{"id":491,"date":"2015-04-03T02:10:54","date_gmt":"2015-04-03T02:10:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=491"},"modified":"2015-04-03T02:10:54","modified_gmt":"2015-04-03T02:10:54","slug":"capitulo-17-herodes-acusa-alexandre-e-aristobulo-numa-grande-assembleia-reunida-em-berito-e-os-condena-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-17-herodes-acusa-alexandre-e-aristobulo-numa-grande-assembleia-reunida-em-berito-e-os-condena-a-morte\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 17 &#8211; Herodes acusa Alexandre e Arist\u00f3bulo numa grande assembl\u00e9ia reunida em Berito e os condena \u00e0 morte."},"content":{"rendered":"<p>Essa carta de Augusto deu grande alegria a Herodes, tanto por lhe mostrar que estavam reconciliados quanto pela inteira liberdade que lhe con\u00adcedia para agir com os filhos. N\u00e3o sei como chegou a tal excesso, o de querer mat\u00e1-los e de tratar o caso com tal precipita\u00e7\u00e3o, porque, embora ele demonstrasse muita severidade para com os filhos no tempo de sua prosperidade, isso nunca havia acontecido. Agora n\u00e3o tinha medidas o seu \u00f3dio, ainda que os neg\u00f3cios estivessem em t\u00e3o boa situa\u00e7\u00e3o que ele n\u00e3o poderia desejar melhor. Enviou convites a todas as partes, para que todos os que Augusto havia julgado conveniente se reunissem em Berito, exceto Arqueiau, porque o odiava e por temer que ele se opusesse ao seu des\u00edgnio. Os governadores das prov\u00edncias e as personagens mais importantes de diversas cidades para l\u00e1 se dirigiram, mas ele n\u00e3o quis que os filhos estivessem presentes e mandou-os para uma aldeia dos sid\u00f4nios, chamada Platana, pr\u00f3xima daquela cidade e de onde podiam ser le\u00advados, caso fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ele adentrou sozinho a assembl\u00e9ia, que constava de cento e cinq\u00fcenta pessoas, e a maneira como acusou os filhos, em vez de despertar compaix\u00e3o pela sua infe\u00adlicidade e persuadir os presentes da necessidade que o obrigava a chegar a t\u00e3o grandes extremos, pareceu, ao inv\u00e9s, muito inconveniente na boca de um pai. Ele falou com muita veem\u00eancia, perturbado pela c\u00f3lera, esfor\u00e7ando-se para mostrar a verdade dos crimes de que os jovens eram acusados, e n\u00e3o trouxe nenhuma prova daquelas acusa\u00e7\u00f5es. Via-se, enfim, um pai que, longe de instruir os juizes, n\u00e3o tinha vergonha de tentar convenc\u00ea-los a se unir a ele no lit\u00edgio contra os filhos. Leu as cartas deles, mas nada continham que demonstrasse algum plano organizado contra ele ou que se tivessem deixado levar a alguma impiedade. Pareciam confir\u00admar somente que haviam decidido fugir, al\u00e9m de algumas palavras pelas quais expressavam o descontentamento que sentiam contra ele.<\/p>\n<p>Nesse ponto das cartas, ele exclamou, como se tais palavras fossem uma clara confiss\u00e3o, que eles haviam atentado contra a sua vida e jurou que elas lhe eram mais insuport\u00e1veis que a morte. Acrescentou que a natureza e Augusto lhe da\u00advam pleno poder sobre os filhos e que uma das leis de sua na\u00e7\u00e3o era clara a esse respeito, pois ordenava que, quando um pai ou uma m\u00e3e acusassem os filhos e pusessem a m\u00e3o sobre a cabe\u00e7a deles, os que estivessem presentes eram obrigados a apedrej\u00e1-los. Assim, ele teria podido, sem outra forma de processo, condenar \u00e0 morte os seus filhos em seu pa\u00eds e no seu reino, mas desejara ouvir o parecer daquela ilustre assembl\u00e9ia. N\u00e3o os reunira, portanto, como juizes, pois o crime deles era manifesto, por\u00e9m somente por formalidade, a fim de que participassem de seu justo ressentimento e para que a posteridade soubesse, pelos seus sufr\u00e1gios, qu\u00e3o importante \u00e9 n\u00e3o tolerar t\u00e3o horr\u00edveis atentados como o dos filhos contra aqueles que lhes deram a vida.