2014 e manchada com o sangue que corria de suas feridas. A filha estava ao lado dela e a ouvia queixar-se amargamente de que Caio n\u00e3o quisera atender aos seus muitos avisos. Essas palavras foram e s\u00e3o ainda hoje diversamente interpretadas. Uns acreditam que ela queria dizer que havia aconselhado o imperador seu marido a mudar de proceder, adotando um estilo mais moderado, a fim de reconquistar o afeto dos romanos e para n\u00e3o lev\u00e1-los, pelo desespero, a atentar contra a sua vida. Outros, ao contr\u00e1rio, julgam que essas palavras significavam que, tendo ouvido alguma not\u00edcia da conspira\u00e7\u00e3o, ela havia insistido com ele para que matasse imediatamente todos os conspiradores.<\/p>\n<p>A princesa, oprimida pela dor, julgava que Lupo viera ver o corpo do marido. Disse-lhe ent\u00e3o, com l\u00e1grimas, suspirando, que se aproximasse um pouco mais. Mas quando percebeu que ele n\u00e3o respondia, n\u00e3o teve dificuldade para compreender o motivo que o trouxera ali. Deplorando a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, apresentou-lhe o pesco\u00e7o e insistiu que se consumasse logo o \u00faltimo ato daquela sanguinolenta trag\u00e9dia. Esperou em seguida o golpe de morte com fortaleza admir\u00e1vel. Sua filha, que era ainda apenas uma crian\u00e7a, foi morta depois dela.<\/p>\n<p>Foi esse o fim de Caio, ap\u00f3s reinar durante tr\u00eas anos e oito meses. Ele j\u00e1 havia demonstrado, mesmo antes de ser imperador, o quanto era brutal, malvado, voluptuoso, protetor dos caluniadores, covarde e, por conseguinte, cruel. Considerava a maior vantagem da autoridade soberana poder abusar dela contra os inocentes e enriquecer-se com os despojos deles depois de os fazer injustamente perder a vida. N\u00e3o podia tolerar que o considerassem apenas um homem, mas desejava loucamente ser reverenciado como um deus e vangloriava-se das tolas bajula\u00e7\u00f5es do povo. O freio que as leis e a virtude imp\u00f5em \u00e0s paix\u00f5es desregradas era-lhe insuport\u00e1vel. N\u00e3o havia amizade, por maior ou mais antiga que fosse, que lhe pudesse impedir de manchar as m\u00e3os no sangue, quando encolerizado. Todos os homens de bem passavam em seu esp\u00edrito por inimigos.<\/p>\n<p>Por mais injustas que fossem as suas ordens, queria que fossem executadas imediatamente, sem a menor oposi\u00e7\u00e3o. E, dentre os tantos v\u00edcios que o tornaram odioso, aquela abomin\u00e1vel impudic\u00edcia, inaudita at\u00e9 ent\u00e3o, que o levou a cometer incesto com a pr\u00f3pria irm\u00e3, tornou-o detest\u00e1vel a todos. Durante o seu reinado, nada empreendeu de importante ou magn\u00edfico ou de que o imp\u00e9rio pudesse haurir alguma vantagem, exceto alguns portos e cais perto de R\u00e9gio e na Sic\u00edlia, para receber os navios que traziam trigo do Egito para a It\u00e1lia, e que eram sem d\u00favida muito \u00fateis ao povo. Ainda assim, eles n\u00e3o foram terminados, tanto pelo desleixo daqueles aos quais ele dera tal incumb\u00eancia quanto porque ele preferia empregar o dinheiro em despesas v\u00e3s, entregando-se mais ao prazer que \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de obras dignas de um grande imperador, que iria preferir o bem de seus s\u00faditos \u00e0 sua satisfa\u00e7\u00e3o particular.<\/p>\n<p>Quanto ao resto, era muito eloq\u00fcente, muito instru\u00eddo nas letras gregas e romanas e compreendia facilmente todas as coisas. Respondia imediatamente aos questionamentos que lhe eram feitos, e, mesmo nos assuntos mais importantes, ningu\u00e9m mais que ele era capaz de incutir o que empreendia sustentar, porque possu\u00eda uma grande intelig\u00eancia e se havia preparado para n\u00e3o ser inferior a Germ\u00e2nico, seu pai, nem a Tib\u00e9rio, o qual a esse respeito excedia a todos os outros e tomara grande cuidado em instru\u00ed-lo. Mas essa boa educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o o impediu de perder-se quando subiu ao trono, pois \u00e9 dif\u00edcil para aquele que det\u00e9m um poder absoluto conter a pr\u00f3pria maldade. No come\u00e7o de seu reinado, ele tinha como amigos pessoas de grande m\u00e9rito, que o estavam levando a a\u00e7\u00f5es que lhe poderiam granjear boa reputa\u00e7\u00e3o e gl\u00f3ria. Mas ele os afastou pouco a pouco e, quando se abandonou a uma licenciosidade desenfreada, sentiu de tal modo avers\u00e3o por eles que n\u00e3o teve vergonha de empregar os meios mais infames para causar-lhes a morte e satisfazer assim a sua ingratid\u00e3o e crueldade.