{"id":163,"date":"2015-04-02T23:01:54","date_gmt":"2015-04-02T23:01:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=163"},"modified":"2015-04-02T23:01:54","modified_gmt":"2015-04-02T23:01:54","slug":"capitulo-14-davi-derrota-os-filisteus-sua-fama-aumenta-a-inveja-de-saul-este-atira-lhe-um-dardo-para-mata-lo-mical-mulher-de-davi-ajuda-o-a-escapar-davi-vai-ter-com-samuel-saul-persegue-davi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-14-davi-derrota-os-filisteus-sua-fama-aumenta-a-inveja-de-saul-este-atira-lhe-um-dardo-para-mata-lo-mical-mulher-de-davi-ajuda-o-a-escapar-davi-vai-ter-com-samuel-saul-persegue-davi\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 14 &#8211; Davi derrota os filisteus. Sua fama aumenta a inveja de Saul. Este atira-lhe um dardo para mat\u00e1-lo. Mical, mulher de Davi, ajuda-o a escapar. Davi vai ter com Samuel. Saul persegue Davi para mat\u00e1-lo e perde inteiramente o ju\u00edzo durante vinte e quatro horas. J\u00f4natas contrai mais estreita amizade com Davi e fala em seu favor a Saul, que tenta matar o filho. Ele avisa Davi, que foge para Gate, cidade dos filisteus, e recebe de passagem aux\u00edlio de Abimeleque, sumo sacerdote. Reconhecido em Gate, Davi finge-se de louco e retira-se para a tribo de Jud\u00e1, onde re\u00fane quatrocentos homens. Vai ter com o rei dos moabitas e volta depois \u00e0quela tribo. Saul manda matar Abimeleque e toda a sua descend\u00eancia sacerdotal, da qual somente Abiatar se salva. Saul tenta diversas vezes e inutilmente apanhar e matar Davi, o qual tem oportunidade de matar Saul numa caverna e depois no pr\u00f3prio acampamento, mas se contenta em lhe dar provas de que poderia t\u00ea-lo feito. Morte de Samuel. Raz\u00e3o por que Davi se casa comAbigail, vi\u00fava de Nabal. Davi se estabelece junto de Aquis, rei de Gate,filisteu que o induz a servir na guerra contra os israelitas."},"content":{"rendered":"<p>Nesse mesmo tempo, os filisteus recome\u00e7aram a guerra, e Davi foi man\u00addado com o ex\u00e9rcito contra eles. Venceu-os, fez grande mortandade entre eles e voltou vitorioso a Saul. Mas n\u00e3o foi recebido como esperava nem como merecia o seu grande feito, porque a sua reputa\u00e7\u00e3o era suspeita ao rei, e este, em vez de se alegrar com a vit\u00f3ria, enxergava apenas perigos e o tolerava com tristeza. Um dia, quando aqueles acessos com que o dem\u00f4nio o atormentava se mostravam mais violentos, ele ordenou a Davi que entoasse um c\u00e2ntico e tocasse harpa. Ele obedeceu, mas Saul, que tinha nas m\u00e3os um dardo, atirou-o contra ele com toda a for\u00e7a, e t\u00ea-lo-ia matado se ele n\u00e3o se desviasse do golpe. Fugiu ent\u00e3o Davi para a sua casa e de l\u00e1 n\u00e3o saiu mais o resto do dia.<\/p>\n<p>Chegando a noite, Saul enviou guardas para cercar a casa, a fim de que ele n\u00e3o pudesse escapar, porque desejava julgar Davi e conden\u00e1-lo \u00e0 morte. Mical, mulher de Davi, soube de tudo, e, como o seu amor por um marido de tal m\u00e9rito t\u00ea-la-ia feito preferir a morte \u00e0 dor de perd\u00ea-lo, correu logo a avis\u00e1-lo: &#8220;Se o sol ao despertar vos encontrar ainda aqui, n\u00e3o mais vos tornarei a ver com vida. Fugi, enquanto a noite vo-lo permite. Rogo a Deus de todo o meu cora\u00e7\u00e3o que a fa\u00e7a ainda mais longa que de ordin\u00e1rio, para que vos seja mais favor\u00e1vel, pois o rei resolveu mandar matar-vos e a n\u00e3o diferir mais esse cruel intento&#8221;.<\/p>\n<p>Depois de assim falar, ela amarrou uma corda \u00e0 janela e o desceu para fora. Arrumou ent\u00e3o o seu leito como para um enfermo e p\u00f4s deitada debaixo das cobertas uma est\u00e1tua. Colocou-lhe na cabe\u00e7a um tecido de p\u00ealos de cabra e o cobriu com um manto. Ao despontar do dia, Saul mandou os homens prende\u00adrem Davi. Mical disse-lhe que ele estivera doente durante toda a noite. Assim, eles n\u00e3o duvidaram de que Davi estivesse enfermo naquele leito. Foram diz\u00ea-lo ao rei, e este ordenou-lhes que o trouxessem de qualquer modo, para o matar. Voltaram imediatamente, levantaram as cobertas e viram que a princesa os havia enganado. Saul fez graves censuras \u00e0 filha por ter salvo um inimigo. Ela descul\u00adpou-se, dizendo que ele amea\u00e7ara mat\u00e1-la se deixasse de ajud\u00e1-lo em tal contin\u00adg\u00eancia, e assim fora obrigada a faz\u00ea-lo. N\u00e3o duvidava, por\u00e9m, de que, tendo a honra de ser sua filha, o amor de seu pai por ela n\u00e3o era mais forte que o seu \u00f3dio por Davi. Saul, tocado por essas palavras, perdoou-a.<\/p>\n<p>Davi, tendo conseguido salvar-se, foi procurar o profeta Samuel em Rama. Contou-lhe como Saul tentava sempre tirar-lhe a vida e que por bem pouco quase o matara atirando-lhe um dardo. Disse-lhe que, embora nunca tivesse feito algo que desagradasse a Saul, mas, ao contr\u00e1rio, com o aux\u00edlio cont\u00ednuo de Deus, sempre o servira com muito proveito em todas as suas guerras, o bastante para conquistar-lhe a estima, conseguira apenas granjear-lhe o \u00f3dio e a inveja. Samuel, aborrecido pela injusti\u00e7as de Saul, saiu de Rama e levou Davi a Gibe\u00e1, onde ele ficou algum tempo em sua companhia.