<\/p>\n<p>Herodes assim falou e, como n\u00e3o havia trazido os filhos para que se defendes\u00adsem, a assembl\u00e9ia n\u00e3o teve dificuldade em constatar que n\u00e3o havia mais proba\u00adbilidade de reconcilia\u00e7\u00e3o e confirmou-lhe o poder que Augusto lhe dera para dispor dele como quisesse. Saturnino, que havia sido c\u00f4nsul e desempenhara cargos honrosos, opinou primeiro, com muita modera\u00e7\u00e3o. Ele disse que era de opini\u00e3o que fossem castigados, n\u00e3o, por\u00e9m, com a morte. Porque, sendo ele pai, n\u00e3o podia ter sentimentos t\u00e3o cru\u00e9is nem crer que se deveria acrescentar \u00e0 infe\u00adlicidade de Herodes aquela nova afli\u00e7\u00e3o, que seria o c\u00famulo de todas as outras. Os tr\u00eas filhos dele, que eram os seus lugar-tenentes, opinaram em seguida e foram do mesmo parecer. Vol\u00famnio, ao contr\u00e1rio, achou melhor sentenci\u00e1-los a morte. Os que falaram depois dele foram, em sua maioria, da mesma opini\u00e3o, e assim n\u00e3o restou mais esperan\u00e7a aos dois pr\u00edncipes.<\/p>\n<p>Herodes partiu imediatamente para Tiro e levou tamb\u00e9m os filhos. Nicolau, que voltava de Roma, encontrou-o l\u00e1, e Herodes contou-lhe o que se havia passado em Berito e depois perguntou qual era em Roma a opini\u00e3o de seus amigos com respeito aos filhos. Ele respondeu que a maior parte os condenava, julgando que ele devia encerr\u00e1-los na pris\u00e3o para faz\u00ea-los morrer, se o achasse justo, mas somente depois de madura reflex\u00e3o, a fim de que n\u00e3o parecesse que, em assuntos t\u00e3o delicados, ele agia mais pela c\u00f3lera que pela raz\u00e3o. Ou ent\u00e3o, para n\u00e3o se envolver numa afli\u00e7\u00e3o sem rem\u00e9dio, devia absolv\u00ea-los e p\u00f4-los em liberdade. Herodes, ouvindo-o falar assim, ficou muito tempo pensativo, sem dizer palavra. Ordenou em seguida que subisse com ele ao navio, e partiram para Cesar\u00e9ia.<\/p>\n<p>Esse estado de coisas tornou-se o motivo de todas as conversas; n\u00e3o se falava de outra coisa. A infelicidade dos dois pr\u00edncipes e o \u00f3dio que o pai nutria por eles havia tanto tempo criou uma imensa expectativa quando ao que iria acontecer com os jovens. Mas, na inquieta\u00e7\u00e3o em que o reino se encontrava, era perigoso expressar ou dar ouvidos a qualquer coisa que lhes fosse favor\u00e1vel. Era preciso esconder no cora\u00e7\u00e3o a compaix\u00e3o que se tinha deles e dissimular a dor, sem ousar manifest\u00e1-la.<\/p>\n<p>Apenas Tirom, um velho e corajoso cavalheiro, cujo filho era da idade de Alexandre e muito afei\u00e7oado ao pr\u00edncipe, n\u00e3o ficou calado e ousou dizer o que os outros somente pensavam. N\u00e3o temia mesmo dizer em voz alta e publi\u00adcamente que n\u00e3o havia mais verdade nem justi\u00e7a entre os homens, que a men\u00adtira e a mal\u00edcia reinavam nos cora\u00e7\u00f5es e que a cegueira era tal que, por maiores que fossem as suas faltas, eles n\u00e3o as reconheciam. Tinha-se prazer em ouvi-lo falar com aquela perigosa liberdade, e ningu\u00e9m podia condenar a sua ousadia. Por\u00e9m todos se mantinham em sil\u00eancio, pois n\u00e3o queriam se arriscar, embora a apreens\u00e3o pelo destino dos infelizes pr\u00edncipes bem podia ter incentivados ou\u00adtros a imit\u00e1-lo. Ele atreveu-se mesmo a pedir uma audi\u00eancia com o rei, para conversar a s\u00f3s com ele.