<\/p>\n<p>Devemos agora falar de Cl\u00e1udio, que, como dissemos, ia adiante de Caio quando este sa\u00eda do teatro. Sabendo da morte do imperador e vendo aquela grande perturba\u00e7\u00e3o, ele foi esconder-se num canto muito escuro do pal\u00e1cio. No entanto, nenhum outro motivo sen\u00e3o a grandeza de sua origem lhe provocava temor, pois ele vivera at\u00e9 ali como um cidad\u00e3o comum e procedera sempre com muita mod\u00e9stia. Longe do barulho e do tumulto, ocupava-se com o estudo, principalmente dos autores gregos, sem se imiscuir de maneira alguma na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o, todavia, aumentava cada vez mais. O pal\u00e1cio estava cheio de soldados, que corriam para todos os lados com furor, sem saber o que queriam, e o povo tamb\u00e9m para l\u00e1 acorria em massa. Ent\u00e3o os guardas pretorianos, que estavam na primeira linha entre os soldados, se reuniram para deliberar sobre o que deviam fazer. A morte do imperador n\u00e3o lhes causava pesar, at\u00e9 achavam que ele bem a havia merecido, mas pensavam em tomar resolu\u00e7\u00f5es que lhes fossem vantajosas. Quanto aos alem\u00e3es, n\u00e3o era a considera\u00e7\u00e3o do bem p\u00fablico que os incitava contra os que haviam assassinado Caio, e sim a pr\u00f3pria paix\u00e3o.<\/p>\n<p>O temor de Cl\u00e1udio aumentou quando ele viu as cabe\u00e7as de Asprenas e dos outros que os b\u00e1rbaros haviam sacrificado \u00e0 sua vingan\u00e7a. Manteve-se em seu esconderijo, onde s\u00f3 se podia chegar subindo alguns degraus. Um dos guardas do imperador, de nome Grato, avistou-o, mas, por causa da escurid\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de reconhec\u00ea-lo, por isso aproximou-se e ordenou-lhe que sa\u00edsse dali. Cl\u00e1udio n\u00e3o quis obedecer. O guardou tirou-o \u00e0 for\u00e7a e ent\u00e3o o reconheceu, gritando aos companheiros: &#8220;Eis aqui Germ\u00e2nico.* Fa\u00e7amo-lo imperador&#8221;. Ante essas palavras, o guarda o agarrou, para lev\u00e1-lo, e Cl\u00e1udio pensou que iria ser morto, em raz\u00e3o do \u00f3dio \u00e0 mem\u00f3ria de Caio. Assim, rogou-lhe que considerasse a sua inoc\u00eancia e lembrasse que ele n\u00e3o tivera absoluta\u00admente parte no que havia acontecido. Grato, nesse momento, tomou-o pela m\u00e3o e, sorrindo, disse-lhe: &#8220;N\u00e3o tenhais receio pela vossa vida, mas pensai apenas em demonstrar uma coragem digna do imp\u00e9rio, pois os deuses, can\u00adsados dos males que Caio causou a toda a terra, oferecem-no hoje \u00e0 vossa virtude. Portanto, subi gloriosamente ao trono de vossos antepassados&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto Grato falava, um grande n\u00famero de soldados da guarda pretoriana reuniu-se em torno dele. O combate violento que se travara em seu cora\u00e7\u00e3o entre o temor e a alegria n\u00e3o lhe permitia sequer caminhar, e ent\u00e3o eles o carregaram nos ombros. Muitos, vendo-o naquele estado, julgaram que iam mat\u00e1-lo. E, como sabiam que ele jamais havia tomado parte em coisa alguma e at\u00e9 mesmo algumas vezes correra perigo de vida sob o reinado de Caio, ficaram consternados pela sua desdita e protestaram, dizendo que competia aos c\u00f4nsules julg\u00e1-lo. \u00c0 medida que os soldados caminhavam, outros reuniam-se a eles, que continuavam a levar Cl\u00e1udio, porque os que carregavam a liteira, julgando-o perdido ao v\u00ea-lo ser agarrado, haviam fugido. O povo abria caminho \u00e0quela multid\u00e3o de soldados que enchia o pal\u00e1cio, o qual dizem estar na parte mais antiga de Roma.