{"id":450,"date":"2015-04-03T01:27:37","date_gmt":"2015-04-03T01:27:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=450"},"modified":"2015-04-03T01:27:37","modified_gmt":"2015-04-03T01:27:37","slug":"capitulo-11-mariana-recebe-herodes-com-frieza-a-qual-unida-as-calunias-da-mae-e-da-irma-do-principe-a-teria-levado-a-morte-mas-herodes-e-obrigado-a-voltar-para-junto-de-augusto-herodes-mata-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-11-mariana-recebe-herodes-com-frieza-a-qual-unida-as-calunias-da-mae-e-da-irma-do-principe-a-teria-levado-a-morte-mas-herodes-e-obrigado-a-voltar-para-junto-de-augusto-herodes-mata-mar\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 11 &#8211; Mariana recebe Herodes com frieza, a qual, unida \u00e0s cal\u00fanias da m\u00e3e e da irm\u00e3 do pr\u00edncipe, a teria levado \u00e0 morte, mas Herodes \u00e9 obrigado a voltar para junto de Augusto. Herodes mata Mariana quando regressa. Covardia de Alexandra, m\u00e3e de Mariana. Desespero de Herodes ap\u00f3s a morte de Mariana. Ele adoece gravemente. Alexandra procura apoderar-se das duas fortalezas de Jerusal\u00e9m. Ele a mata, bem como a Costobaro e alguns outros. Em honra de Augusto, estabelece jogos e espet\u00e1culos, irritando a maior parte dos judeus, e dez deles tentam mat\u00e1-lo. Constr\u00f3i diversas fortalezas e reconstr\u00f3i sobre as ru\u00ednas de Samaria uma bela e fort\u00edssima cidade, a que chama Sebaste."},"content":{"rendered":"<p>Herodes, na volta ao seu reino, em vez de desfrutar a do\u00e7ura da paz ou um descanso tranq\u00fcilo, encontrou apenas perturba\u00e7\u00e3o em sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, pelo des\u00adcontentamento de Mariana e de Alexandra. Elas julgavam, com raz\u00e3o, que n\u00e3o era para cuidar de sua seguran\u00e7a que ele as encerrara naquele castelo, e sim para mant\u00ea-las prisioneiras, pois n\u00e3o tinham liberdade para dispor do que quer que fosse. Mariana, al\u00e9m disso, estava convencida de que o grande amor que ele lhe demonstrava era simula\u00e7\u00e3o, que ele apenas a julgava \u00fatil aos seus interesses. Como sempre se recor\u00addava da ordem que ele dera a Jos\u00e9, pensava nisso com horror, pois, mesmo que ele viesse a morrer, ela n\u00e3o esperava continuar vivendo depois da morte dele. Assim, n\u00e3o havia meios que ela n\u00e3o empregasse para conquistar os guardas, particularmen\u00adte Soeme, de quem ela sabia que dependia a sua morte ou a sua vida.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, ele era muito fiel a Herodes, mas pouco a pouco os presentes e a cordialidade das princesas o conquistaram. Ele n\u00e3o imaginava que Herodes, mesmo evitando o perigo que o amea\u00e7ava, viesse a conquistar t\u00e3o grande auto\u00adridade. Julgava tamb\u00e9m que podia esperar mais das princesas do que dele e que a gratid\u00e3o que elas lhe demonstravam por t\u00e3o grande servi\u00e7o o manteria n\u00e3o somente na estima em que se achava, mas aumentaria ainda o seu prest\u00edgio. E, ainda que sucedesse a Herodes tudo o que este poderia desejar, a sua incr\u00edvel paix\u00e3o por Mariana o tornaria onipotente. Tantas considera\u00e7\u00f5es, juntas, leva\u00adram-no a revelar \u00e0s princesas o segredo que lhe fora confiado. Mariana ficou fora de si de despeito e de c\u00f3lera ao ver que os males que ela devia temer n\u00e3o tinham limites, e fazia continuamente votos de que tudo fosse contr\u00e1rio a Herodes. Nada agora lhe parecia mais insuport\u00e1vel que passar a vida com ele, e esses sentimen\u00adtos fizeram tal impress\u00e3o em seu esp\u00edrito que ela j\u00e1 n\u00e3o os podia dissimular.