{"id":505,"date":"2015-04-03T02:14:03","date_gmt":"2015-04-03T02:14:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=505"},"modified":"2015-04-03T02:14:03","modified_gmt":"2015-04-03T02:14:03","slug":"capitulo-7-antipatro-volta-de-roma-para-a-judeia-e-e-acusado-na-presenca-de-varo-governador-da-siria-de-ter-querido-envenenar-o-rei-seu-pai-herodes-fa-lo-por-numa-prisao-e-escreve-a-augusto-a-es","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-7-antipatro-volta-de-roma-para-a-judeia-e-e-acusado-na-presenca-de-varo-governador-da-siria-de-ter-querido-envenenar-o-rei-seu-pai-herodes-fa-lo-por-numa-prisao-e-escreve-a-augusto-a-es\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 7 &#8211; Ant\u00edpatro volta de Roma para a jud\u00e9ia e \u00e9 acusado na presen\u00e7a de Varo, governador da S\u00edria, de ter querido envenenar o rei, seu pai. Herodes f\u00e1-lo p\u00f4r numa pris\u00e3o e escreve a Augusto a esse respeito."},"content":{"rendered":"<p>Herodes dissimulava sua c\u00f3lera contra Ant\u00edpatro e escreveu-lhe que logo que tivesse terminado os neg\u00f3cios que o retinham em Roma, viesse procur\u00e1-lo o mais depressa poss\u00edvel, a fim de que sua aus\u00eancia n\u00e3o lhe fosse prejudicial. Fazia-lhe somente algumas leves queixas de sua m\u00e3e, com promessa de logo que tivesse regressado ele esquecer-se-ia do descontentamento que lhe havia dado e dava-lhe todas as demonstra\u00e7\u00f5es de afeto que ele pudesse desejar, porque temia que ele suspeitasse de que n\u00e3o voltaria e urdisse alguma trama contra ele. Ant\u00edpatro recebeu essas cartas na Cil\u00edcia, quando j\u00e1 estava de regresso. J\u00e1 tinha recebido outras, antes, em Tarento, que lhe comunicavam a morte de Feroras, com o que ficaria muito sentido, n\u00e3o pelo afeto que lhe dedicava, mas porque ele n\u00e3o tinha envenenado seu pai, como lhe tinha prometido. Quando chegou a Celenderis, cidade da Cil\u00edcia, come\u00e7ou a hesitar, se continuaria a viagem. Ele n\u00e3o podia suportar o castigo imposto \u00e0 sua m\u00e3e, que fora expulsa do pal\u00e1cio e as opini\u00f5es de seus amigos estavam divididas. Uns eram de pare\u00adcer que se esperasse em algum lugar, para ver o que aconteceria; outros, acon\u00adselhavam-no a se apressar, a fim de dissipar, com sua presen\u00e7a, a id\u00e9ia de que sua aus\u00eancia suscitava aos seus inimigos a ousadia de agir contra ele. Ele tomou este \u00faltimo partido, continuou a viagem e chegou ao porto de Sebaste, que Herodes tinha feito construir com tantas despesas, dando-lhe esse nome em honra de Augusto. N\u00e3o mais se duvidou ent\u00e3o, da ru\u00edna de Ant\u00edpatro. Em vez de, como, quando do seu embarque para Roma, ser ele rodeado e assediado pela multid\u00e3o dos que o acompanharam, formulando-lhe votos de prosperidade, ao contr\u00e1rio, \u00e0 sua volta, n\u00e3o somente n\u00e3o o saudaram nem dele se aproximaram, mas fizeram at\u00e9 impreca\u00e7\u00f5es, contra ele, implorando a vingan\u00e7a de Deus, para castig\u00e1-lo e exigir-lhe o sangue de seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Aconteceu, que nesse mesmo tempo, quando ele se dirigia para Jerusal\u00e9m, Quint\u00edlio Varo que tinha sucedido a Saturnino no governo da S\u00edria, tinha vindo visitar Herodes e eles haviam se reunido em conselho. Como Antipatro ainda nada sabia do que se passava apresentou-se \u00e0 porta do pal\u00e1cio, vestido de p\u00farpura, como de costume; abriram-lhe a