{"id":1248,"date":"2015-04-06T02:01:01","date_gmt":"2015-04-06T02:01:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=1248"},"modified":"2015-04-06T02:01:01","modified_gmt":"2015-04-06T02:01:01","slug":"capitulo-16-o-rei-agripa-vem-a-roma-e-tendo-sabido-do-proprio-caio-que-ele-queria-mandar-colocar-sua-estatua-no-templo-de-jerusalem-desmaia-depois-de-se-ter-refeito-daquela-fraqueza-e-do-espanto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/capitulo-16-o-rei-agripa-vem-a-roma-e-tendo-sabido-do-proprio-caio-que-ele-queria-mandar-colocar-sua-estatua-no-templo-de-jerusalem-desmaia-depois-de-se-ter-refeito-daquela-fraqueza-e-do-espanto\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 16 &#8211; O rei Agripa vem a Roma e, tendo sabido do pr\u00f3prio Caio que ele queria mandar colocar sua est\u00e1tua no Templo de Jerusal\u00e9m, desmaia. Depois de se ter refeito daquela fraqueza e do espanto que se lhe seguiu, ele escreve para o pr\u00edncipe."},"content":{"rendered":"<p>Pouco depois, o rei Agripa chegava sem de nada saber, nem da carta de Petr\u00f4nio, nem da resposta de Caio e quando foi saud\u00e1-lo, n\u00e3o teve dificuldade em perceber pela maneira como o recebeu, que ele ardia de c\u00f3lera em seu cora\u00e7\u00e3o. Procurou recordar-se para ver se havia feito alguma coisa que lhe pudesse desagradar e nada encontrando, julgou, como era verdade, que n\u00e3o era contra ele, mas contra algum outro, que ele estava irritado. Entretanto, notando que aquela agita\u00e7\u00e3o lhe transparecia no rosto, quando olhava para ele, seu temor continuava e muitas vezes vinha-lhe \u00e0 mente perguntar-lhe a causa, mas continha-se, de medo de atrair sobre ele por uma imprudente curiosidade, a c\u00f3lera que o soberano podia ter contra outros.<\/p>\n<p>Como ningu\u00e9m mais que Caio penetrava o pensamento dos homens, ele logo percebeu o temor de Agripa e disse-lhe: &#8220;Quero vos esclarecer o que desejais sa\u00adber. V\u00f3s me conheceis muito bem para ignorar que eu n\u00e3o falo menos com os olhos do que com a l\u00edngua. Os homens de bem de vossa na\u00e7\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos de todos os homens que n\u00e3o me querem reconhecer como deus e que parecem correr voluntariamente para sua ru\u00edna, pela recusa em obedecer \u00e0 ordem que dei, de colocar no seu Templo a est\u00e1tua de J\u00fapiter. Eles se reuniram de todas as cidades e dos campos para vir a mim, aparentemente, como suplicantes, mas para de\u00admonstrar-me na realidade o desprezo que t\u00eam por minhas ordens&#8221;. Ele queria continuar a falar, mas Agripa, tocado de uma dor violenta, retirou-se para cair, desmaiado, se n\u00e3o o tivessem amparado. Levaram-no ao seu apartamento e ele ficou por muito tempo sem conhecimento algum.<\/p>\n<p>O estado em que se encontrava o pr\u00edncipe aumentou ainda mais a ira de Caio contra nossa na\u00e7\u00e3o. &#8220;Se Agripa&#8221;, dizia ele, &#8220;que sempre tanto me amou e que me deve tantos benef\u00edcios, tem t\u00e3o forte amor aos costumes de seu pa\u00eds, que n\u00e3o p\u00f4de suportar que a eles se desobede\u00e7am, por pouco que seja, pois o que eu lhe disse pareceu custar-lhe a vida, que deverei esperar dos outros judeus, aos quais nenhuma considera\u00e7\u00e3o leva a renunciar, para inclinar-me, eu aos seus sentimentos?