{"id":1252,"date":"2015-04-06T02:01:40","date_gmt":"2015-04-06T02:01:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=1252"},"modified":"2015-04-06T02:01:40","modified_gmt":"2015-04-06T02:01:40","slug":"capitulo-18-com-que-furor-caio-trata-filon-e-os-outros-embaixadores-dos-judeus-de-alexandria-sem-querer-escutar-suas-razoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-18-com-que-furor-caio-trata-filon-e-os-outros-embaixadores-dos-judeus-de-alexandria-sem-querer-escutar-suas-razoes\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 18 &#8211; Com que furor Caio trata F\u00edlon e os outros embaixadores dos judeus de Alexandria, sem querer escutar suas raz\u00f5es."},"content":{"rendered":"<p>Mas \u00e9 preciso passarmos agora ao que aconteceu no assunto que era o motivo de nossa embaixada. Chegou o dia, quando Caio devia nos dar audi\u00eancia; quando fomos introduzidos \u00e0 sua presen\u00e7a, foi-nos f\u00e1cil conhecer, logo de in\u00edcio, por seu aspecto e seus gestos, que o ter\u00edamos por inimigo e n\u00e3o por juiz. Se ele tivesse querido agir como juiz, ele deveria ter examinado com seu conselho um neg\u00f3cio de tal import\u00e2ncia, onde se tratava dos privil\u00e9gios de uma grande multid\u00e3o de judeus que moravam em Alexandria e de que gozavam h\u00e1 mais de quatrocentos anos e que se tinham at\u00e9 ent\u00e3o observado, sem jamais revog\u00e1-los nem deles duvidar. Ele devia ouvir as partes: ele devia aceitar as advert\u00eancias e pronunciar por fim um ju\u00edzo justo e equ\u00e2nime. Mas, em vez de observar essas regras da justi\u00e7a, o impiedoso tirano, enrugando o sobrecenho com brutal altivez, mandou vir dois intendentes dos jardins de Mecenas e de L\u00e2mia, que est\u00e3o perto da cidade e do seu pal\u00e1cio, onde ele se tinha j\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas ou quatro dias retirado. Ordenou-lhes que abrissem as portas de diversos aposentos daqueles belos jardins, porque queria passear por toda a parte e nos fez entrar tamb\u00e9m. Caminhamos diante dele e o saud\u00e1mos, dando-lhe o nome de Augusto e de imperador. A maneira com ele recebeu a sauda\u00e7\u00e3o, t\u00e3o mansamente e com tanta afabilidade, come\u00e7ou por nos fazer perder a esperan\u00e7a n\u00e3o somente do bom \u00eaxito da nossa empresa, mas at\u00e9 de nossa vida. Pois ele nos disse, franzindo a testa e com um riso sarc\u00e1stico: &#8220;N\u00e3o sois aqueles inimigos declarados dos deuses que, embora todos os outros me reconhe\u00e7am por deus, me desprezais e preferis adorar um Deus que n\u00e3o se conhece?&#8221; Depois elevou as m\u00e3os para o c\u00e9u e proferiu palavras que eu escutei com horror e n\u00e3o as posso repetir. Nossos advers\u00e1rios, ent\u00e3o, n\u00e3o duvidando de que tinham ganho a causa, n\u00e3o puderam ocultar sua grande alegria e n\u00e3o houve um s\u00f3 de todos os nomes e t\u00edtulos com que se honram os deuses, que eles n\u00e3o lhe dessem. Um certo Isidoro, que era um grande e perigoso caluniador, vendo que Caio escutava com grande prazer essas bajula\u00e7\u00f5es e elogios \u00edmpios, disse-lhe: &#8220;Detestar\u00edeis ainda mais esses homens e os que os mandam, se soub\u00e9sseis qu\u00e3o grande \u00e9 o \u00f3dio que eles vos t\u00eam. S\u00e3o os \u00fanicos de todos os homens que se recusam a oferecer v\u00edtimas pela vossa sa\u00fade e geralmente todos os dessa na\u00e7\u00e3o s\u00e3o do mesmo parecer&#8221;. A estas palavras, n\u00f3s