porta, mas fecharam-na ao seu s\u00e9quito. Ele n\u00e3o teve ent\u00e3o dificuldade em avaliar o grave perigo em que se encontrava, e viu-o ainda melhor, quando Herodes, em vez de abra\u00e7\u00e1-lo, repeliu-o, censurou-o pela morte de seus irm\u00e3os e disse que ele lhe queria ainda acrescentar um parric\u00eddio; que teria, no dia seguinte, a Varo por juiz. T\u00e3o imprevista desgra\u00e7a tombou sobre ele como um raio. At\u00f4nito, retirou-se, e sua m\u00e3e e sua irm\u00e3, filha de Ant\u00edgono, que havia reinado antes de Herodes, foram tamb\u00e9m informados de todas estas coisas; ele preparou-se para o julgamento.<\/p>\n<p>No dia seguinte, convocou Herodes uma grande assembl\u00e9ia que Varo presidiu; seus amigos l\u00e1 estavam com os parentes de Herodes; Salom\u00e9, sua irm\u00e3, tamb\u00e9m. Mandaram chamar os que haviam descoberto a conspira\u00e7\u00e3o, os que tinham sido submetidos \u00e0 tortura e algumas criadas da m\u00e3e de Antipatro, que tendo sido presas um pouco antes de seu regresso, tinham em seu poder cartas que falavam de que sua conspira\u00e7\u00e3o tinha sido descoberta e que ele n\u00e3o voltasse, para n\u00e3o cair nas m\u00e3os do rei, seu pai, e que a \u00fanica esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o que lhe restava era recorrer \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de Augusto. Antipatro lan\u00e7ou-se aos p\u00e9s de Herodes, para rogar-lhe que n\u00e3o o condenasse antes de escut\u00e1-lo, mas lhe permitisse antes justificar-se. Herodes ordenou-lhe que se erguesse, e disse em seguida que bem infeliz ele se julgava por ter tido semelhantes filhos, por ter ca\u00eddo nos seus \u00faltimos dias nas m\u00e3os de Antipatro; que n\u00e3o havia cuidados que ele n\u00e3o tivesse tido de sua educa\u00e7\u00e3o, que o tinha cumulado de benef\u00edcios, mas que tantasprovas de afeto e de bondade n\u00e3o tinham podido impedir que ele tentasse contra sua vida, para obter antes do tempo, com um crime horr\u00edvel, um reino que ele poderia possuir legitimamente, quer pelo direito da natureza, quer pela vontade de seu pai, que ele n\u00e3o podia compreender que vantagem ele tinha imaginado encontrar na execu\u00e7\u00e3o de um intento t\u00e3o detest\u00e1vel; pois ele j\u00e1 o havia declarado seu sucessor, no testamento e que mesmo durante sua vida ele j\u00e1 compartilhava de toda sua autoridade, que ele lhe dava todos os anos cinq\u00fcenta talentos para suas despesas e lhe havia dado trezentos, para sua viagem a Roma. Cervsurou-lhe em seguida a morte de seus irm\u00e3os, dos quais tinha sido o acusador e o imitador; se eles fossem inocentes, pois n\u00e3o tinha encontrado outras provas contra eles sen\u00e3o as que ele havia alegado e os havia condenado por sua insinua\u00e7\u00e3o. Mas que agora ele os justificava, sendo ele mesmo culpado do assass\u00ednio de que os acusava.<\/p>\n<p>Herodes assim falava e as l\u00e1grimas corriam-lhe dos olhos em t\u00e3o grande abund\u00e2ncia, que ele n\u00e3o p\u00f4de continuar. Rogou a Nicolau de Damasco, por quem tinha n\u00e3o menor amizade do que confian\u00e7a, que estava bem a par do assunto, que referisse o que continham as deposi\u00e7\u00f5es das testemunhas que serviam de provas da culpabilidade de seu filho. Mas Ant\u00edpatro antecipou-se e defendeu ele mesmo a causa. Empregou para sua defesa as mesmas raz\u00f5es de que Herodes se servira contra ele, dizendo que aquela extrema afli\u00e7\u00e3o de seu pai era