<\/p>\n<p>Os resultados da viagem sobrepujaram as esperan\u00e7as de Herodes, e a primeira coisa que ele fez ao chegar foi procurar Mariana, para abra\u00e7\u00e1-la e dizer-lhe que ela era a pessoa a quem mais ele amava no mundo e que a amava ainda mais e para contar de que modo tudo lhe havia sucedido maravilhosa\u00admente. Enquanto ele falava, ela ficou sem saber se devia alegrar-se ou afligir-se, mas a sua extrema sinceridade n\u00e3o lhe permitia ocultar a agita\u00e7\u00e3o de seu esp\u00ed\u00adrito, e os seus suspiros faziam ver que aquelas palavras lhe davam mais tristeza que alegria.<\/p>\n<p>Herodes ent\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de mais duvidar do que ela trazia na alma: uma avers\u00e3o t\u00e3o patente que ele a percebeu em seguida. E o seu excessivo amor por ela tornava aquele desprezo insuport\u00e1vel. Ao mesmo tempo, contudo, a sua c\u00f3lera era de tal modo combatida pelo afeto que ele passava do \u00f3dio ao amor e do amor ao \u00f3dio. Assim, hesitando entre as duas paix\u00f5es, n\u00e3o sabia que partido tomar, pois, ao mesmo tempo em que desejava mat\u00e1-la, para vingar-se daquela ingratid\u00e3o, sentia em seu cora\u00e7\u00e3o que a morte dela o tornaria o mais infeliz de todos os homens.<\/p>\n<p>Quando a m\u00e3e e a irm\u00e3 de Herodes, que odiavam mortalmente Mariana, viram-no sob aquela agita\u00e7\u00e3o, julgaram ter encontrado uma ocasi\u00e3o mais que favor\u00e1vel para destru\u00ed-la. N\u00e3o houve cal\u00fanias de que n\u00e3o se servissem para aumentar a irrita\u00e7\u00e3o do pr\u00edncipe e inflamar cada vez mais os seus ci\u00fames. Eles as escutava e demonstrava n\u00e3o reprovar que elas falassem contra Mariana, mas n\u00e3o se resolvia a matar uma pessoa a quem ele amava mais que a pr\u00f3pria vida. No entanto irritava-se contra ela cada dia mais, e ela, por sua vez, n\u00e3o dissimulava os seus sentimentos. Por fim, o amor dele transformou-se em \u00f3dio, e ele teria ent\u00e3o executado a sua cruel resolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fosse a not\u00edcia de que Augusto se tornara senhor do Egito pela morte de Ant\u00f4nio e de Cleopatra.<\/p>\n<p>Essa not\u00edcia obrigou-o a deixar tudo para ir procur\u00e1-lo. Recomendou Mariana a Soeme com grandes demonstra\u00e7\u00f5es de satisfa\u00e7\u00e3o, pelo cuidado que tivera dela, e deu a ele um governo na Jud\u00e9ia. Como j\u00e1 havia adquirido muita familia-ridade com Augusto e tinha parte na sua amizade, Herodes recebeu dele n\u00e3o somente honras, mas grandes benef\u00edcios. Augusto deu-lhe quatrocentos gauleses que serviam de guardas a Cleopatra e entregou-lhe aquela parte da jud\u00e9ia que Ant\u00f4nio entregara a ela, bem como as cidades de Gadara, Hipona e Samaria e, \u00e0 beira-mar, Gaza, Antedom, Jope e a torre de Estrat\u00e3o, o que aumentou em muito o seu reino.<\/p>\n<p>Herodes acompanhou Augusto at\u00e9 Antioquia e, quando voltou a Jerusal\u00e9m, sentiu que o seu casamento, que antes considerava a sua maior felicidade, o tornava agora t\u00e3o infeliz em seu pr\u00f3prio reino quanto era bem-sucedido fora de sua p\u00e1tria. Ele amava t\u00e3o ardentemente Mariana que n\u00e3o se l\u00ea em hist\u00f3ria alguma que outro homem tenha sido mais arrebatado que ele por um amor ileg\u00edtimo a sua pr\u00f3pria mulher. A princesa, n\u00e3o obstante ser extremamente sensata e muito casta, era de mau g\u00eanio e abusava de tal modo da paix\u00e3o que ele sentia por ela que o tratava \u00e0s vezes com desprezo, chegando mesmo a ofensas, sem teimem considera\u00e7\u00e3o o respeito que lhe era devido.