{"id":478,"date":"2015-04-03T02:08:24","date_gmt":"2015-04-03T02:08:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=478"},"modified":"2015-04-03T02:08:24","modified_gmt":"2015-04-03T02:08:24","slug":"capitulo-11-o-rei-herodes-manda-abrir-o-sepulcro-de-davi-para-tirar-dinheiro-e-deus-o-castiga-divisoes-e-perturbacoes-na-familia-crueldade-desse-soberano-causada-por-suas-desconfiancas-e-pela-ma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-11-o-rei-herodes-manda-abrir-o-sepulcro-de-davi-para-tirar-dinheiro-e-deus-o-castiga-divisoes-e-perturbacoes-na-familia-crueldade-desse-soberano-causada-por-suas-desconfiancas-e-pela-ma\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 11 &#8211; O rei Herodes manda abrir o sepulcro de Davi, para tirar dinheiro, e Deus o castiga. Divis\u00f5es e perturba\u00e7\u00f5es na fam\u00edlia. Crueldade desse soberano causada por suas desconfian\u00e7as e pela mal\u00edcia de Ant\u00edpatro. Manda meter Alexandre, seu filho, na pris\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p>As excessivas despesas feitas por Herodes dentro e fora do reino haviam esgotado as suas finan\u00e7as. Ele sabia que Hircano, seu predecessor, retirara tr\u00eas mil talentos de prata do sepulcro de Davi e imaginava que outros l\u00e1 ainda restassem, em n\u00famero suficiente para cobrir todas as suas necessidades. Havia muito tempo ele desejava recorrer a esse meio, e por fim o fez. Come\u00e7ou por usar de todas as precau\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, para impedir que o povo descobrisse o seu inten\u00adto. Mandou abrir o sepulcro \u00e0 noite e l\u00e1 entrou acompanhado somente pelos seus amigos mais fi\u00e9is. N\u00e3o encontrou dinheiro em moedas, como Hircano, po\u00adr\u00e9m achou muitos vasos de ouro e outras preciosas d\u00e1divas que ali haviam sido colocadas. Mandou levar tudo, no entanto isso lhe fez desejar mais. Mandou ent\u00e3o rebuscar at\u00e9 mesmo no ata\u00fade onde estava o corpo de Davi e o de Salom\u00e3o. Conta-se, por\u00e9m, que de l\u00e1 saiu uma chama, que matou dois de seus guardas. Esse fato prodigioso assustou-o e, para expiar tal sacril\u00e9gio, ele depois mandou construir \u00e0 entrada do sepulcro um soberbo monumento de m\u00e1rmore branco.<\/p>\n<p>Nicolau, que escreveu a hist\u00f3ria dessa \u00e9poca, faz men\u00e7\u00e3o desse fato, mas n\u00e3o diz que Herodes entrou no sepulcro, porque julgava prejudicial \u00e0 imagem do rei. Em seu livro, ele tem a mesma atitude com rela\u00e7\u00e3o a muitas outras coisas referentes a esse soberano porque, tendo escrito essa hist\u00f3ria enquanto Herodes ainda vivia, o desejo de agrad\u00e1-lo levou-o a falar somente o que lhe podia redundar em gl\u00f3ria. Assim, ele registra, com grandes elogios, os seus belos feitos, mas suprime, tanto quanto poss\u00edvel, os seus crimes mais not\u00f3rios, ou pelo menos procura disfar\u00e7\u00e1-los. Esfor\u00e7a-se mesmo por desculpar, com pretextos especiosos, a crueldade para com Mariana e os filhos desta. Ele assim procede em toda a sua obra, dirigindo pomposos enc\u00f4mios \u00e0s suas justas a\u00e7\u00f5es, mas principalmente fazendo apologia de suas injusti\u00e7as. Quanto a mim, que tenho a honra de descender dos asmoneus e ter o meu lugar entre os sacerdotes e que n\u00e3o ousaria pronunciar qualquer falsidade contra eles, narro as coisas sinceramente e n\u00e3o creio ofender aos reis descendentes de Herodes ao preferir a verdade, a qual em certos momentos pode lhes causar desgosto.