uma recompensa de sua piedade e um sinal de que ele n\u00e3o havia faltado a nenhum dos deveres que lhe devia prestar; que n\u00e3o havia possibilidade de que, depois de o ter defendido nas tentativas feitas contra sua vida, ele tivesse querido cometer semelhante crime e enxovalhar com tal mancha a sua reputa\u00e7\u00e3o; que n\u00e3o havia nenhum motivo para isso, porque seu pai o tinha declarado seu sucessor e tornado participante de todo poder e de todos as honras anexas \u00e0 coroa, ele n\u00e3o tinha somente a probabilidade de ser rei, mas podia-se dizer que de fato ele j\u00e1 o era, sem que ningu\u00e9m se opusesse a isso; que assim n\u00e3o havia o m\u00ednimo motivo de crer que a esperan\u00e7a incerta de conquistar a inteira posse de um reino, de que j\u00e1 gozava pacificamente, de uma parte de sua virtude, ele se tivesse metido em semelhante perigo e em tal crime; que o castigo sofrido por dois de seus irm\u00e3os, por terem tentado semelhante a\u00e7\u00e3o tornava a coisa ainda mais veross\u00edmil; que n\u00e3o era necess\u00e1ria melhor prova de seu ardente amor por seu pai, do que ele mesmo ter sido delator deles e que n\u00e3o estava arrependido disso, porque n\u00e3o podia melhor demonstrar sua piedade para com ele do que se tornando o vingador de sua impiedade, que ele tinha por testemunha de todas as suas a\u00e7\u00f5es em Roma, o mesmo Augusto, ao qual n\u00e3o se podia enganar bem como a Deus, que ele podia apresentar suas cartas \u00e0s quais se devia prestar incomparavelmente mais cr\u00e9dito do que \u00e0s cal\u00fanias de seus inimigos, que n\u00e3o tinham maior desejo do que p\u00f4r a divis\u00e3o na fam\u00edlia real e aos quais sua aus\u00eancia tinha dado os meios para isso e a comodidade tamb\u00e9m; quanto \u00e0s deposi\u00e7\u00f5es das testemunhas, n\u00e3o era justo que lhas prestassem f\u00e9, pois haviam sido extorquidas pela viol\u00eancia das dores e que por fim ele mesmo se oferecia a ser torturado e interrogado sem que o poupassem. Assim falando, Ant\u00edpatro tinha o rosto cheio de l\u00e1grimas, batia com for\u00e7a no rosto, de tal modo que causava compaix\u00e3o aos seus mesmos inimigos, e tamb\u00e9m comoveu de algum modo os presentes; Herodes mesmo estava comovido, embora fizesse todo o poss\u00edvel para n\u00e3o demonstr\u00e1-lo. Nicolau, ent\u00e3o, tomou a palavra para continuar a acusa\u00e7\u00e3o que o rei tinha come\u00e7ado. Ele estendia-se em cada artigo: trouxe como prova dos crimes, o testemunho dos que tinham sido torturados. Estendeu-se muito sobre a bondade extrema que o rei havia demonstrado por seus filhos, pelo cuidado que tivera de sua educa\u00e7\u00e3o, de que tinha sido t\u00e3o mal recompensado; disse que por maior que tivesse sido a culpa de Alexandre e Arist\u00f3bulo n\u00e3o havia tanto motivo de se admirar de que, sendo jovens e mal aconselhados, eles se tivessem deixado levar mais pela ambi\u00e7\u00e3o de reinar do que pelo desejo de enriquecer. Mas que nada era t\u00e3o horr\u00edvel como o crime de Ant\u00edpatro, o qual, mais cruel do que os animais mais cru\u00e9is, que se amansam e se mostram reconhecidos para com aqueles, dos quais receberam algum benef\u00edcio, n\u00e3o tinha ele se comovido, com tantos favores que recebera do rei, seu pai, e, em vez de considerar a infelicidade em que seus irm\u00e3os tinham ca\u00eddo, por seu mau proceder, n\u00e3o tivera medo de os imitar. &#8220;Pois n\u00e3o fostes v\u00f3s mesmo&#8221;, acrescentou