<\/p>\n<p>Ele dissimulava, no entanto, e sofria mesmo as censuras que ela fazia a sua m\u00e3e e a sua irm\u00e3 pela baixeza do nascimento delas, causa do \u00f3dio irreconcili\u00e1vel que as levou a usar de tantas acusa\u00e7\u00f5es falsas para arruin\u00e1-la. E assim, os \u00e2nimos acirravam-se cada vez mais, e um ano passou-se desse modo depois que Herodes retornou da visita a Augusto. Mas, por fim, o des\u00edgnio que ele vinha alimentando desde muito tempo em seu esp\u00edrito chegou ao seu termo, pelo motivo que passo a expor.<\/p>\n<p>Um dia, Herodes retirou-se para o seu quarto, a fim de descansar, pelo meio-dia, e mandou chamar Mariana, a quem ele n\u00e3o conseguia deixar de amar com paix\u00e3o. Ela veio. No entanto, por mais inst\u00e2ncias que ele lhe fizesse, ela n\u00e3o quis aproximar-se dele e censurou-o ainda pela morte de seu pai e de seu irm\u00e3o. Essas palavras ofensivas, bem como o desprezo dela, irritaram Herodes de tal modo que ele foi tentado a feri-la. Salom\u00e9, ao saber do que se passara, fez entrar no quarto um criado do pr\u00edncipe. O homem, que ela havia subornado, instru\u00eddo por ela disse que a rainha lhe oferecera uma grande recompensa para levar ao rei certa bebida. Herodes, perturbado por essas palavras, perguntou-lhe que bebida era. O criado respondeu-lhe que a rainha n\u00e3o lhe dera o que colocar dentro da ta\u00e7a, queria somente que a apresentasse. E, como ignorava a for\u00e7a daquela po\u00e7\u00e3o, julgara seu dever advertir sua majestade.<\/p>\n<p>Tal resposta aumentou ainda mais a perturba\u00e7\u00e3o de Herodes. Ent\u00e3o ele mandou torturar um eunuco de Mariana, que ele sabia ser-lhe muito fiel, pois n\u00e3o duvida\u00adva de que ela lhe confiasse tudo. O homem nada confessou, mas deixou escapar dos l\u00e1bios, no meio dos tormentos, que o \u00f3dio de Mariana provinha do que ela soubera por meio de Soeme. Diante dessas palavras, Herodes disse que Soeme, antes t\u00e3o fiel, jamais lhe teria revelado o segredo se n\u00e3o tivesse abusado de Mariana e ao mesmo tempo mandou matar Soeme.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 rainha, quis submet\u00ea-la a julgamento. Reuniu para isso os conselheiros nos quais ele mais confiava e ordenou a Mariana que se defendesse. Acusou-a do falso crime de tentar dar-lhe uma bebida para envenen\u00e1-lo. E, em vez de se manter nos limites da modera\u00e7\u00e3o, como conv\u00e9m a um juiz, falou com tanta veem\u00eancia e f\u00faria que os outros juizes n\u00e3o tiveram dificuldade em lhe conhecer a inten\u00e7\u00e3o, e eles condenaram \u00e0 morte a inocente princesa. No entanto julgaram \u2014 e ele tamb\u00e9m foi da mesma opini\u00e3o \u2014 que n\u00e3o se devia apressar a execu\u00e7\u00e3o, que era prefer\u00edvel aprision\u00e1-la no pal\u00e1cio. Por\u00e9m, Salom\u00e9 e os de seu partido, n\u00e3o podendo tolerar qualquer demora, procuraram por todos os meios mudar essa delibera\u00e7\u00e3o, e uma das mais fortes raz\u00f5es de que-se serviram para persuadir Herodes foi o temor que ele devia ter de que o povo se sublevasse, caso viessem a saber que a rainha ainda estava viva. Assim, levaram-na imediatamente ao supl\u00edcio.