exclamamos: &#8220;S\u00e3o cal\u00fanias, senhor! Imolamos hecatombes e depois de ter banhado o altar com o sangue das v\u00edtimas, n\u00f3s n\u00e3o levamos a carne para comer, como fazem v\u00e1rios outros povos, mas as queimamos todas, no fogo sagrado. Assim fizemos por tr\u00eas vezes; a primeira quando subistes ao trono, a segunda quando ficastes curado daquela grave enfermi\u00addade que afligiu toda a terra, e a terceira quando pedimos a Deus que vos fizesse vencedor da Alemanha&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 verdade&#8221;, respondeu o furioso imperador, &#8220;oferecestes sacrif\u00edcios, mas a um outro e n\u00e3o a mim. Assim, que honra recebi ent\u00e3o?&#8221; A estas palavras senti\u00admos o sangue gelar-nos nas veias. Caio, entretanto, visitava todos os aposentos, notava-lhes os defeitos, ordenava as modifica\u00e7\u00f5es que queria se fizessem. N\u00f3s o segu\u00edamos impelidos pelos nossos advers\u00e1rios, que se riam de n\u00f3s; injuriavam-nos com sat\u00edricas e humilhantes zombarias, como fariam os palha\u00e7os num tea\u00adtro, e na verdade aquele assunto poderia passar por uma com\u00e9dia, que de verda\u00adde s\u00f3 tinha a apar\u00eancia. Aquele que deveria ser o nosso juiz era nosso acusador, e nossos advers\u00e1rios animavam contra n\u00f3s aquele mau juiz. Tendo-o ent\u00e3o como inimigo e tal inimigo, que poder\u00edamos fazer sen\u00e3o ficar em sil\u00eancio, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de defesa, principalmente nada tendo a responder, que lhe pudesse ser agrad\u00e1vel, porque o temor de violar nossas santas leis nos fechava a boca.<\/p>\n<p>Depois de ter ele dado algumas ordens com rela\u00e7\u00e3o aos edif\u00edcios, perguntou-nos seriamente e com gravidade, por que faz\u00edamos dificuldade em comer carne de porco. Nossos advers\u00e1rios, ent\u00e3o, para torn\u00e1-lo ainda mais favor\u00e1vel a eles, por meio de suas adula\u00e7\u00f5es, puseram-se a gargalhar t\u00e3o desabridamente, que alguns, mesmo dos ofici\u00adais do pr\u00edncipe, mal toleravam aquele desprezo e falta de respeito, que lhe era devido e que era tanto maior, quanto no estado em que ele estava, somente os seus mais \u00edntimos poderiam sem perigo tomar a liberdade de apenas sorrir em sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim respondemos: &#8220;Os costumes dos povos s\u00e3o diferentes e como h\u00e1 coisas que nos s\u00e3o permitidas e a outros n\u00e3o, assim h\u00e1 outras tamb\u00e9m que s\u00e3o proibidas aos nossos advers\u00e1rios&#8221;. Um dos nossos acrescentou que h\u00e1 mesmo muitos que n\u00e3o co\u00admem carne de carneiro e ele retorquiu rindo-se: &#8220;Eles t\u00eam raz\u00e3o. A carne n\u00e3o \u00e9 boa&#8221;. Essas zombarias aumentaram ainda nossas penas, mas por fim ele nos disse, com emo\u00e7\u00e3o: &#8220;Quisera saber em que direito fundais vosso direito de burguesia&#8221;. N\u00f3s ent\u00e3o come\u00e7amos a apresentar-lhe nossas raz\u00f5es; ele achou facilmente que eram boas e n\u00f3s quisemos ent\u00e3o citar outras mais fortes, mas ele levantou-se de repente, foi depressa a uma grande sala, mandou fechar as janelas, cujos vidros impediam que o ar entrasse, somente deixavam passar a luz e eram t\u00e3o claros e t\u00e3o brilhantes que poderiam ser tidos por cristais de rocha. Depois veio a n\u00f3s assaz mansamente e disse-nos com um tom moderado de voz: &#8220;Que me tendes ent\u00e3o a dizer?