&#8221;<\/p>\n<p>Durante todo o resto do dia e uma parte do dia seguinte, Agripa caiu em tal del\u00edrio que n\u00e3o podia voltar a si. Por fim, \u00e0 tardinha, ele ergueu um pouco a cabe\u00e7a e abrindo os olhos, com grande dificuldade, lan\u00e7ou-os sobre os que estavam em redor dele, mas n\u00e3o os reconheceu. Recaiu depois em seu desmaio. Sua respira\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, era mais livre. Algum tempo depois ele despertou, dizendo: &#8220;Onde estou? E em casa do imperador? Ele est\u00e1 presente?&#8221; &#8220;Coragem, senhor&#8221;, responderam-lhe, &#8220;estais em nossa casa, e o imperador n\u00e3o est\u00e1 aqui; dormistes demais; despertai agora, por favor, e fazei algum esfor\u00e7o para nos reconhecer. Somos aqui todos amigos, vossos dom\u00e9sticos, vossos libertos, que v\u00f3s amais e vos amam mais que a pr\u00f3\u00adpria vida&#8221;. O soberano, ent\u00e3o, voltou a si e percebeu em seus rostos a impress\u00e3o que seu mal lhes tinha feito no cora\u00e7\u00e3o. Os m\u00e9dicos mandaram sair a maior parte dos que estavam no quarto, para lhe dar algum rem\u00e9dio e alimento. Ele, ent\u00e3o, disse: &#8220;N\u00e3o penseis em me dar alimentos delicados. Basta-me na afli\u00e7\u00e3o em que estou, que me impe\u00e7ais de morrer de fome. Eu n\u00e3o me poderia mesmo resolver a comer, se n\u00e3o me restasse alguma esperan\u00e7a de ajudar minha na\u00e7\u00e3o em tal e t\u00e3o grande desgra\u00e7a&#8221;. Acompanhou estas palavras com l\u00e1grimas, tomou somente o que lhe era absolutamente necess\u00e1rio para manter a vida, e n\u00e3o quis mesmo permitir que lhe misturassem uma s\u00f3 gota de vinho na \u00e1gua que ele bebeu. &#8220;Deram ao meu corpo&#8221;, disse depois, &#8220;o que ele precisava apenas para n\u00e3o morrer, que me resta agora, sen\u00e3o fazer todo o esfor\u00e7o poss\u00edvel junto do imperador, para procurar demov\u00ea-lo dessa grande tempestade?&#8221; Pediu ent\u00e3o tabuinhas e escreveu esta carta ao pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>&#8220;O respeito e o temor impediram-me, senhor, de me apresentar diante de v\u00f3s. O brilho de vossa majestade me deslumbra e vossas amea\u00e7as me assustam. Uma carta vos exprimir\u00e1 melhor minha mui humilde ora\u00e7\u00e3o, mais do que eu poderia fazer de viva voz. Sabeis, grande pr\u00edncipe, que a natureza gravou no cora\u00e7\u00e3o de todos os homens um ardente amor pela p\u00e1tria e uma singular vene\u00adra\u00e7\u00e3o pelas leis que eles receberam de seus antepassados, como v\u00f3s bem manifestais por vossa afei\u00e7\u00e3o por uma e pelo cuidado que tomais em fazer obser\u00advar as outras. Essa inclina\u00e7\u00e3o que nasce conosco \u00e9 t\u00e3o forte que n\u00e3o h\u00e1 povo ao qual suas leis n\u00e3o pare\u00e7am justas, embora n\u00e3o nos sejam de fato, porque delas se julga mais pelo respeito que se lhes tem do que pela raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Bem sabeis, senhor, que eu sou judeu, nascido em Jerusal\u00e9m, onde est\u00e1 esse santo Templo, consagrado em honra do Deus Todo-poderoso. Eu tive por ante\u00adpassados os reis desse pa\u00eds. Alguns deles foram soberanos sacerdotes e estima\u00adram mais essa dignidade do que a pr\u00f3pria coroa, porque estavam persuadidos que tanto quanto Deus est\u00e1 acima dos homens, tanto o sacerd\u00f3cio est\u00e1 acima do trono; as fun\u00e7\u00f5es de um t\u00eam por objeto as coisas divinas, ao passo que o poder que o outro d\u00e1 s\u00f3 se refere \u00e0s coisas humanas.