<\/p>\n<p>Alexandra, julgando que n\u00e3o seria tratada com mais benignidade que a filha, esqueceu, por vergonhosa mudan\u00e7a, a coragem de que at\u00e9 ent\u00e3o sempre dera provas e mostrou-se t\u00e3o fraca e covarde quanto antes fora altiva. Assim, para insinuar que n\u00e3o tivera parte no crime da filha, tratou-a ultrajosamente na presen\u00e7a de todos. Dizia que ela era m\u00e1, ingrata e indigna do extremo amor que o rei lhe dedicara e sofria o que merecia t\u00e3o grande crime. Falando assim, parecia querer ela mesma lan\u00e7ar-se sobre a filha e arrancar-lhe os cabelos. N\u00e3o houve quem n\u00e3o condenasse essa covarde dissimula\u00e7\u00e3o. Mariana, mais que todos, com o seu sil\u00eancio, tampouco se comoveu com tais inj\u00farias e nem se dignou responder-lhe, mas contentou-se em mostrar no rosto, com a coragem de costume, a vergonha que sentia por tal baixeza. E, sem demonstrar o menor medo, nem ao menos mudando de cor, manifestou at\u00e9 a morte a mesma coragem que havia demonstrado durante toda a sua vida.<\/p>\n<p>Assim terminou a sua exist\u00eancia essa princesa t\u00e3o casta e corajosa, por\u00e9m muito altiva e de natureza muito \u00e1spera. Sobrepujava infinitamente em beleza, em majestade e em gra\u00e7a todas as outras mulheres de sua \u00e9poca, e tantas e t\u00e3o raras qualidades foram a causa de sua infelicidade, pois, vendo o rei seu marido t\u00e3o apaixonado por ela, julgou que nada tinha a temer, perdeu o respeito que lhe devia e n\u00e3o teve receio de confessar o ressentimento que conservava por ter ele mandado matar o seu pai e o seu irm\u00e3o. Semelhante imprud\u00eancia tornou tamb\u00e9m a m\u00e3e e a irm\u00e3 do soberano advers\u00e1rias suas e por fim obrigou ele mesmo a tornar-se tamb\u00e9m seu inimigo.<\/p>\n<p>Por mais violenta que fosse a paix\u00e3o de Herodes por Mariana durante a vida, e o que referimos n\u00f4-lo mostra suficientemente, ela aumentou ap\u00f3s a sua morte. Ele n\u00e3o a amava como os outros maridos amam a suas esposas, mas chegava quase \u00e0 loucura. E, por mais estranha a maneira como ambos viveram, ele n\u00e3o conseguia deixar de am\u00e1-la. Depois que ela j\u00e1 n\u00e3o era deste mundo, parecia-lhe que Deus exigia dele o sangue da mulher. Ele ouvia a todo instante pronunciarem o nome dela. Lamentava-se de maneira indigna da sua condi\u00e7\u00e3o de rei e buscava em v\u00e3o nos banquetes e nos outros divertimentos algum al\u00edvio para o seu sofrer. Chegou o seu penar a tal excesso que ele abandonou o cuidado do reino. E ordenava que fossem chamar Mariana como se ela ainda estivesse viva.<\/p>\n<p>Vivia ele nesse estado jjuando sobreveio uma horr\u00edvel peste, que ceifou n\u00e3o somente grande parte do povo, mas v\u00e1rias pessoas da nobreza. Todos considera\u00adram esse terr\u00edvel mal uma justa vingan\u00e7a de Deus pelo crime cometido na injusta condena\u00e7\u00e3o de Mariana. Esse acr\u00e9scimo de sofrimento acabou por abater com\u00adpletamente Herodes, que se abandonou ao desespero e foi esconder-se no de\u00adserto, sob o pretexto de ir \u00e0 ca\u00e7a. Depois caiu doente, com uma inflama\u00e7\u00e3o e uma dor de cabe\u00e7a t\u00e3o violenta que lhe perturbou o ju\u00edzo. Os rem\u00e9dios s\u00f3 servi\u00adam para aument\u00e1-la, e os m\u00e9dicos, vendo a obstina\u00e7\u00e3o do mal, bem como a do doente, que queria governar-se por si mesmo, sem lhes permitir um tratamento segundo as regras da medicina, foram obrigados a abandon\u00e1-lo \u00e0 sorte de sua enfermidade e quase perderam a esperan\u00e7a de lhe salvar a vida. Ele ent\u00e3o estava em Samaria, que agora se chama Sebaste.