ele, dirigindo sua palavra a Ant\u00edpatro, &#8220;o primeiro a acus\u00e1-los? N\u00e3o fostes v\u00f3s que vos empenhastes em provar-lhe a culpabilidade? N\u00e3o fostes v\u00f3s que os fizestes castigar? N\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, disso que eu vos censuro; vosso \u00f3dio por eles era justo. Mas, pode-se assaz admirar de que n\u00e3o tenhais temido atrair sobre v\u00f3s coisa semelhante? Pois, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil julgar que o que fizestes contra eles n\u00e3o foi por amor a vosso pai, mas para poderdes mais facilmente executar o abomin\u00e1vel des\u00edgnio, que t\u00ednheis j\u00e1 formulado contra ele, parecendo ser t\u00e3o zeloso pela sua conserva\u00e7\u00e3o e ter tanto horror por seu crime, como as conseq\u00fc\u00eancias no-lo fizeram ver? Pois, querendo a morte de vossos irm\u00e3os, poupastes seus c\u00famplices; demonstrastes assim suficientemente, que est\u00e1veis de combina\u00e7\u00e3o c\u00f2m eles e que vossa inten\u00e7\u00e3o era servir-vos deles para tentardes contra a vida de vosso pai. Sent\u00edeis assim uma dupla alegria: parecer aos olhos dos homens ter feito uma a\u00e7\u00e3o digna de louvor, como teria sido mesmo, se vossos irm\u00e3os, sendo culpados, n\u00e3o tiv\u00e9sseis vos declarado contra eles, como inimigos, para salvar vosso pai e a outra, secreta, oculta, no vosso cora\u00e7\u00e3o, achando por esse meio mais facilidade em fazer perecer, \u00e0 trai\u00e7\u00e3o, por um crime ainda maior que o deles, aquele mesmo por quem parec\u00edeis sentir um amor t\u00e3o cheio de piedade. Mas se verdadeiramente tiv\u00e9sseis tido horror ao detest\u00e1vel des\u00edgnio de que vossos irm\u00e3os eram acusados e que lhes custou a vida, ter\u00edeis tido coragem para imit\u00e1-los? N\u00e3o \u00e9 evidente que n\u00e3o t\u00ednheis outro objetivo que perder por vossa ast\u00facia os que vos poderiam disputar o reino, como sendo muito mais dignos do que v\u00f3s, de possu\u00ed-lo e atirar todo \u00f3dio sobre vosso pai, de vos pordes em condi\u00e7\u00f5es de n\u00e3o poder ser castigado, acrescentando a esse fatric\u00eddio, um parric\u00eddio, t\u00e3o horr\u00edvel, que nenhum s\u00e9culo ainda viu outro semelhante? Pois n\u00e3o \u00e9 de um pai qualquer que resolvestes eliminar a vida, mas de um pai que vos amava com paix\u00e3o, que vos cumulou de benef\u00edcios, que compartilhou convosco a sua autoridade, que vos declarou seu sucessor, que vos fez gozar crescentemente do prazer de reinar, que vos tinha garantido a coroa por meio de seu testamento. Mas essa excessiva bondade n\u00e3o causou impress\u00e3o, em t\u00e3o mau esp\u00edrito como o vosso. Em vez de consider\u00e1-lo como benfeitor, vos considerastes apenas a v\u00f3s mesmos; vossa paix\u00e3o desmesurada de dominar n\u00e3o p\u00f4de tolerar ter como companheiro vosso pr\u00f3prio pai, a quem sois devedor de tantos benef\u00edcios e ao mesmo tempo que vossas palavras demonstravam um ardor t\u00e3o violento pela sua conserva\u00e7\u00e3o, todas as vossas a\u00e7\u00f5es tendiam \u00e0 sua ru\u00edna. V\u00f3s n\u00e3o vos contentaste de ser mau, procurastes tornar vossa m\u00e3e t\u00e3o m\u00e1 quanto v\u00f3s, fazendo-a c\u00famplice do vosso crime; irritastes o esp\u00edrito de vossos irm\u00e3os e tivestes a insol\u00eancia de ultrajar a vosso pai, chamando-o de animal, v\u00f3s, cujo cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais cheio de veneno