<\/p>\n<p>Logo que Saul o soube, enviou soldados para traz\u00ea-lo prisioneiro. Encontraram Samuel no meio de um grupo de profetas e, cheios do mesmo esp\u00edrito, come\u00e7a\u00adram a profetizar com eles. Saul mandou ainda outros com a mesma ordem, e aconteceu-lhes a mesma coisa. Mandou ainda outros, e eles tamb\u00e9m profetiza\u00adram. Isso o deixou t\u00e3o encolerizado que resolveu busc\u00e1-lo em pessoa, mas ainda n\u00e3o se achava pr\u00f3ximo de Samuel o suficiente para ser percebido quando o profe\u00adta fez com que ele tamb\u00e9m profetizasse. E, estando j\u00e1 perto de Samuel, perdeu completamente o ju\u00edzo, despiu-se diante dele e de Davi e passou assim o resto do dia e toda a noite.<\/p>\n<p><em>1 Samuel 20. <\/em>Davi foi em seguida procurar J\u00f4natas para queixar-se de que, apesar de nunca ter dado ao rei motivo para insatisfa\u00e7\u00e3o, este continuava a tentar por todos os meios tirar-lhe a vida. J\u00f4natas rogou-lhe que tirasse aquela id\u00e9ia da cabe\u00e7a e n\u00e3o prestasse f\u00e9 aos que faziam semelhantes declara\u00e7\u00f5es, mas confiasse em sua palavra: o rei, seu pai, n\u00e3o tinha aquela inten\u00e7\u00e3o. Se a tivesse, t\u00ea-la-ia comunica\u00addo a ele, J\u00f4natas, pois nada fazia sem falar com ele e assim n\u00e3o deixaria de avis\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Davi, no entanto, afirmou com juramento que aquilo que se dizia era verda\u00adde. Rogou-lhe que o n\u00e3o pusesse em d\u00favida e pensasse antes em salvar-lhe a vida, acreditando no que ele lhe dizia em vez de esperar que a sua morte lhe causasse tristeza e remorso por n\u00e3o ter nele acreditado. Acrescentou que ele se devia admirar de que o rei, seu pai, conhecedor da estreita amizade entre am\u00adbos, nada lhe houvesse dito de suas inten\u00e7\u00f5es. Essas palavras persuadiram J\u00f4natas e, muito triste, pediu a Davi que lhe dissesse em que poderia ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Respondeu-lhe Davi: &#8220;Na certeza de que nada h\u00e1 que eu n\u00e3o possa esperar de vossa amizade, eis o que me vem \u00e0 mente. Como amanh\u00e3 \u00e9 a primeira lua e o rei oferece nesse dia um grande banquete, ao qual eu costumava estar presente, es-perar-vos-ei fora da cidade, se vos aprouver, sem que ningu\u00e9m o saiba. Quando o rei perguntar onde eu estou, far-me-eis o favor de responder-lhe que fui a Bel\u00e9m assistir \u00e0 festa de minha tribo, depois de vos ter pedido licen\u00e7a. Se o rei disser, como costumam fazer as boas pessoas: &#8216;Desejo-lhe boa viagem&#8217;, ser\u00e1 sinal de que n\u00e3o nutre m\u00e1 vontade contra mim. Mas se ele responder de outro modo, ser\u00e1 prova do contr\u00e1rio, e far-me-eis o favor de me avisar. Esse favor, na infelicidade em que me encontro, ser\u00e1 digno de vossa generosidade e da amizade que t\u00e3o solene\u00admente me prometestes. Se achardes que n\u00e3o a mere\u00e7o e julgais que ofendi o rei, n\u00e3o espereis que ele me fa\u00e7a morrer: antecipai-vos, tirando-me a vida&#8221;.<\/p>\n<p>Essas \u00faltimas palavras partiram o cora\u00e7\u00e3o de J\u00f4natas. Ele prometeu a Davi fazer o poss\u00edvel para penetrar os sentimentos do rei, seu pai, e relatar-lhe fiel\u00admente tudo o que pudesse averiguar. Fez ainda mais. Para dar-lhe maior garan\u00adtia, levou-o para fora, elevou os olhos para o c\u00e9u e confirmou a sua promessa com juramento, proferindo estas palavras: &#8220;Tomo como testemunha da alian\u00e7a que fa\u00e7o convosco o Deus eterno, que tudo v\u00ea, que est\u00e1 presente em toda parte e que conhece os meus pensamentos antes mesmo que a minha l\u00edngua os possa exprimir, de que n\u00e3o deixarei de sondar o esp\u00edrito do rei at\u00e9 saber o que ele tem na alma a vosso respeito e vos direi imediatamente tudo o que souber, de bem ou de mal. Deus sabe com quanta afei\u00e7\u00e3o lhe rogo que continue a vos ajudar, como fez at\u00e9 agora, e com que confian\u00e7a acredito que Ele jamais vos abandona\u00adr\u00e1, ainda que meu pai e eu nos torn\u00e1ssemos vossos inimigos. Lembrai-vos, de vossa parte, deste protesto que vos fa\u00e7o e, se me sobreviverdes, mostrai o vosso reconhecimento, pelo cuidado que tereis de meus filhos&#8221;.<\/p>\n<p>Depois desse juramento, J\u00f4natas disse a Davi que o esperasse no campo des\u00adtinado aos exerc\u00edcios e que n\u00e3o deixaria de ir l\u00e1, acompanhado somente por um pajem logo que tivesse conhecido os sentimentos do rei, seu pai. L\u00e1 chegando, atiraria tr\u00eas flechas contra um alvo. Se os sentimentos do rei lhe fossem favor\u00e1\u00adveis, diria ao pajem que fosse buscar as flechas, mas se lhe fossem contr\u00e1rios n\u00e3o daria essa ordem. De qualquer modo, n\u00e3o importando como fossem as coisas, faria o poss\u00edvel para impedir que algum mal lhe acontecesse. Rogava-lhe apenas que se lembrasse, em sua boa sorte, da amizade que ele, J\u00f4natas, lhe demonstra\u00adva e que tivesse afeto pelos seus filhos.