<\/p>\n<p>Herodes concedeu-a, e ent\u00e3o ele lhe disse: &#8220;Majestade! Eu n\u00e3o poderia deixar de falar-vos com esta liberdade, que me pode ser perigosa, mas tamb\u00e9m pode ser muito \u00fatil a v\u00f3s, para que reflitais no que vou dizer. Em que estais pensando, majestade? Onde est\u00e1 agora aquela extraordin\u00e1ria sagacidade com que trat\u00e1veis os assuntos mais complicados, e que \u00e9 feito de vossos amigos e parentes? Poder-se-ia incluir nesse n\u00famero os que n\u00e3o se preocupam em resolver um assunto que p\u00f5e em grave perturba\u00e7\u00e3o uma corte t\u00e3o feliz quanto a vossa? N\u00e3o percebeis o que se passa? Estar\u00edeis desejando a morte desses dois pr\u00edncipes, oriundos de t\u00e3o digna rainha \u2014 nobres, portanto, de nascimento \u2014, para vos colocardes, na idade em que estais, nas m\u00e3os de um filho que concebeu esperan\u00e7as criminosas e para vos entregardes aos vossos parentes, que tantas vezes julgastes indignos de viver? N\u00e3o percebeis que o sil\u00eancio do povo condena o vosso proceder, achando-o abomin\u00e1vel? N\u00e3o vos ocorre que os vossos soldados, particularmente os oficiais, sentem compaix\u00e3o pela infelicidade desses dois pr\u00edncipes e horror pelos que os puseram em tal desgra\u00e7a?&#8221;<\/p>\n<p>Como o rei se achava muito sensibilizado em sua afli\u00e7\u00e3o e bem convencido da maldade de seus parentes, n\u00e3o reprovou, de in\u00edcio, as palavras de Tirom. Mas, vendo que ele o apertava com brutal liberdade, sem se impor nenhum limite, come\u00e7ou a se inquietar. E, considerando o que ele lhe dizia mais como censura que como advert\u00eancia, que a preocupa\u00e7\u00e3o pelo bem-estar do rei o levava a dizer, perguntou quem eram os oficiais e os soldados que condenavam o seu proceder. Quando tomou conhecimento dos nomes, mandou colocar todos eles na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Um certo Trifom, que era barbeiro de Herodes, veio contar em seguida que Tirom lhe havia pedido v\u00e1rias vezes para que cortasse a garganta do rei com a navalha quando lhe fizesse a barba, garantindo que ele seria muito bem recompensado e que poderia esperar, depois disso, qualquer favor da parte de Alexandre. Herodes imediatamente ordenou que prendessem o barbeiro e o mandou torturar, bem como a Tirom e seu filho, o qual, vendo o pai padecer os tormentos sem nada confessar e percebendo que a crueldade do rei n\u00e3o dava esperan\u00e7a alguma de que os aliviassem para ele tamb\u00e9m, disse que declararia toda a verdade contanto que os deixassem de torturar. Herodes prometeu que o faria, e ele contou que o pai, tendo obtido a liberdade de falar a s\u00f3s com o rei, havia resolvido mat\u00e1-lo e se expor a todas as conseq\u00fc\u00eancias, tal o seu afeto por Alexandre. Essa declara\u00e7\u00e3o livrou Tirom dos tormentos, mas n\u00e3o se sabe se era essa a verdade ou se o filho falara daquele modo apenas para poupar o pai e a si mesmo de tantas dores.<\/p>\n<p>Herodes baniu ent\u00e3o de seu esp\u00edrito qualquer compaix\u00e3o que lhe viesse impedir de ordenar a morte dos dois filhos. E, n\u00e3o querendo dar lugar ao arrependimento, apressou-se em realizar a execu\u00e7\u00e3o. Mandou ent\u00e3o apresentar em p\u00fablico os trezentos oficiais do ex\u00e9rcito cujos nomes haviam sido citados, bem como a Tirom, o filho deste e o barbeiro, e os acusou diante do povo, que se lan\u00e7ou imediatamente sobre eles e os matou. Quanto a Alexandre e Arist\u00f3bulo, o impiedoso pai os enviou a Sebaste, onde, por sua ordem, foram estrangulados. Os corpos foram levados a Alexandriom, ao t\u00famulo de seu av\u00f4 materno, onde v\u00e1rios de seus antepassados estavam sepultados.