<\/p>\n<p>Desde o dia em que Herodes violou o respeito devido \u00e0 santidade dos sepulcros, a agita\u00e7\u00e3o em sua fam\u00edlia aumentou cada vez mais, fosse por uma vingan\u00e7a do c\u00e9u, o que teria tornado essa chaga ainda mais dolorosa, fosse por ocorrer num tempo em que se podia vincular a causa a esse sacril\u00e9gio. Uma guerra civil n\u00e3o agitaria mais uma na\u00e7\u00e3o que as paix\u00f5es dos diversos partidos da corte desse pr\u00edncipe. Parecia que cada qual desejava superar os demais em cal\u00fa\u00adnias. E era Ant\u00edpatro quem sobrepujava a todos em artif\u00edcios para destruir os irm\u00e3os. Fazia com que fossem acusados de falsos crimes e ocultava a sua perigo\u00adsa mal\u00edcia tomando-lhes muitas vezes a defesa, a fim de poder, com esse amor aparente, oprimi-los sem muita dificuldade e enganar o rei seu pai, que pensava ser ele o \u00fanico a se interessar pela sua conserva\u00e7\u00e3o. Assim, Herodes ordenou a Ptolomeu, seu principal ministro, que nada fizesse no governo sem antes comu\u00adnicar a Antipatro. Dava tamb\u00e9m \u00e0 m\u00e3e dele participa\u00e7\u00e3o em todas as coisas, e Antipatro servia-se dessa influ\u00eancia para insuflar o \u00f3dio na mente de todos os que julgava importante tornar inimigos do rei.<\/p>\n<p>Alexandre e Arist\u00f3bulo, por sua vez, cujo cora\u00e7\u00e3o correspondia \u00e0 grandeza de sua origem, n\u00e3o podiam tolerar um tratamento t\u00e3o indigno da parte daqueles que lhes eram inferiores, e as suas mulheres eram do mesmo parecer. Glafira odiava Salom\u00e9 mortalmente, tanto por causa do afeto que tinha por Alexandre, seu marido, quanto por n\u00e3o tolerar que ela fizesse prestar \u00e0 filha, que desposara Arist\u00f3bulo, as mesmas honras que a ela mesma.<\/p>\n<p>Feroras contribu\u00eda para essa divis\u00e3o, levando Herodes a desconfiar dele e a odi\u00e1-lo, porque recusara desposar a filha deste por causa de uma servi\u00e7al a quem amava perdidamente. Esse injurioso desprezo feriu Herodes profundamente, porque nada lhe podia ser mais doloroso que ver o irm\u00e3o* a quem agraciara com tantos benef\u00edcios e que era quase associado ao governo pela autoridade que lhe concedera, corresponder t\u00e3o pouco ao seu afeto. E, vendo que n\u00e3o conseguiria afast\u00e1-lo daquela loucura, deu essa princesa em casamento ao filho de Fazael, seu irm\u00e3o mais velho. Mais tarde, quando julgou que Feroras, tendo j\u00e1 realizado os seus desejos, se havia tornado mais razo\u00e1vel, fez-lhe graves censuras pela maneira ofensiva como procedera para com ele e convidou-o ao mesmo tempo a desposar Cipro, sua outra filha.<\/p>\n<p>Ptolomeu repreendeu Feroras, dizendo que este ofendera gravemente o irm\u00e3o ao se deixar conduzir daquele modo por uma t\u00e3o vergonhosa paix\u00e3o, podendo por isso ser privado da boa vontade do rei para com ele, que tivera a generosidade de perdo\u00e1-lo de sua primeira falta, e provocar o seu \u00f3dio e a pr\u00f3pria desgra\u00e7a, quando devia conservar aquela amizade. Feroras, persuadido por essas raz\u00f5es, despediu a mulher, de quem tivera um filho, e prometeu ao rei, com juramento, n\u00e3o v\u00ea-la mais e desposar a princesa dentro de um m\u00eas. Chegado esse tempo, no entanto, ele esqueceu todas as promessas, retomou aquela mulher e amou-a ainda mais ardentemente que antes.<\/p>\n<p>Herodes, ofendido com esse proceder, n\u00e3o p\u00f4de reter por mais tempo a sua c\u00f3lera, e com freq\u00fc\u00eancia escapavam-lhe palavras que traduziam toda a sua ira. Alguns, vendo-o daquela maneira indisposto contra Feroras, incitavam-no ainda mais por meio de cal\u00fanias. N\u00e3o se passava um dia, ou mesmo uma hora, em que ele n\u00e3o recebesse novos motivos de desgosto por aquela cis\u00e3o e pelas disputas cont\u00ednuas entre os parentes e as pessoas que lhe eram muito queridas.