do que os mais venenosos animais, as serpentes, e de que vos servistes contra os mais pr\u00f3ximos e as quais dev\u00edeis maio\u00adres favores: e v\u00f3s, enfim, que em vez de ajudar vosso pai na sua velhice, n\u00e3o vos contentastes unicamente com a vossa mal\u00edcia para faz\u00ea-lo sentir os efeitos da vossa ira, mas vos fizestes acompanhar por guardas e conquistastes o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas, a fim de juntar os seus artif\u00edcios aos vossos para o aniquilar. Agora, depois de tantos depoimentos, tanto de pessoas livres como de escravas, \u00e0s quais fostes causa de serem torturadas, depois de provas t\u00e3o claras do vosso crime, ousais negar a verdade; n\u00e3o vos \u00e9 suficiente terdes renunciado aos sentimentos mais ternos da natureza, esfor\u00e7ando-vos por tirar a vida a vosso pr\u00f3prio pai, quereis tamb\u00e9m subverter as leis estabelecidas contra v\u00f3s e vossos semelhantes, para sur\u00adpreender a eq\u00fcidade de Varo e para abolir tudo o que h\u00e1 de justi\u00e7a no mundo. Dizeis que n\u00e3o se devem dar valor a depoimentos extorquidos por meio de tortu\u00adras, que salvaram a vida ao vosso pai e pretendeis, ao mesmo tempo, que se deva crer no que direis, sofrendo tamb\u00e9m a tortura.&#8221; &#8220;Mas, Senhor&#8221;, acrescentou Nicolau, dirigindo ent\u00e3o a palavra a Varo, &#8220;n\u00f3s livrareis nosso rei dos detest\u00e1veis empreen\u00addimentos movidos contra ele, pelos seus parentes mais pr\u00f3ximos? N\u00e3o mandareis ao supl\u00edcio esse cruel animal, que depois de se ter servido de uma falsa apar\u00eancia de afeto para com seu pai, para perder seus pr\u00f3prios irm\u00e3os tudo fez para perd\u00ea-lo a ele tamb\u00e9m, a fim de reinar sozinho? Sabeis que o parric\u00eddio n\u00e3o deve ser considerado como um crime particular, mas como p\u00fablico, porque \u00e9 um ultraje feito \u00e0 natureza e ataca o princ\u00edpio da vida. V\u00f3s sabeis que nesse caso o simples pensa\u00admento merece ser castigado como o mesmo fato e que n\u00e3o se deve deixar de castig\u00e1-lo, sem se pecar contra essa mesma natureza, que \u00e9 a m\u00e3e comum de todos os homens.&#8221;<\/p>\n<p>Nicolau referiu em seguida diversas coisas, que a m\u00e3e de Ant\u00edpatro, impelida pelo prazer que as mulheres t\u00eam de falar, n\u00e3o tinha podido deixar de dizer, isto \u00e9, que ela tinha consultado adivinhos e oferecido sacrif\u00edcios para saber o que aconteceria a Herodes. N\u00e3o esqueceu tamb\u00e9m as desordens, tanto por causa do vinho como das mulheres, causadas por Ant\u00edpatro, na fam\u00edlia de Feroras e citou o grande n\u00famero de depoimentos feitos contra ele, uns volunt\u00e1rios, outros obtidos pela tortura e que se podiam ter como os mais certos, porque aqueles, que antes o temor de Ant\u00edpatro levava a calar o que sabiam contra ele, vendo que a mudan\u00e7a da sorte dava a todos a liberdade de falar e de acus\u00e1-lo, diziam ent\u00e3o com franqueza o que seu \u00f3dio por ele j\u00e1 lhes n\u00e3o permitia ocultar.