<\/p>\n<p>Como Davi n\u00e3o podia duvidar das promessas de J\u00f4natas, compareceu ao lugar indicado. No dia seguinte, que era lua nova, o rei, depois de se purificar, segundo o costume, p\u00f4s-se \u00e0 mesa para cear. J\u00f4natas sentou-se \u00e0 sua direita, e Abner, gene\u00adral do ex\u00e9rcito, \u00e0 esquerda. Saul, percebendo vazio o lugar de Davi, julgou que ele n\u00e3o se havia purificado e nada disse. No dia seguinte, por\u00e9m, n\u00e3o o vendo outra vez, perguntou a J\u00f4natas porque ele n\u00e3o estivera presente a um banquete t\u00e3o solene naqueles dois dias. J\u00f4natas respondeu-lhe que ele fora a Bel\u00e9m assistir \u00e0 festa de sua tribo, depois de lhe ter pedido licen\u00e7a, e que ainda o convidara a ir. E acrescentou: &#8220;Se vos aprouver, irei tamb\u00e9m, pois bem sabeis o quanto o estimo&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00f4natas ent\u00e3o percebeu at\u00e9 que ponto chegava o \u00f3dio do pai contra Davi. Pois Saul, n\u00e3o podendo mais dissimul\u00e1-lo, ergueu-se em c\u00f3lera contra ele, acusando-o de se ter tornado seu inimigo para ser amigo de Davi e perguntando-lhe se n\u00e3o tinha vergonha de abandonar assim o pr\u00f3prio pai para conspirar com o homem que lhe devia ser o mais odioso ou de n\u00e3o compreender que enquanto Davi esti\u00advesse vivo ningu\u00e9m poderia reinar em seguran\u00e7a. Depois de assim falar, ordenou a J\u00f4natas que o buscasse a fim de que sofresse o castigo que merecia. Perguntando ent\u00e3o o generoso pr\u00edncipe qual crime cometera Davi, para merecer a morte, o furor de Saul n\u00e3o se conteve mais nos limites das simples recrimina\u00e7\u00f5es: passou \u00e0s inj\u00farias e das inj\u00farias \u00e0s a\u00e7\u00f5es. Tomou um dardo para matar o filho, e teria come\u00adtido t\u00e3o horr\u00edvel crime se os que estavam presentes n\u00e3o o houvessem impedido.<\/p>\n<p>Assim, J\u00f4natas n\u00e3o teve mais d\u00favida acerca do que Davi lhe dissera sobre o \u00f3dio mortal de Saul, principalmente depois que a amizade deles tamb\u00e9m quase lhe custara a vida. Saiu do banquete sem comer, passou toda a noite em grande sofrimento e ansiedade por ter sabido daquele modo, correndo risco de vida, em qu\u00e3o grave perigo vivia o seu amigo. Logo ao alvorecer, sob o pretexto de dar-se aos exerc\u00edcios, dirigiu-se ao lugar onde Davi o esperava. Atirou tr\u00eas flechas e enviou o pajem sem lhe ordenar que as recolhesse, a fim de poder falar com Davi a s\u00f3s. Davi lan\u00e7ou-se-lhe aos p\u00e9s e confessou-se devedor da pr\u00f3pria vida. J\u00f4natas ergueu-o e o beijou. Ficaram depois abra\u00e7ados por muito tempo, deplorando a infelicidade daquela separa\u00e7\u00e3o, que lhes seria mais dolorosa que a pr\u00f3pria mor\u00adte, e n\u00e3o se podiam afastar um do outro. Por fim, separaram-se, embora com enorme desgosto e tristeza, n\u00e3o por\u00e9m sem renovar ainda uma vez, com jura\u00admento, os protestos de sua inviol\u00e1vel amizade.<\/p>\n<p><em>1 Samuel 21. <\/em>Davi, para evitar a persegui\u00e7\u00e3o de Saul, foi a Nobe falar com o sumo sacerdote Aimeleque. Este, admirando-se de o ver sozinho, per\u00adguntou-lhe o motivo. Davi respondeu-lhe que iria executar uma ordem do rei para a qual n\u00e3o precisava de ningu\u00e9m e que ordenara aos seus homens que viessem encontr\u00e1-lo num lugar determinado. Assim, pediu a Aimeleque tudo o que necessitava para aquela pequena viagem e algumas armas. Aimeleque sa\u00adtisfez a sua vontade. Quanto \u00e0s armas, disse-lhe que n\u00e3o as tinha, exceto a espada de Golias, que o pr\u00f3prio Davi consagrara a Deus. Ele a ofereceu, e Davi aceitou-a.<\/p>\n<p>Um certo Doegue, por\u00e9m, s\u00edrio de nascimento que cuidava das mulas de Saul, estava por acaso presente. Dali Davi foi a Gate, uma cidade dos filisteus, onde o rei Aquis tinha a sua corte. Mas foi reconhecido, e comunicaram imedia\u00adtamente ao soberano que aquele hebreu, de nome Davi, que havia matado tan\u00adtos filisteus, estava na cidade. Davi veio a sab\u00ea-lo e, vendo-se em t\u00e3o grave peri\u00adgo, pensou em fingir-se de louco para escapar. Ele fingiu t\u00e3o bem que Aquis se encolerizou com os que o levaram, ordenando que lhe dessem a liberdade.<\/p>\n<p>1 <em>Samuel 22. <\/em>Depois de conseguir escapar usando desse expediente, Davi foi para a tribo de Jud\u00e1, onde se escondeu numa caverna perto da cidade de Adul\u00e3o, avisando disso os seus irm\u00e3os. Eles vieram v\u00ea-lo com todos os parentes, e v\u00e1rios outros reuniram-se tamb\u00e9m a ele, ou por causa do mau estado de seus neg\u00f3cios ou pelo medo que tinham de Saul. Elevou-se ent\u00e3o o seu n\u00famero a quatrocentos, e Davi desde ent\u00e3o nada mais temeu. Foi ter com o rei dos moabitas e rogou-lhe que consentisse que ele e todos os que o acompanhavam ficassem em seu pa\u00eds at\u00e9 que a m\u00e1 sorte passasse. O soberano consentiu-o e tratou-o muito bem, assim como a todos os seus soldados, durante o tempo em que ele permaneceu naquelas terras.<\/p>\n<p>Ele s\u00f3 saiu de l\u00e1 por ordem do profeta Samuel, que lhe ordenou deixar o deserto para voltar \u00e0 sua tribo. Davi ent\u00e3o ficou na cidade de Sarim. Saul veio a sab\u00ea-lo e tamb\u00e9m que ele tinha consigo um grande n\u00famero de homens arma\u00addos. Ficou por isso muito perturbado, pois sabia que o valor e o proceder de Davi tornavam este capaz de tudo. Com tal apreens\u00e3o, reuniu no pal\u00e1cio da cidade de Gibe\u00e1, que est\u00e1 situada sobre uma colina de nome Arnom, todos os seus amigos e toda a sua tribo e do trono, acompanhado dos guardas e oficiais de sua casa, falou-lhes: &#8220;N\u00e3o podendo crer que esquec\u00easseis os benef\u00edcios com que aumentei a felicidade a que eu mesmo vos elevei, quisera saber se esperais receb\u00ea-los mai\u00adores da parte de Davi, pois bem conhe\u00e7o o afeto que lhe dedicais, o qual o meu pr\u00f3prio filho vos inspirou. Sei que J\u00f4natas e ele se uniram, sem o meu consenti\u00admento, por uma estreita alian\u00e7a, que confirmaram com juramento, e que J\u00f4natas auxilia Davi contra mim com todas as suas posses. V\u00f3s ainda n\u00e3o vos deixastes influenciar por isso, mas esperais tranq\u00fcilamente pelo resultado&#8221;.