<\/p>\n<p>Um n\u00famero maior de soldados uniu-se ainda a eles, e a alegria deles por ver Cl\u00e1udio foi t\u00e3o grande que disseram estar dispostos a tudo para elev\u00e1-lo ao trono do imp\u00e9rio, quer pelo amor e respeito que conservavam \u00e0 mem\u00f3ria de Germ\u00e2nico, seu pai, quer porque n\u00e3o ignoravam os males que a ambi\u00e7\u00e3o desmedida dos maiorais do senado havia causado quando este ainda possu\u00eda autoridade. Crendo que era imposs\u00edvel restaurar aquela forma de governo, tinham de eleger um imperador, e importava escolher algu\u00e9m que lhes ficaria devendo obriga\u00e7\u00e3o. Cl\u00e1udio, portanto, ser-lhes-ia devedor daquele alto cargo, com todas as suas honras, e, como recom\u00adpensa, n\u00e3o haveria favor que ele n\u00e3o lhes devesse conceder ou que n\u00e3o pudessem esperar dele. Depois que assim deliberaram, comunicaram a sua opini\u00e3o aos que se haviam juntado a eles, e todos puseram-se de acordo num \u00fanico des\u00edgnio: coloca\u00adram Cl\u00e1udio no meio deles e o levaram ao acampamento para concluir aquele as\u00adsunto important\u00edssimo sem que ningu\u00e9m os pudesse impedir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>__________________________<\/p>\n<p>* Josefo chama Cl\u00e1udio de Germ\u00e2nico, porque o imperador era filho de Germ\u00e2nico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto isso se passava, o senado e o povo experimentavam senti\u00admentos opostos. Aquele, vendo-se livre da servid\u00e3o dos tiranos, queria retomar a antiga autoridade. Este, invejando-lhe essa honra, considerava o poder impe\u00adrial um freio aos excessos dos pol\u00edticos mais arrojados e uma prote\u00e7\u00e3o contra as suas viol\u00eancias. Por isso, regozijava-se com a resolu\u00e7\u00e3o tomada pelos soldados em favor de Cl\u00e1udio e esperava, por seu interm\u00e9dio, evitar a guerra civil e os outros males que Roma sofrer\u00e1 nos tempos de Pompeu.<\/p>\n<p>O senado, logo que soube do que acontecia no acampamento, mandou dizer a Cl\u00e1udio que n\u00e3o aceitasse ser eleito imperador pela viol\u00eancia; que deixas\u00adse o senado cuidar do governo e escolhesse algu\u00e9m dentre eles, o qual, com a consist\u00eancia dos outros senadores, agiria conforme as leis, no que se referia ao bem p\u00fablico; que ele recordasse os males que haviam afligido a cidade de Roma durante a domina\u00e7\u00e3o do tiranos e os perigos que ele mesmo correra sob o reina\u00addo de Caio; que seria estranho ele, ap\u00f3s condenar a tirania nos outros, querer, por ambi\u00e7\u00e3o, recolocar a sua p\u00e1tria sob o jugo insuport\u00e1vel do qual acabava de ser libertada; que ele, ao contr\u00e1rio, se concordasse em acatar os sentimentos do senado e em viver como antes, demonstrando a costumeira virtude, receberia as maiores honras, porque elas lhe seriam prestadas voluntariamente e por pessoas livres; que, sujeitando-se \u00e0s leis, obteria os louvores que bem merecem os ho\u00admens de virtude; e que, caso ele n\u00e3o considerasse o que acontecera a Caio e perseverasse em seu intento, o senado estava resolvido a fazer-lhe oposi\u00e7\u00e3o, pois, al\u00e9m do grande n\u00famero de soldados que este possu\u00eda, poderia ainda armar uma grande quantidade de escravos, embora a sua confian\u00e7a principal repousasse no socorro dos deuses, que sempre auxiliam os que combatem pela justi\u00e7a \u2014 e nada era mais justo que defender a liberdade de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ver\u00e2nio e Brocco, os tribunos enviados como embaixadores, depois de falar a Cl\u00e1udio, puseram-se de joelhos diante dele e suplicaram-lhe que n\u00e3o lan\u00e7asse Roma numa guerra civil. E, vendo-o rodeado por uma multid\u00e3o de soldados incomparavelmente mais numerosa que os partid\u00e1rios dos c\u00f4nsules, rogaram-lhe, uma vez que estava resolvido a subir ao trono, que ao menos consentisse em receb\u00ea-lo das m\u00e3os do senado, pois era mais razo\u00e1vel e ser-Ihe-ia mais vantajoso ser elevado ao soberano poder por um consentimento geral que pela viol\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto o senado deliberava, os soldados, por seu lado, tamb\u00e9m tro\u00adcavam id\u00e9ias. Consideradas todas as coisas, pareceu-lhes que, se o governo po\u00adpular fosse restabelecido, seria incapaz de sustentar o peso da dire\u00e7\u00e3o de tantos reinos e prov\u00edncias. E, mesmo que fosse poss\u00edvel, eles n\u00e3o teriam nenhuma vantagem. 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