<\/p>\n<p>O \u00f3dio de Salom\u00e9 pelos filhos de Mariana era t\u00e3o grande que ela n\u00e3o podia tolerar que a pr\u00f3pria filha, que havia desposado Arist\u00f3bulo, vivesse em paz com o marido. Exigia dela que lhe referisse as coisas mais secretas que o casal tinha entre si e, se acontecia entre eles alguma pequena rusga, como \u00e9 natural, em vez de lhe acalmar o esp\u00edrito, irritava-a ainda mais com as suspeitas que lhe despertava. Obrigava-a tamb\u00e9m a revelar o que se passava entre os dois irm\u00e3os.<\/p>\n<p>A jovem princesa contou-lhe que, quando eles estavam sozinhos, faziam men\u00e7\u00e3o \u00e0 rainha Mariana e \u00e0 avers\u00e3o que tinham pelo pai, dizendo que, se um dia chegassem ao trono, n\u00e3o dariam outro emprego aos filhos que Herodes tivera das outras mulheres sen\u00e3o o de tabeli\u00e3es nas aldeias, pois, com a educa\u00e7\u00e3o que haviam recebido, era o cargo que estavam aptos a exercer. E, se eles vissem as mulheres de Herodes se adornando com os trajes da rainha sua m\u00e3e, dar-lhes-iam por vestes apenas cil\u00edcios e as encerrariam em lugares onde jamais veriam a luz do sol. Salom\u00e9 relatava todas essas coisas a Herodes. Ele as ouvia com pesar e procurava remedi\u00e1-las, porque preferia corrigir os filhos a castig\u00e1-los. Assim, embora ele se tornasse cada dia mais triste e propenso a crer no que lhe contavam, contentou-se em repreender severamente os filhos e ficou satisfeito com as suas justificativas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m esse mal, que parecia curado, bem depressa se manifestou muito maior. Feroras disse a Alexandre ter sabido de Salom\u00e9 que o rei concebia pela princesa Glafira \u2014 esposa de Alexandre \u2014 uma paix\u00e3o t\u00e3o forte que era imposs\u00edvel controlar. Essas palavras despertaram tal ci\u00fame no pr\u00edncipe que ele passou a enxergar com maldade qualquer demonstra\u00e7\u00e3o de afeto da parte de Herodes pela nora. O seu penar foi t\u00e3o intenso que, n\u00e3o o podendo mais suportar, foi falar com o rei seu pai. Narrou-lhe em l\u00e1grimas o que Feroras lhe dissera. Jamais Herodes tivera surpresa maior. Ele ficou t\u00e3o chocado com aquela abomin\u00e1vel acusa\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou a lamentar profundamente a horr\u00edvel mal\u00edcia de seus dom\u00e9sticos, os quais pagavam com a ingratid\u00e3o os muitos benef\u00edcios de que lhe eram devedores.<\/p>\n<p>Mandou imediatamente chamar Feroras e disse-lhe, encolerizado: &#8220;Sois o pior de todos os homens! \u00c9 assim que reconheceis tantos favores que de mim recebestes? Como podem penetrar em vosso esp\u00edrito e sair de vossa boca pensamentos e palavras t\u00e3o injuriosas contra a minha reputa\u00e7\u00e3o e t\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0 verdade? Bem compreendo o vosso des\u00edgnio. N\u00e3o foi somente para me ofender que falastes desse modo a meu filho, mas para o induzir a me envenenar, pois qual filho, mesmo possuindo um g\u00eanio pac\u00edfico, deixaria de vingar tamanho ultraje? Ou pensais que h\u00e1 grande diferen\u00e7a entre incentivar tal ci\u00fame em seu esp\u00edrito e p\u00f4r-lhe a espada na m\u00e3o, para que me mate? Qual \u00e9 o vosso des\u00edgnio, fingindo amar um irm\u00e3o que sempre vos quis bem, quando na verdade me tendes \u00f3dio mortal e me acusais falsamente de praticar uma a\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o se pode sem impiedade nem mesmo pensar? Ide-vos, ingrato, que renunciastes a todos os sentimentos de humanidade por vosso benfeitor e irm\u00e3o. Sejam as recrimina\u00e7\u00f5es de vossa consci\u00eancia o vosso carrasco pelo resto de vossa vida. Quanto a mim, para vos cobrir de confus\u00e3o, contentar-me-ei em confundir a vossa mal\u00edcia com a minha bondade, n\u00e3o vos castigando como mereceis, mas vos tratando com a mansid\u00e3o de que vos tornastes indigno&#8221;.