<\/p>\n<p>Depois das palavras do rei, todos ficaram em sil\u00eancio. Doegue ent\u00e3o que\u00adbrou-o, dizendo: &#8220;Majestade, eu presenciei Davi procurar o sumo sacerdote Aimeleque em Nobe, que lhe predisse o que devia acontecer, deu-lhe a espada de Golias e ajudou-o em tudo o que ele necessitava para continuar a viagem&#8221;. Saul mandou chamar imediatamente Aimeleque e todos os seus parentes e disse-lhe: &#8220;Que motivos de queixa tendes contra mim, para receberdes t\u00e3o bem a Davi, embora ele seja meu inimigo e conspire contra o meu governo, a ponto de lhe fornecerdes armas e predizerdes o que lhe dever\u00e1 acontecer? Acaso ignorais que ele est\u00e1 fugitivo por causa do \u00f3dio que me tem e \u00e0 casa real?&#8221;<\/p>\n<p>Aimeleque n\u00e3o negou ter prestado a Davi o aux\u00edlio de que o acusavam. Mas, para mostrar que n\u00e3o fora tanto em considera\u00e7\u00e3o a ele quanto ao rei, respondeu: &#8220;Eu o recebi, majestade, n\u00e3o como vosso inimigo, mas como um de vossos fi\u00e9is servidores, como um dos principais oficiais do vosso ex\u00e9rcito e como tendo a honra de ser vosso genro. Poderia eu imaginar que um homem que vos \u00e9 deve\u00addor de tantos favores pudesse ser vosso inimigo em vez de algu\u00e9m dedicado ao vosso servi\u00e7o? Quanto ao que ele me consultou sobre a vontade de Deus e ao que lhe respondi, procedi tamb\u00e9m do mesmo modo. Sobre o que lhe dei para continuar a viagem, ele me disse que vossa majestade o enviava em miss\u00e3o mui\u00adto importante. Assim, julguei que, recusando-o, ofenderia vossa majestade. En\u00adfim, por pior que pudesse ser o des\u00edgnio de Davi, vossa majestade n\u00e3o se deve persuadir de que eu tenha querido ajud\u00e1-lo em preju\u00edzo vosso&#8221;.<\/p>\n<p>Saul, julgando que Aimeleque falava daquele modo apenas por medo, n\u00e3o prestou f\u00e9 alguma \u00e0s suas justificativas e ordenou que os guardas o matassem, bem como a todos os seus parentes. Como eles recusassem cometer tal sacril\u00e9\u00adgio, porque a lei de Deus n\u00e3o permitia tal obedi\u00eancia, o rei deu esse encargo \u00e0quele miser\u00e1vel Doegue. Este, juntamente com alguns celerados semelhantes a ele, massacrou Aimeleque e todos os de sua fam\u00edlia, e o n\u00famero total foi de trezentas e oitenta e cinco pessoas. Porque o horr\u00edvel furor de Saul ainda n\u00e3o estava satisfeito. E enviou esses mesmos \u00edmpios a Nobe, que era a moradia dos sumos sacerdotes e dos outros ministros da lei de Deus, onde mataram todos os que encontraram, sem poupar nem mesmo as mulheres e as crian\u00e7as, e puseram fogo \u00e0 cidade. Abiatar, um dos filhos de Aimeleque, foi o \u00fanico a escapar de t\u00e3o terr\u00edvel crueldade. Essa infame matan\u00e7a realizou o que Deus revelara ao sumo sacerdote Eli, isto \u00e9, que a sua posteridade seria destru\u00edda por causa de seus dois filhos.<\/p>\n<p>Essa detest\u00e1vel a\u00e7\u00e3o de Saul, que pela mais horr\u00edvel das impiedades n\u00e3o re\u00adceou derramar o sangue de toda a casta sacerdotal, sem mesmo poupar os ve\u00adlhos e as crian\u00e7as, nem temeu reduzir a cinzas uma cidade que o pr\u00f3prio Deus escolhera para ser a moradia de seus sacerdotes e profetas, demonstra at\u00e9 onde pode chegar a corrup\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano. Enquanto a mediocridade de sua condi\u00e7\u00e3o os impede de fazer o mal a que a sua inclina\u00e7\u00e3o os leva, parecem mansos e moderados, mostram amor pela justi\u00e7a e pela piedade e est\u00e3o conven\u00adcidos de que Deus, que est\u00e1 presente em toda parte, v\u00ea todas as suas a\u00e7\u00f5es e penetra todos os seus pensamentos. Mas quando se v\u00eaem elevados pela autori\u00addade e poder, mostram que n\u00e3o tinham no cora\u00e7\u00e3o aqueles sentimentos e, tal como os atores, que depois de trocar as vestes apresentam-se no palco para representar um papel qualquer ou outro personagem, eles aparecem em seu natural. Tornam-se audaciosos e insolentes, desprezando a Deus e fazendo pou\u00adco caso dos homens.<\/p>\n<p>Dessa forma, embora a grandeza de sua posi\u00e7\u00e3o, que exp\u00f5e at\u00e9 as menores de suas a\u00e7\u00f5es \u00e0 vista de todos, os devesse fazer agir de maneira irrepreens\u00edvel, eles julgam que o pr\u00f3prio Deus mant\u00e9m os olhos fechados ou os teme, e pas\u00adsam a desejar que Ele aprove e que os homens achem justo tudo que o seu temor, o seu \u00f3dio e a sua imprud\u00eancia lhes inspiram, sem preocupa\u00e7\u00e3o com as conseq\u00fc\u00eancias. De modo que, depois recompensar com muitas honras os gran\u00addes servi\u00e7os, n\u00e3o se contentam em privar delas, por meio de falsas den\u00fancias e cal\u00fanias, aqueles que os prestaram e que as tinham t\u00e3o justamente merecido. Tiram-lhes at\u00e9 mesmo a vida. E agem assim n\u00e3o no uso leg\u00edtimo de seu poder, como na puni\u00e7\u00e3o dos culpados, mas com a\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a e de crueldade, oprimindo inocentes, os quais, sendo-lhes inferiores, n\u00e3o se podem livrar de suas viol\u00eancias.