&#8221; Quisemos ent\u00e3o continuar a apresentar-lhe as nossas raz\u00f5es, em poucas palavras, mas em vez de nos escutar, ele foi correndo para outra sala, onde tinha ordenado que colocassem quadros de antigos pintores. Vendo assim o julgamento do nosso assunto interrompido e de tantas manei\u00adras diferentes, julgando que nada mais t\u00ednhamos a fazer do que nos preparar para a morte, recorremos em tal conting\u00eancia ao verdadeiro Deus, para rogar-lhe que nos salvasse do furor daquele falso deus. Ele teve compaix\u00e3o de n\u00f3s e sua infinita bondade acalmou a c\u00f3lera de Caio. Ele ordenou que nos retir\u00e1ssemos e foi-se embora, depois de nos ter dito somente: &#8220;Essa gente n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o m\u00e1, quanto infeliz! S\u00e3o insensatos em n\u00e3o acreditar que eu sou de natureza divina&#8221;.<\/p>\n<p>Foi assim que sa\u00edmos n\u00e3o de um tribunal, mas de um teatro e de uma pris\u00e3o, pois n\u00e3o era deveras uma com\u00e9dia vermo-nos ridicularizados e motejados, desprezados mesmo? E os rigores de uma pris\u00e3o s\u00e3o talvez compar\u00e1veis aos tormentos que nos faziam sofrer tantas blasf\u00eamias contra Deus e tantas amea\u00e7as de um t\u00e3o poderoso imperador, encolerizado contra n\u00f3s, porque os judeus eram os \u00fanicos que resistiam \u00e0 sua louca paix\u00e3o de ser reconhecido como Deus? respiramos ent\u00e3o um pouco, n\u00e3o por amor \u00e0 vida, pois se nossa morte tivesse podido ser \u00fatil \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o de nossas leis, n\u00f3s a ter\u00edamos recebido com alegria, como podendo nos levar a uma feliz eterni\u00addade; mas, al\u00e9m de in\u00fatil, ela teria sido tamb\u00e9m vergonhosa para os que nos tinham enviado porque ordinariamente n\u00e3o se julgam as coisas sen\u00e3o pelos seus resultados; esta raz\u00e3o fazia que nos consol\u00e1ssemos de algum modo por termos escapado de t\u00e3o grande perigo em que nos encontr\u00e1vamos, pela senten\u00e7a que o imperador pronunci\u00adaria. Como poderia ele estar informado da justi\u00e7a de nossa causa se ele n\u00e3o se dignava nem mesmo a nos ouvir? Que h\u00e1 de mais cruel do que ver a salva\u00e7\u00e3o de toda nossa na\u00e7\u00e3o depender da maneira como os seus cinco embaixadores eram tratados? Se Caio se declarasse em favor dos habitantes de Alexandria, que outra cidade deixaria os judeus em paz? Que outra os pouparia? Que outra n\u00e3o destruiria seus orat\u00f3rios? Que outra n\u00e3o lhes procuraria impedir viver segundo suas leis? Assim, tratava-se da anula\u00ad\u00e7\u00e3o de todos os privil\u00e9gios e de sua inteira ru\u00edna. Esses pensamentos nos esmagavam sob o peso da dor; n\u00e3o v\u00edamos recurso algum em nossa desgra\u00e7a e aqueles que antes nos ajudavam, perdendo ent\u00e3o a esperan\u00e7a no feliz resultado de nossa causa, retira\u00advam-se sem mais nos querer auxiliar, quando nos mandavam chamar, tanto estavam persuadidos da bondade e da justi\u00e7a daquele homem que queria passar por Deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas \u00e9 preciso passarmos agora ao que aconteceu no assunto que era o motivo de nossa embaixada. Chegou o dia, quando Caio devia nos dar audi\u00eancia; quando fomos introduzidos \u00e0 sua presen\u00e7a, foi-nos f\u00e1cil conhecer, logo de in\u00edcio, por seu aspecto e seus gestos, que o ter\u00edamos por inimigo e n\u00e3o por juiz. 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