<\/p>\n<p>Feroras, n\u00e3o podendo se desculpar de tamanho crime, de que se havia t\u00e3o claramente culpado, lan\u00e7ou a culpa sobre Salom\u00e9, dizendo que aquilo partira dela. Aconteceu que ela estava presente, e, como era t\u00e3o fingida quanto m\u00e1, afirmou altivamente que nada havia de mais falso e exclamou que parecia que todos haviam conspirado para torn\u00e1-la odiosa ao rei e lev\u00e1-la a perder a vida, e que a sua preocupa\u00e7\u00e3o pelo bem-estar de Herodes diante dos perigos que o amea\u00e7avam era motivo para que a odiassem, e Feroras mais que todos, pois fora ela a causa de que ele despedisse a mulher que mantinha. Enquanto falava, arrancava os cabelos e batia no peito, mas ningu\u00e9m deu cr\u00e9dito ao que ela dizia.<\/p>\n<p>Feroras, no entanto, ficou aflit\u00edssimo, porque n\u00e3o podia negar ter dito aquelas palavras a Alexandre nem provar que as ouvira de Salom\u00e9. E ambos discutiram por muito tempo: ele para acus\u00e1-la e ela para se justificar. Herodes, cansado daquela discuss\u00e3o, mandou-os embora, louvando o filho pela sua modera\u00e7\u00e3o e por haver lhe manifestado o seu penar. Como j\u00e1 era tarde, foi p\u00f4r-se \u00e0 mesa. Ningu\u00e9m deu raz\u00e3o a Salom\u00e9, e n\u00e3o se duvidava de que fora ela quem inventara aquela cal\u00fania. As mulheres do rei, que a odiavam por causa de seu mau humor e de sua inconst\u00e2ncia nos afetos, difamavam-na continuamente perante Herodes.<\/p>\n<p>Obodas reinava ent\u00e3o na Ar\u00e1bia. Era um pr\u00edncipe pregui\u00e7oso, que s\u00f3 amava a ociosidade. Sileu, que era h\u00e1bil, bem apessoado e em plena mocidade, governava sob a sua autoridade. Veio ele falar com o rei Herodes sobre alguns neg\u00f3cios e, um dia, quando estava com o rei \u00e0 mesa, Salom\u00e9, que tamb\u00e9m estava presente, caiu-lhe nas suas boas gra\u00e7as. Sabendo que ela era vi\u00fava, prop\u00f4s-lhe casamento. Como Sileu tamb\u00e9m lhe agradasse e ela j\u00e1 n\u00e3o estivesse bem afinada com o esp\u00edrito do rei seu irm\u00e3o, n\u00e3o rejeitou a proposta. As mulheres do rei logo o foram informar dessa nova amizade, acrescentando os seus pr\u00f3prios coment\u00e1rios e cr\u00edticas. Ele ordenou a Feroras que os observasse, e este disse-lhe que era f\u00e1cil de se julgar, pelos olhares e pelos sinais que ambos trocavam, que estavam de acordo. Ent\u00e3o Herodes n\u00e3o duvidou mais, e Sileu despediu-se.<\/p>\n<p>Dois ou tr\u00eas meses depois, ele veio pedir Salom\u00e9 em casamento, declarando que tal uni\u00e3o seria muito vantajosa a Herodes, por causa do com\u00e9rcio de seu reino com a Ar\u00e1bia, pois era ele, Sileu, quem a governava de fato no presente, e o reino com certeza, no futuro, lhe pertenceria. Herodes falou com a irm\u00e3. Ela deu-lhe voluntariamente o seu consentimento, e ele disse a Sileu que podia satis-fazer-lhe o pedido, contanto que abra\u00e7asse a religi\u00e3o dos judeus. O \u00e1rabe res\u00adpondeu-lhe que n\u00e3o o podia fazer, porque os de sua na\u00e7\u00e3o o apedrejariam. E assim, desfez-se o contrato. Feroras acusou Salom\u00e9 de ter pouco cuidado com a sua reputa\u00e7\u00e3o, e as mulheres do rei diziam abertamente que ela nada havia recu\u00adsado \u00e0quele estrangeiro.