<\/p>\n<p>Saul, como acabamos de ver, \u00e9 disso um n\u00edtido exemplo. Pois, pode haver algo mais estranho que, ap\u00f3s o governo aristocr\u00e1tico e o dos juizes, ele, o primei\u00adro a ser feito rei sobre todo o povo de Deus, tenha, por uma simples suspeita, matado Aimeleque e mais de trezentos sacerdotes e profetas, queimado a cidade deles e os sepultado nas ru\u00ednas, sem se incomodar que, n\u00e3o restando mais ne\u00adnhum ministro da vontade de Deus, o Templo ficasse inteiramente abandonado? Ou que o seu furor o tenha levado n\u00e3o somente a exterminar essas pessoas cons\u00adtitu\u00eddas para prestar a Deus o culto supremo que lhe \u00e9 devido, mas tamb\u00e9m a destruir at\u00e9 os alicerces o lugar que Ele lhes dera como moradia?<\/p>\n<p>Abiatar, o \u00fanico sobrevivente da mortandade, foi procurar Davi e contou-lhe como as coisas se haviam passado. Este n\u00e3o ficou admirado, pois quando foi falar com Aimeleque percebeu que Doegue estava presente e bem imaginou que ele n\u00e3o perderia ocasi\u00e3o para caluniar o sumo sacerdote. Ficou sensivelmente como\u00advido por ter dado motivo a isso e rogou a Abiatar que ficasse com ele, pois em outro lugar n\u00e3o estaria em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>1 <em>Samuel 23. <\/em>Soube Davi, ao mesmo tempo, que os filisteus haviam entrado no territ\u00f3rio de Queila e feito grande destrui\u00e7\u00e3o. Resolveu atac\u00e1-los, mas antes consultou Samuel para saber se era do agrado de Deus. O profeta garantiu que Ele daria a vit\u00f3ria a Davi, que os atacou imediatamente. Ele fez uma grande matan\u00e7a, apoderou-se de ricos despojos e entrou em Queila para proteger os habitantes at\u00e9 que trouxessem o trigo para a cidade. Como t\u00e3o grande feito n\u00e3o podia permanecer oculto e a not\u00edcia se espalhasse por toda parte, ela chegou at\u00e9 Saul. Ele sentiu grande alegria por saber onde Davi se havia estabelecido, julgan\u00addo ser aquilo um sinal de que Deus queria entreg\u00e1-lo em suas m\u00e3os. Ordenou ent\u00e3o que alguns soldados fossem cerc\u00e1-lo, com ordem de n\u00e3o se levantar o cerco antes de se apoderarem dele e mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Deus, no entanto, revelou a Davi que ele estaria perdido se n\u00e3o se retirasse imediatamente, porque os habitantes de Queila o entregariam nas m\u00e3os do rei, a fim de terem paz com ele. Assim, partiu com os seus seiscentos homens para o deserto, at\u00e9 uma colina de nome Haquila, e Saul viu frustradas as suas esperan\u00e7as. Do deserto, Davi passou ao territ\u00f3rio de Zife, a um lugar de nome Horesa. j\u00f4natas foi at\u00e9 l\u00e1 encontrar-se com ele, para abra\u00e7\u00e1-lo e para conversarem. Exortou-o a esperar para o futuro, n\u00e3o obstante a infelicidade presente. Assegurou que Davi ainda reinaria sobre todo o povo e que n\u00e3o era de admirar que para chegar a t\u00e3o alta posi\u00e7\u00e3o fosse mister suportar t\u00e3o duros sofrimentos. Renovaram depois, com juramento, os protestos de amizade e tomaram a Deus como testemunha. Fizeram impreca\u00e7\u00f5es contra aquele que a eles faltasse, e J\u00f4natas regressou, depois de ter dado a Davi essa consola\u00e7\u00e3o naquele momento de infelicidade.<\/p>\n<p>Os habitantes de Zife, para agradar a Saul, avisaram-no de que Davi estava perto da cidade e asseguraram que fariam o poss\u00edvel para entreg\u00e1-lo em suas m\u00e3os, o que lhes seria muito f\u00e1cil de conseguir se o rei mandasse fechar algumas passagens por onde ele poderia escapar e avan\u00e7asse com as suas tropas. Saul louvou-lhes a fidelidade, manifestando o seu agradecimento por aquele servi\u00e7o e prometendo retribu\u00ed-lo. Mandou-lhes em seguida muitos soldados para procurar Davi nos lugares mais ocultos do deserto, com a garantia de que ele mesmo, o rei, os seguiria bem depressa. Os zifenianos serviram de guia a essas tropas e tudo fizeram, no que dependia deles, para agradar a Saul.<\/p>\n<p>Assim, esses homens mal\u00e9ficos, que deveriam se conservar em sil\u00eancio, para sal\u00advar um homem que era n\u00e3o apenas inocente, mas muito virtuoso, fizeram por inte\u00adresse e por bajula\u00e7\u00e3o tudo o que puderam para entreg\u00e1-lo ao inimigo e \u00e0 morte. Mas Deus n\u00e3o permitiu um \u00eaxito correspondente a essa m\u00e1 vontade. Davi, alertado d\u00ea que o rei se aproximava, abandonou os lugares para os quais se havia retirado e instalou-se num grande rochedo que est\u00e1 no deserto de Jesimom. Saul perseguiu-o, chegou ao outro lado da rocha, cercou-o por todos os lados e t\u00ea-lo-ia apanhado, n\u00e3o fora o aviso de que os filisteus haviam entrado no pa\u00eds. Ele julgou mais conveniente repelir os inimigos p\u00fablicos, t\u00e3o tem\u00edveis, a deixar-lhes o reino como presa por causa da obstina\u00e7\u00e3o em perseguir um inimigo particular. Davi salvou-se dessa maneira de um perigo que parecia inevit\u00e1vel e refugiou-se no estreito de En-Gedi.<\/p>\n<p><em>1 Samuel 24. <\/em>Saul soube disso e, mal repeliu os filisteus, tomou tr\u00eas mil homens escolhidos de todas as suas tropas e marchou para esse lugar. Impelido por uma necessidade, o rei entrou sozinho numa caverna muito espa\u00e7osa e profunda, onde Davi se havia escondido com todos os seus homens. Um deles reconheceu o rei e foi logo dizer a Davi que Deus lhe oferecia ocasi\u00e3o a mais favor\u00e1vel para vingar-se do inimigo: fazendo-o perder a vida, livrar-se-ia para sempre daquela injusta per\u00adsegui\u00e7\u00e3o. Davi, em vez de seguir tal conselho, julgou por um sentimento de piedade que n\u00e3o podia, sem ofender a Deus, dar a morte \u00e0quele que Ele fizera rei e que como tal era seu amo e senhor. Porque, por piores que sejam os nossos inimigos e por mais que fa\u00e7am para nos eliminar, jamais lhes devemos pagar o mal com o mal. Assim, contentou-se em cortar um peda\u00e7o do manto de Saul. E, quando ele saiu da caver\u00adna, seguiu-o e gritou para ele. Saul reconheceu-o e voltou-se.