<\/p>\n<p>Quando Alexandra, que estava em Jerusal\u00e9m, soube que ele corria t\u00e3o grande perigo, fez todos os esfor\u00e7os poss\u00edveis para se apoderar das duas fortalezas, uma das quais estava na cidade, e outra, perto do Templo. Porque, se conseguisse tom\u00e1-las, seria tamb\u00e9m, de certo modo, dona de todo o pa\u00eds, visto que n\u00e3o se poderia, sem o seu consentimento, oferecer sacrif\u00edcios a Deus, e os judeus s\u00e3o t\u00e3o apegados \u00e0 sua religi\u00e3o que preferem os deveres aos quais ela obriga \u00e0 pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Assim, Alexandra insistiu com os comandantes dessas fortalezas que as entre\u00adgassem a ela e aos filhos de Herodes e Mariana. Disse-lhes que, se ele viesse a faltar, n\u00e3o era justo que elas ca\u00edssem em poder de outra fam\u00edlia e, se ele sarasse, ningu\u00e9m melhor para possu\u00ed-las que os seus pr\u00f3prios parentes. Mas essas raz\u00f5es n\u00e3o os convenceram, tanto porque havia muito tempo eram fi\u00e9is e bastante afei\u00e7oados ao rei, n\u00e3o tendo perdido a esperan\u00e7a de sua sa\u00fade, quanto pelo \u00f3dio que sentiam por Alexandra. Um deles, de nome Aquiabe, que era sobrinho de Herodes, mandou com urg\u00eancia avisar o rei das inten\u00e7\u00f5es de Alexandra, e este ordenou imediatamente que a matassem.<\/p>\n<p>Por fim, o soberano, com grande dificuldade, restabeleceu-se de sua doen\u00e7a. Mas as for\u00e7as refeitas do corpo e do esp\u00edrito tornaram-no t\u00e3o col\u00e9rico e t\u00e3o violento que n\u00e3o havia crueldade a que n\u00e3o fosse levado, pelo menor motivo. N\u00e3o poupou nem mesmo os seus mais \u00edntimos amigos: mandou matar Costobaro, Lis\u00edmaco, Gadias, cognominado Ant\u00edpatro, e Doziteu, pelo motivo que vou dizer agora.<\/p>\n<p>Costobaro era oriundo de uma das mais importantes fam\u00edlias da Idum\u00e9ia, e os seus antepassados haviam sido sacerdotes de Cosas, que era o deus que esses povos adoravam com grande venera\u00e7\u00e3o, antes de Hircano obrig\u00e1-los receber a religi\u00e3o dos judeus. Herodes, logo que foi feito rei, deu a Costobaro o governo da Idum\u00e9ia e de Gaza e o fez desposar Salom\u00e9, sua irm\u00e3, depois de haver matado Jos\u00e9, seu primeiro marido, como dissemos. Quando se viu elevado a tamanha grandeza, a qual jamais ousaria pretender, Costobaro tornou-se t\u00e3o altivo que n\u00e3o quis mais tolerar a submiss\u00e3o a Herodes, e julgava que era vergonhoso aos idumeus reconhec\u00ea-lo por rei, por terem as mesmas leis que os judeus. Assim, mandou dizer a Cle\u00f3patra que, tendo sido a Idum\u00e9ia sempre sujeita aos seus predecessores, ela podia com justi\u00e7a pedir a Ant\u00f4nio que desse a ele essa terra, e por isso estaria pronto a obedecer-lhe. N\u00e3o que ele preferisse estar sob a domina\u00e7\u00e3o de Cle\u00f3patra, mas queria diminuir o poder de Herodes, para mais facilmente tornar-se senhor da Idum\u00e9ia. Ele se comprazia na esperan\u00e7a de obt\u00ea-lo, tanto pelo esplendor de sua fam\u00edlia quanto pelas suas grandes riquezas. Depois de fazer esses projetos, n\u00e3o houve meios baixos ou ignominiosos de que ele n\u00e3o se servisse para ajuntar dinheiro.<\/p>\n<p>Cle\u00f3patra fez todos os esfor\u00e7os poss\u00edveis junto de Ant\u00f4nio, mas inutilmente. Herodes teria logo mandado matar Costobaro, se os rogos de sua m\u00e3e e de sua irm\u00e3 n\u00e3o o tivessem impedido. Contentou-se em n\u00e3o ter mais nenhuma confian\u00e7a nele. Costobaro teve depois uma s\u00e9ria diverg\u00eancia com Salom\u00e9, sua mulher, e ela mandou-lhe o libelo do div\u00f3rcio, contra o costume de nossas leis, que permitem esse ato somente aos maridos e n\u00e3o consentem nem mesmo \u00e0s mulheres repudiadas tornar a casar-se sem a licen\u00e7a deles. Ela, por\u00e9m, fez com a sua pr\u00f3pria autoridade o que n\u00e3o tinha direito de fazer e foi em seguida procurar o rei seu irm\u00e3o. Disse-lhe que o afeto por ele a obrigara a abandonar o marido, pois descobrira que conspirava contra ele, juntamente com Antipatro, Lis\u00edmaco e Doziteu. E, como prova do que dizia, acrescentou que ele retinha havia doze anos os filhos de Babas, a quem havia salvo a vida, o que era verdade.