<\/p>\n<p>Algum tempo depois, Herodes deixou-se vencer pela importuna\u00e7\u00e3o de Salom\u00e9 e resolveu dar em casamento ao filho que ela tivera de Costobaro a princesa sua filha que Feroras, apaixonado pela serva, recusara desposar. Mas Feroras o fez mudar de id\u00e9ia, dizendo que aquele mo\u00e7o jamais a amaria, por causa do ressentimento que conservava pela morte de seu pai. Se ele achasse melhor, que a desse ao seu filho, que tinha tamb\u00e9m a honra de ser seu sobrinho e deveria suced\u00ea-lo na tetrarquia. Herodes aprovou a proposta, deu cem talentos \u00e0 filha, como dote, e perdoou Feroras pelas faltas passadas.<\/p>\n<p>As perturba\u00e7\u00f5es na fam\u00edlia de Herodes n\u00e3o cessaram. Ao contr\u00e1rio, aumentaram com novos fatos, vergonhosos em seu in\u00edcio e funestos em suas conseq\u00fc\u00eancias. O soberano tinha tr\u00eas eunucos aos quais muito estimava, porque eram muito belos. Um era o seu mordomo, o outro, o seu camareiro e o terceiro, o principal criado de quarto. O rei servia-se deles at\u00e9 mesmo nos neg\u00f3cios mais importantes. Mas lhe contaram que Alexandre, seu filho, os havia subornado com uma grande quantia de dinheiro. Herodes interrogou-os, e eles confessaram que era verdade; todavia, negaram que ele os houvesse induzido a empreender algo contra o rei.<\/p>\n<p>Torturaram-nos uma segunda vez e os trataram com tanta viol\u00eancia que eles, n\u00e3o podendo mais suportar, disseram que Alexandre ainda conservava no cora\u00e7\u00e3o o \u00f3dio que sempre tivera pelo rei seu pai e os havia exortado a abandon\u00e1-lo, pois era um homem j\u00e1 in\u00fatil para tudo, por causa da velhice que ele se esfor\u00e7ava tanto para ocultar, fazendo pentear a barba e os cabelos, e que, se quisessem unir-se a ele, prometia elev\u00e1-los aos mais altos cargos quando viesse a reinar. E isso iria acontecer muito em breve, mesmo que o seu pai n\u00e3o o quisesse, pois, al\u00e9m de o reino lhe pertencer por direito de nascimento, estava tudo preparado para que logo o assumisse, e os seus amigos estavam dispostos a fazer qualquer coisa por amor a ele.<\/p>\n<p>Essas palavras suscitaram terr\u00edvel c\u00f3lera a Herodes, causando-lhe ao mesmo tempo um angustioso temor, pois n\u00e3o podia tolerar que o filho tivesse ousado falar a seu respeito de modo t\u00e3o ultrajoso. Ele temia ainda n\u00e3o poder fugir de imediato ao perigo que o amea\u00e7ava. Julgou tamb\u00e9m que n\u00e3o era conveniente agir \u00e0s claras para resolver aquele assunto. Era prefer\u00edvel empregar para isso, secretamente, pessoas de sua inteira confian\u00e7a. No entanto, ele desconfiava de todos e, julgando que a sua seguran\u00e7a dependia dessa desconfian\u00e7a, suspeitava de muitos que eram inocentes. Quanto mais \u00edntimo lhe era algu\u00e9m, mais ele o julgava capaz de conspirar contra ele. Quanto aos que n\u00e3o lhe eram pr\u00f3ximos, bastava algu\u00e9m acus\u00e1-los para que logo os mandasse matar.<\/p>\n<p>As coisas chegaram a tal ponto que os seus criados, convencidos de que s\u00f3 se poderiam salvar arruinando os outros por meio de cal\u00fanias, passaram a acusar os companheiros. Mas eram, por sua vez, acusados por outros, e assim recebiam tamb\u00e9m um justo castigo, sofrendo as mesmas penas que haviam causado aos inocentes e caindo em ciladas semelhantes \u00e0s que preparavam para os outros. Herodes logo se arrependia de supliciar pessoas que n\u00e3o haviam cometido crime algum, mas isso n\u00e3o o impedia de insistir na pr\u00e1tica dessa injusti\u00e7a. Ele se contentava em impor aos delatores os mesmos supl\u00edcios sofridos pelos que haviam sido falsamente acusados por eles.