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Davi prostrou-se diante dele, como de costume, e disse: &#8220;Ser\u00e1 justo que vossa majestade preste f\u00e9 aos caluniadores, que vos enganam, e desconfie daque\u00adles que vos t\u00eam mais afeto e vos s\u00e3o mais fi\u00e9is, quando dever\u00edeis julgar uns e outros por suas a\u00e7\u00f5es? As palavras podem enganar, mas as a\u00e7\u00f5es mostram o que eles t\u00eam no fundo da alma. Vossa majestade acaba de conhecer, pelos efeitos, a mal\u00edcia daqueles que me acusam sem cessar de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es, em que jamais pensei e que n\u00e3o poderia executar mesmo que as tivesse. No entanto, eles levaram vossa majestade a empregar toda esp\u00e9cie de meios para me matar. Mas, como vossa majestade pode ver, a afirmativa de que atentei contra a vossa pessoa \u00e9 falsa. Ter-me-ia sido t\u00e3o f\u00e1cil mat\u00e1-lo como cortar este peda\u00e7o do vosso manto que tenho em minha m\u00e3o. No entanto, por mais justo que seja o meu ressentimento, eu o contive, ao passo que vossa majestade se deixa levar pela ira, por mais injusta que seja. Deus nos julgar\u00e1, senhor, e condenar\u00e1 aquele que de n\u00f3s dois for culpado&#8221;.<\/p>\n<p>Saul, espantado pelo perigo que havia corrido e sem poder deixar de admirar a virtude e a generosidade de Davi, soltou um profundo suspiro, que arrancou l\u00e0grimas a Davi. Tocado por t\u00e3o extrema bondade, disse-lhe o rei: &#8220;Eu \u00e9 que deveria chorar, e n\u00e3o v\u00f3s, porque depois de receber tantos servi\u00e7os de v\u00f3s tenho-vos perse\u00adguido com muita crueldade. Hoje mostrastes que sois um digno sucessor dos mais virtuosos de nossos antepassados, que, em vez de tirar a vida aos seus inimigos quando estes se encontram em posi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, gloriam-se de perdoar-lhes. Assim, n\u00e3o duvido de que Deus deseje p\u00f4r a coroa em vossa cabe\u00e7a para fazer-vos reinar sobre todo o povo de Israel. E pe\u00e7o-vos que me prometais com juramento que, em vez de destruir a minha fam\u00edlia, tomareis cuidado de conserv\u00e1-la, sem vos lembrardes dos males que vos causei&#8221;. Davi prometeu-o e jurou-lhe, e depois se separaram: Saul voltou ao seu reino, e Davi foi para o estreito dos masticianos.<\/p>\n<p>1 <em>Samuel 25. <\/em>A morte do profeta Samuel deu-se nesse mesmo tempo. E, como todo o povo o havia honrado extremamente pela sua eminente virtude, nada se pode acrescentar \u00e0s demonstra\u00e7\u00f5es de afeto que prestou \u00e0 sua mem\u00f3ria. Depois de o enterrarem com grande magnific\u00eancia em Rama, lugar de seu nasci\u00admento, eles o choraram por muito tempo. N\u00e3o foi somente luto p\u00fablico, mas todos o lamentavam em particular, como se fosse um parente. Isso porque, al\u00e9m de seu amor pela justi\u00e7a, a sua bondade era t\u00e3o extraordin\u00e1ria que o tornou muito querido por Deus. Depois da morte de Eli, sumo sacerdote, ele governou sozinho todo o povo durante doze anos e viveu dezoito anos durante o reinado de Saul.<\/p>\n<p>Um homem chamado Nabal, do pa\u00eds dos zifenianos, morava nesse tem\u00adpo na cidade de Maom e era rico, principalmente em rebanhos: tinha tr\u00eas mil carneiros e mil cabras. Davi proibiu terminantemente aos seus soldados tocar em qualquer coisa que pertencesse a esse homem, por maiores que fossem as neces\u00adsidades ou sob qualquer pretexto, porque ele sabia que n\u00e3o se pode tomar os bens alheios sem faltar aos mandamentos de Deus e, assim fazendo, julgava que agradaria a um homem de bem, que merecia as suas homenagens. Mas Nabal era um bruto, de mau car\u00e1ter e muito cruel. Sua mulher, ao contr\u00e1rio, de nome Abigail, era gentil, prestimosa, virtuosa e al\u00e9m disso extremamente bela.<\/p>\n<p>Quando Nabal foi tosquiar as ovelhas, Davi enviou dez dos seus para saud\u00e1-lo, desejar-lhe toda sorte de prosperidade por muitos anos e rogar-lhe que o ajudasse com alguma coisa para a subsist\u00eancia de seus homens, pois podia informar-se com os guardas do rebanho que desde que estava no deserto, e isso havia muito tem\u00adpo, nem ele nem os seus homens lhe haviam causado o menor preju\u00edzo. Poderiam at\u00e9 dizer o contr\u00e1rio, isto \u00e9, que ele os havia conservado. E Nabal agora, obsequi-ando-o, faria bem a um homem muito grato. Esse homem, por\u00e9m, em vez de dar uma resposta, perguntou-lhes quem era Davi. Eles disseram-lhe que era um dos filhos de Jess\u00e9. Nabal exclamou: &#8220;Ah! Um fugitivo, que se esconde com medo de cair nas m\u00e3os de seu senhor, agora quer passar por ousado e corajoso&#8221;.<\/p>\n<p>Essas palavras, t\u00e3o ofensivas, foram referidas a Davi e o deixaram t\u00e3o encole-rizado que ele jurou que antes de a noite acabar exterminaria Nabal e toda a sua fam\u00edlia e destruiria a sua casa e todos os seus bens, pois, n\u00e3o satisfeito em de\u00admonstrar tanta ingratid\u00e3o pelos favores recebidos, tivera ainda a insol\u00eancia de ultraj\u00e1-lo daquele modo. Deixou para a guarda de sua bagagem duzentos dos seiscentos homens que ent\u00e3o contava e partiu para executar a sua resolu\u00e7\u00e3o. No entanto, um dos pastores de Nabal, que ouvira as palavras proferidas por seu senhor, avisou a mulher deste, alertando-a das perigosas conseq\u00fc\u00eancias e afir\u00admando que nem Davi nem os seus jamais haviam feito mal algum aos rebanhos. Abigail mandou imediatamente carregar alguns asnos com uma grande quanti\u00addade de provis\u00f5es e, sem nada dizer ao marido, que s\u00f3 tratava bem os de car\u00e1ter semelhante ao dele, foi ter com Davi.