<\/p>\n<p>Essas palavras deixaram Herodes muito surpreendido porque outrora deliberara mat\u00e1-los, como eternos inimigos, mas o tempo o fizera esquecer tudo. A causa desse \u00f3dio contra eles vinha desde quando ele sitiava Jerusal\u00e9m, sob o reinado de Ant\u00edgono. A maior parte do povo queria abrir-lhe as portas, cansados dos males que aqueles cercos os faziam sofrer. Os filhos de Babas, por\u00e9m, que tinham muita autoridade e eram muito fi\u00e9is a Ant\u00edgono, opuseram-se a isso, persuadidos de que era muito mais vantajoso para a na\u00e7\u00e3o ser governada por pr\u00edncipes da fam\u00edlia real que por Herodes. Depois que ele tomou a cidade, deu ordem a Costobaro para vigiar as sa\u00eddas, a fim de impedir a fuga dos que lhe eram contr\u00e1rios. Mas Costobaro, conhecendo o prest\u00edgio dos filhos de Babas entre o povo, julgou muito \u00fatil conserv\u00e1-los, para deles se servir, caso houvesse no futu\u00adro alguma mudan\u00e7a. Assim, deixou-os escapar, mandando-os para as suas terras.<\/p>\n<p>Herodes desconfiara disso, mas Costobaro declarou com tanta firmeza e com juramento n\u00e3o saber que fim haviam eles levado que a suspeita se dissipou de seu esp\u00edrito. Depois, fez tudo para encontr\u00e1-los. Mandou publicar a som de trombetas que daria grande recompensa a quem lhe indicasse onde eles estavam, mas Costobaro nada confessou porque, tendo uma vez negado sab\u00ea-lo, foi obrigado a mant\u00ea-los escondidos, n\u00e3o tanto pelo afeto que lhes dedicava, mas por seu pr\u00f3prio interesse. Logo que Herodes veio a sab\u00ea-lo, por meio de sua irm\u00e3, mandou busc\u00e1-los onde estavam escondidos e mandou matar todos eles, bem como aos que ele julgava culpados do mesmo crime, a fim de que, n\u00e3o ficando nem um sequer da descend\u00eancia de Hircano, ningu\u00e9m mais ousasse resistir \u00e0 sua vontade, por mais injusta que fosse.<\/p>\n<p>Assim, Herodes, com poder absoluto e plena liberdade para fazer o que queria, n\u00e3o teve receio de se afastar cada vez mais das tradi\u00e7\u00f5es de nossos antepassados. Aboliu os nossos antigos costumes, que lhe deveriam ser inviol\u00e1veis, para introduzir outros, trazendo assim uma estranha mudan\u00e7a na disciplina que mantinha o povo no cumprimento do dever. Come\u00e7ou por instituir jogos, lutas e corridas, que se faziam cada cinco anos em honra de Augusto, e mandou construir para esse fim um circo em Jerusal\u00e9m e um grande anfiteatro fora da cidade. Esses dois edif\u00edcios eram soberbos, mas contr\u00e1rios aos nossos costumes, que n\u00e3o nos permitem assistir a semelhantes espet\u00e1culos.<\/p>\n<p>Como ele queria tornar c\u00e9lebres esses jogos, mandou public\u00e1-los n\u00e3o somente nas prov\u00edncias vizinhas, mas tamb\u00e9m nos lugares mais afastados, com a promessa de grandes recompensas para os vencedores. Vieram ent\u00e3o de todas as partes os candidatos \u00e0 luta e \u00e0s corridas, m\u00fasicos tocadores de toda esp\u00e9cie de instrumentos, homens peritos em corridas de carros com uma parelha de cavalos, com duas, tr\u00eas e at\u00e9 quatro. Outros corriam em cavalos muito velozes. Nada se podia acrescentar \u00e0 magnific\u00eancia e aos cuidados que Herodes usava para tornar esses espet\u00e1culos os mais belos e agrad\u00e1veis do mundo.