<\/p>\n<p>Esse deplor\u00e1vel estado de coisas em que se encontrava a corte do soberano chegou a tal ponto que ele proibiu de comparecer \u00e0 sua presen\u00e7a e de entrar no pal\u00e1cio v\u00e1rios dentre os que ele mais amava ou estimava por merecimento. Andr\u00f4maco e Gamelo estavam nesse n\u00famero. Eram seus amigos de longa data e lhe haviam prestado grandes servi\u00e7os com os seus conselhos e embai\u00adxadas nos mais importantes neg\u00f3cios do reino. Haviam cuidado da educa\u00e7\u00e3o dos pr\u00edncipes, e em ningu\u00e9m tinha ele mais confian\u00e7a. Mas ele afastou Andr\u00f4maco, porque o pr\u00edncipe Alexandre era muito achegado a Dem\u00e9trio, filho daquele, e a causa da avers\u00e3o por Gamelo foi o afeto que ele nutria por esse mesmo pr\u00edncipe, que fora seu disc\u00edpulo e o acompanhara na viagem a Roma. Herodes com certeza os trataria mais rudemente se n\u00e3o lhes conheces\u00adse os m\u00e9ritos, que eram not\u00f3rios. Por isso, contentou-se em afast\u00e1-los e em lhes tirar toda a autoridade, a fim de que, n\u00e3o vivendo mais em sua presen\u00e7a, pudesse agir com inteira liberdade.<\/p>\n<p>Antipatro era a causa principal de todos esses males, pois, quando viu que o rei se deixava transportar facilmente a tantos temores e suspeitas, retomou com mais crueldade os seus prop\u00f3sitos anteriores, sugerindo-lhe, como se lhe prestasse um grande servi\u00e7o, que mandasse matar todos os que estavam em condi\u00e7\u00f5es de lhe resistir. Assim, Herodes, depois do afastamento de Andr\u00f4maco e de outros que lhe poderiam falar com liberdade, fez torturar os que eram fi\u00e9is a Alexandre, para obrig\u00e1-los a confessar qualquer participa\u00e7\u00e3o em alguma conspira\u00e7\u00e3o contra o rei. Eles morriam nos tormentos afirmando que eram inocentes, mas isso o fazia obstinar-se ainda mais em torturar os suspeitos. E Antipatro era t\u00e3o mau, que dizia que eles eram impedidos de confessar a verdade por causa de sua extrema fidelidade para com Alexandre. Com isso, um grande n\u00famero de pessoas foi submetido a tormentos, a fim de se extrair delas o que o rei desejava saber.<\/p>\n<p>Um deles, sucumbindo ante a viol\u00eancia da dor, afirmou que ouvira Alexandre dizer diversas vezes, quando lhe louvavam a grandeza e a beleza do porte e a habilidade em atirar com o arco e em todas as outras esp\u00e9cies de exerc\u00edcios, que tais virtudes, recebidas da natureza, eram mais desgra\u00e7as que favores, porque causavam inveja ao rei seu pai, pois quando o acompanhava, era obrigado a se curvar para n\u00e3o parecer mais alto que ele e quando ia \u00e0 ca\u00e7a, devia atirar mal, de prop\u00f3sito, porque o rei n\u00e3o podia tolerar que o louvassem. Quando ouviram o homem falar desse modo, deixaram de o atormentar, e ele, sentindo-se aliviado, acrescentou que Arist\u00f3bulo conspirava com o irm\u00e3o para matar o rei quando este fosse \u00e0 ca\u00e7a e que, se o plano fosse executado sem empecilhos, eles fugiram e iriam a Roma reivindicar o reino. Encontraram tamb\u00e9m cartas desse pr\u00edncipe ao irm\u00e3o, nas quais se queixava de Herodes haver concedido a Antipatro terras que podiam render anualmente duzentos talentos. Tudo isso fez Herodes crer que j\u00e1 havia o suficiente para um justo motivo de desconfian\u00e7a dos filhos.