<\/p>\n<p>&#8220;Como eu me encontro, senhor, ligado por tantos liames \u00e0quela na\u00e7\u00e3o, a essa p\u00e1tria e a esse Templo, eu n\u00e3o poderia recusar ser-lhes medianeiro e intercessor junto de v\u00f3s. Pe\u00e7o-vos, ent\u00e3o, por minha na\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o permitir que ela seja obrigada a sentir diminuir o seu zelo por v\u00f3s. Nenhum outro povo em toda a Europa e toda a \u00c1sia nunca demonstrou tanto por vossa augusta fam\u00edlia imperial, em tudo o que sua religi\u00e3o e suas leis podem permitir. Ele n\u00e3o somente faz seus votos e sacrif\u00edcios para vossa prosperidade e a de vosso imp\u00e9rio, nas festas p\u00fabli\u00adcas e solenes, mas f\u00e1-lo todos os dias, o que demonstra que n\u00e3o \u00e9 com simples palavra e falsas apar\u00eancias, mas de fato e do fundo do cora\u00e7\u00e3o, que ele demons\u00adtra t\u00e3o sincero afeto por seus imperadores.<\/p>\n<p>&#8220;Quando \u00e0 cidade santa, onde vi a luz do dia, posso dizer que n\u00e3o somente ela deve ser considerada como a capital da Jud\u00e9ia, mas ela o \u00e9 ainda de v\u00e1rios outros pa\u00edses, por causa das tantas col\u00f4nias que ela povoou no Egito, na Fen\u00edcia, na S\u00edria Superior e Inferior, na Panf\u00edlia, na Cil\u00edcia, em v\u00e1rias outras partes da \u00c1sia, at\u00e9 a Bit\u00ednia e mais al\u00e9m, no Ponto. Na Europa, a Tess\u00e1lia, a Be\u00f3cia, a Maced\u00f4nia, a Et\u00f3lia, Atenas, Argos, Corinto, com a maior parte do Peloponeso e mesmo as ilhas C\u00e9lebres, como a Eub\u00e9ia, Chipre e C\u00e2ndia. Que direi tamb\u00e9m dos pa\u00edses de al\u00e9m do Eufrates, onde exceto uma parte da prov\u00edncia de Babil\u00f4nia e de alguns governos, todas as cidades situadas em regi\u00f5es f\u00e9rteis s\u00e3o habitadas por judeus? Assim, se o pa\u00eds de onde tenho minha origem encontrar gra\u00e7a diante de v\u00f3s, v\u00f3s n\u00e3o favoreceis, senhor, uma s\u00f3 cidade, v\u00f3s beneficiareis um mui grande n\u00famero de outras, espalhadas por todas as partes do mundo e \u00e9 uma coisa digna da grandeza de vossa fortuna, participando do favor que ela vos dever, n\u00e3o haver\u00e1 lugar em toda a terra onde n\u00e3o brilhe a vossa gl\u00f3ria e onde n\u00e3o ressoem os louvores e as a\u00e7\u00f5es de gra\u00e7as que vos ser\u00e3o devidas.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00f3s tendes, em favor de alguns de vossos amigos, concedido a cidades inteiras o direito de burguesia romana, e assim elevastes acima dos outros os que antes estavam submissos; nisso, n\u00e3o menos obsequiastes, do que \u00e0quelas cidades, \u00e0queles, em con\u00adsidera\u00e7\u00e3o aos quais concedestes esse favor. Posso dizer que entre todos os pr\u00edncipes que vos t\u00eam por senhor e que honrais com vossa amizade, h\u00e1 poucos que me