<\/p>\n<p>O circo era rodeado de inscri\u00e7\u00f5es em louvor a Augusto e de trof\u00e9us das na\u00e7\u00f5es que ele tinha vencido. Havia ouro e prata, ricos vestu\u00e1rios e pedras preciosas. Mandou tamb\u00e9m vir de todas as partes grande quantidade de animais ferozes, como le\u00f5es e outros animais, cuja for\u00e7a extraordin\u00e1ria ou alguma qualidade rara suscitava admira\u00e7\u00e3o e curiosidade. Fazia-os lutar uns contra os outros e, \u00e0s vezes, com homens condenados \u00e0 morte. Tais espet\u00e1culos n\u00e3o causavam menos prazer que admira\u00e7\u00e3o aos estrangeiros. Mas os judeus o consideravam uma deturpa\u00e7\u00e3o e uma corrup\u00e7\u00e3o da disciplina de seus antepassados. Nada lhes parecia mais \u00edmpio que expor homens ao furor das feras por um prazer t\u00e3o cruel ou abandonar os santos costumes para abra\u00e7ar os de na\u00e7\u00f5es idolatras. Os trof\u00e9us, que lhes pareciam cobrir figuras de homens, n\u00e3o lhes eram menos insuport\u00e1veis, porque violavam inteiramente as nossas leis.<\/p>\n<p>Herodes, vendo-os com esses sentimentos, julgou n\u00e3o dever usar de viol\u00eancia. Falou-lhes com muita afabilidade, procurando faz\u00ea-los compreender que aquele temor procedia apenas de uma v\u00e3 supersti\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o conseguiu persuadi-los. Convictos de que ele cometia um grav\u00edssimo pecado, declararam que, ainda que tolerassem o resto, n\u00e3o permitiriam jamais em suas cidades imagens ou figuras de homens, porque a sua religi\u00e3o o proibia expressamente. Herodes facilmente concluiu, por essas palavras, que o \u00fanico meio de acalm\u00e1-los era livr\u00e1-los daquele engano. Levou alguns deles ao circo, mostrou-lhes v\u00e1rios trof\u00e9us e perguntou-lhes o que pensavam que eram. Eles responderam que eram figuras de homens. Ent\u00e3o ele mandou tirar todos os ornamentos, restando apenas os cabides sobre os quais estavam pendurados. Todos acharam gra\u00e7a, e o tumulto acalmou-se.<\/p>\n<p>Quase todos vieram a tolerar com facilidade o resto, mas alguns n\u00e3o mudaram os seus sentimentos nem a sua opini\u00e3o. O horror que tinham aos costumes estrangeiros lhes fazia crer que n\u00e3o podiam ser introduzidos sem preju\u00edzo das tradi\u00e7\u00f5es de nossos antepassados e sem causar a ru\u00edna da na\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o consideraram mais Herodes seu rei, e sim um inimigo. E resolveram antes expor-se a qualquer coisa que tolerar t\u00e3o grande mal.<\/p>\n<p>Dez dentre eles, desprezando a gravidade do perigo, esconderam punhais sob as vestes e, fortalecidos em seu des\u00edgnio por um cego, que n\u00e3o podia ter parte na a\u00e7\u00e3o mas quisera expor-se ao risco que eles corriam, foram ao teatro, certos de que o rei n\u00e3o faltaria, pois de nada desconfiava, e eles o atacariam todos de uma vez. Se viessem a falhar, pelo menos matariam muitos dos que o acompanhavam e morreriam com a consola\u00e7\u00e3o de torn\u00e1-lo odioso ao povo por ter violado as leis e de ao mesmo tempo mostrar a outros o caminho para a realiza\u00e7\u00e3o de uma justa empresa. Herodes, por\u00e9m, tinha v\u00e1rios espi\u00f5es, que tudo observavam, e um deles descobriu a trama. Ele acreditou nela facilmente, porque sabia do \u00f3dio que lhe votavam e do que este \u00e9 capaz. Ent\u00e3o retirou-se ao pal\u00e1cio e mandou prender os conjurados, que, n\u00e3o se podendo salvar, se entregaram sem resist\u00eancia.