<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, aniquilava tanto a Ant\u00edpatro, como as recrimina\u00e7\u00f5es de sua consci\u00eancia, que lhe atirava continuamente diante dos olhos, seus horr\u00edveis crimes, contra seu pai, o sangue de seus irm\u00e3os derramado por seus criminosos manejos e a perturba\u00e7\u00e3o que ele havia suscitado em toda a fam\u00edlia real. Havia-se mesmo notado h\u00e1 muito tempo que jamais ele tinha \u00f3dios justos, nem amizades fi\u00e9is: mas o interesse era sua \u00fanica regra de conduta. Assim, mais se amava a virtude e a justi\u00e7a, mais ela era tida em horror e apenas houve seguran\u00e7a, come\u00e7ou-se a clamar contra ele e a se dizer \u00e0 porfia todo o mal que ele havia feito e de que se tinha conhecimento. V\u00e1rios acusaram-no de diversos crimes; e havia motivo para se crer em tudo como verdade, porque parecia que n\u00e3o era para agradar ao rei, nem o temor do perigo que os obrigava a ocultar alguma coisa. Parecia, ao contr\u00e1rio, que eles eram levados a falar daquele modo porque detestavam sua maldade e desejavam sua morte n\u00e3o s\u00f3 para garantir a vida de Herodes, como para evitar de cair sob o dom\u00ednio de t\u00e3o perverso pr\u00edncipe, como Ant\u00edpatro. N\u00e3o eram, por\u00e9m, somente os interrogados que assim falavam; havia muitos que depunham voluntariamente contra ele, e embora ele fosse um dos mais astuciosos dos mais desavergonhados dos homens, n\u00e3o ousava abrir a boca para responder.<\/p>\n<p>Varo, ent\u00e3o, tomou a palavra e disse que lhe dava toda a liberdade de falar, se tivesse alguma coisa a alegar em sua defesa e que o rei, seu pai e ele, s\u00f3 desejavam que ele fosse inocente. Ant\u00edpatro, em vez de responder, lan\u00e7ou-se de rosto em terra, rogando a Deus que fizesse saber por meio de algum sinal a sua inoc\u00eancia e quanto ele estava longe de jamais ter tido o pensamento de empreender algo contra seu pai. \u00c9 assim que os maus costumam agir. Quando enveredam pelo caminho do crime, abandonam-se \u00e0s suas paix\u00f5es, sem se lembrar de que h\u00e1 um Deus; quando se encontram, por\u00e9m, no perigo de serem castigados, eles o invocam, tomam-no como testemunha da sua inoc\u00eancia e dizem que se abandonam inteiramente \u00e0 sua vontade. Foi o que sucedeu a Ant\u00edpatro. Antes, em todas as coisas, ele procedia como se Deus n\u00e3o existisse, mas quando se viu prestes a receber o castigo que merecia, ele se atreveu a dizer que Deus o tinha conservado para velar por seu pai. Varo, vendo que ele n\u00e3o respondia \u00e0s perguntas que lhe eram feitas e que ele continuava somente a invocar a Deus, ordenou que trouxessem o veneno, de que se havia falado no processo para que dele se experimentasse a for\u00e7a. Trouxeram-no e ele o fez beber a um homem condenado \u00e0 morte, o qual apenas o sorveu, caiu morto. Dissolveu ent\u00e3o a assembl\u00e9ia e no dia seguinte voltou a Antioquia onde costumava permanecer, porque era a cidade onde os reis da S\u00edria tinham habitualmente sua corte.<\/p>\n<p>Herodes mandou no mesmo instante meter Ant\u00edpatro numa pris\u00e3o, sem que se soubesse que a resolu\u00e7\u00e3o ia tomar ou j\u00e1 tomara, com Varo, sobre aquele assunto, mas a maior parte julgava que ele nada faria, sem seu parecer. Escreveu em seguida a Augusto e ordenou aos que lhe deviam apresentar as cartas, que hoje o informassem \u00e0 viva voz dos crimes cometidos por seu filho. Nesse mesmo tempo, interceptou-se uma carta que AntiF\u00edlon escrevia do Egito a Ant\u00edpatro. Herodes mandou abri-la e encontrou estas palavras: &#8220;Eu vos man\u00addei uma carta de Acm\u00e9, em que vai a minha vida, pois n\u00e3o duvideis de que se fosse conhecida eu atrairia sobre mim um \u00f3dio mortal de duas mui poderosas fam\u00edlias. Toca a v\u00f3s dar ordem para que o neg\u00f3cio tenha bom \u00eaxito&#8221;. Herodes