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de admirar, talvez, que um \u00f3dio alimentado por tanto tempo tenha crescido at\u00e9 esse ponto, conseguindo afogar no esp\u00edrito de Herodes todos os sentimentos da natureza. Pode-se duvidar, todavia, e com raz\u00e3o, se foi justa a condena\u00e7\u00e3o desses dois pr\u00edncipes, os quais, tendo continuamente irritado o pai, obrigaram-nos por fim a consider\u00e1-los mortais inimigos, ou se n\u00e3o dever\u00edamos atribu\u00ed-la \u00e0 dureza de Herodes e \u00e0 sua violenta paix\u00e3o pelo poder, pois ele, quan\u00addo se tratava de conservar a sua absoluta autoridade, n\u00e3o tolerava a m\u00ednima resist\u00eancia e se achava no direito de n\u00e3o poupar ningu\u00e9m. Talvez se possa ainda atribu\u00ed-la \u00e0 sorte, que \u00e9 mais poderosa que todos os sentimentos humanos e pode levar os homens a tais resolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quanto a mim, estou convencido de que todas as nossas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o preordenadas por uma inevit\u00e1vel necessidade a que chamamos destino, sem cuja ordem nada se faz no mundo. Mas \u00e9 suficiente havermos tocado nisso de passagem, isto \u00e9, acerca do destino, que \u00e9 muito mais elevado que o racioc\u00ednio pelo qual busquei a causa da morte dos pr\u00edncipes \u2014 se ocorreu pela imprud\u00eancia deles ou pela crueldade de Herodes. Todavia, como se pode julgar pelo que encontramos escrito a esse respeito nos livros da nossa Lei, n\u00e3o se deve crer que essa doutrina nos isente de qualquer participa\u00e7\u00e3o nos acontecimentos ou nivele de tal modo os diferentes costumes dos homens que exima de toda culpa os maus e os criminosos.<\/p>\n<p>Mas, voltando \u00e0s duas primeiras causas de t\u00e3o tr\u00e1gico e deplor\u00e1vel aconteci\u00admento, \u00e9 verdade que se pode acusar os dois pr\u00edncipe da ousadia que \u00e9 comum aos de sua idade, ainda mais quando herdeiros do fausto de um nascimento real; de haverem escutado demais as palavras dos que falavam em desabono de seu pai; de julgarem sem eq\u00fcidade as suas a\u00e7\u00f5es; de suspeitarem dele injustamente; de falarem com excessiva liberdade; de terem eles mesmos dado motivo para cal\u00fanias aos que observavam as suas m\u00ednimas palavras com o prop\u00f3sito ganhar a estima do rei.<\/p>\n<p>Quanto a Herodes, como se poder\u00e1 perdoar uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o desumana e desnaturada como a de matar os pr\u00f3prios filhos sem ter conseguido provar que eles haviam atentado contra a sua vida, privando assim a na\u00e7\u00e3o de dois pr\u00edncipes t\u00e3o formosos, h\u00e1beis em todos os exerc\u00edcios, capazes de ser valorosos na guerra e que falavam com tanta gra\u00e7a \u2014 particularmente Alexandre \u2014 que n\u00e3o eram somente queridos de todo o povo judeu, mas tamb\u00e9m dos estrangeiros? E, mesmo que os tivesse julgado culpados, por que n\u00e3o se contentou em mant\u00ea-los numa pris\u00e3o ou em bani-los do reino, uma vez que nada tinha a temer, nem dentro nem fora, garantido como estava pela poderosa prote\u00e7\u00e3o dos romanos? Que maior prova poderia ele dar sen\u00e3o a de se ter deixado governar pela paix\u00e3o, demonstrando, ao ordenar a morte dos filhos, uma insuper\u00e1vel impiedade?<\/p>\n<p>O que aumenta a sua culpa \u00e9 o fato de que ele estava j\u00e1 numa idade em que jamais poderia alegar pouca experi\u00eancia para deixar ir t\u00e3o longe uma quest\u00e3o. Sua falta teria sido menor se a surpresa de um atentado contra a sua vida o tivesse impelido imediatamente cometer aquela a\u00e7\u00e3o, ainda que t\u00e3o cruel. Po\u00adr\u00e9m, agir depois de t\u00e3o grande demora e ap\u00f3s tantas delibera\u00e7\u00f5es \u00e9 ind\u00edcio de uma alma sanguin\u00e1ria e endurecida pelo mal, como o provaram os fatos seguin\u00adtes, pois ele n\u00e3o perdoou nem mesmo aqueles a quem antes demonstrara amar sinceramente, embora pouco se tenha a lamentar por causa deles, porque eram culpados. Mas nisso se v\u00ea tamb\u00e9m a grande crueldade de Herodes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa carta de Augusto deu grande alegria a Herodes, tanto por lhe mostrar que estavam reconciliados quanto pela inteira liberdade que lhe con\u00adcedia para agir com os filhos. 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