<\/p>\n<p>Encontrou-o num vale, desceu em terra logo que o viu e, prostrando-se dian\u00adte dele, pediu-lhe que n\u00e3o levasse em conta o que dissera o marido, pois o pr\u00f3\u00adprio nome Nabal, que em hebreu significa &#8220;insensato&#8221;, era-lhe muito convenien\u00adte. Ela declarou ainda que n\u00e3o estava presente quando os homens foram procur\u00e1-lo e continuou a falar, nestes termos: &#8220;Rogo-vos que nos perdoeis a ambos e considereis o motivo que tendes de dar gra\u00e7as a Deus, por n\u00e3o ter permitido que mergulh\u00e1sseis as vossas m\u00e3os em sangue. Porque, conservando-as puras, v\u00f3s o obrigareis a vingar os vossos inimigos e a fazer cair sobre as suas cabe\u00e7as a infe\u00adlicidade que estava prestes a cair sobre a de Nabal. Confesso que a vossa c\u00f3lera contra ele \u00e9 justa, mas moderai-a, por amor de mim, que n\u00e3o tenho parte na culpa, pois a bondade e a clem\u00eancia s\u00e3o virtudes dignas de um homem que Deus destinou para reinar um dia. Tende a bondade de aceitar estes pequenos presentes que vos ofere\u00e7o&#8221;.<\/p>\n<p>Davi recebeu-os e respondeu-lhe: &#8220;Foi Deus quem vos trouxe aqui, do contr\u00e1rio, n\u00e3o ter\u00edeis visto o dia de amanh\u00e3, porque eu havia jurado exter\u00adminar esta noite Nabal e toda a sua fam\u00edlia, para castig\u00e1-lo pela ingratid\u00e3o e pelo ultraje que me fez. Devo, por\u00e9m, perdoar-lhe, em considera\u00e7\u00e3o a v\u00f3s, pois Deus vos inspirou a que vos opus\u00e9sseis \u00e0 minha c\u00f3lera por meio de vossos rogos. Ele, por\u00e9m, n\u00e3o evitar\u00e1 o castigo que merece e morrer\u00e1 de qualquer modo&#8221;. Abigail voltou muito consolada por resposta t\u00e3o favor\u00e1vel e encontrou o marido t\u00e3o embriagado que nada lhe p\u00f4de dizer. No dia seguin\u00adte, por\u00e9m, contou-lhe tudo o que se havia passado. O grave perigo que cor\u00adrera assustou-o e perturbou-o de tal modo que ele ficou paral\u00edtico de todo o corpo e morreu dez dias depois.<\/p>\n<p>Davi, quando o soube, disse que Nabal recebera a recompensa merecida. Louvou a Deus por n\u00e3o ter permitido que manchasse as suas m\u00e3os no sangue dele e aprendeu por aquele exemplo que, tendo os olhos voltados para todas as na\u00e7\u00f5es dos homens, Ele castiga os maus e recompensa os bons. A virtude e a sabedoria de Abigail, unidas \u00e0 sua grande beleza, haviam causado a Davi tanta estima e afeto por ela que, vendo-a vi\u00fava, mandou perguntar-lhe se o queria desposar. Ela respondeu que n\u00e3o era digna nem mesmo de beijar-lhe os p\u00e9s. Depois veio encontrar-se com ele, trazendo boa equipagem, e o des-posou. Ele j\u00e1 tinha outra esposa, de nome Aino\u00e3, que era da cidade de Jezreel. Quanto a Mical, Saul a dera em matrim\u00f4nio a Palti, filho de La\u00eds, que era da cidade de Galim.<\/p>\n<p>1 <em>Samuel 26. <\/em>Pouco tempo depois, alguns zifenianos avisaram Saul de que Davi regressara \u00e0quele pa\u00eds, e, se quisesse ajud\u00e1-los, eles poderiam apanh\u00e1-lo. O rei se p\u00f4s imediatamente em campo com tr\u00eas mil soldados e acampou naquele mesmo dia em Haquila. Davi, alertado de sua marcha, mandou espi\u00f5es para fazer um reconhecimento, e estes confirmaram o aviso. Ele partiu de noite, acompanhado somente por Abisai, e entrou no acampamento de Saul. Encon\u00adtrou todos os soldados adormecidos, bem como o general Abner. Passou pela tenda do rei, que tamb\u00e9m dormia, e da cabeceira de sua cama apanhou-lhe o dardo. Abisai quis mat\u00e1-lo, mas Davi lhe reteve o bra\u00e7o e o impediu, dizendo que, por pior que fosse Saul, n\u00e3o se poderia sem crime atentar contra a vida de um rei constitu\u00eddo por Deus e que tocava ao pr\u00f3prio Deus castig\u00e1-lo, quando julgasse que era tempo de o fazer.<\/p>\n<p>Assim, Davi contentou-se em levar o dardo e um vaso que estava pr\u00f3ximo do rei, de modo que n\u00e3o se pudesse duvidar de que poderia t\u00ea-lo matado, se o desejasse. Confiando na escurid\u00e3o da noite e em sua coragem, saiu do acampamento do modo como havia entrado, sem que ningu\u00e9m o percebes\u00adse. Depois de atravessar a torrente, subiu \u00e0 montanha, de onde todo o acam\u00adpamento de Saul poderia ouvi-lo, e gritou bem alto, chamando por Abner, que acordou com o barulho, bem como todos os soldados. Abner perguntou quem o chamava.<\/p>\n<p>Ele respondeu: &#8220;Sou eu, Davi, filho de Jess\u00e9, que v\u00f3s expulsastes. Como v\u00f3s, que t\u00e3o valente sois e gozais de tanta honra perante o rei, mais que qualquer outro, tendes t\u00e3o pouco cuidado em defend\u00ea-lo e dormis em vez de zelar pela garantia de sua pessoa? Podeis negar que n\u00e3o sois culpado de um crime capital, tendo sido t\u00e3o negligente a ponto de perceberdes que alguns dos meus homens entraram no vosso acampamento e at\u00e9 mesmo na tenda real? Vede onde est\u00e3o o dardo do rei e o seu vaso e julgai agora se montastes boa guarda&#8221;.