prece\u00addem em dignidade e nenhum me sobrepuja, ou melhor, n\u00e3o me iguala em afeto, quer porque ela me \u00e9 heredit\u00e1ria, quer por causa dos benef\u00edcios com que vos dignastes cumular-me. Eu n\u00e3o ousaria, entretanto, pedir por minha p\u00e1tria o direito de burguesia romana, nem mesmo que a libert\u00e1sseis da servid\u00e3o e a dispens\u00e1sseis dos tributos. Eu vos pe\u00e7o somente, senhor, uma gra\u00e7a, que embora n\u00e3o vos esteja a peito, n\u00e3o deixar\u00e1 de vos ser \u00fatil, pois que nada \u00e9 mais vantajoso aos s\u00faditos do que um soberano favo\u00adr\u00e1vel. Jerusal\u00e9m soube antes de todos os outros da vossa feliz sucess\u00e3o ao trono do imp\u00e9rio e essa cidade santa fez imediatamente sab\u00ea-lo a todas as outras prov\u00edncias vizinhas, comunicando-lhes t\u00e3o grata not\u00edcia. Assim como ela foi a primeira de todo o Oriente que vos saudou como imperador, n\u00e3o pode ela esperar com justi\u00e7a uma gra\u00e7a particular ou pelo menos n\u00e3o estar em piores condi\u00e7\u00f5es que as outras?<\/p>\n<p>&#8220;Depois de vos ter falado, senhor, por minha na\u00e7\u00e3o e por minha p\u00e1tria, resta-me fazer-vos um humilde pedido por nosso Templo. Como ele est\u00e1 consagrado em honra de Deus e sua majestade ali habita, l\u00e1 jamais se colocou est\u00e1tua ou figura alguma, porque os pintores e os escultores s\u00f3 podem representar divindades vis\u00edveis, e o Deus que adoramos \u00e9 invis\u00edvel; nossos antepassados julgaram que n\u00e3o se podia, sem impiedade, procurar represent\u00e1-lo. Agripa, vosso av\u00f4, visitou esse Templo, com respeito. Augusto ordenou por cartas expressas que de todas as partes para l\u00e1 se levariam as prim\u00edcias e que n\u00e3o se passaria um s\u00f3 dia sem que ali se oferecessem sacrif\u00edcios. A imperatriz, vossa bisav\u00f3, teve-o tamb\u00e9m em grande venera\u00e7\u00e3o. Jamais houve grego, b\u00e1rbaro ou pr\u00edncipe, por mais \u00f3dio que tivessem contra n\u00f3s, nem sedi\u00e7\u00e3o, nem guerra, nem cativeiro, nem alguma outra das maiores desgra\u00e7as e das maiores desola\u00e7\u00f5es que possam acontecer aos homens, que nos fizesse colocar algu\u00adma est\u00e1tua no nosso Templo, porque, mesmo os nossos maiores inimigos reverenci\u00adaram esse lugar consagrado ao Criador do universo, pelo temor dos espantosos castigos que sabiam ter reca\u00eddo sobre os que tinham ousado viol\u00e1-lo. A esse respeito, sem citar exemplos estrangeiros, eu tratei, senhor, outros que vos s\u00e3o sabidos.<\/p>\n<p>&#8220;Quando Marco Agripa, vosso av\u00f4, quis, para homenagear o rei Herodes, meu av\u00f4, ir \u00e0 Jud\u00e9ia e passar do mar a Jerusal\u00e9m, ficou t\u00e3o comovido com a magnific\u00eancia do Templo, com seus ornamentos, com as diversas fun\u00e7\u00f5es dos sacerdotes, suas vestes e principalmente as do supremo sacerdotes, resplande\u00adcente de majestade, com a ordem que se observa nos sacrif\u00edcios, com a piedade e com tudo o mais, bem como com o respeito com o que todos o assistem, que n\u00e3o p\u00f4de deixar de manifestar a sua admira\u00e7\u00e3o. Ele sentia tanto prazer em con\u00adsiderar estas coisas que n\u00e3o se passava um dia sequer, enquanto ele