<\/p>\n<p>Irritou-se ent\u00e3o novamente contra Alexandre e o encerrou na pris\u00e3o. Mas ele n\u00e3o estava convencido de todas aquelas acusa\u00e7\u00f5es contra os pr\u00edncipes, pois, ainda que ousassem atentar contra a sua vida, n\u00e3o havia probabilidade de que lhes tivesse ocorrido a id\u00e9ia de ir a Roma ap\u00f3s cometerem semelhante crime. Parecia-lhe mais veross\u00edmil ser aquilo fruto do descontentamento dos mo\u00e7os, pois possu\u00edam uma grande ambi\u00e7\u00e3o e tinham inveja de Ant\u00edpatro. Assim, querendo maiores provas, para ach\u00e1-los culpados e evitar que o acusassem de haver levianamente mandado prender o filho, mandou que se torturassem os principais amigos do pr\u00edncipe e ordenou a morte de outros, ainda que nada tivessem confessado.<\/p>\n<p>A corte estava t\u00e3o agitada e cheia de terror, que algu\u00e9m anunciou que Alexandre havia preparado veneno em Asquelom e depois escrevera aos seus amigos em Roma para que comunicassem a Augusto que descobrira um plano contra ele: o rei seu pai deixara o partido dos romanos para unir-se a Mitridates, rei dos partos. Herodes prestou f\u00e9 a essas acusa\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o faltaram aduladores que, para consol\u00e1-lo no seu sofrimento, diziam que era muito justo tudo o que ele havia feito. Todavia, por mais indaga\u00e7\u00f5es que ele fizesse, esse pretenso veneno nunca foi encontrado.<\/p>\n<p>Alexandre, embora amargurado por tantos males, n\u00e3o se deixou abater. Manifestou mais coragem do que nunca em sua infelicidade: n\u00e3o se dignava defender-se. Em vez de se justificar, falava de uma maneira que irritava ainda mais o rei, de um lado cobrindo-o de confus\u00e3o, pois deixava transparecer que era facilmente enganado pelas cal\u00fanias, e de outro pondo-o em amargura e o colocando em s\u00e9rias dificuldades, caso prestasse f\u00e9 ao que o filho dizia. Escreveu-lhe quatro cartas nas quais dizia que era in\u00fatil torturar tantas pessoas para saber se conspiravam contra ele, pois isso era coisa certa. Os seus amigos mais fi\u00e9is tomavam parte naquela conspira\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo Feroras. A pr\u00f3pria Salom\u00e9 viera, secretamente, \u00e0 noite, deitar-se em seu leito. Assim, todos pensavam unicamente em tir\u00e1-lo deste mundo para depois viver com tranq\u00fcilidade. Por meio delas, apontava at\u00e9 mesmo a cumplicidade de Ptolomeu e Sap\u00ednio, em quem Herodes depositava toda a confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Parecia que todos estavam dominados pela raiva e que aqueles que outrora eram os melhores amigos se haviam tornado inimigos mortais. N\u00e3o se escutavam as justificativas dos acusados, n\u00e3o se procurava esclarecer a verdade. O supl\u00edcio precedia o julgamento, e a pris\u00e3o de uns, a morte de outros e o desespero daqueles que n\u00e3o esperavam melhor tratamento enchiam o pal\u00e1cio de tal temor que n\u00e3o restava sequer um pequeno ind\u00edcio da felicidade passada. O pr\u00f3prio Herodes, em meio a t\u00e3o grande perturba\u00e7\u00e3o, enfadara-se da vida. O temor cont\u00ednuo pela sua vida e o desprazer de n\u00e3o poder confiar em ningu\u00e9m mantinham-no em cruel e incessante tormento. Assim, como ele noite e dia n\u00e3o pensava em outra coisa, imaginava freq\u00fcentemente ver o filho vir a ele de espada em punho para mat\u00e1-lo, e pouco faltou para que esse terror, que o agitava continuamente, n\u00e3o o fizesse perder o ju\u00edzo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As excessivas despesas feitas por Herodes dentro e fora do reino haviam esgotado as suas finan\u00e7as. Ele sabia que Hircano, seu predecessor, retirara tr\u00eas mil talentos de prata do sepulcro de Davi e imaginava que outros l\u00e1 ainda restassem, em n\u00famero suficiente para cobrir todas as suas necessidades. 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