leu esta carta, mandou procurar a outra de que falava, mas n\u00e3o a p\u00f4de encon\u00adtrar e o servidor de AntiF\u00edlon afirmava n\u00e3o ter trazido outra que n\u00e3o aquela que eles tinham em m\u00e3os. Enquanto estavam assim, nessa ansiedade, um dos ami\u00adgos do rei descobriu uma costura na t\u00fanica do servo e pensou que ali poderia estar escondida a carta. Sua suposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o o enganou; acharam-na e assim estava redigida: Acm\u00e9 a Ant\u00edpatro: &#8220;Escrevi ao rei, vosso pai, do modo como desej\u00e1veis e inclu\u00ed uma c\u00f3pia da carta suposta de ter sido escrita \u00e0 imperatriz, minha senhora, por Salom\u00e9. Estou certo de que apenas ele ler castig\u00e1-la-\u00e1 como culpada, por ter tentado contra sua vida.&#8221; O conte\u00fado da carta, falsamente atribu\u00edda a Salom\u00e9, tinha sido imaginado por Antipatro, mas ele tinha deixado a Acm\u00e9 para que exprimisse o seu pensamento com sua maneira ordin\u00e1ria de escrever. Quanto \u00e0 carta de Acm\u00e9 a Herodes, assim estava escrita: &#8220;Tendo, Majestade, encontrado uma carta, escrita por Salom\u00e9 \u00e0 imperatriz, minha se\u00adnhora, pela qual ela a suplicava de fazer de modo que ela possa desposar Silleu, o cuidado, que eu sou obrigado a ter no que respeita o vosso servi\u00e7o, fez-me copi\u00e1-la e vo-la enviar. Far-me-eis o favor de queim\u00e1-la, porque corre perigo minha vida.&#8221; Assim, a carta. Mas o que Acm\u00e9 escrevia a Antipatro desvendava toda a trama, porque pareceria que ele nada tinha feito que por sua ordem e para perder Salom\u00e9. Acm\u00e9, que era judeu de nascimento, estava a servi\u00e7o da imperatriz e tinha vendido muito caro a Antipatro a sua media\u00e7\u00e3o. Herodes soube assim de toda a maldade de seu filho, que chegava a tal excesso, pois n\u00e3o se contentando, de atentar contra a vida de seu pai, de ter querido tam\u00adb\u00e9m perder \u00e0 sua tia Salom\u00e9, de ter enchido toda a fam\u00edlia de confus\u00e3o e per\u00adturba\u00e7\u00e3o, tinha mesmo levado a corrup\u00e7\u00e3o at\u00e9 a corte de Augusto. Tantos cri\u00admes juntos causaram-lhe tal horror, que pouco faltou que ele n\u00e3o morresse naquele mesmo instante. Salom\u00e9 excitava-o e clamava, batendo no peito, que estava pronta a sofrer a morte, se ele julgava que ela lhe tinha faltado \u00e0 fidelida\u00adde. Herodes mandou chamar Antipatro e ordenou-lhe que dissesse sem temor, se tinha alguma coisa a alegar em sua defesa. Ele nada respondeu e ent\u00e3o ele pediu-lhe, que, pelo menos declarasse que eram seus c\u00famplices. Ele falou de AntiF\u00edlon somente. Veio ent\u00e3o a Herodes o pensamento de mand\u00e1-lo a Roma para ser julgado por Augusto, mas teve receio de que os amigos de Antipatro o salvassem pelo caminho. Assim, tornou a envi\u00e1-lo \u00e0 pris\u00e3o, atado como estava e escreveu a Augusto para inform\u00e1-lo do seu crime, encarregando seus embai\u00adxadores de lhe contar como ele havia conquistado Acm\u00e9 e de lhe mostrar as c\u00f3pias das cartas que ele tinha escrito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Herodes dissimulava sua c\u00f3lera contra Ant\u00edpatro e escreveu-lhe que logo que tivesse terminado os neg\u00f3cios que o retinham em Roma, viesse procur\u00e1-lo o mais depressa poss\u00edvel, a fim de que sua aus\u00eancia n\u00e3o lhe fosse prejudicial. 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