esteve em Jerusal\u00e9m, que l\u00e1 n\u00e3o voltasse para apreci\u00e1-lo. Ele ofereceu ricos presentes a esse Templo e concedeu aos habitantes daquela grande cidade tudo o que poderiam desejar, exceto a isen\u00e7\u00e3o dos tributos. Herodes, depois de lhe ter prestado todas as honras poss\u00edveis e de ter igualmente dele recebido outras tantas, acompa\u00adnhou-o ao seu embarque e o povo vinha tamb\u00e9m de todas as partes, atirar ra\u00admos de \u00e1rvores e flores \u00e0 sua passagem aben\u00e7oando-o, muitas vezes.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m, senhor, coisa sabida de todos, que o imperador Tib\u00e9rio, vosso grande tio, durante os vinte e tr\u00eas anos de seu reinado, teve a mesma estima pelo nosso Templo, sem permitir que l\u00e1 se fizesse a menor modifica\u00e7\u00e3o na ordem que se observa? Quanto a isso, embora tanto ele me tenha feito sofrer, eu n\u00e3o poderia deixar de referir um fato que lhe mereceu grandes elogios e eu sei que sentis prazer em saber da verdade. Pilatos, ent\u00e3o governador da Jud\u00e9ia, consagrou-lhe, no pal\u00e1cio de Herodes em Jerusal\u00e9m, uns escudos dourados, n\u00e3o tanto pelo desejo de honr\u00e1-lo, como por seu \u00f3dio contra nossa na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia figuras nesses escudos, nem inscri\u00e7\u00e3o alguma, a n\u00e3o ser o nome daquele que o consagrava e o daquele ao qual era consagrado. Entretanto, o povo revoltou-se de tal modo, que enviou os quatro filhos do rei, os outros pr\u00edncipes da casa real e os mais ilustres de sua na\u00e7\u00e3o, para rogar a Pilatos que mandasse retirar os escudos, porque era uma desobedi\u00eancia \u00e0s leis e aos costumes de seus antepassados, nos quais seus reis e imperadores jamais tinham querido tocar. Vendo que Pilatos, que era de natural violento e teimoso, recusava-o grosseiramente, disseram-lhe: &#8216;Deixai de perturbar a paz de que gozamos. Deixai de nos querer levar \u00e0 revolta e \u00e0 guerra. N\u00e3o \u00e9 pelo desprezo das leis que se honra o imperador. V\u00f3s tendes necessidade de um outro pretexto para disfar\u00e7ar um empreendimento t\u00e3o injusto e que nos \u00e9 intoler\u00e1vel, pois esse grande pr\u00edncipe est\u00e1 muito longe de querer que se desobede\u00e7a \u00e0s nossas leis e costumes. Se tendes alguma determina\u00e7\u00e3o, alguma carta e alguma outra ordem dele, que vos autorize a faz\u00ea-lo, mostrai-no-lo, e mandaremos embaixadores a ele, para apresentarem humildemente nossas raz\u00f5es&#8217;. Estas palavras irritaram ainda mais a Pilatos e ao mesmo tempo causaram-lhe grande afli\u00e7\u00e3o porque ele temia, se se mandassem embaixadores, que eles informassem o imperador de suas concuss\u00f5es, de suas injusti\u00e7as e de sua horr\u00edvel crueldade, que fazia sofrer tantos ino\u00adcentes e custava mesmo a vida a v\u00e1rios. Em tal agita\u00e7\u00e3o, esse homem t\u00e3o duro e t\u00e3o col\u00e9rico n\u00e3o sabia que partido tomar. N\u00e3o ousava retirar os escudos j\u00e1 consagrados e mesmo que o tivesse feito, n\u00e3o se podia decidir a causar um prazer e um favor ao povo; conhecia o esp\u00edrito de Tib\u00e9rio. Os que intercediam pelos judeus julgando que, ainda que dissimulasse, ele