<\/p>\n<p>A coragem deles tornou-lhes a morte gloriosa, pois n\u00e3o demonstraram o menor temor nem negaram o seu intento. Com rosto firme e tranq\u00fcilo, mostraram os punhais que haviam preparado para executar o crime e declararam que a piedade e o bem p\u00fablico os levara a empreend\u00ea-lo, para conservar as leis de seus antepassados, pois n\u00e3o h\u00e1 homem de bem que n\u00e3o deva preferi-las \u00e0 pr\u00f3pria vida. Depois de terem assim falado, morreram com a mesma firmeza, em meio aos tormentos que Herodes os fez sofrer. O \u00f3dio que o povo ent\u00e3o concebeu contra o delator foi t\u00e3o intenso que n\u00e3o se contentaram em mat\u00e1-lo: picaram-no em peda\u00e7os e o deram a comer aos c\u00e3es, sem que nenhum judeu fosse acus\u00e1-los. Herodes, ap\u00f3s cuidadosa indaga\u00e7\u00e3o, descobriu os autores por meio de mulheres \u2014 a viol\u00eancia dos tormentos obrigou-as a confessar.<\/p>\n<p>Herodes mandou mat\u00e1-lo*s, com suas fam\u00edlias, mas vendo que o povo se obstinava cada vez mais em defender os seus costumes e as suas leis e que aquilo os levaria a uma revolta se ele n\u00e3o empregasse os meios mais violentos para reprimi-los, decidiu faz\u00ea-lo. Assim, al\u00e9m das duas fortalezas que havia em Jerusal\u00e9m, uma no pal\u00e1cio real, onde ele morava, e outra de nome Ant\u00f4nia, que estava perto do Templo, ele mandou fortificar Samaria porque, estando longe de Jerusal\u00e9m apenas um dia, podia impedir as rebeli\u00f5es tanto na cidade quanto no campo. Fortificou tamb\u00e9m de tal modo a torre de Estrat\u00e3o, a que chamou de Cesar\u00e9ia, que ela parecia dominar todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Construiu um castelo no lugar chamado O Campo, onde colocou uma guar-ni\u00e7\u00e3o de cavalaria, cujos soldados eram indicados por sorte. Construiu outro em Gabara da Galil\u00e9ia e outro, de nome Estmonita, na Per\u00e9ia. Essas fortalezas, dis\u00adpostas nos lugares mais convenientes para os fins a que ele as destinava e nas quais colocou fortes guarni\u00e7\u00f5es, tiraram ao povo, t\u00e3o inclinado \u00e0 revolta, todos os meios de se sublevar, porque ao menor sinal de agita\u00e7\u00e3o aqueles que estavam encarregados de vigiar a impediam logo ou a sufocavam apenas iniciada.<\/p>\n<p>Como ele tinha inten\u00e7\u00e3o de reconstruir Samaria, cuja posi\u00e7\u00e3o a fazia vantajosa e forte, porque estava sobre uma colina, mandou l\u00e1 construir um Templo, colo\u00adcou um grande corpo de tropas estrangeiras e das prov\u00edncias vizinhas e mudou-lhe o nome para Sebaste. Dividiu entre os habitantes as terras da vizinhan\u00e7a, as quais eram muito f\u00e9rteis, a fim de logo deix\u00e1-los bem \u00e0 vontade para que o lugar se povoasse rapidamente. Rodeou-a de fortes muralhas, e assim aumentou e lhe fortificou o per\u00edmetro, que era de vinte est\u00e1dios, tornando-a compar\u00e1vel \u00e0s maiores cidades. Fez no meio dela uma espa\u00e7osa pra\u00e7a, que media um est\u00e1dio e meio, e construiu um Templo soberbo. Trabalhou continuamente e de todos os modos para tornar c\u00e9lebre a cidade, porque ele considerava a for\u00e7a necess\u00e1ria \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 beleza, um monumento \u00e0 sua grandeza e magnific\u00eancia, que conservaria a mem\u00f3ria de seu nome atrav\u00e9s dos s\u00e9culos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Herodes, na volta ao seu reino, em vez de desfrutar a do\u00e7ura da paz ou um descanso tranq\u00fcilo, encontrou apenas perturba\u00e7\u00e3o em sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, pelo des\u00adcontentamento de Mariana e de Alexandra. 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