<\/p>\n<p>Saul reconheceu a voz de Davi e, diante das provas que apresentava, perce\u00adbeu que, gra\u00e7as \u00e0 neglig\u00eancia dos seus, ter-lhe-ia sido f\u00e1cil mat\u00e1-lo sem que nenhum estranho fosse encontrado. Confessou ent\u00e3o ser-lhe devedor da vida e declarou que lhe permitia voltar para casa com toda a seguran\u00e7a, porque n\u00e3o podia mais duvidar de seu afeto e de sua fidelidade, depois de lhe poupar a vida diversas vezes, e porque ele, em vez de reconhecer os bons servi\u00e7os que Davi lhe prestara, o havia exilado, privado da consola\u00e7\u00e3o de viver com os parentes e per\u00adseguido impiedosamente. Davi mandou em seguida que viessem buscar o dardo e o vaso do rei e protestou que Deus, que sabia que ele teria podido matar Saul, seria o juiz de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>1 Samuel 27. <\/em>Eis como Davi uma segunda vez poupou a vida a Saul. E, n\u00e3o querendo mais ficar naquele pa\u00eds, receando vir a cair nas m\u00e3os do rei, deci\u00addiu, com o consentimento de todos os que estavam com ele, passar \u00e0s terras dos filisteus. Aquis, rei de Gate, uma das cinco cidades dessa na\u00e7\u00e3o, recebeu-o favo\u00adravelmente, e Saul, vendo como fora malsucedido e lembrando os graves riscos que correra, n\u00e3o pensou mais em persegui-lo. Davi n\u00e3o quis estabelecer-se na cidade, para n\u00e3o ser pesado aos seus habitantes, e rogou ao rei Aquis que lhe desse um lugar no campo. Ele deu-lhe a aldeia de Ziclague, pela qual Davi to\u00admou tanto afeto que, depois de se tornar rei, veio a compr\u00e1-la, para t\u00ea-la como propriedade particular.<\/p>\n<p>L\u00e1 ficou um ano e quatro meses, e durante esse tempo fazia secretamente incurs\u00f5es sobre as terras dos gerusianos, dos gersianos e dos amalequitas, que eram povos vizinhos dos filisteus, trazendo grande quantidade de cavalos, ca\u00admelos e gado. Contudo n\u00e3o fazia prisioneiros, temendo que o rei descobrisse de quem ele trazia tais presas, das quais enviava-lhe uma parte. Quando o rei lhe perguntava onde as ia buscar, Davi respondia que era nas plan\u00edcies da Jud\u00e9ia, do lado sul, no que o pr\u00edncipe acreditava com tanta felicidade quanto desejava que fosse verdade. Porque Davi se poria em condi\u00e7\u00e3o de jamais poder regres\u00adsar \u00e0quele pa\u00eds caso tratasse como inimigos os seus s\u00faditos. N\u00e3o sendo assim, por\u00e9m, podia mant\u00ea-lo junto de si e servir-se dele vantajosamente.<\/p>\n<p>1 <em>Samuel 28. <\/em>Nesse mesmo tempo, os filisteus resolveram fazer guerra aos israelitas. O rei Aquis ordenou a reuni\u00e3o de todas as suas tropas na cidade de Sun\u00e9m e por isso mandou dizer a Davi que l\u00e1 se encontrasse tamb\u00e9m, com os seus seiscentos homens. Ele respondeu que obedeceria com prazer, para testemunhar-lhe a sua gratid\u00e3o pelos favores de que lhe era devedor. O rei, por sua vez, prometeu-lhe que se fosse vitorioso recompensaria os seus servi\u00e7os com grandes honras e o faria comandante de sua guarda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse mesmo tempo, os filisteus recome\u00e7aram a guerra, e Davi foi man\u00addado com o ex\u00e9rcito contra eles. Venceu-os, fez grande mortandade entre eles e voltou vitorioso a Saul. Mas n\u00e3o foi recebido como esperava nem como merecia o seu grande feito, porque a sua reputa\u00e7\u00e3o era suspeita ao rei, e este, em vez de se&#8230; <a href=\"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-14-davi-derrota-os-filisteus-sua-fama-aumenta-a-inveja-de-saul-este-atira-lhe-um-dardo-para-mata-lo-mical-mulher-de-davi-ajuda-o-a-escapar-davi-vai-ter-com-samuel-saul-persegue-davi\/\">ler mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[52,54,75,153,200,234,269,356,367,376,380,484,517,566,605,721,732,797,801,851,867,980,1009,1114,1164,1190,1258,1276,1281,1306,1339,1343,1350,1362,1443,1444,1493,1526,1532,1604,1632,1640,1642,1669,1707,1721,1729,1739,1809,1849,1892,1901,1936,1954,1971,1983,1995,2113,2168,2203,2220,2265,2404,2411,2435,2436,2470,2482,2510,2546,2632,2644,2700,2701,2724,2733,2753,2811,2880,2914,2939,2952,3073,3148,3169,3185,3192],"class_list":["post-163","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livro-sexto","tag-abiatar","tag-abimeleque","tag-acampamento","tag-ajuda-o","tag-amizade","tag-apanhar","tag-aquis","tag-atira-lhe","tag-aumenta","tag-auxilio","tag-avisa","tag-casa","tag-caverna","tag-cidade","tag-comabigail","tag-contenta","tag-contrai","tag-dardo","tag-davi","tag-derrota","tag-descendencia","tag-diversas","tag-durante","tag-escapar","tag-estabelece","tag-estreita","tag-fala","tag-fama","tag-favor","tag-feito","tag-filho","tag-filisteus","tag-fingese","tag-foge","tag-gate","tag-gatefilisteu","tag-guerra","tag-homens","tag-horas","tag-induz","tag-inteiramente","tag-inutilmente","tag-inveja","tag-israelitas","tag-jonatas","tag-juda","tag-juizo","tag-junto","tag-louco","tag-manda","tag-matalo","tag-matar","tag-mical","tag-moabitas","tag-morte","tag-mulher","tag-nabal","tag-oportunidade","tag-passagem","tag-perde","tag-persegue","tag-poderia","tag-proprio","tag-provas","tag-quatro","tag-quatrocentos","tag-razao","tag-recebe","tag-reconhecido","tag-rei","tag-retirase","tag-reune","tag-sacerdotal","tag-sacerdote","tag-salva","tag-samuel","tag-saul","tag-servir","tag-somente","tag-sumo","tag-telo","tag-tenta","tag-tribo","tag-vezes","tag-vinte","tag-viuva","tag-volta"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=163"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}