se arrependeria do que tinha feito, escreveu a Tib\u00e9rio uma carta muito insistente e muito respeitosa; n\u00e3o h\u00e1 necessidade de outra prova da c\u00f3lera que sentiu contra Pilatos, do que depois de lhe ter manifestado sua indigna\u00e7\u00e3o pela resposta que lhe deu; no mesmo instante ele mandou retirar os escudos e lev\u00e1-los ao Templo constru\u00eddo em Cesar\u00e9ia, em honra de Augusto, o que se fez. Assim, prestou-se o devido respeito ao imperador e n\u00e3o se desobedeceu \u00e0s nossas leis e aos nossos costumes. N\u00e3o havia, entretanto, figura alguma naqueles escudos, e agora trata-se de uma est\u00e1tua. Aqueles escudos s\u00f3 tinham sido colocados no pal\u00e1cio do governador: e quem colocar essa est\u00e1tua no Templo, no mesmo santu\u00e1rio, lugar santo, no qual somente o soberano sumo sacerdote pode entrar e somente uma vez por ano, depois de um jejum solene, para queimar perfumes em honra de Deus, e pedir-lhe por preces humildes que fa\u00e7a feliz a todos, aquele ano. Se algum outro, n\u00e3o somente de nossa na\u00e7\u00e3o, homem qualquer, mas sacerdote, sem excetuar aquele que ocupa o mais alto cargo, depois do sumo sacerdote, ousa l\u00e1 entrar ou se o sumo sacerdote, ele mesmo entrassem duas vezes no ano, ou tr\u00eas ou quatro, no dia em que lhe \u00e9 permitido entrar, isso lhes custaria a vida e ningu\u00e9m lhes poderia alcan\u00e7ar o perd\u00e3o, tanto o nosso legislador expressamente ordenou que se reverenciasse aquele lugar santo e o tornas\u00adse inacess\u00edvel. N\u00e3o deveis portanto duvidar, senhor, de que, se para l\u00e1 se levar uma est\u00e1tua, n\u00e3o se encontrar\u00e1 um sacerdote que n\u00e3o se mate com suas pr\u00f3prias m\u00e3os, bem como a suas esposas e filhos, para n\u00e3o ver tal viola\u00e7\u00e3o de nossas santas leis.<\/p>\n<p>&#8220;Foi assim que Tib\u00e9rio fez nessa ocasi\u00e3o. Quanto ao mais feliz de todos os imperadores que jamais subiu ao trono, o admir\u00e1vel pr\u00edncipe, vosso predecessor, que depois de ter dado a paz a toda a terra mereceu pela virtude o glorioso nome de Augusto, quando ele soube que n\u00e3o se colocava em nosso Templo nenhuma figura vis\u00edvel para representar o Deus invis\u00edvel, admirou essa prova de nossa pieda\u00adde e da de nossa na\u00e7\u00e3o, porque ele era muito instru\u00eddo nas ci\u00eancias e passava a maior parte do tempo, quando estava \u00e0 mesa, falando do que tinha aprendido com os grandes fil\u00f3sofos e com a conviv\u00eancia de homens de letras que mantinha junto de si, a fim de dar ao seu esp\u00edrito um alimento agrad\u00e1vel, ao mesmo tempo que n\u00e3o podia recusar ao corpo o que lhe era necess\u00e1rio. Eu poderia trazer outras provas de sua boa vontade para com nossa na\u00e7\u00e3o, mas contentar-me-ei com estas duas. Tendo sabido que se descuidava do que se refere \u00e0s nossas sagradas prim\u00edcias, ele ordenou aos governadores das prov\u00edncias da \u00c1sia que permitissem somente aos judeus, de se reunirem, porque suas assembl\u00e9ias n\u00e3o eram bacanais, nas quais s\u00f3 se pensava em se embriagar ou reuni\u00f5es com o fim de incitar revoltas e pertur\u00adbar a paz, mas verdadeiras sess\u00f5es liter\u00e1rias, onde se aprendia a virtude, onde se aprendia a amar a justi\u00e7a e a temperan\u00e7a e que aquelas prim\u00edcias que se manda\u00advam todos os anos a Jerusal\u00e9m s\u00f3 eram empregadas nos sacrif\u00edcios a Deus no Templo. Assim, esse grande pr\u00edncipe proibiu expressamente a quem quer que fos\u00adse, perturbar os judeus no que se referia \u00e0s suas reuni\u00f5es e prim\u00edcias. Se n\u00e3o s\u00e3o estas precisamente as suas palavras, que eu acabo de referir, s\u00e3o pelo menos o sentido das mesmas, como podeis, senhor, constatar por uma de suas cartas de C. Norbano Flacco, que transcrevo em seguida: &#8216;C. Norbano Flacco, aos magistrados de Efeso, sauda\u00e7\u00e3o. O imperador escreveu-me que em qualquer parte do meu territ\u00f3rio, onde h\u00e1 judeus, que eu lhes permita reunirem-se segundo seu antigo costume e levar o dinheiro a Jerusal\u00e9m. Comunico-vos este aviso e ordeno-vos que n\u00e3o ponhais a isso nenhuma dificuldade&#8217;.<\/p>\n<p>&#8220;A vontade de Augusto e seu afeto por nosso Templo n\u00e3o se revela claramen\u00adte a\u00ed, pois que ele permite aos judeus reunirem-se publicamente para recolher essas prim\u00edcias e fazer outros atos de piedade?<\/p>\n<p>&#8220;Eis aqui uma outra prova que n\u00e3o \u00e9 menos importante. Ele ordenou que se oferecesse do dele, cada dia em nosso Templo, um touro e dois cordeiros, para serem imolados em honra do Deus Todo-poderoso: o que se faz ainda agora, sem que se tenha jamais interrompido essa ordem. Ele n\u00e3o ignorava, entretanto, que n\u00e3o havia nem dentro nem fora do Templo algum simulacro. Mas como nenhum outro n\u00e3o o sobrepujava em saber, ele julgava bem, que devia ser um Templo singular e mais santo que qualquer outro, consagrado em honra do Deus invis\u00edvel, onde n\u00e3o havia nenhuma outra figura e onde os homens podiam levar seus votos com confian\u00e7a e esperan\u00e7a de serem ajudados por seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>&#8220;A imperatriz j\u00falia,* vossa bisav\u00f3, imitando a piedade do grande pr\u00edncipe, seu mari\u00addo, adornou esse Templo com um grande n\u00famero de ta\u00e7as e outros vasos de ouro de grande valor, sem neles mandar gravar figura alguma, pois ainda que as mulheres dificil\u00admente compreendam o que n\u00e3o \u00e9 sens\u00edvel, sua intelig\u00eancia e sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas grandes tinham-na de tal modo elevado nisso, como em todo o resto, acima do seu sexo, que ela diferenciava com menos luz as intelig\u00edveis das sens\u00edveis e estava muito persuadida de que estas \u00faltimas apenas podiam passar como sombra das primeiras.<\/p>\n<p>__________________________<\/p>\n<p>* Deveria estar escrito L\u00edvia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Como tendes, ent\u00e3o, senhor, tantos exemplos dom\u00e9sticos e uma grande afei\u00e7\u00e3o por n\u00f3s, conservai por favor, o que esses gloriosos antepassados dos quais tendes a vida e cuja sucess\u00e3o vos elevou ao c\u00famulo da grandeza t\u00e3o cuidadosamente conserva\u00adram. S\u00e3o imperadores que intercedem em favor de nossas leis, perante um imperador, pr\u00edncipes augustos, perante um pr\u00edncipe augusto, av\u00f3s e bisav\u00f3s perante seus netos e bisnetos, v\u00e1rios, perante um s\u00f3, e que vos dizem: &#8216;N\u00e3o destruais o que n\u00f3s estabelece\u00admos e que sempre foi observado, mas considerai que ainda que a subvers\u00e3o dessa ordem n\u00e3o produza no momento nenhum mau resultado, a incerteza do futuro deve fazer temer aos mais ousados, se eles renunciaram a todo temor de Deus&#8217;.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu quisesse narrar, senhor, todos os favores que vos devo, o dia haveria de terminar, antes que eu os tivesse enumerado: sinto ter que falar deles somente de passagem. T\u00e3o grandes benef\u00edcios s\u00e3o conhecidos por si mesmos. Quebrastes meus grilh\u00f5es, mas esses ferros prendiam somente uma parte do meu corpo e a pena que sofro oprime minha alma. Livrastes-me do temor da morte, e depois, como ressuscita\u00addo, um temor ainda maior me p\u00f4s em tal estado que eu podia passar por morto. Conservai, senhor, essa vida, que eu recebi de v\u00f3s e que n\u00e3o quis\u00e9reis, sem d\u00favida, ma ter dado, apenas para prolongar meus sofrimentos. Elevastes-me \u00e0 maior das honras \u00e0 qual os homens possam aspirar, dando-me um reino e a este reino acrescentastes a Tracon\u00edtida e a Galil\u00e9ia. Depois de favores t\u00e3o extraordin\u00e1rios n\u00e3o me recuseis, rogo-vos, senhor, um, que me \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio, que os outros, sem ele, ser-me-iam in\u00fateis e depois de me ter elevado a uma condi\u00e7\u00e3o t\u00e3o excelsa, n\u00e3o me precipiteis nas trevas. Eu vos n\u00e3o suplico que me conserveis nessa alta fortuna, de que vos sou devedor; estou pronto a renunciar a toda gl\u00f3ria que ela me d\u00e1. O \u00fanico favor que vos pe\u00e7o \u00e9 de n\u00e3o tocar nas leis de meu pa\u00eds e se me recusardes, que opini\u00e3o teriam de mim, n\u00e3o somen\u00adte todos os judeus, mas todos os homens do mundo? N\u00e3o teriam eles motivo de crer ou que eu tra\u00ed minha p\u00e1tria ou que perdi a honra de vossa amizade, que s\u00e3o dois dos maiores males que se possa imaginar? Entretanto, eu n\u00e3o poderia evitar cair ou num ou no outro, pois seria preciso que eu fosse um covarde e um p\u00e9rfido para abandonar o interesse que me deve ser t\u00e3o caro, ou que n\u00e3o tivesse mais parte nas vossas boas gra\u00e7as, se implorando vossa bondade para a conserva\u00e7\u00e3o do meu pa\u00eds e do Templo que lhe \u00e9 a gl\u00f3ria principal, vos recus\u00e1sseis de me tratar como os imperadores tratam sempre aos que honram com sua benevol\u00eancia. Se eu for infeliz de n\u00e3o mais vos ser agrad\u00e1vel, n\u00e3o vos pe\u00e7o nenhum outro favor, n\u00e3o de mandar-me prender, como o fez Tib\u00e9rio, mas de me mandar matar imediatamente. Poderia eu desejar viver depois de ter perdido vossa amizade na qual unicamente confio e ponho toda a minha esperan\u00e7a?&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco depois, o rei Agripa chegava sem de nada saber, nem da carta de Petr\u00f4nio, nem da resposta de Caio e quando foi saud\u00e1-lo, n\u00e3o teve dificuldade em perceber pela maneira como o recebeu, que ele ardia de c\u00f3lera em seu cora\u00e7\u00e3o. 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